O Comando da Aeronáutica registrou uma queda expressiva no emprego de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para o transporte de autoridades após o endurecimento dos critérios de autorização para missões consideradas de baixa aderência institucional. Em 2025, os custos associados a esse tipo de operação ultrapassaram R$ 60 milhões, somando despesas com combustível, manutenção e taxas aeroportuárias. A partir de novembro, contudo, a demanda caiu de forma abrupta, com a ocorrência de dias inteiros sem qualquer voo registrado, um cenário atípico em comparação aos anos anteriores.
A decisão reflete uma mudança de postura técnica diante de um quadro de restrição orçamentária severa. O transporte aéreo de autoridades envolve aeronaves de elevado custo operacional, cuja utilização recorrente para agendas pouco justificáveis consumia recursos equivalentes a centenas de horas de voo operacional. Em um orçamento já pressionado, esse emprego contribuiu para reduzir margens críticas destinadas à manutenção, ao treinamento de tripulações e à sustentação da prontidão.
Com o novo modelo de controle, o Comando da Aeronáutica passou a exigir justificativas estritamente institucionais para cada solicitação, eliminando voos com baixa taxa de ocupação, destinos sem vínculo direto com compromissos de Estado ou demandas de caráter político-partidário. O impacto foi imediato. Dezembro registrou diversos períodos sem missões de transporte, evidenciando o quanto a prática anterior estava dissociada de uma lógica de racionalidade operacional.
A contenção dessas missões ocorre em paralelo a uma crise orçamentária estrutural que afeta diretamente a capacidade operacional da FAB. Em 2025, a escassez de recursos chegou a comprometer a aquisição regular de combustível aeronáutico, impondo restrições ao treinamento de pilotos e à disponibilidade de aeronaves de caça, patrulha e vigilância, meios essenciais para a defesa do espaço aéreo brasileiro e para o cumprimento de compromissos internacionais.
Dados internos indicam que o custo de um único voo de autoridade poderia sustentar múltiplas horas de missões de defesa aérea, patrulha ou adestramento. O contraste evidencia um problema recorrente na gestão dos recursos de Defesa: gastos administrativos e políticos competindo diretamente com a atividade-fim das Forças Armadas. Nesse contexto, o endurecimento do controle sobre o uso de jatos oficiais surge não como uma escolha, mas como uma medida de sobrevivência operacional.
Com a nova diretriz, apenas ministérios e órgãos considerados estratégicos, como Defesa e Justiça, mantiveram acesso prioritário às aeronaves da FAB. Solicitações de caráter pessoal, político ou eleitoral passaram a ser sistematicamente negadas, rompendo uma prática que há décadas gerava desgaste institucional e consumia recursos críticos sem retorno estratégico.
A economia obtida com a redução dessas missões está sendo direcionada para assegurar requisitos mínimos de segurança de voo, manutenção e operação de aeronaves de combate e treinamento. O objetivo central da Aeronáutica é evitar que restrições orçamentárias voltem a paralisar atividades essenciais, preservando níveis básicos de prontidão e capacidade dissuasória em um ambiente fiscal que permanece altamente restritivo.
Racionalizar não basta, é preciso mudar o modelo
O episódio vai muito além da discussão sobre o uso de aeronaves para transporte de autoridades. Ele expõe, de forma inequívoca, a miopia histórica do Estado brasileiro em relação ao orçamento de Defesa. A racionalização do uso da frota da FAB é correta e necessária, mas não resolve o problema estrutural: a Defesa continua sendo tratada como variável de ajuste fiscal, e não como investimento estratégico de longo prazo.
A ausência de previsibilidade orçamentária compromete não apenas a operação cotidiana das Forças Armadas, mas inviabiliza qualquer planejamento consistente de modernização de capacidades. Programas estratégicos são atrasados, contratos são fragmentados, cronogramas são constantemente revistos e a eficiência operacional é sacrificada para atender a contingenciamentos de curto prazo.
Esse modelo gera um ciclo vicioso. Sem previsibilidade, a Base Industrial de Defesa (BID) não consegue planejar investimentos, reter mão de obra qualificada ou ampliar capacidades tecnológicas. Projetos são interrompidos, empresas perdem escala, competências críticas se dissipam e o país se torna cada vez mais dependente de soluções externas, muitas vezes mais caras e politicamente condicionadas.
O impacto vai além do campo militar. Investimentos consistentes em Defesa têm efeito direto sobre a economia, gerando empregos qualificados, estimulando inovação, fortalecendo cadeias produtivas nacionais e ampliando a arrecadação. A indústria de defesa é, historicamente, vetor de desenvolvimento tecnológico dual, com efeitos positivos em setores civis como aeronáutica, comunicações, materiais avançados e sistemas embarcados.
Ignorar essa lógica significa abrir mão de soberania, competitividade e desenvolvimento. Cada ciclo de cortes e improvisações representa não apenas aeronaves paradas em solo, mas oportunidades perdidas de geração de riqueza, conhecimento e autonomia estratégica.
O controle mais rigoroso do uso de jatos da FAB demonstra que há espaço para gestão mais eficiente dos recursos existentes. No entanto, eficiência administrativa não substitui investimento estruturado. Sem um orçamento de Defesa previsível, plurianual e alinhado a uma estratégia nacional clara, o Brasil continuará operando no limite, mantendo capacidades mínimas enquanto adia decisões fundamentais.
Em um cenário internacional marcado por instabilidade, competição estratégica e reconfiguração do poder global, tratar a Defesa como gasto supérfluo é uma escolha de alto risco. A questão central não é quantos voos deixarão de ocorrer, mas quanto o país está disposto a investir para garantir sua segurança, sua autonomia e seu futuro estratégico.
por Angelo Nicolaci
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