quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Parlamento líbio aprova acordo marítimo com a Türkiye e amplia alcance de Ancara no Mediterrâneo

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A reversão da posição do Parlamento do leste da Líbia aproxima antigos adversários, fortalece a estratégia turca no Mediterrâneo Oriental e provoca reação de Grécia e União Europeia, sem encerrar a disputa jurídica sobre as fronteiras marítimas.

A aprovação unânime em 20 de outubro do memorando de delimitação marítima entre a Líbia e a Türkiye pela Câmara dos Representantes sediada no leste líbio, marca uma mudança relevante no tabuleiro geopolítico do Mediterrâneo Oriental. Seis anos depois de rejeitar o acordo e defender o rompimento das relações políticas com Ancara, o Parlamento revogou suas decisões anteriores e respaldou o entendimento firmado em 2019 pelo então Governo de Acordo Nacional, sediado em Trípoli.

A decisão aproxima dois campos que estiveram em lados opostos da guerra civil líbia e amplia o apoio político ao acordo dentro de um país ainda dividido. Para a Türkiye, o resultado representa um avanço diplomático: ao construir relações também com as autoridades do leste, Ancara reduz sua dependência de um único polo de poder e aumenta as possibilidades de preservar seus interesses na Líbia, independentemente de como evolua a disputa interna pelo controle do país.

O alcance dessa mudança, porém, precisa ser delimitado. A votação reforça a sustentação política do memorando, mas não resolve as objeções da Grécia, Egito e Chipre, nem produz automaticamente reconhecimento internacional das fronteiras marítimas reivindicadas pelos signatários.

Um acordo concebido durante a guerra

Assinado em 27 de novembro de 2019, o memorando surgiu em um momento crítico da guerra civil líbia. As forças comandadas por Khalifa Haftar avançavam sobre Trípoli, ameaçando derrubar o governo reconhecido internacionalmente e apoiado pela Türkiye.

Ancara interveio em favor das autoridades ocidentais, enviando assessores militares, equipamentos e aeronaves não tripuladas. A assistência turca contribuiu para reverter a ofensiva contra a capital e consolidou a influência de Ancara como um dos fatores determinantes do equilíbrio militar líbio.

O acordo marítimo fazia parte de uma estratégia que ultrapassava o conflito terrestre. O documento estabeleceu coordenadas para a delimitação das áreas de jurisdição marítima entre os dois países, incluindo reivindicações sobre a plataforma continental e a zona econômica exclusiva. Para a Türkiye, ofereceu uma base diplomática para contestar interpretações sobre os direitos marítimos das ilhas gregas que, na visão turca, restringem excessivamente sua projeção no Mediterrâneo.

A Grécia rejeita essa interpretação. Atenas sustenta que o memorando desconsidera os direitos marítimos de suas ilhas, incluindo Creta, e contesta a legitimidade da delimitação proposta. A divergência envolve a aplicação do direito internacional do mar, a geografia da região e a sobreposição de reivindicações sobre áreas com potencial econômico e importância estratégica.

O documento foi registrado nas Nações Unidas em dezembro de 2019, mas esse procedimento não representa uma validação jurídica de seu conteúdo pela organização. A controvérsia permanece aberta e passou a integrar uma disputa regional mais ampla, na qual acordos concorrentes e projetos de infraestrutura se cruzam com interesses energéticos e estratégicos.

A reaproximação com Haftar altera as alianças

A aprovação pelo Parlamento oriental ganha significado adicional por representar uma reversão política. Em 2020, a Câmara havia rejeitado os memorandos firmados com a Türkiye e aprovado o rompimento das relações políticas com Ancara, em meio à oposição à intervenção turca na guerra civil.

Agora, a mesma instituição revogou essas decisões. A mudança ocorre após a ampliação dos contatos entre autoridades turcas e o campo militar liderado por Haftar, incluindo iniciativas de cooperação relacionadas a instalações militares e sistemas avançados de vigilância, segundo informações publicadas pela Al Jazeera.

A aproximação demonstra que as divisões da guerra civil já não impedem, por si só, a construção de entendimentos pragmáticos. Para o campo oriental, o relacionamento com Ancara pode abrir oportunidades de cooperação militar, econômica e diplomática. Para a Türkiye, o contato com os dois polos líbios amplia sua margem de manobra e reduz os riscos de ver seus interesses comprometidos por uma eventual reorganização política em Trípoli.

Isso não significa que as rivalidades tenham desaparecido ou que os antigos alinhamentos tenham sido integralmente abandonados. O campo de Haftar mantém relações com outros atores regionais, entre eles o Egito, que se opõe ao memorando marítimo turco-líbio. A nova convergência revela, contudo, que os interesses das autoridades líbias não coincidem necessariamente com as prioridades de todos os seus parceiros externos.

Também não há elementos suficientes para afirmar que a aprovação decorreu de uma troca específica de concessões. O que os fatos demonstram é que a reaproximação política e militar criou condições favoráveis para uma mudança de posição que em 2020 parecia improvável.

Energia e infraestrutura no centro da disputa

O memorando tem implicações que vão além da delimitação cartográfica. As reivindicações sobre a plataforma continental e a zona econômica exclusiva estão relacionadas aos direitos de exploração de recursos do subsolo marinho e podem influenciar futuras negociações sobre projetos energéticos e infraestrutura submarina.

O Mediterrâneo Oriental tornou-se um espaço de competição em torno do gás natural, das rotas de abastecimento e das conexões entre mercados. Nesse contexto, Ancara utiliza o acordo com a Líbia para sustentar sua interpretação das áreas marítimas e contestar iniciativas que considera incompatíveis com seus interesses.

A disputa também afeta projetos de infraestrutura. Em outubro de 2026, a Grécia informou que um projeto de interconexão elétrica submarina entre o território europeu e Chipre, com possível extensão a Israel, buscava retomar levantamentos do fundo marinho. A Türkiye contesta parte das atividades em áreas abrangidas por suas reivindicações baseadas no memorando de 2019.

A aprovação parlamentar fortalece politicamente a posição turca, mas não autoriza, por si só, novas concessões de exploração, não confirma descobertas de gás e tampouco garante a execução de projetos comerciais. Esses resultados dependem de decisões adicionais, viabilidade econômica, estudos técnicos e da capacidade de administrar as controvérsias entre os países envolvidos.

O ganho imediato de Ancara é diplomático: o acordo deixa de enfrentar a oposição formal do Parlamento oriental líbio, que anteriormente o rejeitava, e passa a contar com respaldo político de campos que disputaram o controle do país.

Grécia e União Europeia reagem

A resposta grega foi imediata. Atenas rejeitou a aprovação e reafirmou que considera o memorando ilegal e sem fundamento jurídico, alegando que o acordo viola o direito internacional do mar e os direitos soberanos de outros países. O governo grego também declarou que comunicou sua posição a parceiros e aliados e que adotará as medidas necessárias para proteger seus interesses. 

A União Europeia, por sua vez, afirmou que o acordo prejudica os direitos soberanos de terceiros, não está de acordo com o direito do mar e é inválido. Em declaração conjunta, os presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia reiteraram o apoio do bloco à Grécia e a Chipre e manifestaram oposição à interferência externa na Líbia.

O Egito também se opõe ao memorando e firmou com a Grécia, em agosto de 2020, um acordo próprio de delimitação da zona econômica exclusiva. A posição do Cairo torna a aproximação entre Ancara e o campo oriental líbio particularmente relevante: autoridades que mantiveram relações próximas com o Egito agora respaldam um entendimento contestado pelo governo egípcio.

Essa convergência não significa que o Cairo tenha perdido sua influência no leste da Líbia ou que Haftar tenha rompido com seus parceiros tradicionais. Ela indica, antes, que a competição regional se tornou mais complexa, com atores locais dispostos a diversificar suas relações para ampliar as próprias opções políticas e estratégicas.

Para Atenas e Bruxelas, o desafio passa a ser não apenas contestar o conteúdo do memorando, mas lidar com seu novo respaldo político dentro da Líbia. A votação não elimina as objeções internacionais, porém reduz o espaço para tratar o acordo como uma iniciativa sustentada exclusivamente pelo governo de Trípoli.

O respaldo político não encerra a disputa jurídica

A aprovação parlamentar precisa ser distinguida de uma decisão judicial internacional. O registro do memorando nas Nações Unidas não equivale à validação de suas disposições por uma corte, assim como a aprovação pelo Parlamento oriental não resolve a controvérsia sobre os direitos marítimos de terceiros.

O artigo 34 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados estabelece, como regra geral, que um tratado não cria obrigações ou direitos para um terceiro Estado sem seu consentimento. Assim, um acordo bilateral não pode, por si só, eliminar direitos marítimos que outro país reivindique com base no direito internacional.

Também não existe uma regra segundo a qual todas as ilhas recebem necessariamente o mesmo efeito na delimitação marítima. A avaliação depende da geografia, das circunstâncias relevantes e das normas aplicáveis. É nesse ponto que se concentra parte essencial da divergência entre as posições turca e grega.

A Türkiye não é parte da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982. Isso, contudo, não a exclui automaticamente de todas as normas internacionais aplicáveis ao uso dos mares, já que princípios de direito internacional consuetudinário também podem ser relevantes para a análise das reivindicações.

A votação amplia o respaldo político ao memorando, mas não substitui o reconhecimento por outros países nem resolve as questões jurídicas em disputa. A evolução do caso dependerá das posições diplomáticas dos envolvidos, de eventuais negociações e dos mecanismos jurídicos que as partes estejam dispostas a aceitar.

Uma vitória diplomática, ainda sem desfecho estratégico

A aprovação do memorando pela Câmara dos Representantes do leste líbio representa um avanço para a estratégia turca no Mediterrâneo Oriental. Ancara conseguiu aproximar-se de um campo político que rejeitou o acordo durante anos e que esteve em conflito com seus aliados em Trípoli.

O resultado amplia a capacidade turca de atuar em diferentes centros de poder líbios e fortalece a posição diplomática do país em uma disputa marítima de longo prazo. Ao mesmo tempo, expõe a flexibilidade das alianças regionais: antigas rivalidades podem dar lugar a entendimentos quando os interesses políticos, militares ou econômicos convergem.

O ganho, entretanto, não deve ser confundido com uma vitória jurídica definitiva. Grécia, Egito, Chipre e União Europeia mantêm suas objeções, e a aprovação não altera automaticamente os limites marítimos reconhecidos internacionalmente nem assegura benefícios econômicos concretos.

A principal mudança está nas condições políticas que sustentam o acordo. Ao conquistar o respaldo do Parlamento oriental, a Türkiye reduz uma das resistências internas líbias ao memorando e amplia suas opções para preservar influência no país. A disputa pelo Mediterrâneo Oriental continua aberta, mas Ancara passa a enfrentá-la com uma base política mais ampla dentro da Líbia.



por Angelo Nicolaci


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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Türkiye amplia cooperação industrial de defesa com Catar, Paquistão e Indonésia, abrindo novas perspectivas para o Brasil

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Memorando previsto para ser assinado em Doha reforça a estratégia turca de produção conjunta e transferência de tecnologia. Experiências internacionais e acordos já firmados com empresas brasileiras apontam oportunidades nos setores terrestre, aeronáutico e de mísseis.

A Türkiye avança na construção de uma rede internacional de cooperação na indústria de defesa. Um memorando de entendimento envolvendo Türkiye, Catar, Paquistão e Indonésia está previsto para ser assinado em Doha, segundo informações divulgadas em 20 de outubro pela Presidência das Indústrias de Defesa turca (SSB). A iniciativa busca aprofundar relações industriais existentes, integrar cadeias de fornecimento e ampliar as capacidades de produção conjunta.

A proposta reflete uma mudança na forma como Ancara busca ampliar sua presença no mercado internacional. Em vez de limitar as relações à exportação de equipamentos acabados, a indústria turca procura estabelecer parcerias que envolvam fabricação local, desenvolvimento tecnológico, capacitação de mão de obra e participação dos países compradores em diferentes etapas do ciclo de vida dos sistemas militares. O anúncio, contudo, não significa que novos contratos tenham sido firmados entre os quatro participantes.

Produção local e transferência de tecnologia

No Catar, a cooperação com a Türkiye inclui a instalação de capacidades industriais voltadas à fabricação de equipamentos de defesa. A BARQ, empresa estabelecida a partir da parceria entre a turca ASELSAN e a catariana Barzan Holding, representa um exemplo dessa aproximação, com atuação relacionada a sistemas de armas remotamente controlados e soluções eletro-ópticas.

O modelo permite associar a experiência tecnológica de uma empresa estrangeira aos investimentos e às estruturas industriais do país parceiro. Para o Catar, a iniciativa contribui para desenvolver competências locais; para a Türkiye, amplia a presença de seus fornecedores e cria condições para manter vínculos industriais com um mercado estratégico.

No Paquistão, a cooperação alcança um dos segmentos mais complexos da indústria militar: a construção naval. O programa de quatro corvetas da classe Babur, derivadas do projeto turco MILGEM, prevê duas unidades construídas na Türkiye e outras duas no estaleiro de Karachi. A execução compartilhada envolve a participação da indústria paquistanesa em atividades de construção e integração, criando oportunidades para absorção de conhecimentos de engenharia naval e produção.

A importância desse formato vai além da distribuição das unidades entre dois países. A participação de um estaleiro local em um programa naval de maior complexidade pode ampliar competências em fabricação, montagem, integração de sistemas e manutenção. O alcance tecnológico efetivamente transferido, entretanto, depende das atividades previstas nos contratos e da autonomia concedida à indústria receptora.

A Indonésia oferece outro exemplo, agora no setor terrestre. O KAPLAN MT, conhecido localmente como Harimau, foi desenvolvido pela turca FNSS em parceria com a PT Pindad. O programa combina conhecimentos das duas empresas e inclui transferência de tecnologia para permitir a produção local.

A FNSS fabricou os protótipos e as primeiras unidades de série, enquanto a PT Pindad passou a assumir a produção na Indonésia, conforme a evolução do programa. A iniciativa demonstra como uma parceria inicialmente apoiada na capacidade de desenvolvimento de uma empresa estrangeira pode contribuir para estabelecer uma base produtiva no país comprador.

Os três casos apresentam diferentes níveis de cooperação, mas compartilham um princípio: o equipamento funciona como ponto de partida para uma relação industrial mais ampla. O memorando anunciado para Doha poderá criar condições para aprofundar essa lógica entre os quatro países, embora seus efeitos concretos dependam do conteúdo final do instrumento e de eventuais acordos de implementação.

Exportações sustentam a expansão da indústria turca

A aproximação com novos parceiros ocorre em um período de forte crescimento das exportações turcas de defesa e aeroespacial. Segundo dados divulgados pela SSB, o setor exportou mais de US$ 10 bilhões em 2025, alcançando aproximadamente US$ 10,05 bilhões, alta de 48% em relação ao ano anterior. Em 2024, as exportações haviam somado cerca de US$ 7,1 bilhões.

Em 20 de outubro de 2026, a SSB informou que as exportações acumuladas entre 2023 e os primeiros nove meses de 2026 ultrapassaram US$ 30 bilhões. Esse volume corresponde a mais de 55% dos aproximadamente US$ 54 bilhões registrados pelo setor desde 2012, segundo os dados divulgados pelas autoridades turcas.

Os números ajudam a dimensionar a velocidade da expansão industrial, mas também evidenciam a importância de distinguir exportações realizadas de contratos assinados e encomendas futuras. São indicadores diferentes: enquanto as exportações refletem entregas contabilizadas, os contratos podem abranger programas cuja execução se estenderá por vários anos.

A estratégia turca combina o desenvolvimento de produtos próprios com acordos internacionais de produção, fornecimento de componentes e suporte. Essa combinação permite às empresas disputar mercados em que o comprador exige não apenas desempenho e preço competitivos, mas também participação industrial, acesso a serviços de manutenção e maior segurança no abastecimento de peças.

A sustentação desses vínculos pode ser decisiva para a continuidade dos negócios. Navios, aeronaves, veículos blindados e sistemas de armas exigem suporte logístico, reparos, atualizações e treinamento ao longo de décadas. Quando parte dessas atividades é realizada no país usuário, a aquisição inicial pode abrir caminho para uma relação industrial de longo prazo.

Brasil e Türkiye já possuem uma agenda industrial concreta

Para o Brasil, a expansão turca interessa especialmente porque a relação bilateral já ultrapassou o campo das declarações diplomáticas. Existem iniciativas empresariais concretas em engenharia aeronáutica, fabricação de componentes e integração de sistemas de defesa, além de possibilidades de cooperação no setor terrestre.

Um dos casos mais visíveis é o Tulpar, carro de combate (MMBT) desenvolvido pela turca Otokar. A plataforma está entre as alternativas observadas no contexto das discussões brasileiras sobre a futura família de carros de combate, incluindo configurações destinadas ao combate e ao transporte de tropas.

Em setembro de 2026, uma delegação do Exército Brasileiro acompanhou na Itália, uma demonstração de tiro real do Tulpar equipado com a torre HITFACT MkII, da Leonardo, armada com um canhão de 120 mm. A atividade ocorreu no contexto da avaliação da configuração oferecida ao mercado, mas não representa uma decisão de aquisição pelo Brasil. 

A configuração com canhão de 120 mm amplia as possibilidades de emprego da plataforma como veículo de combate de maior poder de fogo. Sua avaliação, porém, deve considerar o conjunto da solução: proteção, mobilidade, integração dos sistemas, logística, custo de ciclo de vida e compatibilidade com os requisitos operacionais do Exército.

Uma eventual escolha do Tulpar também abriria uma discussão industrial. O Brasil precisaria avaliar quais atividades poderiam ser executadas localmente, desde a fabricação de componentes e a montagem até a manutenção, a integração de equipamentos nacionais e as futuras modernizações. Esses benefícios não decorrem automaticamente da compra: dependem das condições contratuais e do nível de participação industrial efetivamente negociado.

Na aviação, a cooperação já conta com um instrumento formal. Em 1º de abril de 2025, durante a LAAD Defence & Security, no Rio de Janeiro, a Embraer e a Turkish Aerospace assinaram um memorando para explorar oportunidades de cooperação industrial relacionadas à família de aeronaves comerciais E2.

O entendimento prevê discussões sobre uma possível parceria que aproveite as capacidades turcas na fabricação e montagem de estruturas metálicas e compostas, na montagem de fuselagens e em atividades de teste e produção. A iniciativa também contempla a possibilidade de colaboração em pesquisa e desenvolvimento. Não se trata, contudo, de um contrato definitivo para transferir a produção de aeronaves E2 à Türkiye.

A cooperação entre a Türkiye e a indústria aeronáutica brasileira também aparece no programa HÜRJET, treinador avançado supersônico desenvolvido pela Turkish Aerospace. A brasileira Akaer foi selecionada para desenvolver partes da estrutura da aeronave e sistemas associados à fuselagem traseira, além de participar de atividades de engenharia estrutural em outras seções do projeto.

A participação da empresa brasileira evidencia uma modalidade de cooperação particularmente relevante para a Base Industrial de Defesa: a exportação de conhecimento de engenharia. Em vez de fornecer apenas componentes fabricados sob especificação de terceiros, empresas nacionais podem assumir responsabilidades de projeto, cálculo estrutural e integração de sistemas, acumulando experiência aplicável a outros programas.

No setor de mísseis, a aproximação entre as duas indústrias assumiu uma forma diferente. Durante a LAAD 2025, a turca Kale Jet Engines assinou com a brasileira SIATT um acordo de fornecimento de motores turbojato KTJ-3200 destinados ao míssil antinavio MANSUP-ER.

O acordo prevê a integração do motor turco ao míssil desenvolvido pela SIATT, permitindo combinar um componente fornecido pela indústria estrangeira com um sistema de armas concebido no Brasil. O caso demonstra que a cooperação internacional pode ocorrer em um nível altamente especializado, no qual o país mantém a responsabilidade pelo desenvolvimento de seu produto, mas depende de fornecedores externos para determinados subsistemas.

Esse arranjo também evidencia um ponto que merece atenção: a participação de fornecedores estrangeiros em sistemas nacionais exige planejamento para garantir disponibilidade de componentes, continuidade de fornecimento, suporte técnico e condições adequadas para futuras evoluções do produto. O equilíbrio entre acesso a tecnologias externas e domínio nacional sobre os sistemas é parte central da política industrial de defesa.

Do acordo bilateral à capacidade industrial brasileira

Brasil e Türkiye assinaram, em 25 de março de 2022, um Acordo sobre Cooperação em Indústria de Defesa. O instrumento estabelece uma base jurídica para iniciativas conjuntas no setor, respeitando as legislações nacionais e os interesses das partes. Em setembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou seu texto por meio do Decreto Legislativo nº 195, publicado no Diário Oficial da União.

O acordo oferece uma estrutura para aprofundar a cooperação, mas não determina a contratação de equipamentos específicos nem assegura, por si só, transferência de tecnologia. Cada programa precisa estabelecer responsabilidades, investimentos, direitos de propriedade intelectual, requisitos de segurança e condições de acesso às tecnologias envolvidas.

É nesse ponto que a experiência turca com seus parceiros ganha relevância para o Brasil. A produção de blindados na Indonésia, a construção naval compartilhada com o Paquistão e as parcerias industriais no Catar demonstram que existem diferentes formas de estruturar a participação local. A escolha depende da maturidade tecnológica do parceiro, do volume de encomendas, da capacidade de investimento e dos objetivos estratégicos de cada programa.

Para a indústria brasileira, o objetivo deve ser transformar oportunidades comerciais em competências duradouras. Isso significa buscar participação em engenharia, fabricação, integração, manutenção e modernização, além de definir quais conhecimentos precisam permanecer acessíveis às empresas e aos profissionais nacionais.

O interesse pelo Tulpar, a cooperação entre Embraer e Turkish Aerospace, a participação da Akaer no HÜRJET e o fornecimento de motores para o MANSUP-ER ilustram caminhos diferentes de aproximação. Cada um envolve condições técnicas e comerciais próprias, mas todos oferecem referências para discutir o equilíbrio entre cooperação internacional e autonomia industrial.

O memorando previsto para Doha reforça a estratégia turca de ampliar sua presença internacional por meio de relações industriais mais profundas. Para o Brasil, o movimento serve como referência para avaliar como acordos bilaterais e parcerias empresariais podem evoluir para programas com responsabilidades definidas, participação produtiva e resultados tecnológicos mensuráveis.

A medida do sucesso, portanto, não será a quantidade de memorandos assinados, mas a capacidade de convertê-los em projetos sustentáveis, com investimentos, produção, suporte e desenvolvimento de competências. É nesse resultado concreto que a cooperação entre Brasil e Türkiye poderá demonstrar seu verdadeiro alcance estratégico.


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Queda do Hawk T2 expõe falhas que vão além da ausência de uma tampa de combustível

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O Hawk T2 da RAF caiu durante voo de teste após incidente anterior; investigação precisa esclarecer como uma possível falha de manutenção atravessou as barreiras de segurança até a decolagem.

A queda de uma aeronave de treinamento Hawk T2 da Força Aérea Real britânica (RAF) em 23 de setembro no País de Gales, levanta questões que vão além da suposta ausência da tampa do tanque de combustível. O acidente que destruiu uma aeronave avaliada em cerca de 20 milhões de libras, aproximadamente R$ 130 milhões, exige uma análise de toda a cadeia de manutenção, inspeção e liberação para voo, especialmente porque a aeronave realizava um teste após um incidente anterior.

Segundo informações publicadas nesta terça-feira (20), investigadores teriam identificado que a aeronave decolou sem a tampa do tanque de combustível devidamente instalada. A informação, entretanto, ainda não foi confirmada publicamente pela RAF, que mantém a investigação em andamento. Por isso, embora a hipótese seja relevante, não é possível afirmar que a ausência da tampa tenha sido, isoladamente, a causa determinante do acidente. 

O contexto anterior à queda torna o caso ainda mais significativo. O Hawk T2 havia se envolvido em outro incidente em 11 de setembro e retornou ao voo em 23 de setembro, quando realizou um voo descrito pela imprensa britânica como um voo de teste após reparos. A investigação precisa esclarecer qual foi o problema original, quais reparações foram executadas e se existia alguma relação entre o primeiro episódio e a perda da aeronave. 

Manutenção e inspeção: onde a segurança deveria ter funcionado

A eventual ausência da tampa de combustível pode parecer uma falha simples, mas sua importância está no que revela sobre os procedimentos de controle. Se a peça foi retirada durante a manutenção e não reinstalada, é necessário determinar quem executou o serviço, como a tarefa foi registrada, quais verificações foram realizadas e quem autorizou a aeronave a voltar a voar.

A segurança aeronáutica depende de camadas sucessivas de prevenção. O mecânico responsável pelo serviço não é necessariamente o único envolvido no processo: inspeções independentes, conferência dos trabalhos concluídos e procedimentos de liberação precisam reduzir a possibilidade de que uma falha individual chegue à operação. A investigação deverá estabelecer quais dessas barreiras eram aplicáveis ao serviço executado no Hawk T2 e se foram cumpridas.

Também é necessário examinar a inspeção externa realizada pela tripulação antes da decolagem. A verificação visual da aeronave integra os procedimentos de preparação para o voo e constitui uma barreira adicional contra problemas identificáveis visivelmente. Isso não significa, porém, que os pilotos tenham sido negligentes. Para chegar a essa conclusão, seria preciso conhecer os procedimentos específicos da RAF para o Hawk T2, as condições da inspeção, a posição e a visibilidade da tampa, além das circunstâncias em que a aeronave foi apresentada à tripulação.

A questão central é compreender se a falha poderia ter sido identificada antes da partida e por que isso não aconteceu. A eventual responsabilidade dos pilotos, da equipe de manutenção ou dos responsáveis pela liberação deve ser determinada com base em evidências, não apenas na constatação de que a aeronave teria decolado sem um componente instalado.

A tampa explica o acidente?

A ausência da tampa pode ter consequências relevantes, mas o mecanismo que levou à queda ainda precisa ser demonstrado. Os investigadores terão de esclarecer se houve vazamento ou derramamento de combustível, se o sistema de alimentação foi afetado e qual foi a relação entre esses fatores e os sinais de anormalidade observados logo após a decolagem.

Vídeos do acidente mostram a aeronave apresentando dificuldades durante a subida, com sinais de fogo antes do impacto. Esse registro ajuda a estabelecer a sequência visível dos acontecimentos, mas não permite, por si só, determinar a origem das chamas nem identificar a falha técnica que comprometeu o voo. Uma eventual falha de motor ou outra anomalia também precisa ser avaliada à luz dos registros técnicos e das evidências materiais. 

A investigação deve, portanto, distinguir três questões: a possível falha de manutenção, o mecanismo técnico que provocou a perda da aeronave e as oportunidades de prevenção que não impediram a decolagem. Elas podem estar relacionadas, mas não são necessariamente a mesma coisa.

O peso adicional de um voo de teste

O fato de o Hawk T2 estar em um voo de teste após reparos amplia a importância dos procedimentos anteriores à decolagem. Esse tipo de missão exige que o trabalho realizado seja compatível com o objetivo do ensaio e que as condições de liberação estejam devidamente verificadas. O histórico do incidente anterior, as intervenções executadas e os critérios usados para autorizar o retorno ao voo são, por isso, elementos essenciais para reconstruir o acidente.

Após a queda, a RAF suspendeu temporariamente as operações com os modelos Hawk T1 e T2 como medida de precaução enquanto a investigação avançava. A decisão demonstra que o episódio foi tratado como uma ocorrência que exigia avaliação de segurança, embora não constitua, por si só, confirmação de uma falha sistêmica na frota.

Os dois tripulantes conseguiram se ejetar e sofreram ferimentos considerados leves. Segundo informações divulgadas pela RAF, ambos apresentavam boa recuperação. Relatos da base também indicaram que a tripulação procurou direcionar a aeronave para uma área aberta, reduzindo o risco para pessoas em solo. 

O episódio evidencia a importância de investigar não apenas o componente que supostamente faltava, mas todo o processo que permitiu que a aeronave chegasse à pista nessas condições. Se a hipótese da tampa ausente for confirmada, será necessário explicar como uma falha potencialmente detectável durante a manutenção, a inspeção final ou a preparação pré-voo atravessou todas essas etapas.

Mais do que apontar um erro individual, o resultado da investigação deverá mostrar onde as barreiras de segurança falharam, quais responsabilidades cabem a cada etapa e que medidas podem evitar a repetição do acidente. Em aviação militar, a confiabilidade não depende de um único profissional ou procedimento, mas da integração entre manutenção, controle de qualidade, liberação técnica e atuação da tripulação.


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Guerra submarina: o desafio do Brasil vai além de construir submarinos

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A superioridade no Atlântico Sul dependerá da capacidade de integrar plataformas, sensores, inteligência e vigilância para proteger as águas brasileiras e a infraestrutura estratégica no fundo do mar.

A evolução da guerra submarina está mudando a forma como as forças navais precisam organizar suas capacidades. Submarinos modernos continuam sendo instrumentos fundamentais de dissuasão, inteligência e ataque, mas seu desempenho individual não garante superioridade em um ambiente no qual sensores, aeronaves, navios de superfície, sistemas não tripulados e redes de informação determinam a capacidade de detectar, acompanhar e responder às ameaças.

Essa é a principal questão levantada pelo contra-almirante Lincoln Reifsteck, da Marinha dos Estados Unidos, em artigo publicado na revista Proceedings, do U.S. Naval Institute. O oficial defende uma abordagem integrada da guerra submarina, na qual diferentes meios operam como componentes de uma mesma estrutura de vigilância, comando e resposta.

A mudança não é apenas conceitual. Ela reflete a evolução das forças submarinas de países como EUA, China e Rússia, o avanço dos sistemas autônomos e a crescente exposição da infraestrutura instalada no leito oceânico. Nesse cenário, a capacidade de reunir informações de diferentes fontes e transformá-las em decisões operacionais passa a ter importância comparável à qualidade das próprias plataformas.

Para o Brasil, que investe na construção de submarinos e no desenvolvimento de uma capacidade industrial própria, essa transformação coloca uma questão estratégica: como converter os avanços na força submarina em uma capacidade mais ampla de consciência situacional e controle do ambiente marítimo no Atlântico Sul?

Da superioridade da plataforma à integração de forças

Durante décadas, a superioridade submarina norte-americana foi sustentada, entre outros fatores, pela vantagem tecnológica e operacional sobre potenciais adversários. O avanço das forças submarinas chinesas, com plataformas convencionais e nucleares cada vez mais capazes, demonstrou que essa vantagem não pode ser considerada permanente.

Reifsteck utiliza a experiência da Força-Tarefa 74, responsável pela guerra submarina no Pacífico Ocidental, para mostrar como a resposta norte-americana evoluiu. A estrutura reúne especialistas em guerra submarina, aeronaves de patrulha marítima P-8A Poseidon, helicópteros MH-60S, navios de superfície, plataformas de vigilância e profissionais de inteligência.

O objetivo é construir uma imagem operacional compartilhada, capaz de combinar dados de diferentes sensores, identificar contatos e acompanhar movimentos adversários. Em vez de depender de uma única plataforma, a força passa a utilizar uma rede de capacidades complementares, coordenadas por uma estrutura de comando e controle.

Essa arquitetura também incorpora aliados e parceiros. O compartilhamento de informações, a coordenação de operações e a utilização complementar de recursos ampliam a cobertura disponível e reduzem a dependência de uma única força naval para monitorar áreas extensas.

A lição central é que a superioridade submarina não se resume ao desempenho acústico, à profundidade operacional, à autonomia ou ao armamento de um submarino. Depende também da qualidade das informações disponíveis, da capacidade de interpretá-las e da rapidez com que diferentes unidades conseguem agir de maneira coordenada.

O fundo do mar como espaço estratégico

A guerra submarina contemporânea também ultrapassa a busca e o combate a submarinos adversários. Cabos de telecomunicações, conexões de energia e gasodutos instalados no leito oceânico integram uma infraestrutura essencial para a economia e a segurança dos Estados.

A interrupção dessas conexões pode produzir consequências econômicas e operacionais sem que seja necessário um confronto naval convencional. A dificuldade de monitorar grandes extensões no fundo do mar, somada à complexidade de atribuir responsabilidade por danos, torna a proteção dessa infraestrutura um desafio militar, diplomático e regulatório.

A resposta exige mais do que submarinos de combate. Sensores fixos e móveis, veículos submarinos não tripulados, sistemas de vigilância marítima, inteligência e mecanismos de cooperação com operadores civis podem contribuir para identificar atividades suspeitas e melhorar a capacidade de resposta.

Isso não significa que toda ocorrência envolvendo cabos ou dutos seja resultado de sabotagem. A distinção entre acidentes, falhas técnicas e ações deliberadas exige investigação e evidências. O desafio militar consiste em ampliar a capacidade de monitoramento e produzir informações confiáveis sem transformar suspeitas em conclusões antecipadas.

Para as forças navais, portanto, o ambiente submarino passa a envolver duas dimensões complementares: a capacidade de enfrentar forças adversárias e a proteção de estruturas cuja vulnerabilidade pode afetar diretamente o funcionamento de um país.

O desafio brasileiro no Atlântico Sul

O Brasil possui uma extensa área marítima de interesse estratégico, com atividades de exploração de petróleo e gás, rotas comerciais e infraestrutura de comunicações submarinas. A proteção desses interesses exige consciência situacional que vá além do acompanhamento de embarcações na superfície.

Nesse contexto, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) representa uma base importante. A iniciativa permitiu ampliar a capacidade brasileira de construção naval militar, incorporar tecnologia e estabelecer infraestrutura especializada em Itaguaí, no Rio de Janeiro. O programa contempla quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo (S-BR, variante do Scorpène francês) e o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, armado convencionalmente.

A propulsão nuclear deverá proporcionar ao futuro submarino maior autonomia e capacidade de permanência submersa, ampliando suas possibilidades operacionais. Essa característica, contudo, não substitui a necessidade de sensores externos, inteligência, comunicações e coordenação com os demais meios da Marinha.

Um submarino pode permanecer submerso por longos períodos, mas sua contribuição para uma operação mais ampla depende das informações disponíveis, das missões atribuídas e da integração com a estrutura de comando. Da mesma forma, aeronaves, navios de superfície e sistemas não tripulados precisam produzir dados que possam ser compartilhados e utilizados de maneira oportuna.

O desafio brasileiro não é reproduzir integralmente a estrutura norte-americana, concebida para necessidades operacionais e recursos diferentes. É identificar quais capacidades são prioritárias para o Atlântico Sul e desenvolver uma arquitetura compatível com a dimensão da área marítima, as ameaças consideradas e os meios efetivamente disponíveis.

Isso envolve avaliar a integração entre vigilância marítima, aviação naval, navios de superfície, força submarina, centros de comando e sistemas de inteligência. Também exige definir como informações provenientes de sensores militares e fontes civis podem contribuir para uma imagem operacional confiável, respeitando as responsabilidades e limitações de cada instituição.

Sistemas não tripulados e autonomia tecnológica

Os veículos submarinos não tripulados acrescentam outra dimensão a essa transformação. Dependendo de sua configuração, esses sistemas podem apoiar missões de inspeção, mapeamento, coleta de dados, vigilância e investigação de áreas de interesse, reduzindo a necessidade de empregar plataformas tripuladas em determinadas tarefas.

Seu valor não está apenas na substituição de meios convencionais, mas na possibilidade de ampliar a frequência e a abrangência das operações. Plataformas menores e mais acessíveis também podem complementar sensores fixos e sistemas tripulados, desde que tenham autonomia adequada, confiabilidade e capacidade de transmitir ou armazenar informações úteis.

Para o Brasil, o desenvolvimento dessas tecnologias pode abrir oportunidades para a indústria nacional de defesa, centros de pesquisa e empresas especializadas em robótica, sensores, comunicações e processamento de dados.

A autonomia tecnológica, porém, não deve ser medida apenas pela fabricação de uma plataforma. Ela depende do domínio dos componentes críticos, dos softwares, da integração dos sensores, da manutenção e da capacidade de adaptar os sistemas às necessidades operacionais brasileiras.

A cooperação internacional pode acelerar esse processo, mas precisa ser acompanhada de escolhas claras sobre quais conhecimentos devem ser desenvolvidos internamente e quais dependências são aceitáveis. Sem essa definição, a aquisição de novos equipamentos corre o risco de ampliar o inventário sem assegurar a capacidade necessária para operá-los e evoluí-los ao longo do tempo.

O fator humano continua decisivo

A integração tecnológica não elimina a importância do treinamento, da doutrina e da experiência operacional. Ao contrário, quanto maior o volume de informações e o número de plataformas envolvidas, maior a necessidade de profissionais capazes de interpretar dados, reconhecer inconsistências e tomar decisões sob pressão.

O argumento de Reifsteck também destaca a cultura operacional das forças submarinas, construída por meio de treinamento rigoroso, disciplina e incentivo à identificação de erros. Sistemas de comando e controle podem acelerar a circulação de informações, mas não substituem o julgamento profissional nem garantem, por si só, que uma informação esteja correta.

Para a Marinha do Brasil, o desenvolvimento de procedimentos conjuntos, exercícios de integração e formação de equipes especializadas será tão importante quanto a incorporação de novos sensores. A capacidade de operar em rede precisa ser praticada antes de uma crise, quando falhas de comunicação, informações incompletas e decisões urgentes podem comprometer o resultado de uma missão.

Essa preparação também deve considerar a cooperação com outras instituições responsáveis pela segurança marítima e pela infraestrutura crítica. A proteção do ambiente submarino envolve competências militares, civis e técnicas que não estão concentradas em uma única organização.

Uma estratégia que precisa conectar os investimentos

O avanço do PROSUB é um componente relevante da capacidade naval brasileira, mas a construção de submarinos deve ser acompanhada por uma visão mais ampla do ambiente em que esses meios serão empregados. O objetivo não é apenas dispor de plataformas modernas, mas garantir que elas façam parte de uma estrutura capaz de detectar ameaças, compartilhar informações e coordenar respostas.

Isso exige prioridades claras para a vigilância do Atlântico Sul, integração entre sensores e centros de comando, avaliação do emprego de sistemas não tripulados e mecanismos de proteção da infraestrutura submarina. Também demanda continuidade orçamentária, desenvolvimento de pessoal e planejamento de longo prazo para evitar que capacidades complementares evoluam de forma isolada.

A experiência norte-americana apresentada por Reifsteck oferece uma referência para esse debate, mas não uma fórmula pronta. As dimensões, os recursos e as responsabilidades estratégicas brasileiras são diferentes, e a arquitetura necessária deve refletir essas particularidades.

A questão de fundo é como conectar os investimentos já realizados e os programas em desenvolvimento a uma capacidade coerente de vigilância, dissuasão e resposta. O desafio do Brasil não termina na construção de submarinos: está em integrar esses meios a um sistema capaz de proteger seus interesses no Atlântico Sul e responder às ameaças que podem surgir tanto na superfície quanto nas profundezas da nossa "Amazônia Azul".


por Angelo Nicolaci


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Editorial - "Defesa Nacional: entre a ambição estratégica e a realidade orçamentária"

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A construção de capacidades de defesa exige planejamento de longo prazo, continuidade dos investimentos e compromisso com a indústria nacional. No cenário das disputas eleitorais e restrições fiscais, o desafio brasileiro é transformar objetivos estratégicos em poder efetivo, sem subordinar a soberania às prioridades de cada governo.

A discussão sobre Defesa Nacional precisa ir além da aquisição de equipamentos e dos números apresentados a cada ciclo orçamentário. O verdadeiro desafio está em construir capacidades de defesa que atendam às necessidades do Brasil, evoluam diante das mudanças tecnológicas e permaneçam operacionais ao longo de décadas. Isso exige planejamento, financiamento compatível com as ambições estratégicas e continuidade das decisões, independentemente de quem esteja à frente do governo.

O desenvolvimento de um submarino, por exemplo, não se resume à construção de um casco e à instalação de seus sistemas. Para ampliar sua contribuição à vigilância da "Amazônia Azul", é necessário considerar sensores, enlaces de comunicação, sistemas de comando e controle, manutenção e treinamento das tripulações. A integração desses recursos transforma uma plataforma naval em parte de uma estrutura mais ampla de monitoramento e resposta. O mesmo princípio se aplica a aeronaves, blindados, sistemas de defesa antiaérea e meios de vigilância terrestre: o valor militar está na capacidade entregue, não apenas no equipamento adquirido.

Essa perspectiva também evidencia a importância de uma base industrial capaz de desenvolver, produzir, integrar e sustentar tecnologias estratégicas. Empresas nacionais, centros de pesquisa e instituições militares formam um ecossistema que reúne engenharia, mão de obra especializada, conhecimento acumulado e capacidade de inovação. Os efeitos ultrapassam o campo de defesa, alcançando áreas como materiais avançados, eletrônica, comunicações, automação e sistemas de controle. Entretanto, esse potencial não se consolida apenas com anúncios de encomendas ou contratos assinados. Depende de demanda previsível, financiamento regular e perspectivas concretas de continuidade.

Quando os recursos previstos não chegam no momento necessário, as consequências alcançam toda a cadeia produtiva. Fornecedores precisam rever seus planos, equipes especializadas ficam expostas à desmobilização, etapas de desenvolvimento são adiadas e os cronogramas perdem confiabilidade. A retomada pode exigir novas negociações, recomposição de equipes e custos adicionais. Em programas de longa maturação, a interrupção não representa apenas um atraso administrativo: pode significar a perda de competências que levaram anos para serem construídas.

É nesse ponto que a discussão orçamentária deixa de ser uma questão restrita à administração pública e passa a integrar o próprio planejamento estratégico nacional. Não basta definir quais capacidades o Brasil deseja possuir; é necessário estabelecer como serão financiadas, em que prazos serão entregues e quais recursos permitirão mantê-las atualizadas. A distância entre a ambição declarada e o orçamento efetivamente executado pode comprometer tanto a prontidão das Forças Armadas quanto a credibilidade do país como contratante.

A proximidade de um novo ciclo político torna essa reflexão ainda mais necessária. Na disputa pelo poder, candidatos de diferentes correntes multiplicam promessas de benefícios e medidas de forte apelo popular, mas raramente dão o mesmo destaque à conta que essas iniciativas deixarão para o Estado. Quando a realidade fiscal se impõe, investimentos estratégicos acabam sacrificados para acomodar despesas e compromissos políticos, como se a modernização das Forças Armadas, a reposição de meios e o desenvolvimento de capacidades de defesa fossem despesas que pudessem esperar indefinidamente. Não são. São necessidades permanentes de um Estado que pretende proteger seu território, seus recursos, seus interesses e principalmente, seu povo. O problema é que, tratados como adiáveis a cada ajuste orçamentário, esses investimentos acumulam atrasos, restringem a capacidade operacional e ampliam vulnerabilidades que não desaparecem quando o dinheiro acaba. O paradoxo é conhecido: enquanto os recursos são disputados para sustentar promessas eleitorais, a Defesa perde prioridade; quando uma crise expõe a insuficiência de meios, tecnologia ou prontidão, cobra-se das Forças Armadas uma resposta que o próprio Estado deixou de financiar adequadamente. A soberania não pode ser lembrada apenas quando a crise chega, nem a Defesa pode continuar pagando a conta de promessas eleitorais assistencialistas cujas consequências recaem sobre a capacidade do Brasil de proteger a si mesmo.

Não se trata de atribuir à Defesa um orçamento ilimitado ou de colocá-la acima das demais necessidades nacionais. Educação, saúde, infraestrutura e proteção social são componentes essenciais do desenvolvimento brasileiro. A questão é assegurar que as decisões fiscais considerem a Defesa como uma função permanente do Estado, cujo planejamento não pode ser reconstruído a cada eleição. A compatibilização entre as diferentes prioridades exige escolhas transparentes, metas verificáveis e uma avaliação rigorosa dos resultados obtidos com o dinheiro público.

Isso significa, também, cobrar eficiência. Programas estratégicos precisam ter objetivos claros, cronogramas realistas, mecanismos de fiscalização e indicadores que permitam verificar a evolução das entregas. A previsibilidade orçamentária deve estar associada à capacidade de execução e à prestação de contas. Proteger um programa contra mudanças arbitrárias não significa eliminar o controle público, mas evitar que decisões de curto prazo comprometam investimentos cuja maturação depende de continuidade.

O Brasil precisa, portanto, alinhar sua visão de soberania aos meios necessários para sustentá-la. Se pretende ampliar a vigilância de seu espaço marítimo, fortalecer a proteção de infraestruturas críticas, modernizar suas Forças Armadas e consolidar uma indústria de defesa competitiva, deverá tratar essas iniciativas como compromissos de Estado, com prioridades definidas e recursos compatíveis com os objetivos estabelecidos.

A soberania não se materializa em discursos, intenções ou listas de equipamentos planejados. Ela depende de capacidades disponíveis, pessoal preparado, tecnologia dominada e estruturas capazes de operar e evoluir ao longo do tempo. Para isso, o Brasil precisa superar a lógica de anunciar grandes projetos sem assegurar as condições para concluí-los.

Governos passam, mas as necessidades estratégicas do Brasil permanecem. O desafio não é proteger programas por princípio, nem garantir recursos sem exigir resultados. É construir uma política de Defesa na qual planejamento, responsabilidade fiscal, continuidade dos investimentos e desenvolvimento industrial caminhem juntos. Afinal, a ambição estratégica de uma nação só se torna poder efetivo quando existe compromisso para financiá-la e capacidade para transformá-la em realidade.

por Angelo Nicolaci


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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Ucrânia realiza primeira evacuação aeromédica de ferido por drone na linha de frente

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Operação inédita, segundo os militares ucranianos, utilizou um hexacóptero pesado adaptado para retirar um soldado de uma posição inacessível por terra

As Forças Armadas da Ucrânia anunciaram a realização da primeira evacuação aeromédica de um militar ferido diretamente da linha de frente por um drone. A operação foi conduzida por especialistas da 92ª Brigada de Assalto Separada, em coordenação com a fabricante Gurzuf Defence e outras unidades ucranianas.

O militar, integrante da 30ª Brigada Mecanizada Separada, estava em uma posição onde a retirada por terra oferecia riscos elevados. A presença de minas e drones russos impedia uma aproximação segura, levando os ucranianos a recorrer a uma plataforma aérea não tripulada para realizar o resgate.

A aeronave utilizada foi um hexacóptero pesado originalmente empregado como plataforma de ataque. O equipamento foi adaptado para transportar uma pessoa, com modificações destinadas a manter a estabilidade durante o voo. A configuração passou por testes antes de ser utilizada na operação.

A missão contou com a participação de especialistas da brigada e da fabricante, enquanto um operador da 30ª Brigada Mecanizada pilotou o equipamento. Segundo as informações divulgadas pelos militares ucranianos, o ferido sobreviveu e segue em tratamento e reabilitação.

A localização e a data exata da operação não foram divulgadas. Também não foram apresentados detalhes técnicos completos sobre o sistema de fixação do paciente ou as condições do voo.

Uma nova etapa para a evacuação médica militar

A operação foi apresentada pelas forças ucranianas como a primeira do gênero realizada diretamente da linha de frente. Embora a alegação de pioneirismo mundial ainda careça de confirmação independente, o episódio representa um novo emprego operacional de drones pesados no atendimento a baixas em combate.

A utilização dessas aeronaves amplia as opções de resgate em áreas onde veículos terrestres e equipes médicas ficam expostos ao fogo inimigo. A experiência ucraniana também demonstra como plataformas originalmente destinadas a outras funções podem ser adaptadas para apoiar as tropas.

A aplicação, contudo, exige cuidados específicos. A estabilidade da aeronave, a segurança do paciente, a autonomia, as condições meteorológicas e a vulnerabilidade à guerra eletrônica influenciam a viabilidade desse tipo de operação.

O caso amplia o horizonte de emprego dos sistemas não tripulados no campo de batalha, incorporando a retirada de feridos às missões de ataque, reconhecimento e transporte logístico.


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ATMOS avança: Exército prevê assinar contrato do lote piloto em 27 de outubro

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O Exército Brasileiro prevê assinar em 27 de outubro o contrato para a aquisição de dois obuseiros autopropulsados ATMOS 2000, de 155 mm, fabricados pela israelense Elbit Systems. As duas unidades formarão o lote piloto de um programa que prevê a aquisição de 36 sistemas de artilharia.

O GBN Defense está buscando informações junto ao Exército Brasileiro e à AEL Sistemas informações sobre a assinatura, os termos da contratação e os próximos passos do programa.

A iniciativa também prevê a participação da Avibras Aeroco na montagem dos obuseiros no Brasil. Um memorando de entendimento firmado com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit no Brasil, estabelece as bases para a participação industrial da empresa de Jacareí (SP).

A montagem local poderá ampliar a atividade industrial da Avibras e abrir espaço para fornecedores brasileiros. O alcance da nacionalização, entretanto, dependerá dos contratos e da definição das atividades que serão efetivamente executadas no País.

O programa também contempla a possibilidade de participação da Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL) na produção de munições de 155 mm. A iniciativa poderá fortalecer a cadeia nacional de suprimentos de artilharia e reduzir a dependência de fornecedores externos.

Escolhido pelo Exército em 2024, o ATMOS é um obuseiro autopropulsado sobre rodas, equipado com canhão de 155/52. O sistema combina mobilidade, direção de tiro computadorizada e capacidade de empregar munições de alcance estendido, conforme o tipo de projétil utilizado.

Após a avaliação das duas primeiras unidades, o Exército poderá avançar na aquisição das outras 34 viaturas previstas, conforme os resultados dos testes e as decisões contratuais.


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Caso Starshield expõe vulnerabilidade espacial do Brasil

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Restrições atribuídas à Casa Branca teriam afetado operações militares da Ucrânia com drones. No Brasil, limitações nas comunicações estratégicas e a ausência de capacidade nacional de lançamento orbital reforçam o desafio de ampliar a autonomia espacial.

A guerra na Ucrânia expõe uma vulnerabilidade que ultrapassa o campo de batalha: a dependência de tecnologias estrangeiras para manter capacidades militares essenciais. Segundo reportagem da Reuters, uma ordem atribuída a integrantes da Casa Branca para restringir o serviço Starshield da SpaceX, teria prejudicado operações ucranianas com drones. O episódio serve de alerta para o Brasil, que ainda enfrenta limitações na infraestrutura espacial necessária para atender às demandas de defesa e ampliar sua autonomia tecnológica.

De acordo com dois funcionários norte-americanos e um funcionário ocidental ouvidos pela Reuters, autoridades do Departamento de Defesa receberam uma orientação para limitar o serviço utilizado pelas forças ucranianas. As fontes não identificaram quem tomou a decisão nem quem ficou responsável por executá-la. Um alto funcionário ucraniano afirmou que Kiev foi informada de que a iniciativa partira da Casa Branca.

Um representante do governo norte-americano declarou, por sua vez, que o presidente Donald Trump não havia solicitado a restrição. A Casa Branca não esclareceu se outro integrante do governo determinou a medida.

A controvérsia surgiu em meio à deterioração das relações entre Washington e Kiev, marcada por divergências sobre os ataques ucranianos a refinarias russas e as negociações para encerrar a guerra. Nesse contexto, o acesso a um serviço de comunicação empregado em operações militares tornou-se parte de uma disputa política com consequências operacionais.

Restrições nas comunicações afetam drones ucranianos

Segundo autoridades ucranianas citadas pela Reuters, terminais de comunicação utilizados militarmente deixaram de funcionar quando instalados em plataformas que se deslocavam em alta velocidade. Posteriormente, uma fonte do Ministério da Defesa da Ucrânia informou que os receptores voltaram a operar em movimento, mas com um limite de 160 km/h.

As restrições teriam dificultado missões de ataque contra forças russas e alvos logísticos em territórios ocupados, além de prejudicar o emprego de drones interceptores utilizados contra aeronaves não tripuladas russas do tipo Shahed.

A conexão por satélite pode permitir a transmissão de comandos, o envio de informações e a coordenação entre operadores e unidades militares. Quando esse enlace é limitado, determinadas plataformas podem perder flexibilidade operacional ou precisar recorrer a meios alternativos.

O efeito, entretanto, varia conforme a arquitetura de cada sistema. Nem todos os drones dependem exclusivamente de uma conexão contínua: autonomia embarcada, navegação independente e outros enlaces podem permitir a continuidade de determinadas missões. A reportagem indica dificuldades operacionais, mas não estabelece que toda a frota ucraniana tenha ficado inutilizada.

O episódio demonstra, ainda assim, como uma alteração na disponibilidade de um serviço externo pode repercutir diretamente no emprego de sistemas militares.

Starshield: quem controla a infraestrutura?

Embora compartilhem uma base tecnológica, Starlink e Starshield são serviços distintos. O Starlink é a rede comercial de conectividade por satélite da SpaceX. O Starshield foi desenvolvido para atender a clientes governamentais e de segurança nacional, com aplicações específicas de defesa e inteligência, utilizando a constelação Starlink como infraestrutura de base.

Segundo a Reuters, o Pentágono investiu bilhões de dólares nos serviços Starlink e Starshield e adquiriu satélites dedicados a missões de comunicação e reconhecimento.

Elon Musk afirmou que os sistemas Starshield pertencem ao governo dos Estados Unidos e são controlados por ele. Segundo o empresário, eventuais restrições de velocidade ou utilização cabem aos militares norte-americanos ou ao presidente. A SpaceX não respondeu ao pedido de comentário da Reuters sobre a medida relatada.

A questão estratégica não está apenas na origem da tecnologia, mas nas condições de acesso a ela. Quando um país depende de uma infraestrutura cuja utilização pode ser limitada por decisões tomadas no exterior, parte de sua capacidade operacional fica sujeita a fatores que não controla.

Brasil: limitações nas comunicações estratégicas

A situação brasileira apresenta diferenças importantes em relação à ucraniana, mas revela um desafio semelhante: como garantir a continuidade das comunicações militares quando a infraestrutura disponível é insuficiente ou depende de capacidades externas?

Com dimensões continentais, extensas fronteiras terrestres, a Amazônia e uma vasta área marítima sob jurisdição nacional, o Brasil precisa de comunicações seguras e confiáveis mesmo em regiões remotas, onde as redes terrestres têm cobertura limitada.

O país dispõe do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC-1), lançado em 2017. O equipamento oferece capacidade de comunicação em banda X, destinada às aplicações estratégicas de defesa, e em banda Ka, voltada aos serviços de telecomunicações. Sua existência representa um ativo importante, mas não elimina a necessidade de ampliar a capacidade disponível e estabelecer alternativas para situações de elevada demanda ou indisponibilidade.

A Agência Espacial Brasileira mantém registros de satélites nacionais em operação e de missões desenvolvidas em cooperação internacional. O Brasil, contudo, ainda depende de veículos lançadores estrangeiros para colocar satélites em órbita.

A limitação das comunicações militares foi explicitada em setembro de 2026 pelo brigadeiro do ar Sandro Bernardon, chefe do Centro de Operações Espaciais da Força Aérea Brasileira. Segundo o oficial, a capacidade de comunicações por satélite disponível é insuficiente para as necessidades da defesa. Durante a Operação Atlas, realizada na Amazônia em 2025, a utilização da banda X do SGDC-1 chegou a 97%, conforme as informações divulgadas sobre a operação.

Esse nível de utilização evidencia a pressão sobre um recurso estratégico. Em uma situação de crise, o aumento simultâneo da demanda por diferentes unidades pode exigir capacidade adicional para manter as comunicações e assegurar o fluxo de informações entre os escalões de comando.

O desafio, portanto, não é apenas possuir um satélite, mas contar com capacidade suficiente, redundância e alternativas para preservar as comunicações quando a demanda aumenta ou algum componente deixa de funcionar.

Desenvolvimento nacional e capacidade de lançamento

A experiência ucraniana reforça a importância de investimentos contínuos no Programa Espacial Brasileiro. A ampliação da autonomia exige desenvolver e operar novos satélites, fortalecer a indústria nacional, dominar tecnologias críticas e expandir a infraestrutura terrestre necessária ao controle e à utilização desses sistemas.

Outro componente estratégico é o acesso autônomo ao espaço. O Brasil dispõe de dois centros de lançamento: Alcântara no Maranhão, e Barreira do Inferno no Rio Grande do Norte. Embora o país desenvolva e opere satélites próprios, ainda não conta com um veículo lançador nacional operacional capaz de colocá-los em órbita. O desenvolvimento dessa capacidade permanece um desafio estratégico para ampliar a autonomia espacial brasileira.

Isso não significa que todos os satélites devam ser lançados exclusivamente por foguetes brasileiros. A contratação de serviços estrangeiros pode continuar sendo necessária e vantajosa. A questão é desenvolver uma alternativa nacional que amplie as opções de acesso ao espaço, reduza vulnerabilidades e permita maior controle sobre o planejamento e a reposição de ativos estratégicos.

A continuidade dos investimentos também é essencial para consolidar competências industriais, formar especialistas e garantir que projetos de longo prazo avancem até se transformarem em capacidades efetivamente disponíveis. Interrupções prolongadas podem comprometer a manutenção do conhecimento tecnológico e elevar a dependência de fornecedores externos.

O uso dual amplia o alcance do programa espacial

Os investimentos espaciais não precisam atender exclusivamente às Forças Armadas. Satélites de uso dual podem apoiar comunicações governamentais, monitoramento ambiental, vigilância de fronteiras, acompanhamento marítimo e resposta a desastres, além de cumprir requisitos específicos de defesa.

Essa integração amplia a utilidade dos recursos públicos e contribui para sustentar uma cadeia industrial nacional capaz de desenvolver equipamentos, componentes, sistemas de controle e aplicações. Para isso, os requisitos militares de segurança, disponibilidade e resistência a interferências precisam ser considerados desde a concepção dos projetos.

O objetivo não é eliminar toda dependência internacional, mas assegurar que o Brasil tenha alternativas para manter suas capacidades essenciais quando um fornecedor externo deixar de atender às necessidades nacionais.

Um alerta estratégico para Brasília

O caso ucraniano mostra que a dependência de serviços espaciais estrangeiros pode se transformar em vulnerabilidade operacional quando o acesso à infraestrutura é condicionado por decisões externas. Para o Brasil, as limitações identificadas nas comunicações estratégicas reforçam a importância de tratar o programa espacial como parte integrante da capacidade de defesa.

Ampliar os investimentos em satélites de uso dual, fortalecer a indústria nacional e desenvolver capacidade própria de lançamento orbital são medidas que podem reduzir essa exposição e ampliar a autonomia tecnológica brasileira. Isso exige planejamento de longo prazo, continuidade orçamentária e integração entre as necessidades civis e militares.

Para um país de dimensões continentais, dominar tecnologias espaciais críticas significa ampliar a capacidade de proteger seu território, sustentar operações e preservar a liberdade de ação em situações de crise.


por Angelo Nicolaci


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