domingo, 31 de maio de 2020

UMA MISSÃO SUICIDA: A OPERAÇÃO MIKADO

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A “Operação Mikado” foi o codinome de um ambicioso plano militar do Reino Unido para usar as tropas do Serviço Aéreo Especial (SAS) para atacar a base onde estavam situados os cinco (quatro operacionais e um usado como fonte de peças de reposição) caças Super Étendard da Aviação Naval da Argentina situadas em Río Grande, Terra do Fogo, durante a Guerra das Falklands/Malvinas em 1982. O homem encarregado do planejamento foi o brigadeiro Peter de la Billière, então comandante do SAS.

O então brigadeiro Peter de la Billière, comandante do SAS. (Reprodução Wikipedia)

O objetivo da operação era destruir os três mísseis antinavio Exocet remanescentes que a Argentina ainda possuía (um já havia sido usado no ataque que resultou no afundamento do HMS Sheffield) e as aeronaves que os transportavam, e matar os pilotos em seus alojamentos. Para conseguir isso, o brigadeiro Peter de la Billière propôs uma operação semelhante à “Operação Thunderbolt” (o famoso resgate israelense dos reféns em Entebbe, Uganda), que consistia em pousar aproximadamente 55 soldados da SAS em duas aeronaves Lockheed C-130 Hercules da Royal Air Force (RAF) diretamente na pista da base aérea de Río Grande.
A movimentada BAM Río Grande durante a Guerra das Malvinas. (Reprodução Internet)

De acordo com o plano, os Hercules seriam mantidos na pista com os motores funcionando enquanto os 55 homens da Esquadrão B do SAS realizavam sua missão. Se os Hercules não fossem danificados, então eles iriam voar até a base aérea chilena em Punta Arenas. Caso contrário, os membros sobreviventes do Esquadrão SAS e da tripulação se deslocariam até a fronteira chilena, a cerca de 80 quilômetros de distância, uma tarefa quase impossível de ser realizada.

PREPARATIVOS DA MISSÃO E RECONHECIMENTO PRELIMINAR

Localização da Terra do Fogo, Argentina, onde ficava a BAM Río Grande durante a Guerra das Malvinas. (Reprodução Internet)

Uma missão preliminar de reconhecimento em Río Grande, codinome “Operação Plum Duff”, foi lançada do HMS Invincible na noite de 17/18 de maio, como um prelúdio para o ataque. A operação consistia em transportar uma pequena equipe do SAS para o lado argentino da Terra do Fogo em um helicóptero Westland Sea King HC.4 da Royal Navy. A equipe então marcharia até a base aérea de Río Grande e montaria um posto de observação para coletar informações sobre as defesas da base.

A missão exigia que o helicóptero Sea King viajasse a uma distância além do seu raio operacional, então essa seria uma missão sem a possibilidade do retorno da aeronave ao porta-aviões. Portanto, as ordens da tripulação consistiam em deixar a equipe do SAS na Argentina, indo depois para o Chile e descartar a aeronave afundando-a em águas profundas.

A fracassada "Operação Plum Duff", que inviabilizou a Operação Mikado. (Reprodução Internet)

A aeronave, com três tripulantes e oito operadores da equipe SAS, decolou da Invencible às 00:15h de 18 de maio. Devido a um inesperado encontro com uma sonda de perfuração em um campo de gás offshore argentino, ela foi forçada a desviar, acrescentando mais vinte minutos ao translado. Ao aproximar-se da costa argentina após quatro horas de voo, a neblina reduziu a visibilidade a menos de um quilômetro. Ao se aproximarem de doze milhas do ponto de desembarque planejado do SAS, a visibilidade foi reduzida a tal ponto que o piloto foi forçado a pousar. O piloto e o comandante da patrulha da SAS discordaram sobre sua posição exata, enquanto o comandante do SAS também tinha certeza de que haviam sido vistos por uma patrulha argentina: ele pediu para ser deixado na fronteira entre a Argentina e o Chile. Os pilotos foram forçados a voar usando instrumentos para o Chile neutro. A equipe do SAS foi deixada na costa sul da Bahia Inútil, na Terra do Fogo, onde eles tentariam alcançar a fronteira a pé. A tripulação do helicóptero voou para uma praia mais próxima de Punta Arenas, onde aterrissaram. Um dos dois pilotos e a tripulação desembarcaram na praia. Eles fizeram buracos no helicóptero para permitir que ele afundasse uma vez que seria descartado. O outro piloto, em seguida, voou sobre a água, mas foi incapaz de afundá-lo. Ele voou de volta para a praia, a fim de fazer mais buracos, mas estava cego em seus óculos de visão noturna por uma luz piscando “Low Fuel” e aterrou bruscamente na praia, danificando a aeronave. A tripulação ateou fogo ao helicóptero e detonou cargas explosivas antes de deixar o local. Eles caminharam ao longo de várias noites até a cidade de Punta Arenas, onde tentaram fazer contato com a embaixada britânica. Eles foram descobertos e recolhidos pelo exército chileno enquanto se deslocavam pela cidade e foram entregues a funcionários britânicos, que os enviaram de volta a Inglaterra, juntamente com os operadores SAS que haviam cruzado a fronteira chilena.

Um Sea King HC4 Commando, semelhante ao usado durante a "Operação Plum Duff". (Reprodução Internet)

Segundo fontes argentinas, na noite de 17/18 de maio, o helicóptero foi rastreado pelo radar do destroier ARA Bouchard, que enviou uma mensagem a seu navio irmão, o ARA Piedrabuena patrulhando ao norte, e depois para a base de Río Grande. Membros do 24º Regimento de Infantaria da Argentina afirmaram em 2007 que atingiram o helicóptero inglês com armas de fogo leves em meio a névoa espessa ao sul de Río Gallegos. A missão de reconhecimento da SAS acabou sendo abortada.

CANCELAMENTO DA MISSÃO

A falta de ter havido uma missão de reconhecimento no local significava que as forças britânicas não tinham uma ideia clara de como Río Grande era defendida, nem quaisquer garantias de que os Super Étendards ou os Exocets estariam lá quando a operação ocorresse. As forças britânicas também não tinham informações sobre como a base estava organizada, e não sabiam onde os Exocets estavam armazenados ou até mesmo onde ficavam os alojamentos dos pilotos.

Destroços do Sea King encontrados pelos chilenos próximo a Punta Arenas. (Reprodução: The Times)

A essa altura, a Operação Mikado, que já era vista por experientes membros do SAS como uma missão suicida, era considerada impossível de ser realizada, devido à perda do elemento surpresa (principalmente pela notícia da descoberta dos destroços do Sea King inglês em Punta Arenas) e a inteligência britânica descobrindo que os argentinos desfrutavam de uma melhor e mais eficiente cobertura de radar do que inicialmente esperado. Como consequência, o plano de assalto aerotransportado atraiu considerável hostilidade de alguns membros do SAS, o que levou a um princípio de motim por parte de alguns operadores (prontamente enviados de volta para a Inglaterra) e para o próprio comandante do Esquadrão B ser demitido e substituído pelo segundo em comando.

Em última análise, o governo britânico reconheceu que havia uma forte probabilidade de que a operação teria falhado. Ao contrário dos rumores, não foi planejado nenhum plano para infiltrar operadores SAS na Argentina com a ajuda do submarino da Marinha Real Britânica HMS Onyx. A Marinha argentina alega que o Bouchard tinha bombardeado um submarino e vários barcos infláveis durante uma patrulha a duas milhas de distância do Río Grande, na posição 53° 43′38.04″ S 67° 42′0″ W, na noite de 16 de maio de 1982.

A área de Río Grande era defendida por quatro batalhões de infantaria do Corpo de Fuzileiros da Marinha da Argentina, além de vários experientes comandos e mergulhadores de combate, alguns dos quais tinham sido treinados no Reino Unido pelo Special Boat Service (SBS) anos antes.

AVALIAÇÃO E CONCLUSÕES

Depois da guerra, os comandantes da marinha argentina admitiram que esperavam algum tipo de ataque das forças da SAS, principalmente depois do ataque a Ilha Pebble, mas nunca esperavam que aeronaves C-130 Hercules pousassem diretamente na pista da base aérea, embora eles provavelmente teriam perseguido as forças britânicas até mesmo em território chileno em caso de ataque. O fracasso da operação teria sido um desastre de propaganda para as forças britânicas e, inversamente, um impulso moral para a Argentina.

Pilotos argentinos de Super Étendard da Aviação Naval Argentina; eles também seriam alvos da Operação Mikado. (Foto site Tropas e Armas)

A Operação Mikado, devido aos problemas enfrentados, seria um grande fracasso para a Inglaterra, pois dificilmente eles não conseguiriam atingir seus objetivos, devido aos problemas já relatados no texto. Mesmo assim, forçou os argentinos a montarem um forte esquema de vigilância de suas aeronaves de caça e ataque, tanto da Marinha quanto da Força Aérea, retendo no continente experientes tropas, armas, equipamentos e valiosos suprimentos que poderiam ser utilizadas no conflito nas ilhas.

Além disso, com as missões de bombardeio de longa distância dos Avro Vulcan nas ilhas realizados pela RAF (a “Operação Black Buck”) sendo realizadas, havia o medo dessas aeronaves também atacarem o continente, principalmente a capital Buenos Aires, e mais ainda, de serem ataques nucleares, pois o Vulcan também poderia realizar esse tipo de bombardeio, mas bombas nucleares nunca foram sequer cogitadas, nem pela Primeira-ministra Margaret Thatcher nem pelo Ministério da Defesa britânico, para serem usadas nesse conflito, devido as terríveis consequências de seu uso. Devido a esses ataques, as bases argentinas eram fortemente defendidas com mísseis e canhões antiaéreos direcionados por radar.

Podemos então afirmar que a Operação Mikado seria realmente uma missão suicida, tanto que muitos operadores SAS, que eram bastante experientes e preparados para o combate, se recusaram a realizá-la. O bom senso das autoridades inglesas imperou e se evitou um grande desperdício de homens e equipamentos a troco de um resultado incerto e provavelmente insatisfatório e adverso.



FOTO DE CAPA: Os alvos da "Operação Mikado", o Dassault Super Étendard e o missil antinavio Aerospatiale Exocet. (Foto: Site Cristandad y Patria)

Com informações retiradas da Wikipedia.


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Por Luiz Reis, Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar, fotógrafo amador. Brasiliense com alma paulista, reside em Fortaleza-CE. Luiz colaborou com o Canal Arte da Guerra e o Blog Velho General e atua esporadicamente nos blogs da Trilogia Forças de Defesa, também fazendo parte da equipe de articulistas do GBN Defense. Presta consultoria sobre História da Aviação, Aviação Militar e Comercial. Contato: lcareis@gmail.com


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O SAS EM AÇÃO NO ALÂNTICO SUL: O ATAQUE A ILHA PEBBLE

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Durante os meses de abril e junho de 1982, ocorreu a improvável e imprevista Guerra das Falklands (ou Malvinas), conflito armado que envolveu a Argentina, que na época vivia uma sangrenta Ditadura Militar, liderada pelo Presidente general Leopoldo Galtieri, e a então terceira maior potência militar do mundo, a Inglaterra, liderada pela Primeira-Ministra Margareth Thatcher.

Foi um conflito que surpreendeu e chocou o mundo e a vitória inglesa mostrou a força, treinamento e a capacidade de mobilização de suas forças armadas, em especial a sua marinha, (a Royal Navy), que rapidamente formou uma grande e poderosa esquadra que percorreu rapidamente mais de 10 mil quilômetros, chegando em poucas semanas na zona de conflito praticamente pronta para o combate.

Durante a guerra, várias batalhas ocorreram, desde a luta pela supremacia aérea da região, entre as forças aéreas e aeronavais inglesas e argentinas, além de vários combates em terra entre os exércitos inglês e argentino, como o desembarque da Baía San Carlos, as batalhas do Monte Kent, Two Sisters e Wireless Rigde, além de vários ataques, como o ataque a Bluff Cove, a Darwin, a Top Malo House, entre outros.

Muitas dessas batalhas e ataques ocorreram sob condições adversas e grande probabilidade de fracasso, mas outras tiveram resultados que até superaram as expectativas. Esse texto vai tratar de um dos ataques mais impressionantes da Guerra das Falklands-Malvinas, o Ataque a Ilha Pebble entre os dias 14 e 15 de maio de 1982, cujos resultados foram decisivos para o curso da guerra e suas ações impressionam até os dias de hoje.

A ILHA PEBBLE

Mapa das Ilhas Falklands (Malvinas) onde podem ser vistas ao Norte a Ilha Pebble (Pebble Island) e a Baía de San Carlos (Port San Carlos)

A ilha (chamada de “Isla Borbón” pelos argentinos), a quinta maior do arquipélago das Falklands, se estende por 35 quilômetros e cerca de seis quilômetros em seu ponto mais largo, com uma área total de 103,36 km². Seus três pontos altos são Primeira Montanha (277 m), Montanha Média (214 m) e Montanha de Mármore (237 m), todos os quais se encontram na parte ocidental da ilha. A parte oriental da ilha tem lagos e terras úmidas, encontrando-se muito bem preservadas até os dias de hoje.

As duas metades são unidas por um pequeno istmo no qual se encontra a pequena vila de Pebble Island, onde os habitantes vivem (cerca de 50 pessoas em 1982). A ilha é uma fazenda de ovelhas desde 1846, fundada por John Markham Dean, um inglês que comprou Pebble e três ilhas vizinhas por 400 libras esterlinas, que introduziu a criação de ovelhas na ilha (hoje são criadas seis mil ovelhas) e também criam gado de corte.

A OCUPAÇÃO ARGENTINA DA ILHA

No dia 23 de abril de 1982, semanas após a invasão de Port Stanley pela Argentina (ocorrida no dia 2 de abril) a pacata vida dos habitantes da ilha é quebrada quando pousa uma aeronave (provavelmente um Shorts Skyvan da Prefeitura Naval Argentina) na pequena e rudimentar pista de pouso de grama da ilha (de cerca de 800 metros de extensão), supostamente para entregar correspondência. Um dos tripulantes pesquisou e fotografou a pista e logo após um helicóptero pousou com uma patrulha argentina. A patrulha marchou até a pequena vila e confiscou todos os rádios e transmissores dos habitantes, confinando-os em suas casas.

Os argentinos estabelecem uma base aérea na Ilha Pebble, chamada de “Estação Naval Calderón”, com cerca de 150 soldados e com aeronaves Beech T-34C-1 Turbo Mentor e FMA IA-58 Pucará. Esse esquadrão tinha como objetivo fazer voos de reconhecimento e ataque sobre a região norte das ilhas. Tal localização da base preocupou os ingleses, pois as aeronaves (e o radar instalado no campo de pouso) poderiam dificultar ou até mesmo frustrar um eventual ataque inglês nas praias da região, pois o litoral norte da ilha de West Falkland (ou Gran Malvina) era um dos prováveis locais para um desembarque inglês, além da ilha ser próxima da Baía de San Carlos, o real local da futura invasão inglesa do mês seguinte.

O SAS
Emblema do SAS.

O Special Air Service (SAS) foi criado durante a II Guerra Mundial, com o objetivo de ser uma tropa de elite do Exército Britânico, responsáveis por missões especiais, principalmente atrás das linhas inimigas e consideradas muito arriscadas. O SAS foi fundado como um regimento em 1941, depois, em 1950, foi reorganizado como um Corpo de Exército. No pós-guerra tornou-se uma força responsável por apagar os “pequenos incêndios” nas colônias, as quais enfrentavam o processo de descolonização, na Ásia e Oriente Médio nos anos 1950 e na África na década de 1960. Lutaram com grande bravura na Malásia, Omã, Iêmen e Gâmbia.

Na década de 1970 o SAS se especializou na luta contra o terrorismo, inicialmente assessorando (e segundo algumas fontes, participando) juntamente com o grupo antiterrorista GSG 9 da então Alemanha Ocidental, da missão de resgate aos reféns do voo 181 da Lufthansa em Mogadício, Somália. Depois participaram em missões contra o Exército Republicano Irlandês (IRA) na Irlanda do Norte e ganhou notoriedade em 1980 com o resgate dos reféns da Embaixada do Irã em Londres. Parecia que o SAS tinha se tornado um esquadrão antiterrorista, mas o surpreendente início da Guerra das Malvinas fez com que a unidade fosse convocada para o conflito e voltasse a ser uma unidade militar de elite.

O PLANEJAMENTO DO ATAQUE

Segundo os planejamentos, inicialmente era prevista uma inserção aérea (infiltração) de um esquadrão (Esquadrão D, 22º Regimento) a partir do porta-aviões HMS Hermes. A tropa de assalto destruiria as aeronaves do campo de pouso e o radar, além de eliminarem a tripulação das aeronaves, o pessoal de apoio e neutralizarem a guarnição de proteção inimiga antes da exfiltração de helicóptero, retornando ao convés do porta-aviões ainda antes do amanhecer.

O reconhecimento para o ataque foi conduzido por pessoal da Tropa de Barcos do Esquadrão D, conduzindo uma infiltração usando canoas Klepper. A patrulha descobriu que fortes ventos contrários na região aumentariam o tempo necessário para voar a partir do ponto de partida de Hermes, atrasando o tempo no alvo e reduzindo a janela ofensiva disponível para trinta minutos, em vez dos noventa planejados.

Devido a essa nova informação, o planejamento determinou então a importância de se destruírem as aeronaves em solo como prioridade, com a eliminação e do pessoal de apoio como uma prioridade secundária. A destruição do radar, que seria um dos alvos da missão a princípio, seria deixada de lado. A operação teria como codinome “Prelim”.

O ATAQUE

Mapa da "Operação Prelim", o Ataque do SAS a Ilha Pebble, 14/15 de maio de 1982. (Foto ProSIM)

No dia 14 de maio à noite, dois helicópteros Westland Sea King HC4 do Esquadrão Naval Nº 846, parte do Commando Helicopter Force da Royal Navy, partiram com 45 membros do Esquadrão D a bordo. A zona de pouso ficava a seis quilômetros da pista de pouso de Pebble Island. A equipe principal de ataque (vinte membros da Tropa de Montanha do Esquadrão D, comandados pelo Capitão John Hamilton) foi encarregada da destruição dos aviões argentinos, enquanto o restante do pessoal atuou como uma força de proteção, garantindo a aproximação do grupo principal à pista de pouso e formando uma reserva operacional.
Representação de um Operador do SAS que atuou no ataque a Ilha Pebble
O grupo de ataque descarregou mais de 100 morteiros L16 de 81mm, cargas explosivas e foguetes de 66mm Light Anti-tank Weapons (LAW) L1A1, com cada homem no grupo de ataque carregando pelo menos duas bombas de morteiro. Como armas leves, foram usados rifles M16A1, alguns com lançadores de granadas M203. Os operadores também levaram granadas de fósforo branco e pistolas 9 mm. Nas mochilas eram levados binóculos de visão noturna, munição, roupas secas e rações para três dias. A navegação de aproximação foi conduzida por um membro da Tropa de Barcos que realizou o reconhecimento antes da ação.

Quando o grupo de ataque se aproximou do alvo, avistaram um soldado argentino, mas não foram vistos, permitindo que eles entrassem no alvo e colocassem cargas explosivas em sete aeronaves. Uma vez que todas as aeronaves foram preparadas, a equipe de ataque abriu fogo contra a aeronave com armas pequenas e foguetes L1A1. Todas as aeronaves foram danificadas, com algumas tendo suas munições instaladas detonadas.

O destroier HMS Glamorgan (D19), que apoiava a missão, também começaram a bombardear as posições argentinas no campo de pouso usando seu canhão de 4,5 polegadas e disparando balas de alto explosivo, atingindo o depósito de munição e as reservas de combustível. Os argentinos não conseguiram se agrupar para tentar uma contraofensiva até o momento do início da saída dos ingleses para a exfiltração.

Assim que os argentinos se agruparam, partiram para perseguir os ingleses. Um operador britânico foi atingido e ferido pelos argentinos. enquanto o grupo de ataque revidou atirando com armas pequenas e lançadores de granadas M203, resultando na morte do oficial comandante argentino (de acordo com avaliações britânicas) e na supressão de qualquer esforço defensivo.

Fotografia aérea da pista de grama da Ilha Pebble logo após o ataque do SAS, onde se veem aeronaves argentinas destruídas. 

A versão argentina afirma que seus soldados permaneceram em abrigos durante o bombardeio do Glamorgan, por isso não puderam enfrentar o SAS em combate. Os feridos britânicos foram o resultado de estilhaços de cargas explosivas instaladas pelos argentinos sob a pista para negar seu uso ao inimigo. As explosões foram desencadeadas na crença de que a operação era um ataque em grande escala para tomar a base aérea.


Um IA-58 Pucará da Força Aérea Argentina (Acima) e um T-34 Mentor da Armada Argentina (Embaixo) destruídos durante o ataque do SAS a Ilha Pebble em 1982. (Reprodução Internet)

Todos os operadores foram para a área determinada para extração e voltaram a salvo para o HMS Hermes. O ataque foi um sucesso e ao todo o SAS destruiu seis IA-58 Pucarás do Grupo de Aviação Nº 3, quatro T-34 Turbo Mentor do Esquadrão Nº 4 da Aviação Naval Argentina e um transporte Shorts Skyvan da Guarda Costeira, além de uma grande quantidade de munição e combustível antes de se retirar. Supostamente o comandante da guarnição argentina foi morto e um operador do SAS foi ferido. Até os dias de hoje alguns destroços dessas aeronaves destruídas permanecem na ilha.

APÓS O ATAQUE

A missão foi um grande sucesso, pois após ela não havia mais nenhuma aeronave argentina na Ilha de Pebble para interferir nos desembarques britânicos na Baía de San Carlos e o ataque fez o moral do inimigo baixar ainda mais. Os ingleses, animados pelo sucesso da missão, chegaram a planejar um ataque visando destruir aeronaves argentinas no continente, a “Operação Mikado”, mas devido ao alto risco, a missão foi cancelada.

Capitão Gavin Hamilton
O ataque realizado pelo SAS lembrou as primeiras missões realizadas pelo esquadrão na Campanha do Norte da África na Segunda Guerra Mundial. Um dos líderes da missão, o Capitão Gavin Hamilton, foi posteriormente morto em outra ação do SAS, já no final da guerra. As forças argentinas continuaram ocupando a ilha até que foram evacuadas no dia 1º de junho de 1982 por dois helicópteros da Marinha argentina.

Após o final da guerra, o SAS continuou operacional e participou de operações na Guerra do Golfo em 1991, em Serra Leoa em 2000, na Invasão do Iraque em 2003 e no Afeganistão desde 2001. Também mais recentemente, participou de operações na Líbia em 2011 e na Síria desde 2014, contra principalmente o recém-derrotado Estado Islâmico. O SAS é uma verdadeira tropa de elite e seus operadores tem a consciência e a honra de servirem a uma das tropas mais experientes e preparadas do mundo.


FOTO DE CAPA: Reprodução do SAS atacando as aeronaves argentinas na Ilha Pebble. (Reprodução Facebook)

Com informações retiradas da Wikipedia.


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Por Luiz Reis, Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar, fotógrafo amador. Brasiliense com alma paulista, reside em Fortaleza-CE. Luiz colaborou com o Canal Arte da Guerra e o Blog Velho General e atua esporadicamente nos blogs da Trilogia Forças de Defesa, também fazendo parte da equipe de articulistas do GBN Defense. Presta consultoria sobre História da Aviação, Aviação Militar e Comercial. Contato: lcareis@gmail.com


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sábado, 30 de maio de 2020

“NENHUM ALÍVIO POSSÍVEL, ATÉ A EXTINÇÃO!”*: UMA HISTÓRIA DA DIVISÃO AZUL

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No ano de 1936 eclodiu a Guerra Civil Espanhola, um sangrento conflito no qual a urbana e progressista Segunda República Espanhola lutou contra os carlistas, aristocráticos e conservadores Nacionalistas (ou Falangistas), muitos de orientação fascista, liderados pelo general Francisco Franco, que venceu o conflito no início de 1939 e governou o país com mão de ferro até sua morte, em novembro de 1975.

A esmagadora vitória dos Nacionalistas só foi possível por causa da fundamental ajuda da Alemanha Nazista e da Itália Fascista, que colaboraram com armas, suprimentos e tropas, destacando a “Legião Condor” da Luftwaffe (Força Aérea Alemã) e o “Corpo Truppe Volontarie” (Corpo de Tropas Voluntárias) italiana, forças altamente treinadas e preparadas para lutar contra as tropas Republicanas, muitas delas formadas de voluntários.

Logo após o fim da Guerra Civil, teve início a Segunda Guerra Mundial, onde inicialmente Alemanha e Itália inicialmente lutaram contra Inglaterra e França, tornando-se mundial com a entrada do Japão e dos Estados Unidos em 1941. Nesse mesmo ano a Alemanha viola um tratado de não-agressão contra a União Soviética e invade a mesma no dia 22 de agosto.

Como uma forma de “recompensar” a ajuda dada pela Alemanha para a vitória dos Nacionalistas, o general Franco permitiu que um grupo de voluntários se incorporassem ao Exército Alemão, enviando uma proposta diretamente a Adolf Hitler. Hitler aprovou a proposta no dia 24 de junho e determinou que os voluntários espanhóis fossem enviados para o Teatro de Operações soviético, que nesse momento dava início a Operação Barbarossa.

FORMAÇÃO DA DIVISÃO

Inicialmente a proposta era de se enviar cerca de quatro mil soldados, mas devido ao grande número de pessoas que se voluntariaram nos primeiros dias o governo espanhol percebeu que poderia ser formada uma divisão reforçada, com mais de 18 mil homens, com cerca de dois mil oficiais e o restante praças e soldados. Mais da metade dos voluntários eram militares de carreira do Exército Espanhol, complementado com falangistas veteranos da Guerra Civil e estudantes das diversas universidades espanholas.

O Brasão da "Divisão Azul"
Como os soldados não podiam utilizar o uniforme do exército espanhol, porque oficialmente a Espanha havia declarado uma posição de neutralidade no conflito, foi adotado um uniforme que abrangia as boinas vermelhas dos carlistas, as calças de cor caqui usadas na época da Guerra Civil e as camisas azuis dos falangistas, por esse motivo a tropa foi apelidada de “Divisão Azul”. Este singular uniforme foi utilizado apenas durante o treinamento na Espanha; na Rússia os soldados usaram o uniforme verde-cinza padrão do Exército Alemão (Heer), ligeiramente modificado para mostrar na parte superior da manga direita a palavra “España” e as cores nacionais espanholas.

Um pequeno contingente de aviadores falangistas também se voluntariou e formaram a “Esquadrilha Azul” (15. Spanische Staffel, incorporada inicialmente ao JG 27 e depois ao JG 51), a qual, a bordo de aeronaves Messerschmitt Bf 109 e Focke-Wulf Fw 190 foi creditada com 156 vitórias contra aviões soviéticos.
Caça Messerschmitt Bf 109F-2 da "Esquadrilha Azul", 15.(span.)/Jagdgeschwader 51, durante o inverno de 1942/1943.



 O general Augustin Muñoz Grandes
Franco designou para o comando da divisão o general Agustín Muñoz Grandes, um de seus mais fiéis aliados e que na década de 1960 viria a se tornar Vice-Presidente do Governo Espanhol.

DESLOCAMENTO PARA A RÚSSIA E INÍCIO DAS OPERAÇÕES

Em 13 de julho de 1941 saiu de Madri para Grafenwöhr na Baviera, Alemanha, o primeiro trem de voluntários para passar cinco semanas de instrução. O corpo formado por estes voluntários ganhou a denominação de “250. Einheit Spanischer Freiwilliger” (250ª Unidade de Voluntários Espanhóis, em tradução livre), Divisão de Infantaria, e foi dividido inicialmente em quatro regimentos, como era padrão no exército espanhol. Para se adequar à organização padrão do exército alemão, um dos regimentos foi eliminado, e seus efetivos foram distribuídos nos três restantes.

Os regimentos tomaram o nome das três cidades espanholas de onde procedia a maioria dos voluntários: Barcelona, Valência e Sevilha. Cada regimento tinha três batalhões, formados por quatro companhias cada um, assim como um regimento de artilharia dotado de três baterias de 150 mm e de uma bateria reserva pesada como reforço. Além disso, canhões antitanque reforçavam o fogo da artilharia.

Seguindo ordens dadas pessoalmente por Hitler, a nova divisão foi incorporada ao 16º Exército Alemão, integrante do poderoso Grupo de Exércitos Centro, formado por cinco exércitos e 42 divisões, com a missão de tomar a capital da União Soviética, Moscou. Em 20 de agosto, após fazer o juramento (que foi modificado especialmente para mencionar a luta contra o comunismo), a Divisão Azul foi enviada à frente russa. Foi transportada por trem a Suwalki, na Polônia, de onde tiveram de continuar a pé. Depois de avançar até Smolensk, se dispersou no Cerco de Leningrado (hoje São Petersburgo) e iniciou as ações contra o Exército russo.
 
Soldados da "Divisão Azul em combate durante o rigoroso inverno russo de 1942/1943. (Reprodução Internet)


A Divisão Azul sofreu pesadas perdas na batalha em Leningrado, devido tanto ao combate quanto à ação do rigoroso inverno russo, com temperaturas entre -30 a -50ºC. A partir de maio de 1942 começaram a chegar da Espanha mais tropas para cobrir as baixas e substituir os feridos. Um total de 45.482 voluntários serviram na Frente Oriental, muitos deles condecorados por bravura tanto pelo exército espanhol quanto pelo alemão, inclusive o próprio Adolf Hitler criou, em janeiro de 1944, uma medalha exclusiva para os combatentes da Divisão Azul, a “Medalha da Divisão Azul”, entregue aos homens que se dedicaram na luta contra o Exército Vermelho.

“KRASNY BOR”, DISSOLUÇÃO, “LEGIÃO AZUL” E A “SS 101”

Entre os dias 10 e 13 de fevereiro de 1943 cerca de 6 mil espanhóis equipados com armamento leve enfrentaram quatro divisões soviéticas, com cerca de 45 mil soldados, apoiados por artilharia pesada e cerca de 100 tanques, na “Batalha de Krasny Bor”, na região sul de Leningrado. O Exército Vermelho estava disposto a destruir os espanhóis através de um grande ataque em forma de pinça, mas encontraram uma forte defesa da Divisão Azul, que suportou o pesado fogo soviético de sete ataques, e a despeito de ter sofrido mais de 4 mil baixas, repeliu as forças russas que perderam entre 11.000 e 14.000 homens, que encerraram a ofensiva no setor.
 
Plano soviético para a Operação "Polyarnaya Zvezda" ("Estrela Polar") que culminou na Batalha de Krasny Bor, vencida pelos espanhóis. (Reprodução Wikipedia)

Após a Batalha de Krasny Bor a divisão permaneceu guarnecendo sua posição, mas as pesadas baixas forçaram os alemães a mandarem suas próprias tropas para substituírem os espanhóis, tal fato coincidindo com a mudança no comando da divisão, que foi designada ao general Emilio Esteban Infantes, pois o general Agustín Muñoz Grandes era contrário à retirada. Eventualmente os Aliados e a Igreja Católica começaram a exercer pressão sobre Franco para que retirasse as tropas voluntárias. As negociações iniciadas por ele, no fim de 1943, foram concluídas com uma ordem de repatriação gradual em 10 de outubro.
 
O general Emilio Esteban Infantes. (Reprodução Internet)
Alguns soldados espanhóis se recusaram a retornar, pois queriam continuar na luta contra os soviéticos e o comunismo, então Franco permitiu não-oficialmente que um pequeno grupo de cerca de 3.000 homens permanecessem, formando a “Legião Azul”, ainda integrada ao Exército Alemão, que lutou até março de 1944, quando Franco ordenou o retorno de todos.

Todavia alguns membros (cerca de 140 homens) não obedeceram a ordem de Franco e foram incorporados a diversas unidades da Waffen-SS (as tropas de combate diretamente ligadas a Hitler e ao Partido Nazista), destacando-se a “SS 101. Spanische Freiwilligen Kompanie” (101ª Companhia de Voluntários Espanhóis), alguns membros, como parte da 11ª Divisão voluntária Nordland dos SS Panzergrenadier e sob o comando do SS-Haupsturmführer Miguel Ezquerra, lutaram até o final da guerra, na Batalha de Berlim, em 1945.

O número de perdas da Divisão Azul contabiliza 4.954 mortos e 8.700 feridos. Além disso, as forças russas fizeram 372 prisioneiros dessa divisão, da Legião Azul ou dos voluntários da SS 101. Desses, 286 foram mantidos em cativeiro até 1954, quando voltaram para a Espanha no dia 02 de abril de 1954.

OS PORTUGUESES DA DIVISÃO AZUL

Nem todos os integrantes da Divisão Azul eram espanhóis. Um grupo de cerca de 150 a 200 voluntários portugueses (algumas fontes falam em até mil homens!) foram autorizados pelo Presidente de Portugal, Antônio de Oliveira Salazar a se juntarem a Divisão Azul, também com o mesmo objetivo de lutar contra o comunismo. Portugal, assim como a Espanha, também se declarou neutro com o início do conflito, mesmo o governo português tendo uma aliança história com a Inglaterra.

Os portugueses lutaram ao lado dos espanhóis no Teatro de Operações russo e muitos não retornaram, mortos ou capturados. Alguns homens, quando da ordem de retorno da divisão à Espanha, continuaram nas fileiras da Wehrmacht, mas o número exato é desconhecido, pois existem poucos relatos precisos sobre a participação dos portugueses na guerra.

O LEGADO DA DIVISÃO AZUL

Apesar da Divisão Azul ter lutado apoiando um regime totalitário e brutal como foi o Nazismo, os seus 46 mil membros totais cumpriram o seu dever com honra e bravura, dada a complexidade da missão, das péssimas condições climáticas e do terreno, além da força e do tamanho do Exército russo, que praticamente engoliu a Wermacht, que deu marcha a ré até Berlim.
 
"Medalha da Divisão Azul", concedida pessoalmente por Adolf Hitler 
aos membros da divisão que lutaram na Rússia. (Reprodução Wikipedia)
Mesmo assim é de ressaltar que mais de 75 anos depois de sua missão nas estepes russas, ainda há de se destacar a valorosa participação de espanhóis e portugueses, que lutara, a despeito de muitas adversidades, contra um poderoso inimigo e, como no caso da Batalha de Krasny Bor, onde membros da divisão lutaram contra um inimigo quase dez vezes maior, que conseguiram sobreviver e defenderem a sua honra e valor.






Monumento aos membros da "Divisão Azul" mortos na Campanha da Rússia, em Madri. (Reprodução Wikipedia)


ORDEM DE BATALHA DA DIVISÃO AZUL (250º DIVISÃO DE INFANTARIA)






Julho de 1941:

262º, 263º e 269º Regimento de Infantaria (Granadeiros)
250º Regimento de Artilharia (04 batalhões + 01 reforço)
250º Batalhão “Panzerjäger” (Caça-Tanques)
250º Batalhão de Reconhecimento
250º Batalhão “Feldersatz” (Substitutos)
250º Batalhão de Engenharia
250º Batalhão de Sinaleiros
Esquadrão de Suprimento

Setembro de 1943:

262º, 263º e 269º Regimento de Infantaria (Granadeiros)
250º Regimento de Artilharia (04 batalhões + 01 reforço)
250º Batalhão “Panzerjäger” (Caça-Tanques)
250º Batalhão de Reconhecimento
250º Batalhão de Engenharia
250º Batalhão de Sinaleiros
Esquadrão de Suprimento

* O Lema da Divisão Azul. Original em espanhol: “Sin relevo posible, hasta la extinción.

FOTO DE CAPA: Pintura retratado a "Divisão Azul" em combate próximo a Krasny Bór, em 1943.(Reprodução Internet)

Com informações retiradas da Wikipedia.


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Por Luiz Reis, Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar, fotógrafo amador. Brasiliense com alma paulista, reside em Fortaleza-CE. Luiz colaborou com o Canal Arte da Guerra e o Blog Velho General e atua esporadicamente nos blogs da Trilogia Forças de Defesa, também fazendo parte da equipe de articulistas do GBN Defense. Presta consultoria sobre História da Aviação, Aviação Militar e Comercial. Contato: lcareis@gmail.com



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