sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Bisturi ou martelo: por que a Delta Force, e não o SEAL Team Six, conduziu uma extração de alto risco como a de Nicolás Maduro

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Em determinados momentos, o noticiário internacional passa a ser ocupado por narrativas que beiram o cinematográfico. Relatos fragmentados, reconstruções especulativas e rumores ganham espaço como se descrevessem operações concretas, muitas vezes sem qualquer lastro factual verificável. A extração de Nicolás Maduro da Venezuela insere-se nesse campo nebuloso. Mais relevante do que discutir o episódio é compreender, sob uma perspectiva técnica e estratégica, qual tipo de força seria empregada em uma operação com esse nível de complexidade política, militar e diplomática.

Quando se observa o aparato de operações especiais dos Estados Unidos, essa análise conduz inevitavelmente a uma comparação entre duas de suas unidades mais conhecidas: a Delta Force e o SEAL Team Six, oficialmente denominado DEVGRU. A distinção entre ambas não está associada à qualidade de seus operadores, ao grau de letalidade ou ao prestígio institucional. Trata-se, sobretudo, de uma diferença de função, filosofia operacional e lógica de emprego estratégico.

O Comando Conjunto de Operações Especiais dos Estados Unidos (JSOC) não seleciona unidades com base em simbolismos ou percepções públicas. Cada missão é desenhada a partir de variáveis rigorosas, como ambiente político, densidade urbana, risco de escalada internacional, necessidade de captura ou neutralização do alvo, tempo disponível para execução, nível de exposição midiática e consequências estratégicas de curto e longo prazo. Nesse contexto, a diferença entre Delta Force e DEVGRU pode ser compreendida de forma clara por meio de uma analogia recorrente entre profissionais da área: "o bisturi e o martelo".

A Delta Force representa o bisturi da guerra moderna. Criada para operar em cenários de altíssima complexidade, é uma unidade moldada para atuar onde o erro não é uma opção e onde a violência indiscriminada pode gerar efeitos estratégicos desastrosos. Sua lógica não se baseia no choque, mas no controle. Seus operadores são treinados para infiltrar-se profundamente em ambientes hostis, misturar-se à população, operar sob identidades encobertas e adaptar-se continuamente a cenários voláteis e imprevisíveis.

Diferentemente de forças orientadas para o assalto direto, a Delta é estruturada para lidar com múltiplos atores simultaneamente: forças regulares, milícias, serviços de inteligência adversários, civis, aliados ambíguos e até atores não estatais. Seu treinamento enfatiza leitura comportamental, tomada de decisão sob pressão extrema e autonomia tática. Trata-se de uma força desenhada para capturar alvos de alto valor vivos, quando isso é politicamente desejável, e para administrar as consequências de uma operação que não termina no momento da extração, mas se prolonga no campo diplomático e informacional.

Em uma operação envolvendo a retirada de um chefe de Estado em exercício, como Nicolás Maduro, o desafio transcende o domínio militar. Estariam em jogo a reação imediata de forças leais ao regime, a mobilização de milícias, a atuação de serviços de inteligência estrangeiros, o comportamento da população civil e, sobretudo, o impacto regional e internacional da ação. Trata-se de um ambiente onde a discrição, a capacidade de improvisação e o controle do ritmo da operação são mais valiosos do que a superioridade de fogo. Esse é precisamente o terreno para o qual a Delta Force foi concebida.

O SEAL Team Six, por sua vez, opera sob uma lógica distinta. O DEVGRU é o martelo: a ferramenta empregada quando o tempo é o fator decisivo e quando a missão exige velocidade, violência controlada e encerramento imediato da ameaça. Sua especialidade são assaltos diretos de alta intensidade, retomadas de instalações, ações de contraterrorismo com foco na neutralização rápida do alvo e operações complexas que combinam ambientes marítimos, aéreos e terrestres.

O exemplo mais emblemático desse perfil operacional é a Operação Neptune Spear, conduzida no Paquistão em 2011, que resultou na eliminação de Osama bin Laden. A missão foi executada a centenas de quilômetros do litoral, em um ambiente urbano densamente povoado e politicamente sensível. Ainda assim, o planejamento admitia desde o início a possibilidade e a aceitabilidade estratégica da eliminação do alvo. O resultado foi uma ação rápida, decisiva e irreversível. Bin Laden foi neutralizado, e seu corpo foi retirado da área de operações.

Esse desfecho não representa uma falha, mas uma decisão estratégica coerente com o objetivo da missão. Quando a prioridade é eliminar uma ameaça e encerrar um ciclo operacional, o DEVGRU é a escolha natural. O martelo entra em cena quando não há espaço para sutilezas.

A diferença fundamental entre os dois cenários reside no objetivo político da operação. A eliminação de um líder terrorista gera efeitos estratégicos distintos daqueles produzidos pela captura de um chefe de Estado. No segundo caso, a operação não se encerra com a infiltração ou a retirada física do alvo. Ela desencadeia uma cadeia de eventos diplomáticos, jurídicos e geopolíticos que precisam ser antecipados e administrados desde o primeiro minuto.

Manter o alvo vivo, evitar danos colaterais excessivos, controlar narrativas internacionais, impedir massacres subsequentes e conduzir a extração sob pressão política extrema exige uma força capaz de pensar estrategicamente enquanto executa taticamente. Esse é o domínio clássico da Delta Force.

Enquanto o martelo resolve problemas quando o tempo se esgota e a força se impõe como solução final, o bisturi existe para preservar o que é estrategicamente relevante e remover apenas o elemento necessário. A guerra contemporânea, especialmente no campo das operações especiais, não é vencida apenas com poder de fogo, mas com discernimento, precisão e escolha adequada dos meios.

É importante destacar que não há rivalidade entre Delta Force e DEVGRU. Elas não competem; elas se complementam. A verdadeira superioridade do sistema de operações especiais dos Estados Unidos reside justamente na capacidade de empregar a ferramenta certa para o problema certo, no momento certo.

Em última instância, a questão central não é qual unidade produziria a operação mais espetacular, mas qual teria maiores chances de cumprir o objetivo estratégico sem transformar uma ação cirúrgica em um terremoto geopolítico. E, nesse tipo de missão, a experiência demonstra que o bisturi quase sempre precede o martelo.


por Angelo Nicolaci


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Orçamento de R$ 142,5 bilhões e pouca capacidade militar: o problema é estrutural, não da tropa

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O orçamento do Ministério da Defesa previsto para 2026, estimado em cerca de R$ 142,4 bilhões, à primeira vista sugere um esforço financeiro relevante por parte do Estado brasileiro. Em termos absolutos, trata-se de um dos maiores orçamentos da União. No entanto, uma análise mais profunda revela que esse volume de recursos não se traduz automaticamente em capacidade militar compatível com as responsabilidades estratégicas do país. O problema central da Defesa brasileira não está apenas no quanto se gasta, mas em como esse gasto é estruturado e sustentado ao longo do tempo.

O Brasil possui características singulares no campo da Defesa. É um país de dimensões continentais, com extensas fronteiras terrestres, vasto espaço aéreo, uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo e crescente relevância estratégica no Atlântico Sul. As Forças Armadas são demandadas não apenas para a dissuasão externa, mas também para operações de garantia da lei e da ordem, combate a ilícitos transnacionais, apoio à defesa civil, missões humanitárias e compromissos internacionais. Esse conjunto de atribuições exige meios modernos, elevada prontidão e investimentos contínuos em tecnologia, logística e treinamento.

O principal entrave para que o orçamento de Defesa cumpra plenamente esse papel está na sua composição. Estimativas indicam que entre 75% e 80% dos recursos são absorvidos por despesas obrigatórias, sobretudo salários, aposentadorias e pensões. São compromissos legítimos do Estado brasileiro, mas de natureza previdenciária e administrativa, distintos da atividade-fim da Defesa. Na prática, essa estrutura faz com que apenas uma parcela reduzida do orçamento esteja disponível para custeio operacional e investimentos, limitando a modernização das Forças Armadas e impondo avanços graduais a programas estratégicos que exigiriam maior previsibilidade financeira.

Apesar dessas restrições, o Brasil mantém projetos estruturantes relevantes. Na Marinha do Brasil, além do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que envolve a construção de submarinos convencionais e o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear, destaca-se o Programa das Fragatas Classe Tamandaré. A incorporação de quatro fragatas modernas representa um avanço importante em termos de capacidade de combate, interoperabilidade e fortalecimento da Base Industrial de Defesa. Contudo, o número previsto está aquém das necessidades reais do Brasil. A dimensão da Amazônia Azul, a proteção de rotas marítimas e de infraestruturas estratégicas e a necessidade de presença naval permanente exigiriam uma força de escoltas mais numerosa, capaz de sustentar operações contínuas no mar.

No Exército Brasileiro, os desafios são igualmente expressivos. Projetos como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) ampliam a capacidade de vigilância e combate a ilícitos, mas avançam de forma faseada, condicionados à disponibilidade orçamentária. Paralelamente, cresce a necessidade de renovação dos meios blindados. O inventário atual apresenta limitações frente às ameaças contemporâneas, tornando urgente a obtenção de um novo carro de combate principal, com maior proteção, poder de fogo e integração digital. Soma-se a isso a demanda por veículos blindados leves e de reconhecimento, capazes de operar com mobilidade, proteção e consciência situacional em diferentes cenários operacionais. Outro ponto sensível é a defesa antiaérea, ainda carente de sistemas de médio e longo alcance capazes de proteger tropas, instalações estratégicas e infraestruturas críticas contra aeronaves, mísseis e drones.

Na Força Aérea Brasileira, os programas Gripen e KC-390 Millennium permanecem como pilares da modernização. O Gripen introduz capacidades avançadas de combate aéreo, guerra eletrônica e operação em rede, enquanto o KC-390 fortalece a logística militar e se consolida como um produto de exportação, projetando a indústria nacional no mercado internacional. Ambos exigem previsibilidade orçamentária para garantir cronogramas, evolução tecnológica e eficiência econômica. Além disso, a FAB enfrenta desafios na ampliação da vigilância do espaço aéreo, no fortalecimento da defesa antiaérea integrada e no desenvolvimento de capacidades nos domínios espacial e cibernético.

Esses programas estratégicos exercem impacto direto na economia nacional. A indústria de defesa é intensiva em tecnologia, gera empregos altamente qualificados e promove inovação com aplicações de uso dual, beneficiando setores civis como aviação, comunicações, materiais avançados e sistemas de controle. A instabilidade no fluxo de recursos, no entanto, encarece projetos, fragiliza cadeias produtivas e reduz o retorno econômico e tecnológico desses investimentos.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o desafio da Defesa brasileira não reside apenas no volume nominal de recursos, mas na forma como o orçamento é estruturado. A permanência das despesas previdenciárias dentro do orçamento da atividade-fim cria uma distorção que compromete o planejamento estratégico e reduz a capacidade de transformar recursos em poderio efetivo. É nesse contexto que ganha relevância a proposição de um Fundo Previdenciário da Defesa.

A criação de um Fundo Previdenciário da Defesa teria como objetivo separar, de forma clara e transparente, as despesas com inativos e pensionistas do orçamento destinado ao preparo, ao emprego e ao reaparelhamento das Forças Armadas. Não se trata de retirar direitos ou reduzir benefícios, mas de reorganizar o modelo orçamentário, alinhando a estrutura financeira à lógica da política de Defesa.

Esse fundo poderia ser estruturado como uma entidade previdenciária vinculada à União, com governança própria, regras claras de gestão e mecanismos rigorosos de controle. Sua administração poderia contar com um conselho gestor formado por representantes do Ministério da Defesa, do Ministério da Fazenda, das Forças Armadas e de órgãos de controle, garantindo equilíbrio entre responsabilidade fiscal, visão estratégica e respeito às especificidades da carreira militar.

O financiamento do fundo poderia ocorrer por múltiplas fontes. A principal delas seria o aporte direto do Tesouro Nacional, refletindo a responsabilidade do Estado com seus compromissos previdenciários. A isso se somariam as contribuições já realizadas pelos militares da ativa, preservando o caráter contributivo do sistema. Fontes complementares, como receitas extraordinárias vinculadas à área de Defesa, poderiam fortalecer a sustentabilidade do fundo ao longo do tempo.

A implementação do modelo exigiria uma transição gradual e cuidadosamente planejada. Um caminho viável seria o da transição geracional. Militares atualmente na ativa, na reserva e seus pensionistas manteriam integralmente as regras vigentes, com seus direitos garantidos. Novos ingressos passariam a integrar um sistema ajustado às novas diretrizes, compatível com a realidade fiscal e demográfica do país, sem comprometer a atratividade da carreira militar. Esse processo permitiria que o fundo acumulasse patrimônio progressivamente, reduzindo a dependência exclusiva do Tesouro no longo prazo.

À medida que as despesas previdenciárias fossem absorvidas pelo fundo, o orçamento do Ministério da Defesa seria gradualmente desonerado, ampliando a parcela destinada a investimentos estratégicos. Essa reorganização permitiria maior previsibilidade financeira para programas estruturantes, reduziria custos decorrentes de atrasos e descontinuidades e fortaleceria a Base Industrial de Defesa. Além disso, aumentaria a transparência fiscal, qualificando o debate público sobre o real nível de investimento do Brasil em Defesa.

Mais do que uma mudança contábil, a criação de um Fundo Previdenciário da Defesa representa uma escolha estratégica. Significa reconhecer que a Defesa é uma política de Estado, que exige planejamento de longo prazo, estabilidade financeira e coerência entre objetivos e meios. Um orçamento de Defesa efetivamente voltado para defesa é condição essencial para reduzir lacunas de capacidade, fortalecer a dissuasão e consolidar a autonomia tecnológica nacional.

Em síntese, os cerca de R$ 142,4 bilhões previstos para 2026 garantem a manutenção da estrutura atual, mas não são suficientes para responder plenamente às demandas estratégicas do país enquanto persistir o atual modelo de alocação de recursos. O desafio brasileiro não é apenas gastar mais, mas gastar melhor. A reorganização do orçamento, com a separação clara entre previdência e capacidade de defesa, surge como um passo decisivo para transformar planejamento em poder real e alinhar a Defesa brasileira às exigências do século XXI.


Por Angelo Nicolaci


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Da ilusão ao front: aliciamento engana brasileiros, como a guerra da Ucrânia virou escola de guerra para criminosos brasileiros

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A ida de brasileiros para combater na guerra da Ucrânia tornou-se um fenômeno silencioso, desorganizado e extremamente perigoso, muito distante da imagem heroica vendida em redes sociais e por intermediários que atuam no Brasil. O que é apresentado como uma oportunidade estruturada, com contrato, salário elevado e respaldo oficial, na prática se revela um ambiente marcado por improviso, falta de informação e perda quase total de autonomia do voluntário estrangeiro.

Nas últimas semanas, o GBN Defense recebeu relatos diretos de brasileiros que atuam na linha de frente e em centros de treinamento. Entre eles está “J”, uma de nossas fontes, que descreveu com detalhes as dificuldades enfrentadas ao tentar deixar o país após cumprir o período inicialmente acordado.

Segundo “J”, o problema começa logo na chegada à Ucrânia. Não há orientação clara, não há informações consistentes e tampouco existe qualquer estrutura organizada para receber estrangeiros. O brasileiro desembarca acreditando em uma realidade que simplesmente não existe.

Vendiam uma coisa no Brasil e aqui é outra completamente diferente. Quando a gente chega, percebe que não tem nada organizado. Ninguém explica nada direito”, relatou.

De acordo com a fonte, a situação se agrava quando o voluntário manifesta o desejo de retornar ao Brasil. Documentos são retidos, processos se tornam deliberadamente lentos e confusos, e os custos para sair do país são extremamente elevados.

“Se quiser ir embora, não é simples. O passaporte fica retido. Mesmo pagando os valores que eles pedem, nada é garantido. É mais caro voltar do que vir”, afirmou “J”.

O relato confirma um padrão observado em outros depoimentos: enquanto há interesse em trazer combatentes, tudo funciona com rapidez. Quando o brasileiro tenta cumprir o acordo e retornar ao seu país de origem, surgem obstáculos, exigências financeiras inesperadas e uma completa ausência de apoio.

Outras fontes ouvidas pela reportagem reforçam que brasileiros que tiveram passagens financiadas por intermediários perdem totalmente a autonomia. Ao entregar seus documentos, passam a depender de promessas vagas e de uma cadeia informal de comando, sem contrato claro, sem respaldo legal e sem garantia de retorno.

Tem gente aqui sem contrato, sem conta em banco e sem passaporte. Ficam presos esperando boa vontade”, relatou outro brasileiro.

A desorganização é generalizada. Não há clareza sobre regras, direitos ou deveres. Muitos iniciam treinamentos sem qualquer vínculo formalizado, acreditando que tudo será resolvido “mais à frente”. Para vários, essa regularização nunca acontece.

Essa ilusão vendida no Brasil, segundo as fontes, é um dos aspectos mais graves do problema. Jovens são atraídos por discursos heroicos, promessas financeiras e narrativas de propósito, mas encontram um cenário completamente diferente ao desembarcar na Ucrânia: precariedade, improviso, risco extremo e abandono.

É justamente por isso que esta reportagem cumpre um papel de alerta. O objetivo é evitar que mais brasileiros sejam enganados por aliciadores que operam à margem da lei, explorando o desconhecimento, a boa-fé e, em alguns casos, o desespero de quem busca uma oportunidade ou um sentido maior.

Enquanto não houver informação clara, posicionamento oficial e medidas de prevenção, o risco é que mais cidadãos brasileiros sejam atraídos para uma guerra brutal, sem garantias, sem proteção jurídica e com enormes dificuldades para retornar para casa.

A omissão do Estado não pode continuar

Diante da gravidade dos relatos e da recorrência dos casos, esta reportagem também se coloca como um alerta direto ao Estado brasileiro. O Ministério das Relações Exteriores não pode permanecer inerte diante de um fenômeno que envolve aliciamento, retenção de documentos, violação de direitos e dificuldades extremas de repatriação de cidadãos brasileiros.

É urgente que o Itamaraty estabeleça ações concretas para combater essa prática, criando mecanismos de identificação, acompanhamento e apoio consular a brasileiros que foram levados à guerra da Ucrânia sob falsas promessas e narrativas ilusórias. Muitos desses cidadãos não partiram com plena consciência dos riscos, da precariedade e da ausência de garantias legais que encontrariam ao chegar ao país em conflito.

Além disso, o Congresso Nacional e o Senado Federal precisam assumir seu papel. É necessária a discussão e aprovação de uma legislação específica que impeça o aliciamento de brasileiros para atuar como combatentes em guerras estrangeiras nas quais o Brasil não é parte. Trata-se de uma lacuna legal grave, que hoje permite a atuação de intermediários e redes informais que lucram com o envio de pessoas para zonas de conflito.

Juristas ouvidos por nossa reportagem apontam que esse tipo de aliciamento se aproxima perigosamente de práticas associadas ao tráfico de pessoas. Indivíduos são recrutados com promessas financeiras, benefícios e suposta segurança, mas acabam privados de documentos, liberdade de escolha e meios de retorno. A diferença entre o que é prometido no Brasil e a realidade encontrada no destino é abissal.

Outra medida considerada essencial é a criação de campanhas oficiais de conscientização. Avisos claros e objetivos deveriam ser exibidos em aeroportos internacionais, em canais de televisão e em meios digitais, alertando os brasileiros sobre a realidade da guerra na Ucrânia, os riscos do recrutamento irregular, a possibilidade de retenção de documentos, a ausência de contratos formais e as dificuldades extremas para retornar ao país.

Assim como existem campanhas contra o tráfico humano, o trabalho escravo e o turismo sexual, é preciso tratar o aliciamento para guerras estrangeiras como um problema real de segurança humana, jurídica e nacional.

Por fim, é fundamental que o Itamaraty amplie e fortaleça seus canais de apoio a brasileiros já envolvidos nesse contexto, garantindo assistência consular efetiva, orientação jurídica e, sempre que possível, mecanismos de repatriação segura.

Informar, prevenir e agir é uma obrigação do Estado. O silêncio institucional apenas favorece os aliciadores e amplia o número de vítimas.

Risco direto à segurança pública brasileira

Há ainda um fator que torna esse fenômeno absolutamente inaceitável do ponto de vista do Estado brasileiro: o impacto direto na segurança pública nacional. Fontes de inteligência e segurança, no Brasil e no exterior, vêm alertando que entre os brasileiros que se deslocam para a guerra da Ucrânia existem integrantes ou associados de organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e ao crime organizado.

Esses indivíduos não buscam apenas remuneração ou propósito ideológico. Muitos vão para um teatro de guerra real com o objetivo de adquirir treinamento militar, aprender técnicas de combate urbano, manuseio de armamentos, coordenação sob fogo e, especialmente, o emprego de drones para reconhecimento e ataque. Trata-se de um aprendizado que, ao retornar ao Brasil, passa a ser utilizado contra o próprio Estado e contra a sociedade brasileira.

Esse risco já deixou de ser teórico. Operações recentes das forças de segurança em áreas dominadas por facções criminosas, como o Complexo do Alemão e o Complexo da Penha, evidenciaram o uso crescente de drones para vigilância, coordenação de ações criminosas e até ataques contra forças policiais. A sofisticação dessas práticas indica um salto qualitativo preocupante, compatível com técnicas observadas em conflitos armados modernos.

Permitir que narcotraficantes e narcoterroristas brasileiros se desloquem para uma guerra estrangeira, recebam treinamento militar e retornem ao país com esse conhecimento representa uma ameaça concreta à ordem pública. É um risco inaceitável, que expõe policiais, agentes do Estado e a população civil a um nível de violência ainda maior.

Ignorar essa dimensão do problema não é apenas omissão humanitária, é negligência estratégica. Combater o aliciamento de brasileiros para guerras estrangeiras não é apenas proteger cidadãos enganados por promessas ilusórias, mas também impedir que o Brasil importe para dentro de suas cidades técnicas de guerra aprendidas em um dos conflitos mais violentos da atualidade.

Neste contexto, a atuação do Itamaraty, do Congresso Nacional e das forças de segurança não é apenas desejável, é urgente. Cada brasileiro recrutado de forma irregular para um conflito externo pode representar, no futuro, um risco direto à segurança interna do Brasil.

Esta reportagem é, acima de tudo, um alerta. Para que mais brasileiros não descubram tarde demais que a realidade da guerra é muito diferente da ilusão que lhes foi vendida.


Por Angelo Nicolaci


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Haiti 2010: entre os escombros, a coragem do soldado brasileiro

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Haiti, 12 de janeiro de 2010. Às 16h50, um terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o sul da ilha de Hispaniola e lançou o país em um dos maiores desastres humanitários do século XXI. Em poucos segundos, Porto Príncipe foi reduzida a escombros. Prédios desabaram como castelos de areia, hospitais deixaram de existir, ruas desapareceram sob concreto e poeira. O Haiti entrou em colapso absoluto.

No coração daquela tragédia estava a sede da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, a MINUSTAH, instalada no Hotel Christopher. O Brasil, que desde 2004 liderava o componente militar da missão, foi duramente atingido. Naquele instante, o país perdeu alguns de seus melhores homens, em um episódio que marcaria para sempre a história das Forças Armadas brasileiras em operações de paz.

Entre os militares presentes no prédio estava o então Tenente-Coronel Adriano de Souza Azevedo, do Exército Brasileiro. Era seu primeiro dia de trabalho na missão. Ele participava de uma reunião administrativa ao lado de outros oficiais, em um ambiente organizado, com bandeiras que simbolizavam a cooperação internacional. Em segundos, aquele cenário desapareceu.

O tremor inicial foi seguido por um impacto violento. O prédio começou a ceder de forma desordenada e avançou para frente antes de colapsar por completo. Na tentativa instintiva de fuga, Azevedo presenciou a morte de seu adjunto, o Major Guimarães, atingido quando tentava descer a escada. A estrutura se fechou sobre todos. Luz, ar e referências desapareceram.

Preso sob os escombros, ferido e cercado pela morte, o oficial brasileiro enfrentou momentos de absoluto desespero. O que permaneceu gravado em sua memória não foi apenas a dor física, mas os sons: o último suspiro de pessoas esmagadas e o ruído contínuo de equipamentos ainda ligados sob toneladas de concreto. Um retrato cru da fragilidade humana diante da força da natureza.

Foi então que surgiu uma fresta mínima de luz. Pequena, quase imperceptível, mas suficiente para reacender a vontade de viver. Com uma força que nasce da disciplina, do treinamento e da coragem moldada ao longo de toda uma carreira, Azevedo arrancou tijolos com as próprias mãos e atravessou a parede. Tornou-se um dos apenas cinco sobreviventes do desabamento do Hotel Christopher, onde cerca de 130 pessoas morreram soterradas.

Ferido na perna, exausto e ainda sob risco de novos tremores, ele poderia ter buscado abrigo. Não o fez. Sabia que outros ainda estavam presos sob os escombros. Entre eles, o Tenente-Coronel Alexandre Santos, companheiro de farda e de missão. Para Azevedo, sobreviver não significava encerrar a missão. Significava continuar.

Ao lado do Tenente-Coronel Celso Kersul, retornou ao local mais instável e perigoso possível. Sem equipamentos adequados, improvisaram técnicas de progressão e rapel em uma estrutura prestes a desmoronar novamente. Tremores secundários continuavam a atingir a região. Ainda assim, horas depois, Alexandre Santos foi retirado com vida. Mais tarde, Jude Brice, funcionário civil da ONU, também foi salvo graças à persistência e liderança do militar brasileiro.

O exemplo de Azevedo rompeu a paralisia causada pelo choque inicial. Outros militares e civis passaram a agir. As ruas de Porto Príncipe revelavam um cenário difícil de descrever: corpos empilhados, famílias desorientadas, feridos clamando por socorro. Para permitir o deslocamento das viaturas e salvar vidas, corpos precisaram ser afastados. A decisão foi imediata e coletiva. O Brasil, mesmo ferido, assumia novamente a linha de frente.

Nos dias seguintes, as tropas brasileiras desempenharam papel central nas operações de resgate, assistência humanitária, segurança e apoio médico. Mesmo após perder oficiais, sargentos e praças, o Brasil não recuou. Manteve-se firme, organizado e humano, honrando o compromisso assumido com a paz e com o povo haitiano.

Pelos atos de coragem, liderança e abnegação, Adriano de Souza Azevedo foi agraciado com a Medalha do Pacificador com Palma, uma das mais altas condecorações do Exército Brasileiro. Mais do que uma medalha, o reconhecimento simboliza um comportamento que representa o melhor do soldado brasileiro. Ao recordar aqueles dias, Azevedo sempre destacou algo que vai além do heroísmo individual: o espírito de equipe, a capacidade do brasileiro de agir quando tudo ao redor desmorona.

O terremoto de 2010 deixou mais de 200 mil mortos e mais de um milhão e meio de desabrigados no Haiti. Para o Brasil, deixou uma dor profunda, mas também um legado incontestável. Ali, longe de casa, homens de farda honraram seu juramento até as últimas consequências.

Esta matéria também carrega um reconhecimento pessoal e profissional. Nosso editor mantém amizade e profundo respeito pelo Cel Adriano de Souza Azevedo, não apenas pelo episódio no Haiti, mas por uma trajetória marcada pela liderança serena, pela coragem silenciosa e pelo compromisso inabalável com seus comandados. Seu exemplo não se resume àquele dia trágico, mas se estende por toda uma vida dedicada ao serviço.

Ao final, rendemos homenagem aos militares brasileiros que tombaram no Haiti, aos que sobreviveram carregando marcas visíveis e invisíveis, e a todos que, mesmo diante do caos absoluto, escolheram permanecer, agir e salvar vidas. Homens como Azevedo e tantos outros que fizeram do uniforme não um símbolo de poder, mas de responsabilidade.

Que seus nomes jamais sejam esquecidos.
Que seu exemplo continue vivo.

E que o heroísmo brasileiro, forjado na disciplina, na coragem e na humanidade, siga sendo referência onde quer que o Brasil seja chamado a servir.



por Angelo Nicolaci


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Crepúsculo do Átomo: A Probabilidade do Caos e os Imperativos para a Defesa Brasileira

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O horizonte da geopolítica apresenta-se em um dos momentos mais voláteis da história contemporânea, marcado por uma mudança estrutural na natureza das ameaças estatais no Oriente Médio. Diferente das décadas anteriores, onde o confronto era caracterizado por atritos de baixa intensidade, a análise de inteligência atual indica uma transição perigosa para riscos existenciais diretos. O foco recai sobre o colapso acelerado da legitimidade interna do regime iraniano e a consequente tentação de recorrer a Armas de Destruição em Massa (WMD) não como ferramenta de conquista, mas como mecanismo de sobrevivência. Este cenário colide frontalmente com a doutrina de dissuasão final de Israel, a "Opção Sansão". Para o Brasil, distante geograficamente mas conectado às cadeias globais, este não é um exercício teórico, mas um estudo de caso urgente sobre as lacunas na nossa própria estratégia militar.

A premissa central desta análise é que a racionalidade dos atores estatais degrada-se rapidamente quando a sobrevivência do regime está em jogo. O Irã, encurralado por sanções econômicas (snapback da ONU) e pela dissidência interna, pode ver na escalada nuclear ou radiológica um mecanismo de chantagem global. É vital entender que a probabilidade de uso de WMD não é linear; ela varia drasticamente dependendo do vetor de ataque e da estabilidade interna de Teerã.

1. A Matriz de Probabilidade: Vetores de Risco em 2026

Para dissecar a ameaça real, devemos abandonar generalizações e aplicar uma avaliação probabilística calibrada (ICD 203) sobre os vetores de ataque disponíveis ao Irã. A análise estatística para o ano corrente revela uma divergência crítica entre a retórica pública e a capacidade operacional real, dividida em três eixos de probabilidade.

Vetor 1: Ataque Nuclear Estratégico (Direto)
Probabilidade: < 5% (Muito Baixa)

A liderança iraniana mantém, neste nível, um resquício de racionalidade. Eles compreendem com certeza absoluta que um lançamento de mísseis balísticos (Sejjil/Emad) a partir de solo iraniano resultaria na ativação imediata da Tríade Nuclear de Israel. A "Destruição Mútua Assegurada" (MAD) ainda funciona como barreira efetiva neste vetor específico.

Vetor 2: Ataque Assimétrico/Proxy (Radiológico/Químico)
Probabilidade: 35% - 45% (Moderada)

Este é o vetor de risco técnico elevado. O Irã pode explorar o conceito de Plausible Deniability (Negação Plausível), fornecendo materiais para "bombas sujas" ou agentes químicos a grupos proxies. A lógica aqui é infligir dano econômico e psicológico a Israel tentando evitar uma retaliação nuclear direta, uma aposta arriscada que eleva a tensão regional.

Vetor 3: Cenário "Canto da Parede" (Colapso do Regime)
Probabilidade Condicional: 60% - 75% (Alta)

Esta é a variável crítica. Se a liderança do IRGC perceber que o colapso do regime é iminente e inevitável (seja por revolta interna ou pressão externa), a lógica de dissuasão desaparece. A probabilidade de uso de WMD dispara para níveis alarmantes sob a mentalidade de "martírio estratégico".

A gravidade desta análise reside no Vetor 3. A estabilidade interna do Irã é a variável independente que dita a segurança nuclear global. À medida que os protestos em Teerã se intensificam e a economia falha, nos aproximamos perigosamente do limiar onde a probabilidade de uso de WMD deixa de ser uma especulação remota para se tornar o curso de ação preferencial de uma liderança desesperada.

2. A Doutrina do Juízo Final: A Opção Sansão Revisitada

Do outro lado desta equação volátil, encontra-se o Estado de Israel e sua doutrina nuclear não declarada: a Opção Sansão. O nome, derivado da figura bíblica que derrubou os pilares do templo sobre si mesmo e seus inimigos, ilustra a natureza de "último recurso" desta postura. Diferente da doutrina russa de "escalar para desescalar", a doutrina israelense é um mecanismo de garantia de destruição do agressor caso o Estado judeu enfrente aniquilação.

Estudiosos da Federation of American Scientists estimam que o arsenal israelense compõe uma Tríade Nuclear completa. Mísseis baseados em silos (Jericho III), aeronaves F-15I Ra'am e mísseis de cruzeiro lançados por submarinos Dolphin garantem a capacidade de segundo ataque. O perigo em 2026 é a redefinição de "ameaça existencial". Se a liderança israelense detectar a ativação dos vetores de alta probabilidade citados acima (especialmente o cenário de colapso iraniano), a ativação da Opção Sansão torna-se plausível, visando a decapitação completa da estrutura do adversário.

3. Cenários de Escalada: A Narrativa do Conflito

A transição da tensão matemática para a guerra cinética pode ocorrer através de diversos caminhos. Abaixo, detalhamos os cenários que materializam as estatísticas apresentadas.

Cenário Alfa: O "Sinal" Radiológico (Probabilidade Moderada)

Materializando a estatística de 35-45%, neste cenário a inteligência iraniana autoriza um grupo *proxy* a detonar um Dispositivo de Dispersão Radiológica (RDD) em um porto como Haifa. Não há explosão nuclear, mas a negação de área por contaminação. A resposta de Israel seria convencional, porém massiva, estendendo os alvos para a infraestrutura de óleo e gás do Irã, ignorando a negação de autoria. O impacto seria o pânico imediato nos mercados de energia e seguros marítimos.

Cenário Bravo: O "Breakout" Nuclear

Uma tentativa de sobrevivência política. Teerã realiza um teste nuclear subterrâneo confirmado para sinalizar capacidade. Isso desencadeia a "Doutrina Begin" israelense — ataque preventivo total. Israel utilizaria munições bunker busters e possivelmente armas de pulso eletromagnético (EMP) para colapsar instalações em Fordow. A retaliação iraniana fecharia o Estreito de Ormuz, elevando o petróleo a patamares históricos.

Cenário Charlie: O Juízo Final (Alta Probabilidade Condicional)

Este é o cenário derivado da probabilidade de 60-75% em caso de colapso. Diante da queda iminente, a linha dura do regime lança uma salva de saturação com ogivas químicas ou nucleares táticas. Israel, enfrentando danos inaceitáveis, executa a Opção Sansão. Pela primeira vez desde 1945, armas nucleares são usadas em combate. O resultado é o colapso das cadeias de suprimento globais e o isolamento radioativo de vastas áreas do Oriente Médio.

4. Lições Estratégicas e Imperativos para o Brasil

A análise do fracasso defensivo iraniano e da postura israelense oferece lições diretas para a Defesa Nacional brasileira. A vulnerabilidade exposta das infraestruturas críticas no exterior exige uma atualização da nossa matriz de riscos.

A Ilusão da Segurança Estática: O Irã confiou em defesas pontuais que foram suprimidas. O Brasil possui o PLANSIC, focado em segurança física e cibernética. Contudo, nossas hidrelétricas e o complexo nuclear de Angra carecem de Defesa Antiaérea de Média Altura integrada. Em um cenário global onde a tecnologia de mísseis prolifera, a proteção passiva é insuficiente.

Defesa QBRN como "Warfighting": A probabilidade moderada de uso de armas "sujas" (radiológicas) no cenário global reforça a necessidade de expandir a capacidade QBRN (Química, Biológica, Radiológica e Nuclear) brasileira. Atualmente focada em batalhões especializados do Exército, essa doutrina precisa transbordar para a Defesa Civil, preparando portos como Santos e Rio de Janeiro para cenários de descontaminação em massa e triagem populacional.

Autonomia e Interdependência: A crise de 2026 demonstra que a neutralidade diplomática não oferece imunidade econômica. No caso de fechamento do Estreito de Ormuz (Cenário Bravo), a logística do agronegócio brasileiro seria severamente impactada pela falta de fertilizantes e combustíveis. A defesa nacional deve, portanto, integrar a segurança das linhas de comunicação marítima no Atlântico Sul como prioridade absoluta de soberania alimentar.

O inolvidável General de Exército Eduardo Villas Bôas resumiu tudo isso com seu brilhantismo costumeiro:

"Um país que não dispõe de poder dissuasório não tem soberania; tem apenas a condescendência alheia."

Em conclusão, os dados estatísticos apontam para um risco inaceitável de escalada no horizonte atual. Para o Brasil, a resposta deve ser o investimento sóbrio em capacidades de negação de área e resiliência de infraestrutura. A paz, neste século, é um dividendo pago àqueles capazes de se defenderem contra o caos calculado.

O Crepúsculo do Átomo: Instabilidade Iraniana e a Opção Sansão - Análise 2026

O Crepúsculo do Átomo: A Probabilidade Estatística do Caos e os Imperativos para a Defesa Brasileira

O horizonte da geopolítica 2026 apresenta-se como um dos momentos mais voláteis da história contemporânea, marcado por uma mudança estrutural na natureza das ameaças estatais no Oriente Médio. Diferente das décadas anteriores, onde o confronto era caracterizado por atritos de baixa intensidade, a análise de inteligência atual indica uma transição perigosa para riscos existenciais diretos. O foco recai sobre o colapso acelerado da legitimidade interna do regime iraniano e a consequente tentação de recorrer a Armas de Destruição em Massa (WMD) não como ferramenta de conquista, mas como mecanismo de sobrevivência. Este cenário colide frontalmente com a doutrina de dissuasão final de Israel, a "Opção Sansão". Para o Brasil, distante geograficamente mas conectado às cadeias globais, este não é um exercício teórico, mas um estudo de caso urgente sobre as lacunas na nossa própria estratégia militar.

A premissa central desta análise é que a racionalidade dos atores estatais degrada-se rapidamente quando a sobrevivência do regime está em jogo. O Irã, encurralado por sanções econômicas (snapback da ONU) e pela dissidência interna, pode ver na escalada nuclear ou radiológica um mecanismo de chantagem global. É vital entender que a probabilidade de uso de WMD não é linear; ela varia drasticamente dependendo do vetor de ataque e da estabilidade interna de Teerã.

1. A Matriz de Probabilidade: Vetores de Risco em 2026

Para dissecar a ameaça real, devemos abandonar generalizações e aplicar uma avaliação probabilística calibrada (ICD 203) sobre os vetores de ataque disponíveis ao Irã. A análise estatística para o ano corrente revela uma divergência crítica entre a retórica pública e a capacidade operacional real, dividida em três eixos de probabilidade.

Vetor 1: Ataque Nuclear Estratégico (Direto)
Probabilidade: < 5% (Muito Baixa)

A liderança iraniana mantém, neste nível, um resquício de racionalidade. Eles compreendem com certeza absoluta que um lançamento de mísseis balísticos (Sejjil/Emad) a partir de solo iraniano resultaria na ativação imediata da Tríade Nuclear de Israel. A "Destruição Mútua Assegurada" (MAD) ainda funciona como barreira efetiva neste vetor específico.

Vetor 2: Ataque Assimétrico/Proxy (Radiológico/Químico)
Probabilidade: 35% - 45% (Moderada)

Este é o vetor de risco técnico elevado. O Irã pode explorar o conceito de Plausible Deniability (Negação Plausível), fornecendo materiais para "bombas sujas" ou agentes químicos a grupos proxies. A lógica aqui é infligir dano econômico e psicológico a Israel tentando evitar uma retaliação nuclear direta, uma aposta arriscada que eleva a tensão regional.

Vetor 3: Cenário "Canto da Parede" (Colapso do Regime)
Probabilidade Condicional: 60% - 75% (Alta)

Esta é a variável crítica. Se a liderança do IRGC perceber que o colapso do regime é iminente e inevitável (seja por revolta interna ou pressão externa), a lógica de dissuasão desaparece. A probabilidade de uso de WMD dispara para níveis alarmantes sob a mentalidade de "martírio estratégico".

A gravidade desta análise reside no Vetor 3. A estabilidade interna do Irã é a variável independente que dita a segurança nuclear global. À medida que os protestos em Teerã se intensificam e a economia falha, nos aproximamos perigosamente do limiar onde a probabilidade de uso de WMD deixa de ser uma especulação remota para se tornar o curso de ação preferencial de uma liderança desesperada.

2. A Doutrina do Juízo Final: A Opção Sansão Revisitada

Do outro lado desta equação volátil, encontra-se o Estado de Israel e sua doutrina nuclear não declarada: a Opção Sansão. O nome, derivado da figura bíblica que derrubou os pilares do templo sobre si mesmo e seus inimigos, ilustra a natureza de "último recurso" desta postura. Diferente da doutrina russa de "escalar para desescalar", a doutrina israelense é um mecanismo de garantia de destruição do agressor caso o Estado judeu enfrente aniquilação.

Estudiosos da Federation of American Scientists estimam que o arsenal israelense compõe uma Tríade Nuclear completa. Mísseis baseados em silos (Jericho III), aeronaves F-15I Ra'am e mísseis de cruzeiro lançados por submarinos Dolphin garantem a capacidade de segundo ataque. O perigo em 2026 é a redefinição de "ameaça existencial". Se a liderança israelense detectar a ativação dos vetores de alta probabilidade citados acima (especialmente o cenário de colapso iraniano), a ativação da Opção Sansão torna-se plausível, visando a decapitação completa da estrutura do adversário.

3. Cenários de Escalada: A Narrativa do Conflito

A transição da tensão matemática para a guerra cinética pode ocorrer através de diversos caminhos. Abaixo, detalhamos os cenários que materializam as estatísticas apresentadas.

Cenário Alfa: O "Sinal" Radiológico (Probabilidade Moderada)

Materializando a estatística de 35-45%, neste cenário a inteligência iraniana autoriza um grupo *proxy* a detonar um Dispositivo de Dispersão Radiológica (RDD) em um porto como Haifa. Não há explosão nuclear, mas a negação de área por contaminação. A resposta de Israel seria convencional, porém massiva, estendendo os alvos para a infraestrutura de óleo e gás do Irã, ignorando a negação de autoria. O impacto seria o pânico imediato nos mercados de energia e seguros marítimos.

Cenário Bravo: O "Breakout" Nuclear

Uma tentativa de sobrevivência política. Teerã realiza um teste nuclear subterrâneo confirmado para sinalizar capacidade. Isso desencadeia a "Doutrina Begin" israelense — ataque preventivo total. Israel utilizaria munições bunker busters e possivelmente armas de pulso eletromagnético (EMP) para colapsar instalações em Fordow. A retaliação iraniana fecharia o Estreito de Ormuz, elevando o petróleo a patamares históricos.

Cenário Charlie: O Juízo Final (Alta Probabilidade Condicional)

Este é o cenário derivado da probabilidade de 60-75% em caso de colapso. Diante da queda iminente, a linha dura do regime lança uma salva de saturação com ogivas químicas ou nucleares táticas. Israel, enfrentando danos inaceitáveis, executa a Opção Sansão. Pela primeira vez desde 1945, armas nucleares são usadas em combate. O resultado é o colapso das cadeias de suprimento globais e o isolamento radioativo de vastas áreas do Oriente Médio.

4. Lições Estratégicas e Imperativos para o Brasil

A análise do fracasso defensivo iraniano e da postura israelense oferece lições diretas para a Defesa Nacional brasileira. A vulnerabilidade exposta das infraestruturas críticas no exterior exige uma atualização da nossa matriz de riscos.

A Ilusão da Segurança Estática: O Irã confiou em defesas pontuais que foram suprimidas. O Brasil possui o PLANSIC, focado em segurança física e cibernética. Contudo, nossas hidrelétricas e o complexo nuclear de Angra carecem de Defesa Antiaérea de Média Altura integrada. Em um cenário global onde a tecnologia de mísseis prolifera, a proteção passiva é insuficiente.

Defesa QBRN como "Warfighting": A probabilidade moderada de uso de armas "sujas" (radiológicas) no cenário global reforça a necessidade de expandir a capacidade QBRN (Química, Biológica, Radiológica e Nuclear) brasileira. Atualmente focada em batalhões especializados do Exército, essa doutrina precisa transbordar para a Defesa Civil, preparando portos como Santos e Rio de Janeiro para cenários de descontaminação em massa e triagem populacional.

Autonomia e Interdependência: A crise de 2026 demonstra que a neutralidade diplomática não oferece imunidade econômica. No caso de fechamento do Estreito de Ormuz (Cenário Bravo), a logística do agronegócio brasileiro seria severamente impactada pela falta de fertilizantes e combustíveis. A defesa nacional deve, portanto, integrar a segurança das linhas de comunicação marítima no Atlântico Sul como prioridade absoluta de soberania alimentar.

"Um país que não dispõe de poder dissuasório não tem soberania; tem apenas a condescendência alheia."

— General de Exército Eduardo Villas Bôas

Em conclusão, os dados estatísticos apontam para um risco inaceitável de escalada no horizonte de 2026. Para o Brasil, a resposta deve ser o investimento sóbrio em capacidades de negação de área e resiliência de infraestrutura. A paz, neste século, é um dividendo pago àqueles capazes de se defenderem contra o caos calculado.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Corte de voos da FAB expõe falhas estruturais no orçamento de Defesa

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O Comando da Aeronáutica registrou uma queda expressiva no emprego de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para o transporte de autoridades após o endurecimento dos critérios de autorização para missões consideradas de baixa aderência institucional. Em 2025, os custos associados a esse tipo de operação ultrapassaram R$ 60 milhões, somando despesas com combustível, manutenção e taxas aeroportuárias. A partir de novembro, contudo, a demanda caiu de forma abrupta, com a ocorrência de dias inteiros sem qualquer voo registrado, um cenário atípico em comparação aos anos anteriores.

A decisão reflete uma mudança de postura técnica diante de um quadro de restrição orçamentária severa. O transporte aéreo de autoridades envolve aeronaves de elevado custo operacional, cuja utilização recorrente para agendas pouco justificáveis consumia recursos equivalentes a centenas de horas de voo operacional. Em um orçamento já pressionado, esse emprego contribuiu para reduzir margens críticas destinadas à manutenção, ao treinamento de tripulações e à sustentação da prontidão.

Com o novo modelo de controle, o Comando da Aeronáutica passou a exigir justificativas estritamente institucionais para cada solicitação, eliminando voos com baixa taxa de ocupação, destinos sem vínculo direto com compromissos de Estado ou demandas de caráter político-partidário. O impacto foi imediato. Dezembro registrou diversos períodos sem missões de transporte, evidenciando o quanto a prática anterior estava dissociada de uma lógica de racionalidade operacional.

A contenção dessas missões ocorre em paralelo a uma crise orçamentária estrutural que afeta diretamente a capacidade operacional da FAB. Em 2025, a escassez de recursos chegou a comprometer a aquisição regular de combustível aeronáutico, impondo restrições ao treinamento de pilotos e à disponibilidade de aeronaves de caça, patrulha e vigilância, meios essenciais para a defesa do espaço aéreo brasileiro e para o cumprimento de compromissos internacionais.

Dados internos indicam que o custo de um único voo de autoridade poderia sustentar múltiplas horas de missões de defesa aérea, patrulha ou adestramento. O contraste evidencia um problema recorrente na gestão dos recursos de Defesa: gastos administrativos e políticos competindo diretamente com a atividade-fim das Forças Armadas. Nesse contexto, o endurecimento do controle sobre o uso de jatos oficiais surge não como uma escolha, mas como uma medida de sobrevivência operacional.

Com a nova diretriz, apenas ministérios e órgãos considerados estratégicos, como Defesa e Justiça, mantiveram acesso prioritário às aeronaves da FAB. Solicitações de caráter pessoal, político ou eleitoral passaram a ser sistematicamente negadas, rompendo uma prática que há décadas gerava desgaste institucional e consumia recursos críticos sem retorno estratégico.

A economia obtida com a redução dessas missões está sendo direcionada para assegurar requisitos mínimos de segurança de voo, manutenção e operação de aeronaves de combate e treinamento. O objetivo central da Aeronáutica é evitar que restrições orçamentárias voltem a paralisar atividades essenciais, preservando níveis básicos de prontidão e capacidade dissuasória em um ambiente fiscal que permanece altamente restritivo.

Racionalizar não basta, é preciso mudar o modelo

O episódio vai muito além da discussão sobre o uso de aeronaves para transporte de autoridades. Ele expõe, de forma inequívoca, a miopia histórica do Estado brasileiro em relação ao orçamento de Defesa. A racionalização do uso da frota da FAB é correta e necessária, mas não resolve o problema estrutural: a Defesa continua sendo tratada como variável de ajuste fiscal, e não como investimento estratégico de longo prazo.

A ausência de previsibilidade orçamentária compromete não apenas a operação cotidiana das Forças Armadas, mas inviabiliza qualquer planejamento consistente de modernização de capacidades. Programas estratégicos são atrasados, contratos são fragmentados, cronogramas são constantemente revistos e a eficiência operacional é sacrificada para atender a contingenciamentos de curto prazo.

Esse modelo gera um ciclo vicioso. Sem previsibilidade, a Base Industrial de Defesa (BID) não consegue planejar investimentos, reter mão de obra qualificada ou ampliar capacidades tecnológicas. Projetos são interrompidos, empresas perdem escala, competências críticas se dissipam e o país se torna cada vez mais dependente de soluções externas, muitas vezes mais caras e politicamente condicionadas.

O impacto vai além do campo militar. Investimentos consistentes em Defesa têm efeito direto sobre a economia, gerando empregos qualificados, estimulando inovação, fortalecendo cadeias produtivas nacionais e ampliando a arrecadação. A indústria de defesa é, historicamente, vetor de desenvolvimento tecnológico dual, com efeitos positivos em setores civis como aeronáutica, comunicações, materiais avançados e sistemas embarcados.

Ignorar essa lógica significa abrir mão de soberania, competitividade e desenvolvimento. Cada ciclo de cortes e improvisações representa não apenas aeronaves paradas em solo, mas oportunidades perdidas de geração de riqueza, conhecimento e autonomia estratégica.

O controle mais rigoroso do uso de jatos da FAB demonstra que há espaço para gestão mais eficiente dos recursos existentes. No entanto, eficiência administrativa não substitui investimento estruturado. Sem um orçamento de Defesa previsível, plurianual e alinhado a uma estratégia nacional clara, o Brasil continuará operando no limite, mantendo capacidades mínimas enquanto adia decisões fundamentais.

Em um cenário internacional marcado por instabilidade, competição estratégica e reconfiguração do poder global, tratar a Defesa como gasto supérfluo é uma escolha de alto risco. A questão central não é quantos voos deixarão de ocorrer, mas quanto o país está disposto a investir para garantir sua segurança, sua autonomia e seu futuro estratégico.


por Angelo Nicolaci


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Colômbia reage a ameaças dos EUA e reforça discurso de soberania nacional

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As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro em Caracas no dia 3 de janeiro, provocaram uma rápida escalada de tensões diplomáticas na América do Sul. Ao sugerir que uma ação semelhante poderia ser conduzida na Colômbia, Trump trouxe novamente à tona o debate sobre soberania nacional, limites da intervenção externa e os impactos estratégicos de operações unilaterais no equilíbrio regional.

Em resposta às declarações norte-americanas, o presidente colombiano Gustavo Petro rejeitou as acusações de ilegitimidade e envolvimento com o narcotráfico. Petro afirmou que seu governo atua dentro dos marcos constitucionais e destacou ações concretas no combate às organizações criminosas, incluindo a maior apreensão de cocaína já registrada no país e operações militares em áreas estratégicas de produção e escoamento de drogas, como a região de El Plateado, no departamento de Cauca.

Trump, durante declarações feitas a bordo do avião presidencial, classificou a Colômbia como um país “doente” e acusou diretamente Petro de fomentar a produção e exportação de cocaína para os Estados Unidos. As afirmações, endossadas por setores da política norte-americana, incluindo o senador Marco Rubio, reforçaram uma narrativa de securitização do narcotráfico como justificativa para ações coercitivas além das fronteiras dos EUA.

O presidente colombiano respondeu adotando uma postura de firmeza institucional, reiterando sua condição de comandante supremo das Forças Armadas e guardião da Constituição de 1991, marco jurídico que consolidou direitos fundamentais e redefiniu o papel do Estado colombiano após décadas de conflito interno. Petro também confirmou a remoção de oficiais de inteligência acusados de disseminar informações falsas, que, segundo o governo, contribuem para distorcer a percepção internacional sobre a Colômbia.

No campo militar, Petro enfatizou que as operações conduzidas sob sua administração seguem os parâmetros do Direito Internacional Humanitário, incluindo ações aéreas e terrestres contra grupos armados ilegais ligados ao narcotráfico. Segundo o presidente, essas organizações exploram táticas como o recrutamento de menores para dificultar ações militares diretas, o que, na avaliação do governo, exige respostas operacionais precisas e legalmente fundamentadas.

A retórica presidencial também deixou clara a disposição de defesa da soberania nacional. Petro afirmou que não aceitará qualquer forma de ingerência externa e que as Forças Armadas colombianas devem lealdade exclusiva à Constituição e à bandeira do país. Em tom mais assertivo, indicou que medidas seriam adotadas contra comandantes que demonstrassem alinhamento prioritário a interesses estrangeiros.

Análise estratégica: implicações regionais da ação dos EUA na Venezuela

Do ponto de vista geopolítico, a operação conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela marca um ponto de inflexão na forma como Washington vem se posicionando na América do Sul. Após um longo período em que predominou o uso de instrumentos indiretos como sanções econômicas, pressão diplomática e isolamento político, a ação direta em Caracas sinaliza uma disposição maior para o emprego de medidas coercitivas mais assertivas, especialmente em cenários considerados sensíveis à segurança hemisférica.

Sob a perspectiva norte-americana, a associação entre narcotráfico, instabilidade política e legitimidade governamental funciona como um elemento estruturante de sua narrativa estratégica. Esse enquadramento amplia a margem de manobra de Washington ao permitir a adoção de um espectro mais amplo de medidas, que vão desde sanções reforçadas e operações de interdição transnacional até, em situações específicas, ações cinéticas de caráter limitado, justificadas pelo combate a ameaças assimétricas e redes criminosas transnacionais.

Para os países sul-americanos, no entanto, essa mudança de postura tende a ser percebida com cautela. A adoção de critérios unilaterais para definir o que constitui uma ameaça à segurança regional pode reduzir o espaço de autonomia política dos Estados e aumentar a sensação de vulnerabilidade estratégica. Nesse contexto, governos da região passam a avaliar não apenas o impacto imediato da ação na Venezuela, mas também os precedentes que ela estabelece para o futuro.

A reação de países como Colômbia e Brasil, ao buscarem a ativação de fóruns regionais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), deve ser interpretada como uma tentativa de reequilibrar o ambiente estratégico por meio do diálogo político e da concertação regional. Embora a CELAC não possua instrumentos operacionais de defesa coletiva, seu emprego como espaço de articulação ganha relevância em momentos de crise, ao oferecer uma plataforma para coordenação diplomática e redução de assimetrias individuais frente a pressões externas.

No campo da defesa, o novo cenário tende a acelerar processos já em curso na região. A instabilidade percebida estimula a reavaliação de capacidades militares, com maior ênfase em vigilância de fronteiras, inteligência, mobilidade estratégica e integração entre forças terrestres, navais e aéreas. O fortalecimento de capacidades ISR, a ampliação de exercícios conjuntos e a modernização de meios surgem como respostas naturais a um ambiente caracterizado por maior incerteza e menor previsibilidade.

Paralelamente, a reconfiguração do ambiente estratégico abre espaço para uma atuação mais ativa de atores extrarregionais, como China e Rússia. A ampliação da presença desses países, seja por meio de cooperação tecnológica, acordos industriais de defesa ou investimentos em infraestrutura crítica, contribui para um processo gradual de multipolarização da segurança sul-americana, oferecendo alternativas estratégicas aos Estados da região e ampliando o leque de opções políticas e militares.

A partir desse contexto, é possível projetar alguns cenários. Em uma hipótese de estabilização controlada, a pressão dos Estados Unidos permaneceria concentrada em instrumentos diplomáticos e econômicos, enquanto os países sul-americanos fortaleceriam mecanismos regionais de diálogo, reduzindo o risco de escaladas. Em um cenário intermediário, de dissuasão ampliada, observar-se-ia o aumento de operações de interdição, presença militar indireta e exercícios, elevando o nível de tensão, mas sem confronto direto. Já em um cenário de escalada localizada, crises políticas internas ou ações pontuais poderiam gerar efeitos de transbordamento, com impactos diretos sobre a segurança de fronteiras e a estabilidade institucional dos países vizinhos.

Em síntese, a operação dos Estados Unidos na Venezuela e a retórica associada à Colômbia inserem a América do Sul em um período de maior volatilidade estratégica. O desfecho desse processo dependerá da capacidade dos atores regionais e extrarregionais de equilibrar dissuasão e diálogo, preservando margens de autonomia estratégica e evitando que o continente volte a ser um espaço de confrontos indiretos em um sistema internacional cada vez mais fragmentado.


por Angelo Nicolaci


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A INFLUÊNCIA DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NOS PRIMEIROS ANOS DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA.

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Finda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), maior conflito armado da história da humanidade, e vitoriosos os Aliados – dentre eles o Brasil –, retornaram à Pátria verde e amarela vinte e cinco mil homens e mulheres, veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), triunfantes, orgulhosos e inteiramente transformados. Os quase quinhentos pracinhas mortos, que lutaram contra o nazifascismo, em prol da liberdade e da democracia, seriam posteriormente repatriados, em 1960, como símbolos de coragem, heroísmo e amor incondicional ao País.

Os febianos, uma vez distribuídos em diferentes organizações militares espalhadas pelo Brasil, fossem oficiais ou praças, de escola ou reservistas efetivados, ao interagirem com seus camaradas, sistematicamente transformavam as estruturas Exército, à luz de experiências adquiridas, conhecimentos absorvidos e novas doutrinas aprendidas e testadas em combate. Reverberavam, no dia a dia da caserna, as agruras e aventuras dos campos de batalha, profundamente impregnados pela visão aterradora de uma guerra total e pela miséria humana e social correspondente. 

A Escola Superior de Guerra (ESG) surge justamente neste contexto, em 1949, fundada sob a inspiração de duas escolas norte-americanas, uma civil e outra militar (Vianna, 2020). Segundo José Murilo de Carvalho (2019, p. 209), a ESG seria “o Góes coletivo”, voltada para pensar e implementar “a política do Exército”, fazendo referência ao famoso aforismo do General Góes Monteiro, Chefe do Estado-Maior do Exército, quando da criação da FEB. Era preconizada, dessa forma, "a política do Exército ao invés da política no Exército", em clara alusão à necessidade urgente de preparação para a guerra, afastando desavenças políticas e enfatizando a Instituição como de caráter permanente e de Estado.

A ESG nasceu com o objetivo principal de “criar lideranças civis e militares para enfrentar a eventualidade de um novo estilo de guerra, não mais circunscrita à frente de batalha e ao palco de lutas, mas transformada em fato total, que afeta a sociedade por inteiro e toda a estrutura de uma nação” (Cordeiro de Farias in Camargo; Góes, 2001, p. 354). Na atualidade, sua missão se mantém fiel à orientação inicial, com o desenvolvimento e a disseminação de conhecimentos de Defesa, Segurança e Desenvolvimento Nacional, dentro da finalidade de ampliar o envolvimento da sociedade nestes temas, gerando discussões, propostas e soluções objetivas e inovadoras.  

Com a visão de futuro orientada a ser reconhecida como um Instituto de Altos Estudos de excelência nacional e de referência internacional, a ESG cultua importantes valores: a busca do bem comum; o engrandecimento do ser humano; a conduta ética; a integridade; o pensamento eclético; a liberdade de expressão; a busca da excelência na produção de conhecimento; a integração entre civis e militares; a prática do civismo; o sentimento patriótico; e o de pertencimento, externado pelo orgulho de integrar um estabelecimento caracterizado por inúmeras entregas ao Brasil. 

É expressão corrente identificar a influência dos veteranos da FEB na criação e no desenvolvimento inicial da ESG. De fato, coube a eles este protagonismo, a começar pelo seu primeiro comandante, o então General de Divisão Oswaldo Cordeiro de Farias. Durante a 2ª Guerra Mundial, Cordeiro de Farias esteve à frente da Artilharia Divisionária brasileira, na condição de General de Brigada. Liderou a ESG de 1949 até 1952, compondo a primeira turma de diplomados no Curso Superior de Guerra, em 1950, junto a outros renomados expedicionários: General de Divisão Euclydes Zenóbio da Costa, General de Brigada Agnaldo Caiado de Castro, Coronel Emílio Maurel Filho, Tenente-Coronel Jurandir de Bizarria Mamede e Tenente-Coronel Afonso Henrique de Miranda Corrêa (Brasil, 1999).

Nesse escopo, ressalta-se haverem comandado a ESG outros seis veteranos da FEB. O último deles, no ano de 1981, General de Exército Alacyr Frederico Werner, chefiou a Subseção de Foto-Informação da 2ª Seção do Estado-Maior da 1ª DIE, como capitão (Motta, 2001a). Humberto de Alencar Castelo Branco foi mais um ilustre febiano a se formar na ESG, à época General de Brigada. Antigo Chefe da 3ª Seção (Operações) do Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria Divisionária (1ª DIE), Castelo Branco foi também Subcomandante e Diretor do Departamento de Estudos da Escola, entre 1956 e 1958.

Durante sete décadas, passaram pelo Corpo Permanente da ESG diversas personalidades da intelectualidade brasileira, igualmente veteranos da FEB e destacadas figuras da vida nacional: os Generais Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos, além dos Coronéis Amerino Raposo Filho, Hélio Mendes, Joaquim Victorino Portella Ferreira Alves e Sergio Gomes Pereira. Aliam-se a eles outros tantos cidadãos que, convocados pelo esforço de guerra, combateram como praças na Itália, reintegraram-se à vida civil no pós-guerra e tornaram-se referências no serviço público e na iniciativa privada, como o engenheiro Djalma Dutra Ururahy e o advogado Joaquim Manoel Xavier da Silveira.

Os efeitos positivos da influência febiana na “casa onde estuda-se o destino do Brasil” se fizeram sentir de todos os níveis da escala hierárquica, transpassando as funções diretivas e diretamente acadêmicas. Para se ter uma ideia, em meados de 1950, no primeiro ano de funcionamento pleno da ESG, havia treze sargentos no corpo permanente, dos quais três eram veteranos da FEB. Serviam como auxiliares administrativos, desempenhavam funções técnicas e compunham as equipes de instrução militar do contingente de cabos e soldados. Eram eles os 2º Sargentos Benno Armindo Schirmer, Fortunato Scarpelli e Geraldo Camargo.

Merece uma especial menção Benno Armindo Schirmer. Na FEB, o 3º Sargento Benno, inicialmente destinado ao Depósito de Pessoal, foi posteriormente transferido para o 11º Regimento de Infantaria, em janeiro de 1945. Fluente em alemão, atuou como intérprete na linha de frente, interrogando prisioneiros capturados até o fim da guerra. Comandou patrulhas e liderou ações na Batalha de Montese. Reconhecido com as Medalhas de Guerra e de Campanha, foi também condecorado com a Cruz de Combate de 2ª Classe, por ato de bravura (Motta, 2001b).

De volta ao Brasil, o 3º Sargento Benno foi classificado no 4º Grupo de Artilharia de Dorso, depois 1º Grupo do 4º Regimento de Obuses 105mm, em Juiz de Fora-MG, antes de ser transferido para a ESG, em 1950, designado para trabalhar como auxiliar da 3ª Seção (Operações). Lá, atuou como operador cinematográfico, gravador e desenhista, elogiado sempre pelo seu comprometimento e alto rendimento (Motta, 2001b). Chegou ao posto de Capitão e foi transferido para a reserva como Major, em outubro de 1966. Se estabeleceu em Novo Hamburgo-RS, onde presidiu, por longos anos, a Seção Regional do Vale do Rio dos Sinos da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB). Faleceu em 25 de abril de 2016, aos 92 anos de idade.

Com o passar dos anos, a importância e a pujança da ESG só robusteceram, privilegiando a cultura, fomentando a pesquisa, aguçando o pensamento crítico e irradiando mentalidade de Defesa Nacional pelo Brasil e no exterior. Como consequência natural, surgiu, em 2011, o Campus Brasília da ESG que, em 2021, evoluiu para a Escola Superior de Defesa (ESD). Hoje, a ESG e a ESD se somam e se completam, atuando de forma integrada, harmônica e sinérgica, subordinadas ao Ministério da Defesa.

Em 2025, ano em que se comemoram oito décadas das vitórias da FEB na 2ª Guerra Mundial, nossos bravos pracinhas, por tudo que fizeram e representam ao Brasil, são heróis sempre lembrados. Ao correlacionar as influências da FEB com a criação e o despertar da ESG, pretende-se, sobretudo, evidenciar e caracterizar a longa duração do espírito dos expedicionários brasileiros em todo o espectro social, não restrito apenas aos anos de guerra, mas entendido como uma experiência profunda, formadora e transformadora, que permanece inspirando o Exército de Caxias, as Forças Armadas e o País.


Autores:

Daniel Mata Roque 

General de Brigada Andre Luiz de Souza Dias


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