A ida de brasileiros para combater na guerra da Ucrânia tornou-se um fenômeno silencioso, desorganizado e extremamente perigoso, muito distante da imagem heroica vendida em redes sociais e por intermediários que atuam no Brasil. O que é apresentado como uma oportunidade estruturada, com contrato, salário elevado e respaldo oficial, na prática se revela um ambiente marcado por improviso, falta de informação e perda quase total de autonomia do voluntário estrangeiro.
Nas últimas semanas, o GBN Defense recebeu relatos diretos de brasileiros que atuam na linha de frente e em centros de treinamento. Entre eles está “J”, uma de nossas fontes, que descreveu com detalhes as dificuldades enfrentadas ao tentar deixar o país após cumprir o período inicialmente acordado.
Segundo “J”, o problema começa logo na chegada à Ucrânia. Não há orientação clara, não há informações consistentes e tampouco existe qualquer estrutura organizada para receber estrangeiros. O brasileiro desembarca acreditando em uma realidade que simplesmente não existe.
“Vendiam uma coisa no Brasil e aqui é outra completamente diferente. Quando a gente chega, percebe que não tem nada organizado. Ninguém explica nada direito”, relatou.
De acordo com a fonte, a situação se agrava quando o voluntário manifesta o desejo de retornar ao Brasil. Documentos são retidos, processos se tornam deliberadamente lentos e confusos, e os custos para sair do país são extremamente elevados.
“Se quiser ir embora, não é simples. O passaporte fica retido. Mesmo pagando os valores que eles pedem, nada é garantido. É mais caro voltar do que vir”, afirmou “J”.
O relato confirma um padrão observado em outros depoimentos: enquanto há interesse em trazer combatentes, tudo funciona com rapidez. Quando o brasileiro tenta cumprir o acordo e retornar ao seu país de origem, surgem obstáculos, exigências financeiras inesperadas e uma completa ausência de apoio.
Outras fontes ouvidas pela reportagem reforçam que brasileiros que tiveram passagens financiadas por intermediários perdem totalmente a autonomia. Ao entregar seus documentos, passam a depender de promessas vagas e de uma cadeia informal de comando, sem contrato claro, sem respaldo legal e sem garantia de retorno.
“Tem gente aqui sem contrato, sem conta em banco e sem passaporte. Ficam presos esperando boa vontade”, relatou outro brasileiro.
A desorganização é generalizada. Não há clareza sobre regras, direitos ou deveres. Muitos iniciam treinamentos sem qualquer vínculo formalizado, acreditando que tudo será resolvido “mais à frente”. Para vários, essa regularização nunca acontece.
Essa ilusão vendida no Brasil, segundo as fontes, é um dos aspectos mais graves do problema. Jovens são atraídos por discursos heroicos, promessas financeiras e narrativas de propósito, mas encontram um cenário completamente diferente ao desembarcar na Ucrânia: precariedade, improviso, risco extremo e abandono.
É justamente por isso que esta reportagem cumpre um papel de alerta. O objetivo é evitar que mais brasileiros sejam enganados por aliciadores que operam à margem da lei, explorando o desconhecimento, a boa-fé e, em alguns casos, o desespero de quem busca uma oportunidade ou um sentido maior.
Enquanto não houver informação clara, posicionamento oficial e medidas de prevenção, o risco é que mais cidadãos brasileiros sejam atraídos para uma guerra brutal, sem garantias, sem proteção jurídica e com enormes dificuldades para retornar para casa.
A omissão do Estado não pode continuar
Diante da gravidade dos relatos e da recorrência dos casos, esta reportagem também se coloca como um alerta direto ao Estado brasileiro. O Ministério das Relações Exteriores não pode permanecer inerte diante de um fenômeno que envolve aliciamento, retenção de documentos, violação de direitos e dificuldades extremas de repatriação de cidadãos brasileiros.
É urgente que o Itamaraty estabeleça ações concretas para combater essa prática, criando mecanismos de identificação, acompanhamento e apoio consular a brasileiros que foram levados à guerra da Ucrânia sob falsas promessas e narrativas ilusórias. Muitos desses cidadãos não partiram com plena consciência dos riscos, da precariedade e da ausência de garantias legais que encontrariam ao chegar ao país em conflito.
Além disso, o Congresso Nacional e o Senado Federal precisam assumir seu papel. É necessária a discussão e aprovação de uma legislação específica que impeça o aliciamento de brasileiros para atuar como combatentes em guerras estrangeiras nas quais o Brasil não é parte. Trata-se de uma lacuna legal grave, que hoje permite a atuação de intermediários e redes informais que lucram com o envio de pessoas para zonas de conflito.
Juristas ouvidos por nossa reportagem apontam que esse tipo de aliciamento se aproxima perigosamente de práticas associadas ao tráfico de pessoas. Indivíduos são recrutados com promessas financeiras, benefícios e suposta segurança, mas acabam privados de documentos, liberdade de escolha e meios de retorno. A diferença entre o que é prometido no Brasil e a realidade encontrada no destino é abissal.
Outra medida considerada essencial é a criação de campanhas oficiais de conscientização. Avisos claros e objetivos deveriam ser exibidos em aeroportos internacionais, em canais de televisão e em meios digitais, alertando os brasileiros sobre a realidade da guerra na Ucrânia, os riscos do recrutamento irregular, a possibilidade de retenção de documentos, a ausência de contratos formais e as dificuldades extremas para retornar ao país.
Assim como existem campanhas contra o tráfico humano, o trabalho escravo e o turismo sexual, é preciso tratar o aliciamento para guerras estrangeiras como um problema real de segurança humana, jurídica e nacional.
Por fim, é fundamental que o Itamaraty amplie e fortaleça seus canais de apoio a brasileiros já envolvidos nesse contexto, garantindo assistência consular efetiva, orientação jurídica e, sempre que possível, mecanismos de repatriação segura.
Informar, prevenir e agir é uma obrigação do Estado. O silêncio institucional apenas favorece os aliciadores e amplia o número de vítimas.
Risco direto à segurança pública brasileira
Há ainda um fator que torna esse fenômeno absolutamente inaceitável do ponto de vista do Estado brasileiro: o impacto direto na segurança pública nacional. Fontes de inteligência e segurança, no Brasil e no exterior, vêm alertando que entre os brasileiros que se deslocam para a guerra da Ucrânia existem integrantes ou associados de organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e ao crime organizado.
Esses indivíduos não buscam apenas remuneração ou propósito ideológico. Muitos vão para um teatro de guerra real com o objetivo de adquirir treinamento militar, aprender técnicas de combate urbano, manuseio de armamentos, coordenação sob fogo e, especialmente, o emprego de drones para reconhecimento e ataque. Trata-se de um aprendizado que, ao retornar ao Brasil, passa a ser utilizado contra o próprio Estado e contra a sociedade brasileira.
Esse risco já deixou de ser teórico. Operações recentes das forças de segurança em áreas dominadas por facções criminosas, como o Complexo do Alemão e o Complexo da Penha, evidenciaram o uso crescente de drones para vigilância, coordenação de ações criminosas e até ataques contra forças policiais. A sofisticação dessas práticas indica um salto qualitativo preocupante, compatível com técnicas observadas em conflitos armados modernos.
Permitir que narcotraficantes e narcoterroristas brasileiros se desloquem para uma guerra estrangeira, recebam treinamento militar e retornem ao país com esse conhecimento representa uma ameaça concreta à ordem pública. É um risco inaceitável, que expõe policiais, agentes do Estado e a população civil a um nível de violência ainda maior.
Ignorar essa dimensão do problema não é apenas omissão humanitária, é negligência estratégica. Combater o aliciamento de brasileiros para guerras estrangeiras não é apenas proteger cidadãos enganados por promessas ilusórias, mas também impedir que o Brasil importe para dentro de suas cidades técnicas de guerra aprendidas em um dos conflitos mais violentos da atualidade.
Neste contexto, a atuação do Itamaraty, do Congresso Nacional e das forças de segurança não é apenas desejável, é urgente. Cada brasileiro recrutado de forma irregular para um conflito externo pode representar, no futuro, um risco direto à segurança interna do Brasil.
Esta reportagem é, acima de tudo, um alerta. Para que mais brasileiros não descubram tarde demais que a realidade da guerra é muito diferente da ilusão que lhes foi vendida.
Por Angelo Nicolaci
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