terça-feira, 22 de agosto de 2017

A jogada de Trump no Afeganistão

O discurso do presidente Donald Trump sobre o Afeganistão marcou uma guinada na forma de ele tratar, ao menos publicamente, o conflito, no qual os Estados Unidos estão metidos, sem saída aparente, há mais de 15 anos.
No início da fala, disse que geralmente confia em seus instintos e que seu instinto sobre o Afeganistão aponta para a saída da guerra. Mas então ele apelou para a credibilidade, dizendo que, uma vez que se tornou presidente e estudou as questões com mais cuidado juntamente com os generais, começou a pensar de forma diferente.
"Geralmente, nós confiamos em quem acreditamos ter conhecimento e ter boas intenções, Trump apelou para ambos", afirma Jennifer Mercieca, uma estudiosa de retórica presidencial da Universidade Texas A & M.
No passado, Trump criticava repetidamente o esforço de guerra dos EUA no Afeganistão. Ele pedia o fim do envolvimento americano no conflito e que Washington se concentrasse em reconstruir a própria casa.
Agora, não apenas ao reverter sua decisão de se retirar do país, mas ao determinar um aumento não especificado de tropas para tentar pacificá-lo, ele coloca sua marca pessoal no conflito. Atualmente, existem mais de 8 mil soldados dos EUA estacionados no Afeganistão.
"Para uma fala política importante, o discurso foi dolorosamente magro em quaisquer detalhes reais sobre a estratégia americana ou objetivos finais no Afeganistão", analisa Jason Lyall, cientista político especializado em Afeganistão da Universidade de Yale. "Não percebemos critérios claros para o 'sucesso', nem um sentido do que é novo nesta abordagem que não tenha sido tentado antes. A esse respeito, acho que o discurso foi bastante pobre."
Enquanto as afirmações de Trump ficaram devendo medidas ou números tangíveis, como níveis de aumento das tropas, ele apimentou seu discurso com uma retórica afiada, dizendo que os EUA agora "lutarão para vencer" e chamando os terroristas de "bandidos" e "perdedores".
Para Mercieca, o discurso de Trump soou às vezes quase como uma fala de Barack Obama – com uma diferença fundamental: "Ele disse que os EUA não vão mais ditar condições para a ajuda que prestam e, essencialmente, anunciou o fim da Doutrina Wilson, segundo a qual devemos nos envolver em guerras para ajudar a disseminar a democracia e o capitalismo."
Maior papel para Paquistão e Índia
A estratégia do Afeganistão prevê um papel ampliado para Paquistão e Índia. Mas enquanto o presidente simplesmente pediu à Índia para prestar assistência econômica, o Paquistão recebeu tratamento muito mais severo. Trump chamou o Paquistão de um parceiro dos EUA, mas também acusou o país de abrigar pessoas que querem matar americanos e disse que isso deve parar imediatamente – ou, segundo ele, os EUA terão que agir militarmente.
Mas as observações de Trump novamente foram pobres em detalhes sobre o que isso significará na prática para os dois países.
"Não houve menção aos papéis crescentes desempenhados pela Rússia e pelo Irã no Afeganistão e, em particular, no apoio aos talibãs", observa o cientista político Jason Lyall, da Universidade de Yale. "A guerra mudou consideravelmente nos últimos anos, expandiu-se geograficamente, envolvendo outras potências além do Paquistão. Não acho que o discurso tenha refletido essa nova realidade."
"Paternidade" da guerra
Para Mercieca, abertura do discurso fez afirmações semelhantes sobre soldados americanos às de Lincoln em Gettysburg: ele apelou para valores nacionais, como democracia e liberdade, e pediu aos americanos que amem e confiem uns nos outros – apelando para valores nacionais transcendentes.
"Ele precisava fazer isso, ele deveria ter feito isso na semana passada", observou, em referência aos protestos e à violência de extrema direita em Charlottesville.
Mercieca não acredita, porém, que isso faça com que os americanos apoiem mais a guerra no Afeganistão. "Ele fez um bom trabalho para salvar sua própria pele, expondo o porquê de estar perseguindo a guerra, apesar de tudo que havia dito anteriormente sobre o assunto", diz a especialista da Universidade Texas A & M.
Antes do discurso, muito se falou sobre se Trump, depois de anunciar uma nova estratégia para o Afeganistão, reivindicaria para si a "paternidade” dos esforços de guerra.
 "Como presidente dos EUA, Trump sempre foi 'dono' do esforço de guerra no Afeganistão, queira ou não. Este discurso faz com que Trump seja o responsável pela decisão específica de aumentar esse esforço de guerra, caso seja mesmo isso que ele fará", comenta Mercieca.
Com o seu discurso sobre o Afeganistão, o presidente quer ter seu bolo e comê-lo também, opina, por sua vez, Lyall. "Por um lado, está claro que ele está seguindo o conselho de seus generais, e assim pode lavar as mãos, caso esse esforço falhe", afirma. 
"Por outro lado, ele se posicionou para colher os louros, no improvável caso de essa estratégia realmente melhorar a situação no Afeganistão", diz o cientista político da Universidade de Yale. "Trump quer a paternidade da guerra, mas só se ele a ganhar. Se não, seus generais serão donos da derrota."

Fonte: Deutsche Welle

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