quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Marinha emprega NAM Atlântico e Fragatas Tamandaré e União na Elevação do Rio Grande

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Operação Sentinela marcou a primeira presença do navio-capitânia da Esquadra na região, combinando vigilância, adestramento e apoio à pesquisa científica

A Marinha do Brasil empregou o Navio-Aeródromo Multipropósito (NAM) Atlântico e as Fragatas Tamandaré e União na Operação Sentinela, realizada entre 26 de agosto e 1º de setembro na Elevação do Rio Grande (ERG). Foi a primeira ação de presença do NAM Atlântico na região, reunindo meios de diferentes gerações em uma comissão que combinou atividades operativas, adestramento, operações aéreas e apoio à pesquisa científica.

As Fragatas Tamandaré e União haviam participado recentemente da Operação Fraterno XXXIX, realizada entre Brasil e Argentina, uma comissão que ampliou a interoperabilidade entre as duas Marinhas e marcou a primeira participação da Tamandaré em águas internacionais.

Na Sentinela, o Atlântico exerceu sua função de capitânia da Esquadra e plataforma de comando e aviação. Os helicópteros SH-16 Seahawk e AH-11B Super Lynx realizaram operações de esclarecimento, ampliando a capacidade de vigilância da força. Também foram realizados adestramentos com o AH-11B e Mergulhadores de Combate, incluindo uma atividade de Fast Rope.

A presença naval foi acompanhada por uma componente científica. Cerca de 40 aspirantes da Escola Naval e 15 pesquisadores de seis instituições brasileiras participaram da comissão, integrando atividades de formação e pesquisa ao emprego operacional da força.

A Elevação do Rio Grande ocupa mais de 900 mil quilômetros quadrados no Atlântico Sul e, em determinados pontos, encontra-se a aproximadamente 1.200 quilômetros do litoral brasileiro. Sua relevância está associada não apenas à posição geográfica, mas também ao potencial científico e mineral da região e aos estudos relacionados à extensão da plataforma continental brasileira.

Nesse ambiente, a presença naval possui uma função que ultrapassa a vigilância convencional. A capacidade de chegar, permanecer e operar em áreas distantes do litoral contribui para o conhecimento do espaço marítimo, apoia atividades científicas e demonstra a capacidade do Estado brasileiro de exercer presença em uma região vinculada a interesses estratégicos de longo prazo.

A Operação Sentinela também oferece uma perspectiva sobre a própria evolução da Esquadra. A integração entre o Atlântico, a nova Fragata Tamandaré e a União evidencia uma força em processo de transição tecnológica, na qual plataformas de gerações distintas precisam permanecer operacionais enquanto os novos meios são incorporados.

Essa transição ganha maior relevância diante da dimensão da Amazônia Azul, que alcança aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados. Cobrir esse espaço exige mais do que plataformas tecnologicamente avançadas: requer quantidade, disponibilidade e capacidade de manter diferentes tipos de meios empregados de forma simultânea e contínua.

A construção das quatro Fragatas Classe Tamandaré representam um avanço significativo nesse processo, mas não encerram a necessidade de renovação. A continuidade do programa, por meio do segundo lote, é importante para preservar capacidade industrial, evitar descontinuidades na construção naval e ampliar a disponibilidade de escoltas modernas. Da mesma forma, permanece necessária a evolução de futuros programas para fragatas de maior capacidade, além da renovação dos navios-patrulha oceânicos e de outros meios essenciais à presença marítima. Esse planejamento depende de uma variável que vai além da escolha dos sistemas e plataformas: previsibilidade orçamentária.

Programas navais possuem ciclos longos e exigem investimentos continuados. A indústria precisa de demanda previsível para manter capacidade produtiva, qualificar mão de obra e estruturar sua cadeia de fornecedores, enquanto a Marinha necessita de horizonte suficiente para programar a substituição dos meios antes que a perda de disponibilidade se transforme em uma lacuna operacional.

A experiência da Operação Sentinela demonstra que o Brasil possui capacidade para projetar uma força naval até uma área distante e estratégica do Atlântico Sul, empregando simultaneamente navios, aeronaves, pessoal especializado e pesquisadores. O desafio está em transformar essa capacidade em uma condição permanente.

Para isso, a renovação da Esquadra precisa avançar de forma contínua, sustentada por recursos compatíveis com as responsabilidades marítimas do País e por decisões tomadas com horizonte de longo prazo. Mais do que incorporar novos navios, trata-se de assegurar que a Marinha tenha meios suficientes e disponíveis para estar presente onde os interesses brasileiros exigirem hoje e nas próximas décadas.


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Comitiva do Governo do Piauí conhece capacidades do HARPIA e soluções da ADTECH-SD

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A ADTECH-SD recebeu no último dia 26 de agosto, uma comitiva do Governo do Estado do Piauí, liderada pelo secretário de Segurança Pública, Antonio Luiz Soares Santos, e integrada pelo comandante-geral da Polícia Militar do Piauí, coronel Scheiwann Lopes, e pelo coronel Gomes, da Secretaria de Segurança Pública daquele estado. A delegação esteve na empresa para conhecer as capacidades e soluções desenvolvidas pela ADTECH-SD nas áreas de monitoramento, inteligência, segurança pública, meio ambiente e defesa civil.

A visita ocorreu em duas etapas. Inicialmente, a delegação esteve no Centro de Treinamento e Avaliações da ADTECH-SD, em Jacareí (SP), onde acompanhou uma demonstração de voo do Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP) HARPIA.

Durante a atividade, a comitiva pôde conhecer de perto as características e capacidades da Aeronave, desenvolvida para missões que exigem monitoramento persistente, ampla cobertura territorial e obtenção de informações em tempo real. A demonstração chamou a atenção da delegação que busca novas soluções tecnológicas para ampliar as capacidades do Estado do Piauí nas áreas de monitoramento, inteligência e segurança pública.

Na sequência, a comitiva seguiu para a sede da ADTECH-SD, em São José dos Campos (SP), onde conheceu os laboratórios de pesquisa e desenvolvimento da empresa, a linha de produção do Harpia e outras soluções desenvolvidas para os setores de Defesa e Segurança.


Uma solução nacional para desafios da segurança pública

O Harpia vem sendo empregado pelos estados do Amazonas e do Acre, representando um importante avanço tecnológico na incorporação de sistemas remotamente pilotados para apoio às atividades de segurança pública, monitoramento territorial e proteção ambiental.

Desenvolvido e produzido no Brasil, o sistema alia elevada capacidade operacional com um baixo custo de operação, oferecendo uma alternativa capaz de ampliar significativamente a persistência e a cobertura das missões quando comparada ao emprego contínuo de aeronaves tripuladas.

O Harpia é o único SARP nacional em sua categoria homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e vem demonstrando, na prática, resultados operacionais no apoio às forças de segurança e às atividades de monitoramento ambiental.


Além dessas aplicações, a plataforma também vem demonstrando sua versatilidade no apoio às ações de Defesa Civil. No Acre, o sistema foi empregado durante o período de enchentes e no monitoramento de áreas atingidas por alagamentos, contribuindo para a identificação de regiões críticas, a avaliação da extensão das áreas afetadas e o planejamento das ações de resposta.

A experiência reforçou uma das principais características do Harpia: sua capacidade de permanecer em operação por longos períodos, cobrindo grandes extensões territoriais e fornecendo informações em tempo real para apoiar a tomada de decisão, especialmente em situações nas quais o acesso terrestre é limitado ou o emprego contínuo de aeronaves tripuladas representa custos operacionais mais elevados.

Piauí busca novas capacidades

A visita da comitiva liderada pelo secretário Antonio Luiz Soares Santos insere o Piauí entre os estados que buscam avaliar novas ferramentas tecnológicas para fortalecer suas capacidades de monitoramento, inteligência e segurança pública.

Ao conhecer a estrutura da ADTECH-SD e acompanhar a demonstração operacional do Harpia, a delegação teve a oportunidade de observar não apenas as capacidades da plataforma, mas também o conjunto de competências nacionais envolvidas em seu desenvolvimento, produção, operação e suporte.

Com experiências operacionais já acumuladas no Amazonas e no Acre, o Harpia segue despertando o interesse de instituições que enfrentam o desafio de monitorar grandes áreas e necessitam de meios capazes de combinar autonomia, persistência, eficiência operacional e baixo custo.

Para o Piauí, a visita representa mais um passo na busca por soluções capazes de ampliar suas capacidades tecnológicas e operacionais. Para a ADTECH-SD, reforça o potencial de uma solução nacional desenvolvida para atender às demandas brasileiras de segurança pública, proteção ambiental, monitoramento territorial e resposta a desastres.

Sobre a ADTECH-SD

A Advanced Technologies Security & Defense (ADTECH-SD) é uma empresa brasileira, reconhecida pelo Ministério da Defesa como Empresa Estratégica de Defesa (EED), especializada no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta performance para segurança pública, defesa territorial e monitoramento estratégico.

Com sede em São José dos Campos (SP), a empresa reúne profissionais com décadas de experiência no setor aeronáutico e atua no desenvolvimento e operação de sistemas avançados de aeronaves não tripuladas, além de soluções integradas de vigilância e inteligência. Seus sistemas são concebidos com foco em alta autonomia, modularidade e adaptabilidade, atendendo às demandas de missões críticas em ambientes complexos e de elevada exigência operacional.

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Centauro II e Cascavel NG: Exército estrutura nova composição para a Cavalaria sobre rodas

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A incorporação do Centauro II BR ao Exército Brasileiro não representa uma substituição imediata de toda a frota de EE-9 Cascavel. O planejamento apresentado pelo Comandante Logístico, General de Exército Ribeiro, aponta para uma transição gradual, na qual a nova Viatura Blindada de Combate de Cavalaria Multipropósito Sobre Rodas 8x8 (VBC Cav-MSR 8x8) passará a operar ao lado de meios modernizados, formando uma estrutura de capacidades complementares.

Durante a coletiva realizada após a assinatura do contrato do Lote de Experimentação Doutrinária, o General Ribeiro confirmou que o planejamento atual do Exército contempla uma frota de 98 Centauro II BR. A quantidade deve ser alcançada progressivamente, dentro de um programa de longo prazo, e não corresponde a uma substituição imediata de todos os veículos de Cavalaria atualmente empregados pela Força Terrestre.

A dimensão temporal é relevante. A incorporação do Centauro II ocorrerá em etapas, permitindo que o Exército acompanhe a formação das tripulações, a adaptação das estruturas de manutenção, a consolidação da logística e, principalmente, a experimentação da nova plataforma antes da expansão da capacidade para outras organizações militares.

Nesse intervalo, o Cascavel continuará tendo papel importante. O Exército mantém um programa de modernização do EE-9, incorporando novos sistemas e atualizando seus recursos para ampliar sua permanência operacional. O planejamento do Programa Estratégico Forças Blindadas prevê a modernização de 98 Cascavéis, em paralelo à aquisição dos 98 Centauro II.

É importante destacar que esses 98 Cascavéis não representam toda a frota existente do Exército, mas a quantidade atualmente prevista para receber a atualização tecnológica. A modernização ocorre de forma progressiva e busca preservar uma parcela da capacidade existente enquanto a nova geração de viaturas de Cavalaria é incorporada.

A modernização do Cascavel vai muito além de uma simples recuperação mecânica. O programa conduzido pela indústria brasileira incorpora uma nova motorização e atualizações em sistemas como transmissão, suspensão, freios e arrefecimento, além de sistema central de enchimento dos pneus, ar-condicionado e melhorias na torre. O conjunto permite recuperar a mobilidade e ampliar a disponibilidade operacional da plataforma.

A transformação mais significativa, porém, está na arquitetura eletrônica. Os Cascavéis modernizados recebem novos sistemas optrônicos para comandante e atirador, substituindo as antigas soluções ópticas e ampliando a capacidade de observação, identificação e pontaria em diferentes condições de iluminação.

A modernização também incorpora um novo computador de tiro, responsável pelos cálculos balísticos, além de um sistema de comando e controle capaz de processar informações dos sensores e do ambiente operacional em tempo real. O motorista passa a contar ainda com um sistema digital de visão baseado em câmeras, proporcionando consciência situacional de 360 graus e capacidade de operação noturna.

Os novos sistemas de comunicação e navegação completam essa transformação, inserindo o Cascavel em uma arquitetura muito mais conectada do que aquela existente em sua configuração original. Dessa forma, embora mantenha a estrutura básica de uma plataforma concebida há décadas, o veículo passa a contar com recursos eletrônicos compatíveis com as exigências do teatro de operações contemporâneo.

Na prática, isso significa que o projeto não se limita a prolongar a vida mecânica de uma viatura concebida nos anos 1970. A proposta é transformar o EE-9 em uma plataforma capaz de operar dentro de um ambiente de combate no qual sensores, comunicação, consciência situacional e integração de informações passaram a ter papel tão importante quanto o próprio armamento.

Outro avanço importante está no armamento. A modernização prevê a instalação de um lançador de míssil anticarro na torre principal, e o desenvolvimento do Cascavel NG demonstrou a integração do MAX 1.2 AC, desenvolvido pela SIATT. A solução acrescenta ao veículo uma capacidade de enfrentamento de ameaças blindadas que vai além do emprego isolado do canhão de 90 mm.

A integração do MAX 1.2 AC também demonstra como a modernização do Cascavel está associada ao desenvolvimento de uma cadeia nacional de tecnologias de defesa. Os sistemas optrônicos desenvolvidos pela Opto Space & Defense, empresa do Grupo AKAER, fazem parte dessa arquitetura tecnológica, contribuindo para elevar a capacidade de detecção, identificação e engajamento da viatura.

A lógica é diferente daquela de uma simples substituição de frota. O Centauro II introduz uma plataforma 8x8 com canhão de 120 mm, maior capacidade de aquisição e engajamento de alvos e uma arquitetura digital mais avançada. O Cascavel modernizado, por sua vez, permanece como um meio de reconhecimento e combate sobre rodas, mas atualizado para continuar relevante dentro das capacidades disponíveis ao Exército.

O Centauro II representa o salto qualitativo da Cavalaria brasileira. Com configuração 8x8, a viatura é equipada com a torre HITFACT MkII, desenvolvida pela Leonardo, e armada com o canhão de 120/45 mm de alma lisa. Trata-se de uma torre estabilizada e digitalizada, projetada para permitir o emprego do armamento em movimento, com elevada precisão e capacidade de engajamento em diferentes condições operacionais.

A capacidade de combate do Centauro II, porém, não está concentrada apenas no calibre de seu canhão. A torre HITFACT MkII integra uma arquitetura de sensores, controle de tiro, comunicações e gerenciamento do campo de batalha que coloca a viatura em outro patamar tecnológico. O comandante conta com o sistema panorâmico ATTILA D, capaz de realizar observação independente da torre em 360 graus, com imagem estabilizada, câmeras diurnas e térmicas de alta resolução e telêmetro laser. Já o atirador dispõe do sistema LOTHAR SD, com visão térmica, telêmetro laser, rastreamento automático de alvos e cálculo balístico digital.

Essa configuração permite ao Centauro II detectar, identificar, acompanhar e engajar alvos de forma muito mais rápida e precisa. O comandante pode pesquisar o campo de batalha independentemente da direção apontada pela torre, enquanto o sistema de controle de tiro fornece ao atirador os dados necessários para realizar o engajamento, inclusive contra alvos móveis e durante o deslocamento da viatura.

Outro elemento fundamental é a arquitetura de comunicações e comando e controle. A HITFACT MkII foi concebida com sistemas de comunicação e gerenciamento do campo de batalha, além de intercomunicador digital, permitindo que a viatura opere integrada a uma estrutura de combate em rede. Dessa forma, as informações obtidas pelos sensores podem ser transformadas em consciência situacional e compartilhadas dentro da estrutura operacional.

A proteção também representa uma mudança significativa em relação ao Cascavel. O Centauro II possui arquitetura de proteção balística modular, proteção contra minas e dispositivos explosivos improvisados, além de soluções destinadas a aumentar a sobrevivência da guarnição. A plataforma também incorpora sistemas de alerta laser e recursos destinados a ampliar a proteção da tripulação diante de diferentes ameaças.

A mobilidade completa esse conjunto. A configuração 8x8, associada ao conjunto motriz, transmissão, suspensão e sistemas de controle, permite ao Centauro II combinar elevada mobilidade tática com um poder de fogo tradicionalmente associado a plataformas de maior porte. Essa característica é particularmente importante para uma Força que precisa deslocar seus meios rapidamente por grandes distâncias e operar em diferentes regiões do território nacional.

O Centauro II, portanto, não deve ser compreendido apenas como um Cascavel de maior calibre. Ele representa uma mudança de arquitetura de combate. Seu poder de fogo, sensores, controle de tiro, proteção, comunicações e capacidade de operar em rede formam um sistema integrado, no qual a viatura deixa de ser apenas uma plataforma de armas e passa a funcionar como um nó de combate conectado ao restante da força.

É justamente nessa diferença de capacidades que está a lógica para a manutenção simultânea dos dois veículos.

O Cascavel modernizado terá outra função dentro dessa estrutura. Sua atualização permitirá que continue desempenhando missões de reconhecimento, segurança, patrulhamento e combate, explorando sua mobilidade e incorporando sensores, comunicações e armamento anticarro mais modernos. Em determinadas situações, poderá atuar como elemento de reconhecimento e vigilância, contribuindo para localizar e acompanhar ameaças, enquanto o Centauro II empregará sua maior proteção, poder de fogo e capacidade de aquisição e engajamento de alvos nos momentos em que essas características forem determinantes.

Essa composição permite ao Exército distribuir suas plataformas de acordo com as necessidades de cada organização militar e com as características das missões. O Centauro II concentra maior poder de fogo, proteção e capacidade tecnológica, enquanto os Cascavéis modernizados podem continuar sendo empregados em quantidade relevante, complementando a nova frota.

A estratégia também reduz o risco de uma ruptura operacional durante a renovação da Cavalaria. Em vez de retirar uma grande quantidade de veículos antigos antes que exista uma quantidade suficiente de novos sistemas plenamente incorporados, a Força Terrestre pode conduzir a transição progressivamente, mantendo capacidade disponível enquanto desenvolve a nova estrutura.

Há, porém, uma dimensão doutrinária ainda mais importante nessa decisão. A manutenção simultânea das duas plataformas não significa apenas administrar uma frota de veículos de diferentes gerações. Ela permite que o Exército construa uma nova forma de emprego da Cavalaria sem precisar abandonar imediatamente uma capacidade que ainda pode ser relevante após sua modernização.

O Centauro II passa a ocupar o espaço de maior capacidade dentro dessa estrutura, especialmente nas missões que exigem maior proteção, poder de fogo, alcance de detecção e capacidade de engajamento. O Cascavel modernizado, por sua vez, poderá cumprir tarefas nas quais sua mobilidade, menor porte, quantidade disponível e novos recursos de sensores, comunicação e capacidade anticarro sejam suficientes ou vantajosos.

Essa diferenciação é importante porque o Cascavel modernizado não pretende se transformar em um Centauro II. A modernização busca justamente preservar a utilidade operacional de uma plataforma existente, enquanto o Centauro II introduz uma nova geração de capacidades. As duas viaturas passam, portanto, a ocupar posições diferentes dentro de uma mesma arquitetura de Cavalaria.

O modelo está alinhado ao próprio desenho do Programa Forças Blindadas, que combina aquisição de novas plataformas com a modernização de meios já existentes. O programa contempla simultaneamente o Centauro II e a modernização dos Cascavéis, permitindo que a renovação das capacidades da Força Terrestre seja realizada de maneira progressiva.

Há ainda um aspecto de planejamento de longo prazo que merece atenção. O projeto de modernização estabelece que os Cascavéis modernizados deverão permanecer em serviço por pelo menos 15 anos após a entrega da última viatura modernizada. Esse horizonte coloca a modernização em uma perspectiva muito mais ampla do que simplesmente preencher o período de transição até a chegada dos Centauro II.

Na prática, significa que os dois sistemas deverão conviver por um período prolongado. Enquanto os 98 Centauro II forem incorporados progressivamente, os Cascavéis modernizados continuarão ativos e integrados à estrutura operacional do Exército, permitindo que a Força desenvolva sua doutrina, forme pessoal, consolide a logística e explore as diferentes possibilidades de emprego das duas plataformas.

Esse período de coexistência também poderá produzir um efeito importante sobre o futuro da Cavalaria brasileira. Quando os últimos Cascavéis modernizados se aproximarem do final de sua vida útil, o Exército já terá acumulado anos de experiência operacional com o Centauro II e poderá avaliar de maneira mais precisa quais capacidades serão necessárias para a próxima geração de viaturas de Cavalaria.

Nesse cenário, embora não exista hoje uma decisão estabelecida nesse sentido, poderá surgir no futuro a necessidade de um novo programa de obtenção para substituir os Cascavéis modernizados quando eles chegarem ao fim de sua vida operacional. Esse eventual programa poderá aproveitar a experiência acumulada com o Centauro II para definir os requisitos tecnológicos e doutrinários de uma futura geração de viaturas de Cavalaria.

A perspectiva cria um ciclo de renovação no qual a modernização dos Cascavéis garante capacidade operacional no médio e longo prazo, enquanto a incorporação dos Centauro II permite ao Exército desenvolver uma nova doutrina e consolidar uma arquitetura de combate mais conectada, protegida e letal.

A incorporação da nova plataforma, portanto, não se encerra simplesmente com a entrega das 98 unidades. O Exército terá pela frente um processo de formação de pessoal, consolidação da cadeia logística, desenvolvimento doutrinário e experiência operacional que poderá influenciar decisões futuras sobre a Cavalaria.

Também existe uma dimensão econômica. A aquisição de 98 Centauro II representa um investimento elevado e sua incorporação ocorrerá ao longo de vários anos. Manter 98 Cascavéis modernizados permite distribuir os investimentos ao longo do tempo, evitando que toda a capacidade da Cavalaria dependa da rápida substituição de uma plataforma por outra.

O próprio conceito de modernização do Cascavel reforça essa estratégia. O objetivo não é transformar o EE-9 em um equivalente ao Centauro II, mas ampliar sua utilidade operacional enquanto a nova geração de viaturas é incorporada. São projetos com níveis tecnológicos e capacidades diferentes, destinados a desempenhar funções que podem se complementar dentro da mesma estrutura.

Nesse cenário, o Centauro II deve ser entendido como parte de uma transformação mais ampla da Cavalaria brasileira. A Força Terrestre não está apenas adquirindo uma nova viatura, mas reorganizando progressivamente sua capacidade de reconhecimento e combate sobre rodas, combinando novos sistemas com a extensão da vida operacional de plataformas existentes.

Ao final do ciclo de vida dos Cascavéis modernizados, o Exército poderá então decidir se será necessário um novo programa para substituí-los e qual plataforma melhor atenderá às necessidades daquele momento. Essa decisão poderá ocorrer em um ambiente tecnológico muito diferente do atual, com maior integração entre viaturas tripuladas e não tripuladas, sensores distribuídos, sistemas de proteção mais avançados e uma arquitetura de comando e controle ainda mais integrada.

O ponto central, portanto, não está apenas no número de 98 Centauro II ou de 98 Cascavéis modernizados, mas na forma como o Exército pretende utilizar o tempo para transformar sua Cavalaria. A coexistência das duas plataformas cria uma janela para experimentar novos conceitos de emprego, avaliar a integração entre sensores, sistemas de comando e controle e meios não tripulados, além de identificar quais capacidades realmente produzem vantagem no campo de batalha.

Essa experiência terá valor para além do atual programa. O emprego continuado do Centauro II permitirá ao Exército medir, na prática, o impacto de uma viatura de maior poder de fogo, proteção e consciência situacional sobre a organização e o emprego das unidades de Cavalaria. Ao mesmo tempo, os Cascavéis modernizados servirão como referência para avaliar até onde uma plataforma de geração anterior, atualizada com tecnologia nacional, consegue permanecer eficiente diante da evolução das ameaças.

É nesse processo que estará o verdadeiro resultado do programa. Mais do que entregar uma nova viatura ou prolongar a vida de outra, o Exército estará produzindo conhecimento operacional para definir a Cavalaria das próximas décadas. Quando chegar o momento de substituir os Cascavéis modernizados, a decisão não deverá partir apenas da necessidade de adquirir um novo veículo, mas de uma experiência acumulada sobre quais níveis de proteção, poder de fogo, sensores, mobilidade, conectividade e integração em rede serão efetivamente necessários. O Centauro II, nesse sentido, não representa apenas o próximo passo da Cavalaria brasileira, mas também uma referência para definir o que virá depois dele.


Por Angelo Nicolaci


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terça-feira, 1 de setembro de 2026

30 de agosto: a guerra pela independência que transformou a história da Türkiye

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Há 104 anos, em 30 de agosto de 1922, a história da Türkiye chegava a um dos seus momentos decisivos. Em Dumlupınar, na Anatólia Ocidental, o Exército Nacional Turco, sob o comando de Mustafa Kemal Atatürk, derrotava decisivamente as forças gregas na batalha que encerraria a principal fase militar da Guerra de Independência e abriria definitivamente o caminho para a formação da República da Türkiye.

Hoje celebrado como Zafer Bayramı (Dia da Vitória), e também como o Dia das Forças Armadas da Türkiye, o 30 de agosto não pode ser compreendido apenas como uma data militar. Para entender o significado daquela vitória é necessário voltar alguns anos, ao fim da Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano estava derrotado, profundamente enfraquecido e submetido à ocupação das potências vencedoras.

O Império Otomano havia entrado na Primeira Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais e saído do conflito em situação de extrema fragilidade. Depois de anos de combate em diferentes frentes, seu exército estava exaurido, com enormes perdas entre soldados e oficiais, escassez de recursos e milhares de homens mortos, feridos, desaparecidos, capturados ou incapazes de retornar ao serviço. A derrota militar também havia deixado o Estado otomano politicamente vulnerável diante dos vencedores, que passaram a disputar entre si a definição do futuro de seus territórios.

O Armistício de Mudros, assinado em outubro de 1918, abriu caminho para a ocupação de pontos estratégicos do antigo império. Istambul, a capital imperial, foi ocupada pelas forças Aliadas, inicialmente com a entrada de tropas britânicas, francesas e italianas, e posteriormente submetida a um controle ainda mais direto. Em março de 1920, os britânicos realizaram uma ocupação mais severa da capital, prendendo parlamentares e nacionalistas e deixando evidente que a soberania do governo otomano sobre o próprio território estava profundamente limitada.

Enquanto Istambul permanecia sob ocupação, a Anatólia também começava a ser dividida entre diferentes forças estrangeiras. No sul, tropas francesas avançaram sobre a Cilícia e estabeleceram uma importante zona de ocupação, entrando em confronto com forças nacionalistas turcas. Os italianos, por sua vez, ocuparam áreas no sudoeste da Anatólia, incluindo Antalya, embora sua posição fosse diferente da francesa e britânica e tenha mudado rapidamente diante das disputas entre os próprios Aliados sobre a divisão do território otomano.

O episódio que alteraria definitivamente o equilíbrio da situação ocorreu em 15 de maio de 1919, quando tropas gregas desembarcaram em İzmir, com autorização das potências Aliadas. A ocupação grega abriu uma nova frente de conflito e foi acompanhada pelo avanço das forças gregas para o interior da Anatólia. A partir daquele momento, o movimento nacionalista turco passou a enfrentar não apenas a questão política da ocupação, mas uma ameaça militar concreta à própria continuidade de um território turco na Anatólia.

Foi nesse cenário que Mustafa Kemal chegou a Samsun, em 19 de maio de 1919. A viagem, oficialmente vinculada a uma missão de inspeção e reorganização da situação militar, transformou-se no ponto de partida de uma nova etapa da história. Mustafa Kemal e seus aliados passaram a organizar uma resistência nacional que não aceitava que o futuro da Anatólia fosse determinado pelas potências estrangeiras ou por um governo imperial submetido à pressão dos ocupantes.

O movimento ganhou estrutura política com a criação da Grande Assembleia Nacional de Ancara em 1920. Ao mesmo tempo, as forças nacionalistas precisavam transformar os remanescentes do aparato militar otomano, grupos locais de resistência e novos contingentes mobilizados compondo uma força capaz de enfrentar exércitos regulares. Era uma tarefa particularmente difícil porque a população vinha de anos consecutivos de guerra e o país não possuía os recursos materiais dos seus adversários.

A Guerra de Independência, portanto, não nasceu em condições normais. A sociedade que Mustafa Kemal precisava mobilizar era uma sociedade que já havia atravessado as guerras balcânicas e a Primeira Guerra Mundial e que havia perdido uma parcela enorme de sua população masculina em idade militar. Em muitas localidades, praticamente todos os homens aptos haviam sido enviados para os diferentes fronts ao longo dos anos anteriores. Nas aldeias, ficaram principalmente mulheres, crianças, idosos e aqueles que, por idade ou limitações físicas, não tinham condições de combater.

É nesse ponto que a dimensão humana da guerra se torna essencial para compreender a vitória. A resistência não foi sustentada apenas pelos homens que chegaram às fileiras do Exército Nacional. As mulheres assumiram tarefas que antes estavam concentradas nos homens mobilizados, cuidando das famílias, produzindo alimentos, transportando munições, suprimentos e mantendo funcionando uma retaguarda que precisava alimentar e equipar o front. Algumas também participaram diretamente dos combates e se tornaram figuras conhecidas da memória nacional, como Kara Fatma, Tayyar Rahmiye e Gördesli Makbule.

A participação de jovens e adolescentes também precisa ser compreendida dentro desse contexto de mobilização extrema. Estudos sobre os últimos anos do Império Otomano registram a presença de adolescentes de 15 e 16 anos nas fileiras mobilizadas durante a Primeira Guerra Mundial. Na Guerra de Independência, jovens e crianças participaram de diferentes formas do esforço nacional, especialmente nas atividades de apoio e logística. Em uma sociedade na qual grande parte dos homens adultos estava no front, a guerra inevitavelmente alcançou todas as gerações.

Para muitas aldeias da Anatólia, isso significava que praticamente toda a comunidade estava envolvida no conflito. Os homens partiam para a guerra, enquanto mulheres e jovens assumiam a sobrevivência cotidiana das famílias e contribuíam para manter o fluxo de alimentos, equipamentos e munições. Muitas dessas comunidades viram seus homens partir e receberam de volta apenas uma pequena parcela deles. A independência, portanto, não foi construída apenas nos campos de batalha, mas também em milhares de comunidades que suportaram durante anos o peso humano da mobilização.

Militarmente, entretanto, a resistência precisava superar uma dificuldade ainda maior: transformar essa mobilização social em força organizada. Mustafa Kemal compreendeu que não bastava possuir combatentes dispostos a lutar. Era necessário estabelecer comando, disciplina, logística, capacidade de concentração de forças e uma estrutura política capaz de sustentar uma guerra prolongada. Ao longo de 1920 e 1921, o Exército Nacional foi progressivamente consolidado, enquanto os nacionalistas enfrentavam diferentes adversários e buscavam estabilizar suas linhas.

A Grécia tornou-se o principal adversário militar na Anatólia Ocidental. O avanço grego chegou a ameaçar Ancara em 1921, mas foi detido na Batalha de Sakarya, travada entre agosto e setembro daquele ano. A derrota grega nessa campanha alterou o equilíbrio estratégico e marcou uma virada importante. Depois de Sakarya, a França passou a buscar uma solução negociada com Ancara e retirou-se da Anatólia em 1921, enquanto a Itália também acelerava sua retirada. O resultado foi a concentração progressiva do confronto militar entre as forças nacionalistas turcas e o Exército grego, que contava com o apoio político britânico.

Essa mudança foi fundamental. O movimento nacionalista havia sobrevivido ao período mais crítico e agora tinha condições de preparar uma ofensiva de grande escala. Durante meses, o comando turco reorganizou suas forças e aguardou o momento adequado para concentrar poder de combate contra as posições gregas. A decisão seria tomada no verão de 1922.

Em 26 de agosto de 1922, começou o Büyük Taarruz, a Grande Ofensiva. A operação foi lançada contra as posições gregas na região de Afyonkarahisar, com forte emprego de artilharia e uma concentração cuidadosamente planejada das forças turcas. O objetivo não era simplesmente conquistar terreno, mas romper o dispositivo grego, desorganizar sua capacidade de resistência e impedir uma retirada ordenada.

Nos dias seguintes, o avanço turco produziu exatamente esse efeito. As linhas gregas começaram a se romper e suas unidades passaram a enfrentar dificuldades para reorganizar uma defesa coerente. O Exército Nacional avançou sobre as posições adversárias enquanto as forças gregas procuravam estabelecer novas linhas de defesa e organizar sua retirada para o oeste.

O momento decisivo ocorreu em 30 de agosto de 1922, na Batalha de Dumlupınar, também conhecida como Batalha do Comandante em Chefe. As forças gregas foram cercadas e sofreram uma derrota decisiva, com grande número de soldados mortos ou capturados. O restante do Exército grego iniciou uma retirada acelerada em direção a İzmir. A própria cronologia oficial de Atatürk registra que, naquele dia, a batalha terminou com a vitória das forças turcas e a destruição ou captura de grande parte do Exército grego cercado.

A vitória em Dumlupınar mudou definitivamente a situação militar. Poucos anos antes, Istambul estava ocupada, forças estrangeiras controlavam diferentes regiões do antigo território otomano e tropas gregas avançavam pela Anatólia. Agora, o Exército Nacional havia destruído a principal força militar que ainda ameaçava o projeto nacionalista no oeste e podia avançar em direção ao litoral.

Foi nesse contexto que Mustafa Kemal transmitiu às suas tropas a ordem que se tornaria uma das mais conhecidas da Guerra de Independência:

Ordular! İlk hedefiniz Akdeniz’dir. İleri!”

“Exércitos! Seu primeiro objetivo é o Mediterrâneo. Avante!”

A ordem não significava que a guerra havia terminado em Dumlupınar. A vitória de 30 de agosto havia destruído a capacidade ofensiva grega, mas as forças turcas ainda precisavam avançar até o litoral para completar a campanha. O Exército Nacional prosseguiu rapidamente para o oeste, em 9 de setembro de 1922, entrou em İzmir, encerrando a presença militar grega na cidade e marcando o colapso definitivo da campanha grega na Anatólia.

O 30 de agosto, por isso, tornou-se o símbolo da vitória militar que tornou possível a independência. A luta política e diplomática ainda continuaria, mas a principal ameaça militar à sobrevivência do movimento nacional havia sido derrotada. A independência seria consolidada posteriormente pelo Tratado de Lausanne, assinado em 24 de julho de 1923, enquanto a República da Türkiye seria proclamada em 29 de outubro daquele mesmo ano.

É importante, portanto, separar as três etapas. Dumlupınar foi a grande vitória militar; İzmir marcou a conclusão da campanha contra as forças gregas na Anatólia; Lausanne consolidou internacionalmente a nova ordem política, e a proclamação da República estabeleceu formalmente o novo Estado. O 30 de agosto não é, isoladamente, a data jurídica da independência da Türkiye, mas representa o momento decisivo em que a luta militar pela sobrevivência nacional foi vencida.

Essa distinção não reduz a importância da data. Pelo contrário. Ela ajuda a compreender por que Dumlupınar ocupa um lugar tão profundo na memória turca. A vitória foi alcançada depois de uma sequência de derrotas, ocupações, perdas humanas e incertezas sobre o futuro do país. O Ministério da Defesa da Türkiye define o 30 de agosto como o momento em que a luta pela independência alcançou sua vitória decisiva e como um marco no caminho que levaria à República.

A dimensão humana dessa vitória também explica por que a data ultrapassou o significado de uma simples comemoração militar. A Guerra de Independência mobilizou uma sociedade que já havia suportado anos de conflito e que precisou novamente entregar homens ao front quando muitas famílias ainda carregavam as perdas da Primeira Guerra Mundial. Enquanto os soldados combatiam, mulheres sustentavam comunidades, jovens participavam do esforço nacional e crianças viviam uma realidade na qual a ausência dos homens adultos havia se tornado parte da vida cotidiana.

Foi uma mobilização social que acompanhou a reorganização militar. O Exército Nacional não surgiu pronto. Ele foi construído em meio à escassez, à necessidade de recuperar armas e equipamentos, à reorganização dos antigos efetivos otomanos e à formação de uma estrutura política em Ancara. A capacidade de transformar essa realidade em uma força militar coerente foi uma das principais razões pelas quais o movimento liderado por Mustafa Kemal conseguiu sobreviver, e posteriormente, derrotar seu principal adversário.

A trajetória de Atatürk também ajuda a compreender a natureza dessa guerra. Ele era um militar formado em décadas de conflito e havia testemunhado diretamente os efeitos devastadores da guerra sobre soldados e populações. Sua liderança não estava baseada apenas na disposição de combater, mas na compreensão de que uma guerra precisava ter uma finalidade política e estratégica clara.

É nesse contexto que uma de suas afirmações mais conhecidas ganha particular significado:

Savaş, zaruri ve hayati olmalıdır. Milletin hayatı tehlikeye maruz kalmadıkça, savaş bir cinayettir.”

“A guerra deve ser necessária e vital. Enquanto a vida da nação não estiver ameaçada, a guerra é um assassinato.”

A frase traduz uma concepção que ajuda a compreender a lógica política apresentada pelo movimento nacionalista turco naquele período: a guerra não deveria ser encarada como um objetivo em si, mas como uma resposta extrema diante de uma ameaça à própria existência nacional.

E, para Mustafa Kemal Atatürk e seus seguidores, era exatamente esse o cenário que a Anatólia enfrentava em 1919. Istambul estava sob ocupação, İzmir havia sido ocupada por tropas gregas, forças francesas estavam presentes no sul, os italianos mantinham posições no sudoeste e o antigo governo otomano encontrava-se submetido às pressões das potências vencedoras. Ao mesmo tempo, projetos de repartição do território ameaçavam alterar profundamente o mapa político da região.

A resposta veio primeiro pela organização política e depois pela reconstrução militar. A resistência transformou-se em governo, o governo transformou-se em comando e o comando, progressivamente, transformou uma sociedade exaurida em uma força capaz de conduzir uma campanha ofensiva de grande escala. Quando as tropas chegaram a Dumlupınar, em agosto de 1922, não era apenas uma batalha que estava sendo travada. Era o resultado de anos de reorganização e de uma mobilização que havia alcançado praticamente todos os níveis da sociedade.

Por isso, o 30 de agosto permanece como uma das datas fundamentais da história da Türkiye. A vitória de Dumlupınar encerrou a principal fase militar da Guerra de Independência e abriu o caminho para a retirada das forças gregas, para a negociação de uma nova ordem internacional e para criação da República.

O que aconteceu naquele verão de 1922 não pode ser explicado apenas pela capacidade de um comandante ou pela eficiência de um exército. Mustafa Kemal Atatürk foi decisivo na organização política e militar da resistência, mas sua liderança encontrou uma sociedade disposta a suportar novamente o peso de uma guerra depois de anos de perdas. Homens partiram para o front, mulheres assumiram funções essenciais na retaguarda e algumas participaram diretamente dos combates, jovens foram incorporados ao esforço nacional e comunidades inteiras sobreviveram com uma parcela mínima de sua população masculina disponível.

A vitória, portanto, foi militar em sua forma, mas profundamente social em sua dimensão.

Dumlupınar transformou uma resistência que começara em um país ocupado em uma força capaz de determinar seu próprio destino. A partir daquela vitória, o movimento nacionalista já não lutava apenas para sobreviver; tinha conquistado as condições militares para negociar a construção de um novo Estado.

O Império Otomano havia chegado ao fim de sua trajetória histórica. Em seu lugar surgiria uma nova Türkiye, fundada sobre a soberania nacional e liderada por Mustafa Kemal Atatürk.

O 30 de agosto, celebrado hoje como Zafer Bayramı e Dia das Forças Armadas da Türkiye, permanece como a lembrança daquele processo. Não apenas porque Dumlupınar foi uma das maiores vitórias militares da história turca, mas porque aquela batalha representou o momento em que uma sociedade profundamente exaurida conseguiu reorganizar suas forças, derrotar o principal exército que avançava sobre seu território e abrir o caminho para decidir seu próprio futuro.

E é justamente por isso que a frase de Atatürk sobre a guerra ganha um significado especial quando colocada diante da história daquele conflito. Para ele, a guerra só encontrava justificativa quando a sobrevivência de uma nação estava em risco. Na Guerra de Independência, milhares de homens, mulheres e jovens foram chamados a suportar novamente esse custo.

O preço foi imenso, e a vitória não apagou as perdas daqueles anos. Mas Dumlupınar marcou a passagem entre uma sociedade que lutava para não desaparecer e uma nação que havia recuperado a capacidade de decidir seu próprio destino.

Foi esse o significado histórico do 30 de agosto de 1922: a vitória militar que abriu o caminho para a independência, para Lausanne e, finalmente, para a República da Türkiye.


Por Angelo Nicolaci


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Marinha treina Comandos Anfíbios para operações especiais em clima frio no litoral gaúcho

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O litoral do Rio Grande do Sul foi transformado, entre os dias 10 e 21 de agosto, em cenário para o treinamento de militares da Marinha do Brasil destinados a atuar em condições de clima frio. Sob apoio do Comando do 5º Distrito Naval, o Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC) conduziu, nas regiões de Rio Grande e São José do Norte, o Exercício no Terreno de Clima Frio do Curso Especial de Comandos Anfíbios (C-Esp-ComAnf/2026), atividade voltada à preparação de oficiais e praças para o planejamento e a execução de Operações Especiais de Fuzileiros Navais em um ambiente que impõe desafios particulares à mobilidade, sobrevivência e condução das ações.

A escolha do extremo sul do País permite aos alunos experimentar, em condições reais, características distintas daquelas encontradas em outros ambientes operacionais. Durante o exercício, os militares receberam instruções relacionadas às particularidades da região e realizaram treinamentos de atendimento pré-hospitalar, salvamento aquático e técnicas de entrada e saída da zona de arrebentação, tanto a nado quanto empregando embarcações de desembarque pneumáticas. A preparação combina conhecimento do ambiente, resistência física e domínio técnico, elementos essenciais para uma tropa que precisa operar com elevado grau de autonomia e sob condições adversas.

O treinamento alcançou seu ponto culminante com a Operação Minuano, exercício concebido para reproduzir, de maneira integrada, o planejamento e a execução de uma Operação Especial inserida no contexto de uma Operação Anfíbia. A atividade envolveu o embarque dos militares em meios navais, seguido por infiltrações marítima e terrestre, ação de comandos e posterior retirada para as linhas amigas, reunindo em uma mesma sequência diferentes capacidades desenvolvidas ao longo do curso.

Para que a operação pudesse reproduzir as condições de uma missão real, o exercício contou com o emprego coordenado de diversas Organizações Militares subordinadas ao Comando do 5º Distrito Naval. Entre elas estiveram a Capitania dos Portos do Rio Grande do Sul, o 5º Batalhão de Operações Litorâneas de Fuzileiros Navais e o Grupamento de Patrulha Naval do Sul, que participou por meio do Navio de Apoio Oceânico Mearim. O componente aéreo ficou a cargo do 1º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral do Sul (EsqdHU-51), ampliando as possibilidades de inserção, apoio e movimentação das equipes empregadas na operação.

A integração entre meios navais, tropas de Fuzileiros Navais e aviação de emprego geral é particularmente relevante para o treinamento de Comandos Anfíbios, uma vez que operações especiais dessa natureza dependem da capacidade de inserir pequenas frações em áreas controladas ou de difícil acesso, executar a missão e realizar a retirada sem comprometer a força empregada. Nesse contexto, o domínio das diferentes formas de infiltração e a coordenação entre os componentes marítimo, terrestre e aéreo são elementos fundamentais para a eficiência operacional.

As atividades realizadas na Praia do Cassino também contaram com a participação do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, que contribuiu para as instruções relacionadas ao ambiente aquático. O apoio de uma força especializada em salvamento e atendimento em áreas costeiras amplia a qualidade do treinamento, especialmente em uma região onde as condições do mar e da zona de arrebentação podem representar riscos significativos para a movimentação de pessoal e equipamentos.

O Exercício no Terreno de Clima Frio integra a formação do Curso Especial de Comandos Anfíbios, conduzido pela Escola de Operações Especiais do CIASC. Com duração total de 34 semanas, o curso tem como objetivo preparar oficiais e praças da Marinha do Brasil para o planejamento e a execução de Operações Especiais de Fuzileiros Navais, exigindo dos alunos elevado nível de preparo técnico, físico e psicológico.

A realização de uma etapa específica em ambiente de clima frio demonstra a preocupação da Marinha em ampliar a capacidade de seus Comandos Anfíbios para atuar em diferentes cenários geográficos e operacionais. No litoral sul brasileiro, os militares são submetidos não apenas às condições meteorológicas características da região, mas também à necessidade de adaptar procedimentos de infiltração, deslocamento, sobrevivência e emprego de meios às particularidades do terreno e do mar.

Mais do que uma atividade isolada de adestramento, a Operação Minuano encerrou uma etapa de formação que buscou aproximar os alunos das condições encontradas em uma operação especial real. A combinação entre ambiente de clima frio, operações anfíbias, infiltrações marítima e terrestre, emprego de meios navais e apoio aéreo permite avaliar a capacidade dos futuros Comandos Anfíbios de integrar diferentes competências e tomar decisões sob pressão, mantendo a precisão necessária para o cumprimento da missão.

O exercício reforça, assim, a importância da preparação especializada das tropas de Operações Especiais da Marinha do Brasil e da integração entre as organizações militares do 5º Distrito Naval. Ao utilizar o litoral gaúcho como ambiente de treinamento, a Força amplia a experiência operacional de seus militares e mantém a capacidade de empregar seus Comandos Anfíbios em diferentes condições de terreno, clima e ameaça.


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Com Marinha do Brasil 

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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Exército Brasileiro assina contrato para o Lote de Experimentação Doutrinária do Centauro II BR

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O Exército Brasileiro assinou nesta segunda-feira (31) o contrato para aquisição de sete Viaturas Blindadas de Combate de Cavalaria Multipropósito Sobre Rodas 8x8 Centauro II BR (VBC Cav-MSR 8x8), que irão compor o Lote de Experimentação Doutrinária (LED) do Programa Estratégico Forças Blindadas. A cerimônia ocorreu no Salão de Honra do Comando Logístico, no Quartel-General do Exército, em Brasília, e foi acompanhada presencialmente pelo editor do GBN Defense e correspondente do Zona Militar, Angelo Nicolaci, que também participou da coletiva de imprensa realizada após a assinatura. A cerimônia marca uma nova etapa na incorporação do sistema à Cavalaria brasileira.

O contrato foi assinado pelo Comandante Logístico do Exército, General de Exército Maurílio Miranda Netto Ribeiro, e por Giovanni Luisi, Vice-Presidente Sênior de Marketing e Vendas do Consórcio IDV–Oto Melara, integrante do grupo Leonardo. As sete viaturas representam o segundo contrato relacionado ao programa, após a aquisição dos dois veículos utilizados na fase de protótipo, que chegaram ao Brasil em 2024.

A cerimônia foi aberta com as palavras de Giovanni Luisi, que destacou a importância do contrato para a continuidade da cooperação entre o consórcio e o Exército Brasileiro. Na sequência, o General Ribeiro fez uso da palavra, abordando a relevância da nova VBC Cav para a modernização da Cavalaria e para o processo de renovação das capacidades da Força Terrestre.

Foto CCOMSEX

Antes da assinatura, o Comandante do Exército, General de Exército Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, também dirigiu suas palavras aos presentes, encerrando a etapa de manifestações da solenidade. Em seguida, o General Ribeiro e Giovanni Luisi formalizaram o contrato que dá início ao Lote de Experimentação Doutrinária.

A solenidade reuniu integrantes do Alto-Comando do Exército e oficiais-generais da Força, além de representantes do Governo italiano e do Consórcio IDV–Oto Melara. Entre os presentes estavam o Secretário de Economia e Finanças, General de Exército Guilherme; o Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia, General de Exército Hertz; o Chefe do Departamento-Geral do Pessoal, General de Exército Baganha; o Chefe do Estado-Maior do Exército, General de Exército Montenegro; e o General de Exército R1 Stumpf, Presidente da FHE/POUPEX.

O Centauro II BR é uma plataforma 8x8 equipada com canhão de 120 mm e sistemas digitais destinados a ampliar a capacidade de detecção, aquisição e engajamento de alvos. A viatura incorpora sistema de controle de tiro, câmeras térmicas, telêmetro laser, estabilização do armamento e recursos de comunicação e consciência situacional, reunindo mobilidade, proteção e poder de fogo em uma plataforma destinada às tropas de Cavalaria.

Foto CCOMSEX

A incorporação do Centauro II BR também possui uma dimensão doutrinária. As sete viaturas do LED serão empregadas no processo de experimentação pelo Exército, permitindo avaliar o impacto das características da nova plataforma sobre procedimentos, organização, emprego tático e adestramento das unidades de Cavalaria. O Centro de Instrução de Blindados terá papel relevante nesse processo, responsável por conduzir a experimentação doutrinária associada ao novo sistema.

Após a assinatura, o General Ribeiro concedeu uma coletiva à imprensa presente na cerimônia e detalhou aspectos relacionados ao programa, à incorporação do novo blindado e ao planejamento do Exército para a renovação de suas capacidades de Cavalaria. Segundo o comandante, a chegada do Centauro II BR deve ser compreendida dentro de um processo mais amplo de transformação da Força Terrestre, no qual a aquisição de uma nova plataforma precisa estar acompanhada pela adaptação da doutrina, do treinamento e da estrutura necessária para sua operação.

Foto CCOMSEX

O General Ribeiro também destacou que o contrato representa a passagem de uma fase de avaliação para uma etapa mais estruturada de experimentação. As viaturas do LED permitirão ao Exército ampliar o conhecimento operacional sobre o Centauro II BR em condições reais de emprego, produzindo informações para orientar as decisões relacionadas aos próximos lotes e à futura distribuição do sistema às organizações militares de Cavalaria.

A escolha do Centauro II ocorreu após um processo internacional de avaliação técnica e operacional. O programa prevê transferência de tecnologia, participação da indústria brasileira e nacionalização progressiva de componentes, criando uma perspectiva de maior participação nacional ao longo da evolução do projeto.

A nova VBC Cav também representa uma mudança significativa em relação aos meios atualmente empregados pela Cavalaria. A combinação de uma plataforma 8x8, elevada mobilidade, sistemas digitais e canhão de 120 mm amplia o espectro de emprego das unidades mecanizadas e cria novos requisitos para treinamento, manutenção, logística e doutrina.

O próprio Exército reconhece que a introdução do Centauro II não deve ser tratada apenas como uma substituição de equipamento. Estudos recentes produzidos no âmbito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército apontam que a nova viatura poderá exigir mudanças na forma de organizar, adestrar e empregar as organizações de Cavalaria, colocando a experimentação doutrinária como elemento central do processo de incorporação.

Com a assinatura do LED, o Exército passa agora a dispor de uma estrutura mais ampla para avaliar a nova VBC Cav-MSR 8x8 e consolidar os conhecimentos obtidos com os protótipos já empregados. O resultado dessa etapa deverá contribuir para definir os próximos passos do Programa Estratégico Forças Blindadas e para estabelecer, de forma progressiva, como o Centauro II BR será integrado à estrutura operacional da Força Terrestre.


Por Angelo Nicolaci


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domingo, 30 de agosto de 2026

Formação conjunta de pilotos: por que não unificar a etapa básica entre as três Forças?

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A criação pelo Ministério da Defesa do Grupo de Trabalho responsável por formular o Conceito Conjunto para o futuro Helicóptero Multimissão abre espaço para uma discussão que deveria acompanhar a definição da própria aeronave: a possibilidade de unificar, sob uma estrutura conjunta, a formação básica dos pilotos de helicópteros das Forças Armadas. A proposta não significa retirar do Exército, Marinha e Força Aérea suas doutrinas ou qualificações operacionais específicas, mas concentrar em uma mesma estrutura aquilo que é comum à formação de um aviador de asas rotativas.

A iniciativa poderia ser conduzida diretamente pelo Ministério da Defesa, com coordenação do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas e participação permanente das três Forças. O modelo seguiria a lógica empregada nas aquisições conjuntas, nas quais o Ministério atua como elemento integrador, enquanto cada Força mantém seus requisitos e responsabilidades específicas. Nesse caso, a estrutura teria como finalidade estabelecer uma base comum de formação, treinamento e procedimentos, deixando para as organizações de aviação de cada Força a qualificação posterior para as respectivas missões.

O Brasil já possui elementos que tornam essa proposta tecnicamente viável. As Forças Armadas empregam a família Esquilo/Fennec em diferentes funções de formação e treinamento de aviadores, enquanto o Programa H-XBR consolidou a operação do H225M pelas três Forças. A experiência acumulada demonstra que a adoção de plataformas comuns não impede que Exército, Marinha e Força Aérea mantenham diferentes doutrinas de emprego. O que muda é a possibilidade de compartilhar conhecimentos, procedimentos e recursos sempre que os requisitos forem equivalentes.

A eventual seleção do H145M para o novo programa ampliaria essa convergência. Caso o modelo seja adotado, as três Forças passariam a operar uma segunda plataforma Airbus comum, além do H225M. O H145M ocuparia uma categoria distinta, com emprego voltado a missões compatíveis com uma aeronave leve multimissão, enquanto o H225M permaneceria associado às capacidades de maior porte já incorporadas às Forças. Essa configuração aumentaria a escala de operação de uma mesma família de produtos e poderia ser acompanhada por uma estrutura igualmente integrada para formação e adestramento.

A unificação proposta deveria, entretanto, limitar-se às competências que efetivamente possam ser compartilhadas. A formação básica de pilotos de helicópteros envolve conteúdos comuns, como segurança de voo, procedimentos normais e de emergência, navegação, comunicações, meteorologia aplicada, preparação e operação da aeronave, gerenciamento de recursos da tripulação, procedimentos de solo e fundamentos de operação de asas rotativas. Esses conhecimentos podem ser organizados em currículos comuns, com padrões de avaliação definidos conjuntamente, sem interferir na formação operacional posterior de cada Força.

Depois dessa etapa, ocorreria a especialização. Um piloto destinado à Aviação do Exército seguiria para a qualificação relacionada às operações aeromóveis, reconhecimento, ataque e apoio às forças terrestres. Na Marinha, a formação avançaria para as particularidades das operações navais, incluindo emprego embarcado e procedimentos específicos para operação sobre o mar. Na Força Aérea, o piloto seria direcionado às qualificações correspondentes às missões atribuídas à FAB. Dessa forma, a formação conjunta funcionaria como uma etapa comum, e não como substituição das estruturas operacionais existentes.

Esse modelo também permitiria racionalizar investimentos. A formação militar exige infraestrutura especializada, instrutores, dispositivos de treinamento, simuladores, sistemas de avaliação e instalações de apoio. Quando três organizações mantêm estruturas semelhantes para atender necessidades essencialmente iguais, existe espaço para avaliar se determinados recursos podem ser concentrados em uma estrutura conjunta. O objetivo não seria simplesmente reduzir instalações, mas evitar a duplicação de capacidades que poderiam ser utilizadas de forma compartilhada.

A mesma lógica poderia ser aplicada ao treinamento recorrente. A manutenção da proficiência de tripulações exige atividades periódicas, incluindo procedimentos de emergência, treinamento por instrumentos, operações noturnas, atualização de conhecimentos e exercícios de situações anormais. Uma estrutura conjunta poderia concentrar parte desses recursos e permitir que simuladores, instrutores e dispositivos de treinamento fossem utilizados pelas três Forças, enquanto os treinamentos diretamente relacionados às missões permaneceriam sob responsabilidade de cada organização.

A experiência do H-XBR oferece uma referência importante para esse modelo. O programa estabeleceu uma aquisição conjunta do H225M para Marinha, Exército e Força Aérea, resultando em 47 aeronaves produzidas no Brasil e na consolidação de capacidades industriais e de suporte associadas ao modelo. As aeronaves são empregadas segundo as necessidades de cada Força, demonstrando que padronização de plataforma e diferenciação operacional podem coexistir. O mesmo princípio pode ser aplicado à formação: procedimentos e conhecimentos comuns podem ser padronizados, enquanto o emprego tático permanece específico.

A eventual adoção do H145M acrescentaria ainda uma dimensão industrial à discussão. A Airbus e a Helibras trabalham para viabilizar a produção nacional do modelo em Itajubá, com perspectiva de iniciar pela versão militar. Caso o programa seja estruturado como uma aquisição conjunta, a escala proporcionada pelas três Forças poderá contribuir para sustentar a produção nacional e, simultaneamente, justificar investimentos em uma estrutura integrada de treinamento. Nesse contexto, formação, suporte logístico, qualificação e produção passam a ser elementos de uma mesma arquitetura de longo prazo.

A criação de um Centro Conjunto de Formação e Adestramento de Asas Rotativas subordinado ao Ministério da Defesa permitiria organizar essa estrutura sem retirar das Forças Singulares suas competências. O centro poderia reunir representantes permanentes do Exército, Marinha e Força Aérea, estabelecer os currículos comuns, coordenar instrutores, administrar recursos compartilhados e desenvolver padrões de treinamento aplicáveis às plataformas utilizadas conjuntamente. As Forças continuariam responsáveis pela qualificação específica de seus pilotos e pelo treinamento operacional necessário às respectivas missões.

Além da racionalização financeira, a formação comum teria impacto direto sobre a interoperabilidade. Pilotos formados sob os mesmos padrões básicos chegariam às unidades operacionais com conhecimento compartilhado de procedimentos e terminologia, facilitando posteriormente a participação em exercícios e operações conjuntas. Isso não elimina a necessidade de treinamento conjunto, mas reduz a quantidade de conhecimentos básicos que precisam ser nivelados quando militares de diferentes Forças passam a atuar no mesmo ambiente operacional.

A proposta também pode ser implementada de maneira gradual. O Ministério da Defesa poderia começar pela padronização dos currículos básicos, procedimentos de segurança, critérios de avaliação e formação de instrutores. Em uma segunda etapa, poderiam ser compartilhados simuladores e outros dispositivos de treinamento. Posteriormente, conforme os resultados fossem avaliados, novas atividades poderiam ser incorporadas. As estruturas atuais das Forças não precisariam ser imediatamente desativadas, podendo assumir progressivamente funções de especialização e qualificação operacional.

A discussão ganha relevância justamente porque o novo programa de Helicóptero Multimissão ainda está em fase de definição conceitual. Se o objetivo é desenvolver uma aquisição verdadeiramente conjunta, a análise não deveria se limitar ao número de aeronaves, às suas capacidades ou ao modelo de emprego. O planejamento também precisa considerar como os profissionais serão formados, quais recursos poderão ser compartilhados e como será organizada a manutenção da proficiência ao longo das décadas de operação.

Nesse contexto, a eventual escolha do H145M poderia ser aproveitada para aprofundar uma integração que já possui antecedentes concretos. A experiência com Esquilo e Fennec na formação e treinamento de aviadores, somada à operação conjunta do H225M pelo Exército, Marinha e Força Aérea, fornece uma base sobre a qual seria possível estruturar uma nova etapa. O objetivo seria estabelecer uma separação clara entre formação básica comum e qualificação operacional específica, preservando a autonomia doutrinária das Forças e reduzindo a duplicação de estruturas.

Para o Ministério da Defesa, essa abordagem permitiria avaliar o custo do programa não apenas pela aquisição das aeronaves, mas pelo conjunto de recursos necessários para mantê-las operacionais durante seu ciclo de vida. Formação, simuladores, instrutores, infraestrutura e treinamento recorrente representam compromissos permanentes. A concentração daqueles recursos que possam ser efetivamente compartilhados pode produzir economias ao longo de décadas, além de aumentar a disponibilidade dos meios de treinamento.

A proposta, portanto, não depende exclusivamente da escolha do H145M. A seleção de uma plataforma comum apenas reforçaria uma lógica que já está presente nas Forças Armadas. Se Exército, Marinha e Força Aérea precisam formar pilotos de helicópteros com competências básicas semelhantes e já possuem experiência com plataformas compartilhadas, cabe ao Ministério da Defesa avaliar se a manutenção de estruturas integralmente separadas para essa etapa continua sendo a solução mais eficiente.

O novo programa oferece uma oportunidade para responder a essa questão dentro de uma perspectiva de longo prazo. Uma estrutura conjunta para a formação básica permitiria concentrar recursos onde a padronização produz ganhos, enquanto Exército, Marinha e Força Aérea manteriam integralmente sob seu controle a preparação de seus pilotos para as missões específicas. Dessa forma, a integração seria aplicada apenas onde produz vantagem operacional e econômica, sem comprometer as características próprias de cada Força.


Por Angelo Nicolaci


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