quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Haiti 2010: entre os escombros, a coragem do soldado brasileiro

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Haiti, 12 de janeiro de 2010. Às 16h50, um terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o sul da ilha de Hispaniola e lançou o país em um dos maiores desastres humanitários do século XXI. Em poucos segundos, Porto Príncipe foi reduzida a escombros. Prédios desabaram como castelos de areia, hospitais deixaram de existir, ruas desapareceram sob concreto e poeira. O Haiti entrou em colapso absoluto.

No coração daquela tragédia estava a sede da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, a MINUSTAH, instalada no Hotel Christopher. O Brasil, que desde 2004 liderava o componente militar da missão, foi duramente atingido. Naquele instante, o país perdeu alguns de seus melhores homens, em um episódio que marcaria para sempre a história das Forças Armadas brasileiras em operações de paz.

Entre os militares presentes no prédio estava o então Tenente-Coronel Adriano de Souza Azevedo, do Exército Brasileiro. Era seu primeiro dia de trabalho na missão. Ele participava de uma reunião administrativa ao lado de outros oficiais, em um ambiente organizado, com bandeiras que simbolizavam a cooperação internacional. Em segundos, aquele cenário desapareceu.

O tremor inicial foi seguido por um impacto violento. O prédio começou a ceder de forma desordenada e avançou para frente antes de colapsar por completo. Na tentativa instintiva de fuga, Azevedo presenciou a morte de seu adjunto, o Major Guimarães, atingido quando tentava descer a escada. A estrutura se fechou sobre todos. Luz, ar e referências desapareceram.

Preso sob os escombros, ferido e cercado pela morte, o oficial brasileiro enfrentou momentos de absoluto desespero. O que permaneceu gravado em sua memória não foi apenas a dor física, mas os sons: o último suspiro de pessoas esmagadas e o ruído contínuo de equipamentos ainda ligados sob toneladas de concreto. Um retrato cru da fragilidade humana diante da força da natureza.

Foi então que surgiu uma fresta mínima de luz. Pequena, quase imperceptível, mas suficiente para reacender a vontade de viver. Com uma força que nasce da disciplina, do treinamento e da coragem moldada ao longo de toda uma carreira, Azevedo arrancou tijolos com as próprias mãos e atravessou a parede. Tornou-se um dos apenas cinco sobreviventes do desabamento do Hotel Christopher, onde cerca de 130 pessoas morreram soterradas.

Ferido na perna, exausto e ainda sob risco de novos tremores, ele poderia ter buscado abrigo. Não o fez. Sabia que outros ainda estavam presos sob os escombros. Entre eles, o Tenente-Coronel Alexandre Santos, companheiro de farda e de missão. Para Azevedo, sobreviver não significava encerrar a missão. Significava continuar.

Ao lado do Tenente-Coronel Celso Kersul, retornou ao local mais instável e perigoso possível. Sem equipamentos adequados, improvisaram técnicas de progressão e rapel em uma estrutura prestes a desmoronar novamente. Tremores secundários continuavam a atingir a região. Ainda assim, horas depois, Alexandre Santos foi retirado com vida. Mais tarde, Jude Brice, funcionário civil da ONU, também foi salvo graças à persistência e liderança do militar brasileiro.

O exemplo de Azevedo rompeu a paralisia causada pelo choque inicial. Outros militares e civis passaram a agir. As ruas de Porto Príncipe revelavam um cenário difícil de descrever: corpos empilhados, famílias desorientadas, feridos clamando por socorro. Para permitir o deslocamento das viaturas e salvar vidas, corpos precisaram ser afastados. A decisão foi imediata e coletiva. O Brasil, mesmo ferido, assumia novamente a linha de frente.

Nos dias seguintes, as tropas brasileiras desempenharam papel central nas operações de resgate, assistência humanitária, segurança e apoio médico. Mesmo após perder oficiais, sargentos e praças, o Brasil não recuou. Manteve-se firme, organizado e humano, honrando o compromisso assumido com a paz e com o povo haitiano.

Pelos atos de coragem, liderança e abnegação, Adriano de Souza Azevedo foi agraciado com a Medalha do Pacificador com Palma, uma das mais altas condecorações do Exército Brasileiro. Mais do que uma medalha, o reconhecimento simboliza um comportamento que representa o melhor do soldado brasileiro. Ao recordar aqueles dias, Azevedo sempre destacou algo que vai além do heroísmo individual: o espírito de equipe, a capacidade do brasileiro de agir quando tudo ao redor desmorona.

O terremoto de 2010 deixou mais de 200 mil mortos e mais de um milhão e meio de desabrigados no Haiti. Para o Brasil, deixou uma dor profunda, mas também um legado incontestável. Ali, longe de casa, homens de farda honraram seu juramento até as últimas consequências.

Esta matéria também carrega um reconhecimento pessoal e profissional. Nosso editor mantém amizade e profundo respeito pelo Cel Adriano de Souza Azevedo, não apenas pelo episódio no Haiti, mas por uma trajetória marcada pela liderança serena, pela coragem silenciosa e pelo compromisso inabalável com seus comandados. Seu exemplo não se resume àquele dia trágico, mas se estende por toda uma vida dedicada ao serviço.

Ao final, rendemos homenagem aos militares brasileiros que tombaram no Haiti, aos que sobreviveram carregando marcas visíveis e invisíveis, e a todos que, mesmo diante do caos absoluto, escolheram permanecer, agir e salvar vidas. Homens como Azevedo e tantos outros que fizeram do uniforme não um símbolo de poder, mas de responsabilidade.

Que seus nomes jamais sejam esquecidos.
Que seu exemplo continue vivo.

E que o heroísmo brasileiro, forjado na disciplina, na coragem e na humanidade, siga sendo referência onde quer que o Brasil seja chamado a servir.



por Angelo Nicolaci


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Crepúsculo do Átomo: A Probabilidade do Caos e os Imperativos para a Defesa Brasileira

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O horizonte da geopolítica apresenta-se em um dos momentos mais voláteis da história contemporânea, marcado por uma mudança estrutural na natureza das ameaças estatais no Oriente Médio. Diferente das décadas anteriores, onde o confronto era caracterizado por atritos de baixa intensidade, a análise de inteligência atual indica uma transição perigosa para riscos existenciais diretos. O foco recai sobre o colapso acelerado da legitimidade interna do regime iraniano e a consequente tentação de recorrer a Armas de Destruição em Massa (WMD) não como ferramenta de conquista, mas como mecanismo de sobrevivência. Este cenário colide frontalmente com a doutrina de dissuasão final de Israel, a "Opção Sansão". Para o Brasil, distante geograficamente mas conectado às cadeias globais, este não é um exercício teórico, mas um estudo de caso urgente sobre as lacunas na nossa própria estratégia militar.

A premissa central desta análise é que a racionalidade dos atores estatais degrada-se rapidamente quando a sobrevivência do regime está em jogo. O Irã, encurralado por sanções econômicas (snapback da ONU) e pela dissidência interna, pode ver na escalada nuclear ou radiológica um mecanismo de chantagem global. É vital entender que a probabilidade de uso de WMD não é linear; ela varia drasticamente dependendo do vetor de ataque e da estabilidade interna de Teerã.

1. A Matriz de Probabilidade: Vetores de Risco em 2026

Para dissecar a ameaça real, devemos abandonar generalizações e aplicar uma avaliação probabilística calibrada (ICD 203) sobre os vetores de ataque disponíveis ao Irã. A análise estatística para o ano corrente revela uma divergência crítica entre a retórica pública e a capacidade operacional real, dividida em três eixos de probabilidade.

Vetor 1: Ataque Nuclear Estratégico (Direto)
Probabilidade: < 5% (Muito Baixa)

A liderança iraniana mantém, neste nível, um resquício de racionalidade. Eles compreendem com certeza absoluta que um lançamento de mísseis balísticos (Sejjil/Emad) a partir de solo iraniano resultaria na ativação imediata da Tríade Nuclear de Israel. A "Destruição Mútua Assegurada" (MAD) ainda funciona como barreira efetiva neste vetor específico.

Vetor 2: Ataque Assimétrico/Proxy (Radiológico/Químico)
Probabilidade: 35% - 45% (Moderada)

Este é o vetor de risco técnico elevado. O Irã pode explorar o conceito de Plausible Deniability (Negação Plausível), fornecendo materiais para "bombas sujas" ou agentes químicos a grupos proxies. A lógica aqui é infligir dano econômico e psicológico a Israel tentando evitar uma retaliação nuclear direta, uma aposta arriscada que eleva a tensão regional.

Vetor 3: Cenário "Canto da Parede" (Colapso do Regime)
Probabilidade Condicional: 60% - 75% (Alta)

Esta é a variável crítica. Se a liderança do IRGC perceber que o colapso do regime é iminente e inevitável (seja por revolta interna ou pressão externa), a lógica de dissuasão desaparece. A probabilidade de uso de WMD dispara para níveis alarmantes sob a mentalidade de "martírio estratégico".

A gravidade desta análise reside no Vetor 3. A estabilidade interna do Irã é a variável independente que dita a segurança nuclear global. À medida que os protestos em Teerã se intensificam e a economia falha, nos aproximamos perigosamente do limiar onde a probabilidade de uso de WMD deixa de ser uma especulação remota para se tornar o curso de ação preferencial de uma liderança desesperada.

2. A Doutrina do Juízo Final: A Opção Sansão Revisitada

Do outro lado desta equação volátil, encontra-se o Estado de Israel e sua doutrina nuclear não declarada: a Opção Sansão. O nome, derivado da figura bíblica que derrubou os pilares do templo sobre si mesmo e seus inimigos, ilustra a natureza de "último recurso" desta postura. Diferente da doutrina russa de "escalar para desescalar", a doutrina israelense é um mecanismo de garantia de destruição do agressor caso o Estado judeu enfrente aniquilação.

Estudiosos da Federation of American Scientists estimam que o arsenal israelense compõe uma Tríade Nuclear completa. Mísseis baseados em silos (Jericho III), aeronaves F-15I Ra'am e mísseis de cruzeiro lançados por submarinos Dolphin garantem a capacidade de segundo ataque. O perigo em 2026 é a redefinição de "ameaça existencial". Se a liderança israelense detectar a ativação dos vetores de alta probabilidade citados acima (especialmente o cenário de colapso iraniano), a ativação da Opção Sansão torna-se plausível, visando a decapitação completa da estrutura do adversário.

3. Cenários de Escalada: A Narrativa do Conflito

A transição da tensão matemática para a guerra cinética pode ocorrer através de diversos caminhos. Abaixo, detalhamos os cenários que materializam as estatísticas apresentadas.

Cenário Alfa: O "Sinal" Radiológico (Probabilidade Moderada)

Materializando a estatística de 35-45%, neste cenário a inteligência iraniana autoriza um grupo *proxy* a detonar um Dispositivo de Dispersão Radiológica (RDD) em um porto como Haifa. Não há explosão nuclear, mas a negação de área por contaminação. A resposta de Israel seria convencional, porém massiva, estendendo os alvos para a infraestrutura de óleo e gás do Irã, ignorando a negação de autoria. O impacto seria o pânico imediato nos mercados de energia e seguros marítimos.

Cenário Bravo: O "Breakout" Nuclear

Uma tentativa de sobrevivência política. Teerã realiza um teste nuclear subterrâneo confirmado para sinalizar capacidade. Isso desencadeia a "Doutrina Begin" israelense — ataque preventivo total. Israel utilizaria munições bunker busters e possivelmente armas de pulso eletromagnético (EMP) para colapsar instalações em Fordow. A retaliação iraniana fecharia o Estreito de Ormuz, elevando o petróleo a patamares históricos.

Cenário Charlie: O Juízo Final (Alta Probabilidade Condicional)

Este é o cenário derivado da probabilidade de 60-75% em caso de colapso. Diante da queda iminente, a linha dura do regime lança uma salva de saturação com ogivas químicas ou nucleares táticas. Israel, enfrentando danos inaceitáveis, executa a Opção Sansão. Pela primeira vez desde 1945, armas nucleares são usadas em combate. O resultado é o colapso das cadeias de suprimento globais e o isolamento radioativo de vastas áreas do Oriente Médio.

4. Lições Estratégicas e Imperativos para o Brasil

A análise do fracasso defensivo iraniano e da postura israelense oferece lições diretas para a Defesa Nacional brasileira. A vulnerabilidade exposta das infraestruturas críticas no exterior exige uma atualização da nossa matriz de riscos.

A Ilusão da Segurança Estática: O Irã confiou em defesas pontuais que foram suprimidas. O Brasil possui o PLANSIC, focado em segurança física e cibernética. Contudo, nossas hidrelétricas e o complexo nuclear de Angra carecem de Defesa Antiaérea de Média Altura integrada. Em um cenário global onde a tecnologia de mísseis prolifera, a proteção passiva é insuficiente.

Defesa QBRN como "Warfighting": A probabilidade moderada de uso de armas "sujas" (radiológicas) no cenário global reforça a necessidade de expandir a capacidade QBRN (Química, Biológica, Radiológica e Nuclear) brasileira. Atualmente focada em batalhões especializados do Exército, essa doutrina precisa transbordar para a Defesa Civil, preparando portos como Santos e Rio de Janeiro para cenários de descontaminação em massa e triagem populacional.

Autonomia e Interdependência: A crise de 2026 demonstra que a neutralidade diplomática não oferece imunidade econômica. No caso de fechamento do Estreito de Ormuz (Cenário Bravo), a logística do agronegócio brasileiro seria severamente impactada pela falta de fertilizantes e combustíveis. A defesa nacional deve, portanto, integrar a segurança das linhas de comunicação marítima no Atlântico Sul como prioridade absoluta de soberania alimentar.

O inolvidável General de Exército Eduardo Villas Bôas resumiu tudo isso com seu brilhantismo costumeiro:

"Um país que não dispõe de poder dissuasório não tem soberania; tem apenas a condescendência alheia."

Em conclusão, os dados estatísticos apontam para um risco inaceitável de escalada no horizonte atual. Para o Brasil, a resposta deve ser o investimento sóbrio em capacidades de negação de área e resiliência de infraestrutura. A paz, neste século, é um dividendo pago àqueles capazes de se defenderem contra o caos calculado.

O Crepúsculo do Átomo: Instabilidade Iraniana e a Opção Sansão - Análise 2026

O Crepúsculo do Átomo: A Probabilidade Estatística do Caos e os Imperativos para a Defesa Brasileira

O horizonte da geopolítica 2026 apresenta-se como um dos momentos mais voláteis da história contemporânea, marcado por uma mudança estrutural na natureza das ameaças estatais no Oriente Médio. Diferente das décadas anteriores, onde o confronto era caracterizado por atritos de baixa intensidade, a análise de inteligência atual indica uma transição perigosa para riscos existenciais diretos. O foco recai sobre o colapso acelerado da legitimidade interna do regime iraniano e a consequente tentação de recorrer a Armas de Destruição em Massa (WMD) não como ferramenta de conquista, mas como mecanismo de sobrevivência. Este cenário colide frontalmente com a doutrina de dissuasão final de Israel, a "Opção Sansão". Para o Brasil, distante geograficamente mas conectado às cadeias globais, este não é um exercício teórico, mas um estudo de caso urgente sobre as lacunas na nossa própria estratégia militar.

A premissa central desta análise é que a racionalidade dos atores estatais degrada-se rapidamente quando a sobrevivência do regime está em jogo. O Irã, encurralado por sanções econômicas (snapback da ONU) e pela dissidência interna, pode ver na escalada nuclear ou radiológica um mecanismo de chantagem global. É vital entender que a probabilidade de uso de WMD não é linear; ela varia drasticamente dependendo do vetor de ataque e da estabilidade interna de Teerã.

1. A Matriz de Probabilidade: Vetores de Risco em 2026

Para dissecar a ameaça real, devemos abandonar generalizações e aplicar uma avaliação probabilística calibrada (ICD 203) sobre os vetores de ataque disponíveis ao Irã. A análise estatística para o ano corrente revela uma divergência crítica entre a retórica pública e a capacidade operacional real, dividida em três eixos de probabilidade.

Vetor 1: Ataque Nuclear Estratégico (Direto)
Probabilidade: < 5% (Muito Baixa)

A liderança iraniana mantém, neste nível, um resquício de racionalidade. Eles compreendem com certeza absoluta que um lançamento de mísseis balísticos (Sejjil/Emad) a partir de solo iraniano resultaria na ativação imediata da Tríade Nuclear de Israel. A "Destruição Mútua Assegurada" (MAD) ainda funciona como barreira efetiva neste vetor específico.

Vetor 2: Ataque Assimétrico/Proxy (Radiológico/Químico)
Probabilidade: 35% - 45% (Moderada)

Este é o vetor de risco técnico elevado. O Irã pode explorar o conceito de Plausible Deniability (Negação Plausível), fornecendo materiais para "bombas sujas" ou agentes químicos a grupos proxies. A lógica aqui é infligir dano econômico e psicológico a Israel tentando evitar uma retaliação nuclear direta, uma aposta arriscada que eleva a tensão regional.

Vetor 3: Cenário "Canto da Parede" (Colapso do Regime)
Probabilidade Condicional: 60% - 75% (Alta)

Esta é a variável crítica. Se a liderança do IRGC perceber que o colapso do regime é iminente e inevitável (seja por revolta interna ou pressão externa), a lógica de dissuasão desaparece. A probabilidade de uso de WMD dispara para níveis alarmantes sob a mentalidade de "martírio estratégico".

A gravidade desta análise reside no Vetor 3. A estabilidade interna do Irã é a variável independente que dita a segurança nuclear global. À medida que os protestos em Teerã se intensificam e a economia falha, nos aproximamos perigosamente do limiar onde a probabilidade de uso de WMD deixa de ser uma especulação remota para se tornar o curso de ação preferencial de uma liderança desesperada.

2. A Doutrina do Juízo Final: A Opção Sansão Revisitada

Do outro lado desta equação volátil, encontra-se o Estado de Israel e sua doutrina nuclear não declarada: a Opção Sansão. O nome, derivado da figura bíblica que derrubou os pilares do templo sobre si mesmo e seus inimigos, ilustra a natureza de "último recurso" desta postura. Diferente da doutrina russa de "escalar para desescalar", a doutrina israelense é um mecanismo de garantia de destruição do agressor caso o Estado judeu enfrente aniquilação.

Estudiosos da Federation of American Scientists estimam que o arsenal israelense compõe uma Tríade Nuclear completa. Mísseis baseados em silos (Jericho III), aeronaves F-15I Ra'am e mísseis de cruzeiro lançados por submarinos Dolphin garantem a capacidade de segundo ataque. O perigo em 2026 é a redefinição de "ameaça existencial". Se a liderança israelense detectar a ativação dos vetores de alta probabilidade citados acima (especialmente o cenário de colapso iraniano), a ativação da Opção Sansão torna-se plausível, visando a decapitação completa da estrutura do adversário.

3. Cenários de Escalada: A Narrativa do Conflito

A transição da tensão matemática para a guerra cinética pode ocorrer através de diversos caminhos. Abaixo, detalhamos os cenários que materializam as estatísticas apresentadas.

Cenário Alfa: O "Sinal" Radiológico (Probabilidade Moderada)

Materializando a estatística de 35-45%, neste cenário a inteligência iraniana autoriza um grupo *proxy* a detonar um Dispositivo de Dispersão Radiológica (RDD) em um porto como Haifa. Não há explosão nuclear, mas a negação de área por contaminação. A resposta de Israel seria convencional, porém massiva, estendendo os alvos para a infraestrutura de óleo e gás do Irã, ignorando a negação de autoria. O impacto seria o pânico imediato nos mercados de energia e seguros marítimos.

Cenário Bravo: O "Breakout" Nuclear

Uma tentativa de sobrevivência política. Teerã realiza um teste nuclear subterrâneo confirmado para sinalizar capacidade. Isso desencadeia a "Doutrina Begin" israelense — ataque preventivo total. Israel utilizaria munições bunker busters e possivelmente armas de pulso eletromagnético (EMP) para colapsar instalações em Fordow. A retaliação iraniana fecharia o Estreito de Ormuz, elevando o petróleo a patamares históricos.

Cenário Charlie: O Juízo Final (Alta Probabilidade Condicional)

Este é o cenário derivado da probabilidade de 60-75% em caso de colapso. Diante da queda iminente, a linha dura do regime lança uma salva de saturação com ogivas químicas ou nucleares táticas. Israel, enfrentando danos inaceitáveis, executa a Opção Sansão. Pela primeira vez desde 1945, armas nucleares são usadas em combate. O resultado é o colapso das cadeias de suprimento globais e o isolamento radioativo de vastas áreas do Oriente Médio.

4. Lições Estratégicas e Imperativos para o Brasil

A análise do fracasso defensivo iraniano e da postura israelense oferece lições diretas para a Defesa Nacional brasileira. A vulnerabilidade exposta das infraestruturas críticas no exterior exige uma atualização da nossa matriz de riscos.

A Ilusão da Segurança Estática: O Irã confiou em defesas pontuais que foram suprimidas. O Brasil possui o PLANSIC, focado em segurança física e cibernética. Contudo, nossas hidrelétricas e o complexo nuclear de Angra carecem de Defesa Antiaérea de Média Altura integrada. Em um cenário global onde a tecnologia de mísseis prolifera, a proteção passiva é insuficiente.

Defesa QBRN como "Warfighting": A probabilidade moderada de uso de armas "sujas" (radiológicas) no cenário global reforça a necessidade de expandir a capacidade QBRN (Química, Biológica, Radiológica e Nuclear) brasileira. Atualmente focada em batalhões especializados do Exército, essa doutrina precisa transbordar para a Defesa Civil, preparando portos como Santos e Rio de Janeiro para cenários de descontaminação em massa e triagem populacional.

Autonomia e Interdependência: A crise de 2026 demonstra que a neutralidade diplomática não oferece imunidade econômica. No caso de fechamento do Estreito de Ormuz (Cenário Bravo), a logística do agronegócio brasileiro seria severamente impactada pela falta de fertilizantes e combustíveis. A defesa nacional deve, portanto, integrar a segurança das linhas de comunicação marítima no Atlântico Sul como prioridade absoluta de soberania alimentar.

"Um país que não dispõe de poder dissuasório não tem soberania; tem apenas a condescendência alheia."

— General de Exército Eduardo Villas Bôas

Em conclusão, os dados estatísticos apontam para um risco inaceitável de escalada no horizonte de 2026. Para o Brasil, a resposta deve ser o investimento sóbrio em capacidades de negação de área e resiliência de infraestrutura. A paz, neste século, é um dividendo pago àqueles capazes de se defenderem contra o caos calculado.

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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Corte de voos da FAB expõe falhas estruturais no orçamento de Defesa

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O Comando da Aeronáutica registrou uma queda expressiva no emprego de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para o transporte de autoridades após o endurecimento dos critérios de autorização para missões consideradas de baixa aderência institucional. Em 2025, os custos associados a esse tipo de operação ultrapassaram R$ 60 milhões, somando despesas com combustível, manutenção e taxas aeroportuárias. A partir de novembro, contudo, a demanda caiu de forma abrupta, com a ocorrência de dias inteiros sem qualquer voo registrado, um cenário atípico em comparação aos anos anteriores.

A decisão reflete uma mudança de postura técnica diante de um quadro de restrição orçamentária severa. O transporte aéreo de autoridades envolve aeronaves de elevado custo operacional, cuja utilização recorrente para agendas pouco justificáveis consumia recursos equivalentes a centenas de horas de voo operacional. Em um orçamento já pressionado, esse emprego contribuiu para reduzir margens críticas destinadas à manutenção, ao treinamento de tripulações e à sustentação da prontidão.

Com o novo modelo de controle, o Comando da Aeronáutica passou a exigir justificativas estritamente institucionais para cada solicitação, eliminando voos com baixa taxa de ocupação, destinos sem vínculo direto com compromissos de Estado ou demandas de caráter político-partidário. O impacto foi imediato. Dezembro registrou diversos períodos sem missões de transporte, evidenciando o quanto a prática anterior estava dissociada de uma lógica de racionalidade operacional.

A contenção dessas missões ocorre em paralelo a uma crise orçamentária estrutural que afeta diretamente a capacidade operacional da FAB. Em 2025, a escassez de recursos chegou a comprometer a aquisição regular de combustível aeronáutico, impondo restrições ao treinamento de pilotos e à disponibilidade de aeronaves de caça, patrulha e vigilância, meios essenciais para a defesa do espaço aéreo brasileiro e para o cumprimento de compromissos internacionais.

Dados internos indicam que o custo de um único voo de autoridade poderia sustentar múltiplas horas de missões de defesa aérea, patrulha ou adestramento. O contraste evidencia um problema recorrente na gestão dos recursos de Defesa: gastos administrativos e políticos competindo diretamente com a atividade-fim das Forças Armadas. Nesse contexto, o endurecimento do controle sobre o uso de jatos oficiais surge não como uma escolha, mas como uma medida de sobrevivência operacional.

Com a nova diretriz, apenas ministérios e órgãos considerados estratégicos, como Defesa e Justiça, mantiveram acesso prioritário às aeronaves da FAB. Solicitações de caráter pessoal, político ou eleitoral passaram a ser sistematicamente negadas, rompendo uma prática que há décadas gerava desgaste institucional e consumia recursos críticos sem retorno estratégico.

A economia obtida com a redução dessas missões está sendo direcionada para assegurar requisitos mínimos de segurança de voo, manutenção e operação de aeronaves de combate e treinamento. O objetivo central da Aeronáutica é evitar que restrições orçamentárias voltem a paralisar atividades essenciais, preservando níveis básicos de prontidão e capacidade dissuasória em um ambiente fiscal que permanece altamente restritivo.

Racionalizar não basta, é preciso mudar o modelo

O episódio vai muito além da discussão sobre o uso de aeronaves para transporte de autoridades. Ele expõe, de forma inequívoca, a miopia histórica do Estado brasileiro em relação ao orçamento de Defesa. A racionalização do uso da frota da FAB é correta e necessária, mas não resolve o problema estrutural: a Defesa continua sendo tratada como variável de ajuste fiscal, e não como investimento estratégico de longo prazo.

A ausência de previsibilidade orçamentária compromete não apenas a operação cotidiana das Forças Armadas, mas inviabiliza qualquer planejamento consistente de modernização de capacidades. Programas estratégicos são atrasados, contratos são fragmentados, cronogramas são constantemente revistos e a eficiência operacional é sacrificada para atender a contingenciamentos de curto prazo.

Esse modelo gera um ciclo vicioso. Sem previsibilidade, a Base Industrial de Defesa (BID) não consegue planejar investimentos, reter mão de obra qualificada ou ampliar capacidades tecnológicas. Projetos são interrompidos, empresas perdem escala, competências críticas se dissipam e o país se torna cada vez mais dependente de soluções externas, muitas vezes mais caras e politicamente condicionadas.

O impacto vai além do campo militar. Investimentos consistentes em Defesa têm efeito direto sobre a economia, gerando empregos qualificados, estimulando inovação, fortalecendo cadeias produtivas nacionais e ampliando a arrecadação. A indústria de defesa é, historicamente, vetor de desenvolvimento tecnológico dual, com efeitos positivos em setores civis como aeronáutica, comunicações, materiais avançados e sistemas embarcados.

Ignorar essa lógica significa abrir mão de soberania, competitividade e desenvolvimento. Cada ciclo de cortes e improvisações representa não apenas aeronaves paradas em solo, mas oportunidades perdidas de geração de riqueza, conhecimento e autonomia estratégica.

O controle mais rigoroso do uso de jatos da FAB demonstra que há espaço para gestão mais eficiente dos recursos existentes. No entanto, eficiência administrativa não substitui investimento estruturado. Sem um orçamento de Defesa previsível, plurianual e alinhado a uma estratégia nacional clara, o Brasil continuará operando no limite, mantendo capacidades mínimas enquanto adia decisões fundamentais.

Em um cenário internacional marcado por instabilidade, competição estratégica e reconfiguração do poder global, tratar a Defesa como gasto supérfluo é uma escolha de alto risco. A questão central não é quantos voos deixarão de ocorrer, mas quanto o país está disposto a investir para garantir sua segurança, sua autonomia e seu futuro estratégico.


por Angelo Nicolaci


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Colômbia reage a ameaças dos EUA e reforça discurso de soberania nacional

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As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro em Caracas no dia 3 de janeiro, provocaram uma rápida escalada de tensões diplomáticas na América do Sul. Ao sugerir que uma ação semelhante poderia ser conduzida na Colômbia, Trump trouxe novamente à tona o debate sobre soberania nacional, limites da intervenção externa e os impactos estratégicos de operações unilaterais no equilíbrio regional.

Em resposta às declarações norte-americanas, o presidente colombiano Gustavo Petro rejeitou as acusações de ilegitimidade e envolvimento com o narcotráfico. Petro afirmou que seu governo atua dentro dos marcos constitucionais e destacou ações concretas no combate às organizações criminosas, incluindo a maior apreensão de cocaína já registrada no país e operações militares em áreas estratégicas de produção e escoamento de drogas, como a região de El Plateado, no departamento de Cauca.

Trump, durante declarações feitas a bordo do avião presidencial, classificou a Colômbia como um país “doente” e acusou diretamente Petro de fomentar a produção e exportação de cocaína para os Estados Unidos. As afirmações, endossadas por setores da política norte-americana, incluindo o senador Marco Rubio, reforçaram uma narrativa de securitização do narcotráfico como justificativa para ações coercitivas além das fronteiras dos EUA.

O presidente colombiano respondeu adotando uma postura de firmeza institucional, reiterando sua condição de comandante supremo das Forças Armadas e guardião da Constituição de 1991, marco jurídico que consolidou direitos fundamentais e redefiniu o papel do Estado colombiano após décadas de conflito interno. Petro também confirmou a remoção de oficiais de inteligência acusados de disseminar informações falsas, que, segundo o governo, contribuem para distorcer a percepção internacional sobre a Colômbia.

No campo militar, Petro enfatizou que as operações conduzidas sob sua administração seguem os parâmetros do Direito Internacional Humanitário, incluindo ações aéreas e terrestres contra grupos armados ilegais ligados ao narcotráfico. Segundo o presidente, essas organizações exploram táticas como o recrutamento de menores para dificultar ações militares diretas, o que, na avaliação do governo, exige respostas operacionais precisas e legalmente fundamentadas.

A retórica presidencial também deixou clara a disposição de defesa da soberania nacional. Petro afirmou que não aceitará qualquer forma de ingerência externa e que as Forças Armadas colombianas devem lealdade exclusiva à Constituição e à bandeira do país. Em tom mais assertivo, indicou que medidas seriam adotadas contra comandantes que demonstrassem alinhamento prioritário a interesses estrangeiros.

Análise estratégica: implicações regionais da ação dos EUA na Venezuela

Do ponto de vista geopolítico, a operação conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela marca um ponto de inflexão na forma como Washington vem se posicionando na América do Sul. Após um longo período em que predominou o uso de instrumentos indiretos como sanções econômicas, pressão diplomática e isolamento político, a ação direta em Caracas sinaliza uma disposição maior para o emprego de medidas coercitivas mais assertivas, especialmente em cenários considerados sensíveis à segurança hemisférica.

Sob a perspectiva norte-americana, a associação entre narcotráfico, instabilidade política e legitimidade governamental funciona como um elemento estruturante de sua narrativa estratégica. Esse enquadramento amplia a margem de manobra de Washington ao permitir a adoção de um espectro mais amplo de medidas, que vão desde sanções reforçadas e operações de interdição transnacional até, em situações específicas, ações cinéticas de caráter limitado, justificadas pelo combate a ameaças assimétricas e redes criminosas transnacionais.

Para os países sul-americanos, no entanto, essa mudança de postura tende a ser percebida com cautela. A adoção de critérios unilaterais para definir o que constitui uma ameaça à segurança regional pode reduzir o espaço de autonomia política dos Estados e aumentar a sensação de vulnerabilidade estratégica. Nesse contexto, governos da região passam a avaliar não apenas o impacto imediato da ação na Venezuela, mas também os precedentes que ela estabelece para o futuro.

A reação de países como Colômbia e Brasil, ao buscarem a ativação de fóruns regionais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), deve ser interpretada como uma tentativa de reequilibrar o ambiente estratégico por meio do diálogo político e da concertação regional. Embora a CELAC não possua instrumentos operacionais de defesa coletiva, seu emprego como espaço de articulação ganha relevância em momentos de crise, ao oferecer uma plataforma para coordenação diplomática e redução de assimetrias individuais frente a pressões externas.

No campo da defesa, o novo cenário tende a acelerar processos já em curso na região. A instabilidade percebida estimula a reavaliação de capacidades militares, com maior ênfase em vigilância de fronteiras, inteligência, mobilidade estratégica e integração entre forças terrestres, navais e aéreas. O fortalecimento de capacidades ISR, a ampliação de exercícios conjuntos e a modernização de meios surgem como respostas naturais a um ambiente caracterizado por maior incerteza e menor previsibilidade.

Paralelamente, a reconfiguração do ambiente estratégico abre espaço para uma atuação mais ativa de atores extrarregionais, como China e Rússia. A ampliação da presença desses países, seja por meio de cooperação tecnológica, acordos industriais de defesa ou investimentos em infraestrutura crítica, contribui para um processo gradual de multipolarização da segurança sul-americana, oferecendo alternativas estratégicas aos Estados da região e ampliando o leque de opções políticas e militares.

A partir desse contexto, é possível projetar alguns cenários. Em uma hipótese de estabilização controlada, a pressão dos Estados Unidos permaneceria concentrada em instrumentos diplomáticos e econômicos, enquanto os países sul-americanos fortaleceriam mecanismos regionais de diálogo, reduzindo o risco de escaladas. Em um cenário intermediário, de dissuasão ampliada, observar-se-ia o aumento de operações de interdição, presença militar indireta e exercícios, elevando o nível de tensão, mas sem confronto direto. Já em um cenário de escalada localizada, crises políticas internas ou ações pontuais poderiam gerar efeitos de transbordamento, com impactos diretos sobre a segurança de fronteiras e a estabilidade institucional dos países vizinhos.

Em síntese, a operação dos Estados Unidos na Venezuela e a retórica associada à Colômbia inserem a América do Sul em um período de maior volatilidade estratégica. O desfecho desse processo dependerá da capacidade dos atores regionais e extrarregionais de equilibrar dissuasão e diálogo, preservando margens de autonomia estratégica e evitando que o continente volte a ser um espaço de confrontos indiretos em um sistema internacional cada vez mais fragmentado.


por Angelo Nicolaci


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A INFLUÊNCIA DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NOS PRIMEIROS ANOS DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA.

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Finda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), maior conflito armado da história da humanidade, e vitoriosos os Aliados – dentre eles o Brasil –, retornaram à Pátria verde e amarela vinte e cinco mil homens e mulheres, veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), triunfantes, orgulhosos e inteiramente transformados. Os quase quinhentos pracinhas mortos, que lutaram contra o nazifascismo, em prol da liberdade e da democracia, seriam posteriormente repatriados, em 1960, como símbolos de coragem, heroísmo e amor incondicional ao País.

Os febianos, uma vez distribuídos em diferentes organizações militares espalhadas pelo Brasil, fossem oficiais ou praças, de escola ou reservistas efetivados, ao interagirem com seus camaradas, sistematicamente transformavam as estruturas Exército, à luz de experiências adquiridas, conhecimentos absorvidos e novas doutrinas aprendidas e testadas em combate. Reverberavam, no dia a dia da caserna, as agruras e aventuras dos campos de batalha, profundamente impregnados pela visão aterradora de uma guerra total e pela miséria humana e social correspondente. 

A Escola Superior de Guerra (ESG) surge justamente neste contexto, em 1949, fundada sob a inspiração de duas escolas norte-americanas, uma civil e outra militar (Vianna, 2020). Segundo José Murilo de Carvalho (2019, p. 209), a ESG seria “o Góes coletivo”, voltada para pensar e implementar “a política do Exército”, fazendo referência ao famoso aforismo do General Góes Monteiro, Chefe do Estado-Maior do Exército, quando da criação da FEB. Era preconizada, dessa forma, "a política do Exército ao invés da política no Exército", em clara alusão à necessidade urgente de preparação para a guerra, afastando desavenças políticas e enfatizando a Instituição como de caráter permanente e de Estado.

A ESG nasceu com o objetivo principal de “criar lideranças civis e militares para enfrentar a eventualidade de um novo estilo de guerra, não mais circunscrita à frente de batalha e ao palco de lutas, mas transformada em fato total, que afeta a sociedade por inteiro e toda a estrutura de uma nação” (Cordeiro de Farias in Camargo; Góes, 2001, p. 354). Na atualidade, sua missão se mantém fiel à orientação inicial, com o desenvolvimento e a disseminação de conhecimentos de Defesa, Segurança e Desenvolvimento Nacional, dentro da finalidade de ampliar o envolvimento da sociedade nestes temas, gerando discussões, propostas e soluções objetivas e inovadoras.  

Com a visão de futuro orientada a ser reconhecida como um Instituto de Altos Estudos de excelência nacional e de referência internacional, a ESG cultua importantes valores: a busca do bem comum; o engrandecimento do ser humano; a conduta ética; a integridade; o pensamento eclético; a liberdade de expressão; a busca da excelência na produção de conhecimento; a integração entre civis e militares; a prática do civismo; o sentimento patriótico; e o de pertencimento, externado pelo orgulho de integrar um estabelecimento caracterizado por inúmeras entregas ao Brasil. 

É expressão corrente identificar a influência dos veteranos da FEB na criação e no desenvolvimento inicial da ESG. De fato, coube a eles este protagonismo, a começar pelo seu primeiro comandante, o então General de Divisão Oswaldo Cordeiro de Farias. Durante a 2ª Guerra Mundial, Cordeiro de Farias esteve à frente da Artilharia Divisionária brasileira, na condição de General de Brigada. Liderou a ESG de 1949 até 1952, compondo a primeira turma de diplomados no Curso Superior de Guerra, em 1950, junto a outros renomados expedicionários: General de Divisão Euclydes Zenóbio da Costa, General de Brigada Agnaldo Caiado de Castro, Coronel Emílio Maurel Filho, Tenente-Coronel Jurandir de Bizarria Mamede e Tenente-Coronel Afonso Henrique de Miranda Corrêa (Brasil, 1999).

Nesse escopo, ressalta-se haverem comandado a ESG outros seis veteranos da FEB. O último deles, no ano de 1981, General de Exército Alacyr Frederico Werner, chefiou a Subseção de Foto-Informação da 2ª Seção do Estado-Maior da 1ª DIE, como capitão (Motta, 2001a). Humberto de Alencar Castelo Branco foi mais um ilustre febiano a se formar na ESG, à época General de Brigada. Antigo Chefe da 3ª Seção (Operações) do Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria Divisionária (1ª DIE), Castelo Branco foi também Subcomandante e Diretor do Departamento de Estudos da Escola, entre 1956 e 1958.

Durante sete décadas, passaram pelo Corpo Permanente da ESG diversas personalidades da intelectualidade brasileira, igualmente veteranos da FEB e destacadas figuras da vida nacional: os Generais Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos, além dos Coronéis Amerino Raposo Filho, Hélio Mendes, Joaquim Victorino Portella Ferreira Alves e Sergio Gomes Pereira. Aliam-se a eles outros tantos cidadãos que, convocados pelo esforço de guerra, combateram como praças na Itália, reintegraram-se à vida civil no pós-guerra e tornaram-se referências no serviço público e na iniciativa privada, como o engenheiro Djalma Dutra Ururahy e o advogado Joaquim Manoel Xavier da Silveira.

Os efeitos positivos da influência febiana na “casa onde estuda-se o destino do Brasil” se fizeram sentir de todos os níveis da escala hierárquica, transpassando as funções diretivas e diretamente acadêmicas. Para se ter uma ideia, em meados de 1950, no primeiro ano de funcionamento pleno da ESG, havia treze sargentos no corpo permanente, dos quais três eram veteranos da FEB. Serviam como auxiliares administrativos, desempenhavam funções técnicas e compunham as equipes de instrução militar do contingente de cabos e soldados. Eram eles os 2º Sargentos Benno Armindo Schirmer, Fortunato Scarpelli e Geraldo Camargo.

Merece uma especial menção Benno Armindo Schirmer. Na FEB, o 3º Sargento Benno, inicialmente destinado ao Depósito de Pessoal, foi posteriormente transferido para o 11º Regimento de Infantaria, em janeiro de 1945. Fluente em alemão, atuou como intérprete na linha de frente, interrogando prisioneiros capturados até o fim da guerra. Comandou patrulhas e liderou ações na Batalha de Montese. Reconhecido com as Medalhas de Guerra e de Campanha, foi também condecorado com a Cruz de Combate de 2ª Classe, por ato de bravura (Motta, 2001b).

De volta ao Brasil, o 3º Sargento Benno foi classificado no 4º Grupo de Artilharia de Dorso, depois 1º Grupo do 4º Regimento de Obuses 105mm, em Juiz de Fora-MG, antes de ser transferido para a ESG, em 1950, designado para trabalhar como auxiliar da 3ª Seção (Operações). Lá, atuou como operador cinematográfico, gravador e desenhista, elogiado sempre pelo seu comprometimento e alto rendimento (Motta, 2001b). Chegou ao posto de Capitão e foi transferido para a reserva como Major, em outubro de 1966. Se estabeleceu em Novo Hamburgo-RS, onde presidiu, por longos anos, a Seção Regional do Vale do Rio dos Sinos da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB). Faleceu em 25 de abril de 2016, aos 92 anos de idade.

Com o passar dos anos, a importância e a pujança da ESG só robusteceram, privilegiando a cultura, fomentando a pesquisa, aguçando o pensamento crítico e irradiando mentalidade de Defesa Nacional pelo Brasil e no exterior. Como consequência natural, surgiu, em 2011, o Campus Brasília da ESG que, em 2021, evoluiu para a Escola Superior de Defesa (ESD). Hoje, a ESG e a ESD se somam e se completam, atuando de forma integrada, harmônica e sinérgica, subordinadas ao Ministério da Defesa.

Em 2025, ano em que se comemoram oito décadas das vitórias da FEB na 2ª Guerra Mundial, nossos bravos pracinhas, por tudo que fizeram e representam ao Brasil, são heróis sempre lembrados. Ao correlacionar as influências da FEB com a criação e o despertar da ESG, pretende-se, sobretudo, evidenciar e caracterizar a longa duração do espírito dos expedicionários brasileiros em todo o espectro social, não restrito apenas aos anos de guerra, mas entendido como uma experiência profunda, formadora e transformadora, que permanece inspirando o Exército de Caxias, as Forças Armadas e o País.


Autores:

Daniel Mata Roque 

General de Brigada Andre Luiz de Souza Dias


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A UTILIZAÇÃO DO DRONE COMO SIMULAÇÃO DO EMPREGO DE SARP POR UMA FORÇA-TAREFA BLINDADA VALOR UNIDADE, NA OPERAÇÃO PUNHOS DE AÇO 2025

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Clausewitz provou que a guerra é o “reino” das incertezas, com forças antagônicas agindo livremente e tentando impor, umas às outras, suas próprias vontades. Antes dele, Sun Tzu profetizou que o conhecimento do inimigo e de si próprio representam a chave para a vitória. Entendendo a importância destes aspectos, bem como o papel capital que jogam a geografia e a população no contexto das operações militares, o Exército Brasileiro, há tempos, incorporou na metodologia dos seus planejamentos o denominado Processo de Integração Terreno, Condições Meteorológicas, Inimigo e Considerações Civis (PITCIC). 

John Boyd, na segunda metade do século XX, concebeu uma teoria focada na velocidade e na eficácia do ciclo decisório, enfatizando que um contendor capaz de reagir mais rápido do que o seu adversário às evoluções do combate, decidindo antes e com acerto, reterá a iniciativa e imporá a ele reações desfavoráveis sucessivas, que somadas no tempo resultarão no seu total colapso. Esta teoria, denominada Ciclo OODA (Observar-OrientarDecidir-Agir), faz alusão a um tipo de processo ininterrupto, retroalimentado e francamente dependente da busca de dados. 

Para suprir as necessidades do PITCIC e do próprio ciclo de decisão, os meios de coleta de dados hoje disponíveis devem ser utilizados sinergicamente e em sua totalidade. O dinamismo e a fluidez do combate exigem um acompanhamento e análise da situação em tempo real. Neste escopo, o uso de vetores aéreos representa uma grande vantagem. Outrora, empregava-se balões aerostáticos, como na Guerra de Secessão norteamericana e, logo depois, na Guerra da Tríplice Aliança, por iniciativa do gênio militar de Caxias, Patrono do Exército Brasileiro. Na atualidade, conforme observado na Guerra da Ucrânia, o uso multifuncional de drones tem transformado radicalmente a maneira de entender a dinâmica do combate, impulsionando-o a dimensões antes impensadas, cujos efeitos no amplo espectro afetam todos os níveis decisórios, do tático ao político.

Tendo em vista a busca por uma melhor preparação para as exigências dos desafios atuais, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer implementou o uso de drones civis pelos seus escalões subordinados na Operação Punhos de Aço 2025. O propósito da medida foi simplesmente permitir à tropa experimentar as possibilidades e limitações do uso desse tipo material em situação de adestramento, na execução das mais variadas tarefas atinentes às forças blindadas, com resultados bastante positivos.  

A edição 2025 da Operação Punhos de Aço consistiu em uma situação tática hipotética, na qual a Grande Unidade blindada realizou operações ofensivas. Primeiramente, foi ocupada a Zona de Reunião, para, em seguida, ter início a Marcha para o Combate. 

Descoberta, cuja Vanguarda foi uma força-tarefa valor unidade. Estabelecido o contato com o inimigo, em posições sumariamente organizadas, as outras três forças-tarefas unidade, em um cenário de conduta, ultrapassaram a Vanguarda e realizam Ataques de Oportunidade a três objetivos estabelecidos pela Brigada. Fruto dessas ações, foram criadas as condições favoráveis para o início do Aproveitamento do Êxito, praticado apenas carta, em planejamento prévio à ida ao terreno. 

No transcurso da Operação Punhos de Aço 2025, a Força-Terefa 29º Batalhão de Infantaria Blindado (FT 29º BIB) realizou a Marcha para o Combate como segundo escalão da Brigada. Ao ultrapassar a Vanguarda, atacou e conquistou o objetivo decisivo da Grande Unidade, contribuindo para o início do Aproveitamento do Êxito. Durante toda a atividade, a FT 29º BIB utilizou o drone civil DJI Mavic Mini 3 PRO, simulando o emprego de um Sistema Remotamente Pilotado (SARP), previsto na doutrina. 

Para melhor contextualizar esta situação, faz-se necessário explicar o conceito de Posto de Comando Tático (PCT) e tecer breves considerações do ciclo de comando e controle. O Manual EB70-MC-10.205, Comando e Controle (C2), assim define o PCT: 

é a instalação de C2 de constituição leve e com excepcional mobilidade aérea ou terrestre. É dotado de pouco pessoal e material, instalados em veículos apropriados ou em plataforma aérea. A sua missão é conduzir as operações em curso [...] (BRASIL, 2023, p. 3-5).  

Neste mesmo manual, o Ciclo de C2 é apresentado como um modelo adotado para a compreensão e avaliação de uma situação, com o objetivo de produzir uma tomada de decisão mais precisa e eficaz, buscando a paralisação do processo decisório do inimigo, segundo a teoria de John Boyd (Ciclo OODA). 

O PCT do Comandante da FT 29º BIB foi instalado em uma Viatura Blindada de Transporte de Pessoal M113 BR (VBTP M113 BR), que serviu também de ponto de decolagem e aterrisagem do drone. Na execução da Marcha para o Combate, houve incidentes que permitiram utilizar o drone de forma bastante proficiente, em auxílio ao esclarecimento da mais distintas situações, fruto das evoluções do combate.  

Ao ser recebida uma Ordem Fragmentaria do Escalão Superior, foi necessário reajustar rapidamente o planejamento inicial da FT 29º BIB. Naquele momento, o uso do drone mostrou-se outra vez efetivo e uma ágil decisão foi tomada. O Comandante da Força-Tarefa pode verificar, por exemplo: os melhores itinerários a utilizar; a localização das forças amigas nos seus flancos; as posições inimigas a atacar; as características do terreno; e o desenvolvimento da manobra. De maneira análoga, as imagens cedidas possibilitaram o ajuste do dispositivo no pós-ação com considerável precisão, protegendo a tropa e o objetivo conquistado de quaisquer ameaças.    

Do exposto, constatou-se que a utilização do drone civil DJI Mavic Mini 3 PRO, simulando um SARP, contribuiu consideravelmente para o incremento da consciência situacional do Comandante da FT 29º BIB e a consequente rapidez de suas tomadas de decisão. A aquisição de dados pelo drone complementou o uso de outros meios de busca existentes na Brigada.  A VBTP M-113 BR mostrou-se adequada como ponto de decolagem e aterrisagem do material. Verificou-se que o planejamento integrado do uso destes equipamentos é um objetivo futuro de grande interessante a ser alcançado. Neste sentido, visualiza-se a 6ª Bateria de Artilharia Antiaérea Autopropulsada (estrutura de defesa antiaérea da Brigada) como o elemento ideal para tal gerenciamento. 

Talvez o maior ganho desta atividade tenha sido, de fato, proporcionar à tropa o contato com o drone em uma situação tática de adestramento avançado, percebendo, no terreno, suas possibilidades e limitações. Este tema representa um aspecto a ser incluído no rol de Conhecimentos de Interesse da Doutrina (CID), sugerindo-se, pois, a realização de outros estudos que ampliem e aprofundem o assunto, com fim de gerar produtos doutrinários úteis à Instituição, em sintonia com a realidade atual e futura dos conflitos.  


Autores

GENERAL DE BRIGADA ANDRÉ LUIZ DE SOUZA DIAS - Formado em 1996, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, comanda a 6° Brigada de Infantaria Blindada, com sede em Santa Maria- RS. Nessa mesma Brigada, foi o Comandante da Companhia de Comando, em 2010-11, e do 29º Batalhão de Infantaria Blindado, no biênio 201920. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, realizou o Curso de Estado-Maior das Forças Armadas da Espanha e o de Altos Estudos Nacionais da Bolívia. Possui os Mestrados Acadêmicos em Operações Militares e em Ciências Militares, ambos no Brasil, em Política de Defesa e Segurança Internacional, na Espanha, e em Segurança, Defesa e Desenvolvimento, na Bolívia. É membro da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB). 

TENENTE-CORONEL RÔMULO TORRES RAMIRO - O Tenente-Coronel Torres concluiu, no ano de 2002, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), o Curso de Formação de Oficiais da Arma de Infantaria e o Bacharelado em Ciências Militares. Realizou, também, na Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME), o Curso de Comando e Estado-Maior. Foi Oficial de Doutrina e Lições Aprendidas do Comando Militar do Nordeste (CMNE), em 2021. Em 2022, participou da United Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL), como assessor da Brigada Espanhola para as operações correntes. Como instrutor da ECEME, foi relator da disciplina “Brigada” e formulador de doutrina, em 2023 e 2024. Atualmente, comanda o 29º Batalhão de Infantaria Blindado -  Batalhão Cidade de Santa Maria, sediado na cidade de Santa Maria-RS.  



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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O PARADOXO DA DEFESA BRASILEIRA - Capacidade Industrial Sem Demanda Interna

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A intensificação das tensões geopolíticas em diferentes regiões do mundo tem reconfigurado de forma significativa as agendas de segurança e defesa de diversos países. O sistema internacional atravessa um período de crescente fragmentação estratégica, marcado pela multiplicação de conflitos regionais, pela competição entre grandes potências e pela securitização acelerada de tecnologias emergentes, com impactos diretos sobre a estabilidade regional e a autonomia decisória dos Estados. 

Na América do Sul, a prisão de Nicolás Maduro e o consequente agravamento da crise política e institucional na Venezuela alteraram de forma relevante o equilíbrio estratégico regional. A intensificação das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, somada à incerteza quanto à governabilidade, ao controle das forças de segurança e à dinâmica interna do país vizinho, introduz novos vetores de instabilidade no entorno estratégico do Brasil, que até então se caracterizava por baixos níveis de conflito interestatal. 

Esse novo cenário amplia a complexidade dos desafios relacionados à vigilância de fronteiras, ao controle de fluxos migratórios, ao combate a ilícitos transnacionais e à preservação da soberania nacional, exigindo maior capacidade de antecipação, dissuasão e resposta por parte do Estado brasileiro. 

Nesse contexto, a Base Industrial de Defesa (BID) assume papel ainda mais central como instrumento de autonomia estratégica, política industrial de alto valor agregado e inserção internacional qualificada. Sua relevância deve ser compreendida para além da dimensão estritamente militar, abrangendo a geração de capacidades tecnológicas críticas, a resiliência do Estado frente a cenários de instabilidade regional e a consolidação do Brasil como ator responsável e previsível no campo da segurança e da defesa.

A BASE INDUSTRIAL DE DEFESA BRASILEIRA COMO ATIVO ESTRATÉGICO DE ESTADO 

Sob a perspectiva adotada por organismos multilaterais e centros de análise estratégica, a indústria de defesa constitui um dos pilares da capacidade estatal em contextos de incerteza geopolítica. No caso brasileiro, a BID é composta por um ecossistema industrial diversificado, que abrange os domínios aeroespacial, naval, terrestre, espacial, cibernético, comunicações e eletroeletrônico, fomentando empresas de alta tecnologia, plenamente estabelecidas e integradas ao setor produtivo do país independentemente da origem de seu capital. O critério relevante para avaliação estratégica não reside no país de origem das empresas, mas na capacidade de investimentos, na transferência de tecnologias, na geração de valor local, na retenção de competências tecnológicas, na formação de capital humano altamente qualificado e na aderência dessas capacidades às prioridades de defesa e segurança nacionais. 

EXPANSÃO DAS EXPORTAÇÕES E INSERÇÃO INTERNACIONAL 

Nos últimos anos, a Base Industrial de Defesa brasileira apresentou um crescimento expressivo de suas exportações, refletindo ganhos de competitividade, maturidade tecnológica e reconhecimento internacional de seus produtos e sistemas. O aumento significativo das vendas externas demonstra a capacidade da BID de atender a padrões internacionais rigorosos, operar em cadeias globais de valor e competir em mercados altamente regulados. Do ponto de vista das relações internacionais, esse desempenho projeta o Brasil como um fornecedor relevante de produtos e sistemas de defesa, ampliando sua presença diplomática, fortalecendo parcerias estratégicas e contribuindo para sua política externa por meio de instrumentos de cooperação industrial e tecnológica. Entretanto, essa inserção internacional mais robusta contrasta com um desafio estrutural persistente no plano doméstico. 

A ASSIMETRIA ENTRE CAPACIDADE INDUSTRIAL E A DEMANDA INTERNA 

Apesar da evolução tecnológica e do desempenho exportador da BID, as Forças Armadas brasileiras enfrentam limitações significativas de absorção dessas capacidades, em razão de sucessivos cortes orçamentários e da elevada rigidez do orçamento de defesa, historicamente concentrado em despesas obrigatórias. Essa assimetria gera um paradoxo estratégico: o Brasil dispõe de uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver e produzir sistemas avançados, mas ainda carece de previsibilidade orçamentária e continuidade programática para incorporá-los de forma sistemática às suas próprias forças. Sob a ótica de políticas públicas, essa desconexão reduz o efeito multiplicador dos investimento em defesa,  enfraquece a indução tecnológica gerada por encomendas governamentais, limita o planejamento de longo prazo da indústria e amplia a dependência da BID em relação ao mercado externo, tornando-a mais vulnerável a ciclos internacionais e restrições geopolíticas. 

THINK TANKS* internacionais frequentemente apontam que a demanda doméstica estável é elemento crítico para a sustentabilidade de uma indústria de defesa, não apenas como cliente, mas como indutor de inovação, padronização e soberania operacional.

IMPLICAÇÕES PARA AUTONOMIA ESTRATÉGICA E POLÍTICA EXTERNA 

A persistência de baixos níveis de investimento em aquisição e modernização de meios compromete a credibilidade dissuasória do país e restringe a sua capacidade de atuação autônoma em cenários regionais e multilaterais. Além disso, limita a plena exploração dos benefícios estratégicos associados à BID, tais como: 

➢ Domínio do ciclo de vida dos sistemas; 

➢ Autonomia do suporte logístico e de manutenção; 

➢ Capacidade de adaptação rápida a novos cenários de ameaça; 

➢ Continuidade logística e operacional das Forças Armadas em cenários de crise; 

➢ Redução de vulnerabilidades externas em sistemas sensíveis; 

➢ Capacidade nacional de manutenção, modernização e integração de plataformas estratégicas; 

➢ Flexibilidade diplomática, ao diminuir dependências críticas de fornecedores externos. 


Para países com ambições de protagonismo regional, a literatura estratégica destaca a importância de alinhar política industrial de defesa, planejamento militar e política externa, evitando que capacidades industriais avancem de forma dissociada das necessidades operacionais do Estado. 

EMPRESAS BRASILEIRAS COM CAPITAL INTERNACIONAL E INSERÇÃO GLOBAL 

A presença de empresas brasileiras com capital internacional na BID deve ser analisada sob uma ótica pragmática e estratégica. Em um setor caracterizado por cadeias globais altamente reguladas e intensivas em tecnologia, a participação em programas internacionais amplia o acesso a mercados, padrões tecnológicos e processos industriais avançados. A experiência internacional demonstra que países com BID robusta combinam capital nacional e internacional, desde que preservem o controle soberano sobre requisitos operacionais, propriedade intelectual sensível e ciclos de vida dos sistemas estratégicos. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira ocorre em um momento de profunda transformação do ambiente internacional. O crescimento das exportações confirma a relevância e a competitividade da BID, mas também expõe uma fragilidade estrutural que é a limitada capacidade do Estado brasileiro de absorver, de forma contínua e previsível, as soluções que ele próprio ajuda a desenvolver. 

Para organismos internacionais e centros de análise estratégica, a principal questão não é a existência de capacidades industriais, mas a coerência entre ambição estratégica, financiamento público e governança institucional. Superar essa assimetria exige uma abordagem de política de Estado, que reconheça a BID, que é composta por empresas nacionais e empresas brasileiras com capital internacional, como um instrumento central da autonomia estratégica brasileira, capaz de contribuir simultaneamente para a segurança nacional, o desenvolvimento tecnológico e a inserção internacional do país. 


* Think tanks são instituições dedicadas à produção de conhecimento aplicado, com foco em análise, pesquisa e formulação de propostas para orientar políticas públicas, estratégias governamentais, decisões empresariais e debates da sociedade.


por Mauro Beirão 


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Trinta e dois cubanos mortos em operação dos EUA na Venezuela expõem o envolvimento militar de Havana

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A escalada das tensões na Venezuela ganhou um novo e dramático capítulo após ataques militares conduzidos pelos Estados Unidos em território venezuelano, que resultaram na morte de 32 membros das forças de segurança cubanas e na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A informação foi confirmada pelo governo de Cuba em comunicado oficial transmitido pela televisão estatal, com base em dados das agências Agerpres, DPA, AFP e EFE.

Segundo Havana, os militares cubanos mortos, integrantes das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior, estavam em missão na Venezuela a pedido das autoridades locais, no contexto da cooperação estratégica entre os dois países. O governo cubano afirmou que os militares “cumpriram seu dever com dignidade e heroísmo”, tendo morrido em combate direto ou em decorrência de bombardeios contra instalações venezuelanas. Em resposta às mortes, o presidente Miguel Díaz-Canel decretou dois dias de luto nacional.

A operação militar dos EUA ocorreu na manhã de sábado e teve como principal objetivo a captura de Nicolás Maduro, que foi retirado do país e transferido para os Estados Unidos. Atualmente, o ex-presidente venezuelano encontra-se detido em Nova York, onde deverá responder a acusações que incluem conspiração para cometer narcoterrorismo e conspiração para importar cocaína.

O presidente norte-americano Donald Trump confirmou a operação e comentou publicamente as baixas do lado cubano, destacando que não houve perdas entre as forças dos EUA. Ao ser questionado sobre a possibilidade de Cuba se tornar um novo alvo, Trump evitou indicar ações imediatas, mas reforçou o discurso de que Havana enfrenta um colapso econômico iminente, agravado pela possível interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano.

A crise reacendeu o debate sobre o papel estratégico da Venezuela no tabuleiro geopolítico das Américas. O país detém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, além de expressivas jazidas de ouro, fatores que historicamente atraem o interesse de potências globais. Nas últimas décadas, a crescente influência de países como Rússia, China e Irã em Caracas passou a ser vista em Washington como um fator de risco direto à segurança regional.

Essa percepção, inclusive, já foi retratada na cultura popular. Em uma das temporadas da série Jack Ryan, da Amazon Prime, o protagonista destaca a Venezuela como uma ameaça subestimada aos Estados Unidos. Em uma cena emblemática, enquanto outros personagens citam Rússia, China e Coreia do Norte como os principais riscos globais, o personagem chama atenção para a proximidade geográfica da Venezuela com o território norte-americano e para o perigo estratégico que representaria a instalação de armamentos avançados, ou mesmo mísseis nucleares, em um país alinhado a adversários históricos dos EUA, traçando um paralelo com a Crise dos Mísseis de Cuba, nos anos 1960.

No plano diplomático, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, classificou o regime cubano como “um grande problema”, ressaltando o apoio de Havana a Maduro. Rubio, que há anos defende uma postura dura em relação a Cuba, evitou especular sobre próximos passos, mas reforçou críticas ao modelo político cubano, marcado pelo partido único e por denúncias recorrentes de violações de direitos humanos.

As relações entre Cuba e Venezuela se intensificaram desde o fim da década de 1990, com a ascensão de Hugo Chávez. Após a tentativa de golpe de 2002, a presença cubana em assuntos militares venezuelanos se ampliou, consolidando uma aliança baseada em interesses políticos, estratégicos e econômicos. A Venezuela tornou-se o principal fornecedor de petróleo para Cuba, enquanto Havana passou a enviar, entre outros recursos, pessoal médico e assessores técnicos.

Atualmente, Cuba enfrenta uma das piores crises econômicas de sua história recente, marcada por escassez de combustível, apagões frequentes e forte queda no turismo. Analistas apontam que a perda do petróleo venezuelano pode acelerar ainda mais o colapso da economia cubana, ampliando instabilidade social e política na ilha.

Diante desse cenário, a captura de Nicolás Maduro e o confronto direto envolvendo forças cubanas e norte-americanas sinalizam uma mudança significativa no nível de envolvimento dos Estados Unidos na crise venezuelana. Mais do que um episódio isolado, o ocorrido reforça a centralidade da Venezuela nas disputas estratégicas do hemisfério ocidental e evidencia como alianças regionais e interesses globais continuam a moldar a segurança e a estabilidade das Américas.


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