terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Corte de voos da FAB expõe falhas estruturais no orçamento de Defesa

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O Comando da Aeronáutica registrou uma queda expressiva no emprego de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para o transporte de autoridades após o endurecimento dos critérios de autorização para missões consideradas de baixa aderência institucional. Em 2025, os custos associados a esse tipo de operação ultrapassaram R$ 60 milhões, somando despesas com combustível, manutenção e taxas aeroportuárias. A partir de novembro, contudo, a demanda caiu de forma abrupta, com a ocorrência de dias inteiros sem qualquer voo registrado, um cenário atípico em comparação aos anos anteriores.

A decisão reflete uma mudança de postura técnica diante de um quadro de restrição orçamentária severa. O transporte aéreo de autoridades envolve aeronaves de elevado custo operacional, cuja utilização recorrente para agendas pouco justificáveis consumia recursos equivalentes a centenas de horas de voo operacional. Em um orçamento já pressionado, esse emprego contribuiu para reduzir margens críticas destinadas à manutenção, ao treinamento de tripulações e à sustentação da prontidão.

Com o novo modelo de controle, o Comando da Aeronáutica passou a exigir justificativas estritamente institucionais para cada solicitação, eliminando voos com baixa taxa de ocupação, destinos sem vínculo direto com compromissos de Estado ou demandas de caráter político-partidário. O impacto foi imediato. Dezembro registrou diversos períodos sem missões de transporte, evidenciando o quanto a prática anterior estava dissociada de uma lógica de racionalidade operacional.

A contenção dessas missões ocorre em paralelo a uma crise orçamentária estrutural que afeta diretamente a capacidade operacional da FAB. Em 2025, a escassez de recursos chegou a comprometer a aquisição regular de combustível aeronáutico, impondo restrições ao treinamento de pilotos e à disponibilidade de aeronaves de caça, patrulha e vigilância, meios essenciais para a defesa do espaço aéreo brasileiro e para o cumprimento de compromissos internacionais.

Dados internos indicam que o custo de um único voo de autoridade poderia sustentar múltiplas horas de missões de defesa aérea, patrulha ou adestramento. O contraste evidencia um problema recorrente na gestão dos recursos de Defesa: gastos administrativos e políticos competindo diretamente com a atividade-fim das Forças Armadas. Nesse contexto, o endurecimento do controle sobre o uso de jatos oficiais surge não como uma escolha, mas como uma medida de sobrevivência operacional.

Com a nova diretriz, apenas ministérios e órgãos considerados estratégicos, como Defesa e Justiça, mantiveram acesso prioritário às aeronaves da FAB. Solicitações de caráter pessoal, político ou eleitoral passaram a ser sistematicamente negadas, rompendo uma prática que há décadas gerava desgaste institucional e consumia recursos críticos sem retorno estratégico.

A economia obtida com a redução dessas missões está sendo direcionada para assegurar requisitos mínimos de segurança de voo, manutenção e operação de aeronaves de combate e treinamento. O objetivo central da Aeronáutica é evitar que restrições orçamentárias voltem a paralisar atividades essenciais, preservando níveis básicos de prontidão e capacidade dissuasória em um ambiente fiscal que permanece altamente restritivo.

Racionalizar não basta, é preciso mudar o modelo

O episódio vai muito além da discussão sobre o uso de aeronaves para transporte de autoridades. Ele expõe, de forma inequívoca, a miopia histórica do Estado brasileiro em relação ao orçamento de Defesa. A racionalização do uso da frota da FAB é correta e necessária, mas não resolve o problema estrutural: a Defesa continua sendo tratada como variável de ajuste fiscal, e não como investimento estratégico de longo prazo.

A ausência de previsibilidade orçamentária compromete não apenas a operação cotidiana das Forças Armadas, mas inviabiliza qualquer planejamento consistente de modernização de capacidades. Programas estratégicos são atrasados, contratos são fragmentados, cronogramas são constantemente revistos e a eficiência operacional é sacrificada para atender a contingenciamentos de curto prazo.

Esse modelo gera um ciclo vicioso. Sem previsibilidade, a Base Industrial de Defesa (BID) não consegue planejar investimentos, reter mão de obra qualificada ou ampliar capacidades tecnológicas. Projetos são interrompidos, empresas perdem escala, competências críticas se dissipam e o país se torna cada vez mais dependente de soluções externas, muitas vezes mais caras e politicamente condicionadas.

O impacto vai além do campo militar. Investimentos consistentes em Defesa têm efeito direto sobre a economia, gerando empregos qualificados, estimulando inovação, fortalecendo cadeias produtivas nacionais e ampliando a arrecadação. A indústria de defesa é, historicamente, vetor de desenvolvimento tecnológico dual, com efeitos positivos em setores civis como aeronáutica, comunicações, materiais avançados e sistemas embarcados.

Ignorar essa lógica significa abrir mão de soberania, competitividade e desenvolvimento. Cada ciclo de cortes e improvisações representa não apenas aeronaves paradas em solo, mas oportunidades perdidas de geração de riqueza, conhecimento e autonomia estratégica.

O controle mais rigoroso do uso de jatos da FAB demonstra que há espaço para gestão mais eficiente dos recursos existentes. No entanto, eficiência administrativa não substitui investimento estruturado. Sem um orçamento de Defesa previsível, plurianual e alinhado a uma estratégia nacional clara, o Brasil continuará operando no limite, mantendo capacidades mínimas enquanto adia decisões fundamentais.

Em um cenário internacional marcado por instabilidade, competição estratégica e reconfiguração do poder global, tratar a Defesa como gasto supérfluo é uma escolha de alto risco. A questão central não é quantos voos deixarão de ocorrer, mas quanto o país está disposto a investir para garantir sua segurança, sua autonomia e seu futuro estratégico.


por Angelo Nicolaci


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Colômbia reage a ameaças dos EUA e reforça discurso de soberania nacional

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As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro em Caracas no dia 3 de janeiro, provocaram uma rápida escalada de tensões diplomáticas na América do Sul. Ao sugerir que uma ação semelhante poderia ser conduzida na Colômbia, Trump trouxe novamente à tona o debate sobre soberania nacional, limites da intervenção externa e os impactos estratégicos de operações unilaterais no equilíbrio regional.

Em resposta às declarações norte-americanas, o presidente colombiano Gustavo Petro rejeitou as acusações de ilegitimidade e envolvimento com o narcotráfico. Petro afirmou que seu governo atua dentro dos marcos constitucionais e destacou ações concretas no combate às organizações criminosas, incluindo a maior apreensão de cocaína já registrada no país e operações militares em áreas estratégicas de produção e escoamento de drogas, como a região de El Plateado, no departamento de Cauca.

Trump, durante declarações feitas a bordo do avião presidencial, classificou a Colômbia como um país “doente” e acusou diretamente Petro de fomentar a produção e exportação de cocaína para os Estados Unidos. As afirmações, endossadas por setores da política norte-americana, incluindo o senador Marco Rubio, reforçaram uma narrativa de securitização do narcotráfico como justificativa para ações coercitivas além das fronteiras dos EUA.

O presidente colombiano respondeu adotando uma postura de firmeza institucional, reiterando sua condição de comandante supremo das Forças Armadas e guardião da Constituição de 1991, marco jurídico que consolidou direitos fundamentais e redefiniu o papel do Estado colombiano após décadas de conflito interno. Petro também confirmou a remoção de oficiais de inteligência acusados de disseminar informações falsas, que, segundo o governo, contribuem para distorcer a percepção internacional sobre a Colômbia.

No campo militar, Petro enfatizou que as operações conduzidas sob sua administração seguem os parâmetros do Direito Internacional Humanitário, incluindo ações aéreas e terrestres contra grupos armados ilegais ligados ao narcotráfico. Segundo o presidente, essas organizações exploram táticas como o recrutamento de menores para dificultar ações militares diretas, o que, na avaliação do governo, exige respostas operacionais precisas e legalmente fundamentadas.

A retórica presidencial também deixou clara a disposição de defesa da soberania nacional. Petro afirmou que não aceitará qualquer forma de ingerência externa e que as Forças Armadas colombianas devem lealdade exclusiva à Constituição e à bandeira do país. Em tom mais assertivo, indicou que medidas seriam adotadas contra comandantes que demonstrassem alinhamento prioritário a interesses estrangeiros.

Análise estratégica: implicações regionais da ação dos EUA na Venezuela

Do ponto de vista geopolítico, a operação conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela marca um ponto de inflexão na forma como Washington vem se posicionando na América do Sul. Após um longo período em que predominou o uso de instrumentos indiretos como sanções econômicas, pressão diplomática e isolamento político, a ação direta em Caracas sinaliza uma disposição maior para o emprego de medidas coercitivas mais assertivas, especialmente em cenários considerados sensíveis à segurança hemisférica.

Sob a perspectiva norte-americana, a associação entre narcotráfico, instabilidade política e legitimidade governamental funciona como um elemento estruturante de sua narrativa estratégica. Esse enquadramento amplia a margem de manobra de Washington ao permitir a adoção de um espectro mais amplo de medidas, que vão desde sanções reforçadas e operações de interdição transnacional até, em situações específicas, ações cinéticas de caráter limitado, justificadas pelo combate a ameaças assimétricas e redes criminosas transnacionais.

Para os países sul-americanos, no entanto, essa mudança de postura tende a ser percebida com cautela. A adoção de critérios unilaterais para definir o que constitui uma ameaça à segurança regional pode reduzir o espaço de autonomia política dos Estados e aumentar a sensação de vulnerabilidade estratégica. Nesse contexto, governos da região passam a avaliar não apenas o impacto imediato da ação na Venezuela, mas também os precedentes que ela estabelece para o futuro.

A reação de países como Colômbia e Brasil, ao buscarem a ativação de fóruns regionais como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), deve ser interpretada como uma tentativa de reequilibrar o ambiente estratégico por meio do diálogo político e da concertação regional. Embora a CELAC não possua instrumentos operacionais de defesa coletiva, seu emprego como espaço de articulação ganha relevância em momentos de crise, ao oferecer uma plataforma para coordenação diplomática e redução de assimetrias individuais frente a pressões externas.

No campo da defesa, o novo cenário tende a acelerar processos já em curso na região. A instabilidade percebida estimula a reavaliação de capacidades militares, com maior ênfase em vigilância de fronteiras, inteligência, mobilidade estratégica e integração entre forças terrestres, navais e aéreas. O fortalecimento de capacidades ISR, a ampliação de exercícios conjuntos e a modernização de meios surgem como respostas naturais a um ambiente caracterizado por maior incerteza e menor previsibilidade.

Paralelamente, a reconfiguração do ambiente estratégico abre espaço para uma atuação mais ativa de atores extrarregionais, como China e Rússia. A ampliação da presença desses países, seja por meio de cooperação tecnológica, acordos industriais de defesa ou investimentos em infraestrutura crítica, contribui para um processo gradual de multipolarização da segurança sul-americana, oferecendo alternativas estratégicas aos Estados da região e ampliando o leque de opções políticas e militares.

A partir desse contexto, é possível projetar alguns cenários. Em uma hipótese de estabilização controlada, a pressão dos Estados Unidos permaneceria concentrada em instrumentos diplomáticos e econômicos, enquanto os países sul-americanos fortaleceriam mecanismos regionais de diálogo, reduzindo o risco de escaladas. Em um cenário intermediário, de dissuasão ampliada, observar-se-ia o aumento de operações de interdição, presença militar indireta e exercícios, elevando o nível de tensão, mas sem confronto direto. Já em um cenário de escalada localizada, crises políticas internas ou ações pontuais poderiam gerar efeitos de transbordamento, com impactos diretos sobre a segurança de fronteiras e a estabilidade institucional dos países vizinhos.

Em síntese, a operação dos Estados Unidos na Venezuela e a retórica associada à Colômbia inserem a América do Sul em um período de maior volatilidade estratégica. O desfecho desse processo dependerá da capacidade dos atores regionais e extrarregionais de equilibrar dissuasão e diálogo, preservando margens de autonomia estratégica e evitando que o continente volte a ser um espaço de confrontos indiretos em um sistema internacional cada vez mais fragmentado.


por Angelo Nicolaci


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A INFLUÊNCIA DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA NOS PRIMEIROS ANOS DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA.

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Finda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), maior conflito armado da história da humanidade, e vitoriosos os Aliados – dentre eles o Brasil –, retornaram à Pátria verde e amarela vinte e cinco mil homens e mulheres, veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), triunfantes, orgulhosos e inteiramente transformados. Os quase quinhentos pracinhas mortos, que lutaram contra o nazifascismo, em prol da liberdade e da democracia, seriam posteriormente repatriados, em 1960, como símbolos de coragem, heroísmo e amor incondicional ao País.

Os febianos, uma vez distribuídos em diferentes organizações militares espalhadas pelo Brasil, fossem oficiais ou praças, de escola ou reservistas efetivados, ao interagirem com seus camaradas, sistematicamente transformavam as estruturas Exército, à luz de experiências adquiridas, conhecimentos absorvidos e novas doutrinas aprendidas e testadas em combate. Reverberavam, no dia a dia da caserna, as agruras e aventuras dos campos de batalha, profundamente impregnados pela visão aterradora de uma guerra total e pela miséria humana e social correspondente. 

A Escola Superior de Guerra (ESG) surge justamente neste contexto, em 1949, fundada sob a inspiração de duas escolas norte-americanas, uma civil e outra militar (Vianna, 2020). Segundo José Murilo de Carvalho (2019, p. 209), a ESG seria “o Góes coletivo”, voltada para pensar e implementar “a política do Exército”, fazendo referência ao famoso aforismo do General Góes Monteiro, Chefe do Estado-Maior do Exército, quando da criação da FEB. Era preconizada, dessa forma, "a política do Exército ao invés da política no Exército", em clara alusão à necessidade urgente de preparação para a guerra, afastando desavenças políticas e enfatizando a Instituição como de caráter permanente e de Estado.

A ESG nasceu com o objetivo principal de “criar lideranças civis e militares para enfrentar a eventualidade de um novo estilo de guerra, não mais circunscrita à frente de batalha e ao palco de lutas, mas transformada em fato total, que afeta a sociedade por inteiro e toda a estrutura de uma nação” (Cordeiro de Farias in Camargo; Góes, 2001, p. 354). Na atualidade, sua missão se mantém fiel à orientação inicial, com o desenvolvimento e a disseminação de conhecimentos de Defesa, Segurança e Desenvolvimento Nacional, dentro da finalidade de ampliar o envolvimento da sociedade nestes temas, gerando discussões, propostas e soluções objetivas e inovadoras.  

Com a visão de futuro orientada a ser reconhecida como um Instituto de Altos Estudos de excelência nacional e de referência internacional, a ESG cultua importantes valores: a busca do bem comum; o engrandecimento do ser humano; a conduta ética; a integridade; o pensamento eclético; a liberdade de expressão; a busca da excelência na produção de conhecimento; a integração entre civis e militares; a prática do civismo; o sentimento patriótico; e o de pertencimento, externado pelo orgulho de integrar um estabelecimento caracterizado por inúmeras entregas ao Brasil. 

É expressão corrente identificar a influência dos veteranos da FEB na criação e no desenvolvimento inicial da ESG. De fato, coube a eles este protagonismo, a começar pelo seu primeiro comandante, o então General de Divisão Oswaldo Cordeiro de Farias. Durante a 2ª Guerra Mundial, Cordeiro de Farias esteve à frente da Artilharia Divisionária brasileira, na condição de General de Brigada. Liderou a ESG de 1949 até 1952, compondo a primeira turma de diplomados no Curso Superior de Guerra, em 1950, junto a outros renomados expedicionários: General de Divisão Euclydes Zenóbio da Costa, General de Brigada Agnaldo Caiado de Castro, Coronel Emílio Maurel Filho, Tenente-Coronel Jurandir de Bizarria Mamede e Tenente-Coronel Afonso Henrique de Miranda Corrêa (Brasil, 1999).

Nesse escopo, ressalta-se haverem comandado a ESG outros seis veteranos da FEB. O último deles, no ano de 1981, General de Exército Alacyr Frederico Werner, chefiou a Subseção de Foto-Informação da 2ª Seção do Estado-Maior da 1ª DIE, como capitão (Motta, 2001a). Humberto de Alencar Castelo Branco foi mais um ilustre febiano a se formar na ESG, à época General de Brigada. Antigo Chefe da 3ª Seção (Operações) do Estado-Maior da 1ª Divisão de Infantaria Divisionária (1ª DIE), Castelo Branco foi também Subcomandante e Diretor do Departamento de Estudos da Escola, entre 1956 e 1958.

Durante sete décadas, passaram pelo Corpo Permanente da ESG diversas personalidades da intelectualidade brasileira, igualmente veteranos da FEB e destacadas figuras da vida nacional: os Generais Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos, além dos Coronéis Amerino Raposo Filho, Hélio Mendes, Joaquim Victorino Portella Ferreira Alves e Sergio Gomes Pereira. Aliam-se a eles outros tantos cidadãos que, convocados pelo esforço de guerra, combateram como praças na Itália, reintegraram-se à vida civil no pós-guerra e tornaram-se referências no serviço público e na iniciativa privada, como o engenheiro Djalma Dutra Ururahy e o advogado Joaquim Manoel Xavier da Silveira.

Os efeitos positivos da influência febiana na “casa onde estuda-se o destino do Brasil” se fizeram sentir de todos os níveis da escala hierárquica, transpassando as funções diretivas e diretamente acadêmicas. Para se ter uma ideia, em meados de 1950, no primeiro ano de funcionamento pleno da ESG, havia treze sargentos no corpo permanente, dos quais três eram veteranos da FEB. Serviam como auxiliares administrativos, desempenhavam funções técnicas e compunham as equipes de instrução militar do contingente de cabos e soldados. Eram eles os 2º Sargentos Benno Armindo Schirmer, Fortunato Scarpelli e Geraldo Camargo.

Merece uma especial menção Benno Armindo Schirmer. Na FEB, o 3º Sargento Benno, inicialmente destinado ao Depósito de Pessoal, foi posteriormente transferido para o 11º Regimento de Infantaria, em janeiro de 1945. Fluente em alemão, atuou como intérprete na linha de frente, interrogando prisioneiros capturados até o fim da guerra. Comandou patrulhas e liderou ações na Batalha de Montese. Reconhecido com as Medalhas de Guerra e de Campanha, foi também condecorado com a Cruz de Combate de 2ª Classe, por ato de bravura (Motta, 2001b).

De volta ao Brasil, o 3º Sargento Benno foi classificado no 4º Grupo de Artilharia de Dorso, depois 1º Grupo do 4º Regimento de Obuses 105mm, em Juiz de Fora-MG, antes de ser transferido para a ESG, em 1950, designado para trabalhar como auxiliar da 3ª Seção (Operações). Lá, atuou como operador cinematográfico, gravador e desenhista, elogiado sempre pelo seu comprometimento e alto rendimento (Motta, 2001b). Chegou ao posto de Capitão e foi transferido para a reserva como Major, em outubro de 1966. Se estabeleceu em Novo Hamburgo-RS, onde presidiu, por longos anos, a Seção Regional do Vale do Rio dos Sinos da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB). Faleceu em 25 de abril de 2016, aos 92 anos de idade.

Com o passar dos anos, a importância e a pujança da ESG só robusteceram, privilegiando a cultura, fomentando a pesquisa, aguçando o pensamento crítico e irradiando mentalidade de Defesa Nacional pelo Brasil e no exterior. Como consequência natural, surgiu, em 2011, o Campus Brasília da ESG que, em 2021, evoluiu para a Escola Superior de Defesa (ESD). Hoje, a ESG e a ESD se somam e se completam, atuando de forma integrada, harmônica e sinérgica, subordinadas ao Ministério da Defesa.

Em 2025, ano em que se comemoram oito décadas das vitórias da FEB na 2ª Guerra Mundial, nossos bravos pracinhas, por tudo que fizeram e representam ao Brasil, são heróis sempre lembrados. Ao correlacionar as influências da FEB com a criação e o despertar da ESG, pretende-se, sobretudo, evidenciar e caracterizar a longa duração do espírito dos expedicionários brasileiros em todo o espectro social, não restrito apenas aos anos de guerra, mas entendido como uma experiência profunda, formadora e transformadora, que permanece inspirando o Exército de Caxias, as Forças Armadas e o País.


Autores:

Daniel Mata Roque 

General de Brigada Andre Luiz de Souza Dias


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A UTILIZAÇÃO DO DRONE COMO SIMULAÇÃO DO EMPREGO DE SARP POR UMA FORÇA-TAREFA BLINDADA VALOR UNIDADE, NA OPERAÇÃO PUNHOS DE AÇO 2025

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Clausewitz provou que a guerra é o “reino” das incertezas, com forças antagônicas agindo livremente e tentando impor, umas às outras, suas próprias vontades. Antes dele, Sun Tzu profetizou que o conhecimento do inimigo e de si próprio representam a chave para a vitória. Entendendo a importância destes aspectos, bem como o papel capital que jogam a geografia e a população no contexto das operações militares, o Exército Brasileiro, há tempos, incorporou na metodologia dos seus planejamentos o denominado Processo de Integração Terreno, Condições Meteorológicas, Inimigo e Considerações Civis (PITCIC). 

John Boyd, na segunda metade do século XX, concebeu uma teoria focada na velocidade e na eficácia do ciclo decisório, enfatizando que um contendor capaz de reagir mais rápido do que o seu adversário às evoluções do combate, decidindo antes e com acerto, reterá a iniciativa e imporá a ele reações desfavoráveis sucessivas, que somadas no tempo resultarão no seu total colapso. Esta teoria, denominada Ciclo OODA (Observar-OrientarDecidir-Agir), faz alusão a um tipo de processo ininterrupto, retroalimentado e francamente dependente da busca de dados. 

Para suprir as necessidades do PITCIC e do próprio ciclo de decisão, os meios de coleta de dados hoje disponíveis devem ser utilizados sinergicamente e em sua totalidade. O dinamismo e a fluidez do combate exigem um acompanhamento e análise da situação em tempo real. Neste escopo, o uso de vetores aéreos representa uma grande vantagem. Outrora, empregava-se balões aerostáticos, como na Guerra de Secessão norteamericana e, logo depois, na Guerra da Tríplice Aliança, por iniciativa do gênio militar de Caxias, Patrono do Exército Brasileiro. Na atualidade, conforme observado na Guerra da Ucrânia, o uso multifuncional de drones tem transformado radicalmente a maneira de entender a dinâmica do combate, impulsionando-o a dimensões antes impensadas, cujos efeitos no amplo espectro afetam todos os níveis decisórios, do tático ao político.

Tendo em vista a busca por uma melhor preparação para as exigências dos desafios atuais, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer implementou o uso de drones civis pelos seus escalões subordinados na Operação Punhos de Aço 2025. O propósito da medida foi simplesmente permitir à tropa experimentar as possibilidades e limitações do uso desse tipo material em situação de adestramento, na execução das mais variadas tarefas atinentes às forças blindadas, com resultados bastante positivos.  

A edição 2025 da Operação Punhos de Aço consistiu em uma situação tática hipotética, na qual a Grande Unidade blindada realizou operações ofensivas. Primeiramente, foi ocupada a Zona de Reunião, para, em seguida, ter início a Marcha para o Combate. 

Descoberta, cuja Vanguarda foi uma força-tarefa valor unidade. Estabelecido o contato com o inimigo, em posições sumariamente organizadas, as outras três forças-tarefas unidade, em um cenário de conduta, ultrapassaram a Vanguarda e realizam Ataques de Oportunidade a três objetivos estabelecidos pela Brigada. Fruto dessas ações, foram criadas as condições favoráveis para o início do Aproveitamento do Êxito, praticado apenas carta, em planejamento prévio à ida ao terreno. 

No transcurso da Operação Punhos de Aço 2025, a Força-Terefa 29º Batalhão de Infantaria Blindado (FT 29º BIB) realizou a Marcha para o Combate como segundo escalão da Brigada. Ao ultrapassar a Vanguarda, atacou e conquistou o objetivo decisivo da Grande Unidade, contribuindo para o início do Aproveitamento do Êxito. Durante toda a atividade, a FT 29º BIB utilizou o drone civil DJI Mavic Mini 3 PRO, simulando o emprego de um Sistema Remotamente Pilotado (SARP), previsto na doutrina. 

Para melhor contextualizar esta situação, faz-se necessário explicar o conceito de Posto de Comando Tático (PCT) e tecer breves considerações do ciclo de comando e controle. O Manual EB70-MC-10.205, Comando e Controle (C2), assim define o PCT: 

é a instalação de C2 de constituição leve e com excepcional mobilidade aérea ou terrestre. É dotado de pouco pessoal e material, instalados em veículos apropriados ou em plataforma aérea. A sua missão é conduzir as operações em curso [...] (BRASIL, 2023, p. 3-5).  

Neste mesmo manual, o Ciclo de C2 é apresentado como um modelo adotado para a compreensão e avaliação de uma situação, com o objetivo de produzir uma tomada de decisão mais precisa e eficaz, buscando a paralisação do processo decisório do inimigo, segundo a teoria de John Boyd (Ciclo OODA). 

O PCT do Comandante da FT 29º BIB foi instalado em uma Viatura Blindada de Transporte de Pessoal M113 BR (VBTP M113 BR), que serviu também de ponto de decolagem e aterrisagem do drone. Na execução da Marcha para o Combate, houve incidentes que permitiram utilizar o drone de forma bastante proficiente, em auxílio ao esclarecimento da mais distintas situações, fruto das evoluções do combate.  

Ao ser recebida uma Ordem Fragmentaria do Escalão Superior, foi necessário reajustar rapidamente o planejamento inicial da FT 29º BIB. Naquele momento, o uso do drone mostrou-se outra vez efetivo e uma ágil decisão foi tomada. O Comandante da Força-Tarefa pode verificar, por exemplo: os melhores itinerários a utilizar; a localização das forças amigas nos seus flancos; as posições inimigas a atacar; as características do terreno; e o desenvolvimento da manobra. De maneira análoga, as imagens cedidas possibilitaram o ajuste do dispositivo no pós-ação com considerável precisão, protegendo a tropa e o objetivo conquistado de quaisquer ameaças.    

Do exposto, constatou-se que a utilização do drone civil DJI Mavic Mini 3 PRO, simulando um SARP, contribuiu consideravelmente para o incremento da consciência situacional do Comandante da FT 29º BIB e a consequente rapidez de suas tomadas de decisão. A aquisição de dados pelo drone complementou o uso de outros meios de busca existentes na Brigada.  A VBTP M-113 BR mostrou-se adequada como ponto de decolagem e aterrisagem do material. Verificou-se que o planejamento integrado do uso destes equipamentos é um objetivo futuro de grande interessante a ser alcançado. Neste sentido, visualiza-se a 6ª Bateria de Artilharia Antiaérea Autopropulsada (estrutura de defesa antiaérea da Brigada) como o elemento ideal para tal gerenciamento. 

Talvez o maior ganho desta atividade tenha sido, de fato, proporcionar à tropa o contato com o drone em uma situação tática de adestramento avançado, percebendo, no terreno, suas possibilidades e limitações. Este tema representa um aspecto a ser incluído no rol de Conhecimentos de Interesse da Doutrina (CID), sugerindo-se, pois, a realização de outros estudos que ampliem e aprofundem o assunto, com fim de gerar produtos doutrinários úteis à Instituição, em sintonia com a realidade atual e futura dos conflitos.  


Autores

GENERAL DE BRIGADA ANDRÉ LUIZ DE SOUZA DIAS - Formado em 1996, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, comanda a 6° Brigada de Infantaria Blindada, com sede em Santa Maria- RS. Nessa mesma Brigada, foi o Comandante da Companhia de Comando, em 2010-11, e do 29º Batalhão de Infantaria Blindado, no biênio 201920. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, realizou o Curso de Estado-Maior das Forças Armadas da Espanha e o de Altos Estudos Nacionais da Bolívia. Possui os Mestrados Acadêmicos em Operações Militares e em Ciências Militares, ambos no Brasil, em Política de Defesa e Segurança Internacional, na Espanha, e em Segurança, Defesa e Desenvolvimento, na Bolívia. É membro da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB). 

TENENTE-CORONEL RÔMULO TORRES RAMIRO - O Tenente-Coronel Torres concluiu, no ano de 2002, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), o Curso de Formação de Oficiais da Arma de Infantaria e o Bacharelado em Ciências Militares. Realizou, também, na Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME), o Curso de Comando e Estado-Maior. Foi Oficial de Doutrina e Lições Aprendidas do Comando Militar do Nordeste (CMNE), em 2021. Em 2022, participou da United Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL), como assessor da Brigada Espanhola para as operações correntes. Como instrutor da ECEME, foi relator da disciplina “Brigada” e formulador de doutrina, em 2023 e 2024. Atualmente, comanda o 29º Batalhão de Infantaria Blindado -  Batalhão Cidade de Santa Maria, sediado na cidade de Santa Maria-RS.  



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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O PARADOXO DA DEFESA BRASILEIRA - Capacidade Industrial Sem Demanda Interna

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A intensificação das tensões geopolíticas em diferentes regiões do mundo tem reconfigurado de forma significativa as agendas de segurança e defesa de diversos países. O sistema internacional atravessa um período de crescente fragmentação estratégica, marcado pela multiplicação de conflitos regionais, pela competição entre grandes potências e pela securitização acelerada de tecnologias emergentes, com impactos diretos sobre a estabilidade regional e a autonomia decisória dos Estados. 

Na América do Sul, a prisão de Nicolás Maduro e o consequente agravamento da crise política e institucional na Venezuela alteraram de forma relevante o equilíbrio estratégico regional. A intensificação das tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, somada à incerteza quanto à governabilidade, ao controle das forças de segurança e à dinâmica interna do país vizinho, introduz novos vetores de instabilidade no entorno estratégico do Brasil, que até então se caracterizava por baixos níveis de conflito interestatal. 

Esse novo cenário amplia a complexidade dos desafios relacionados à vigilância de fronteiras, ao controle de fluxos migratórios, ao combate a ilícitos transnacionais e à preservação da soberania nacional, exigindo maior capacidade de antecipação, dissuasão e resposta por parte do Estado brasileiro. 

Nesse contexto, a Base Industrial de Defesa (BID) assume papel ainda mais central como instrumento de autonomia estratégica, política industrial de alto valor agregado e inserção internacional qualificada. Sua relevância deve ser compreendida para além da dimensão estritamente militar, abrangendo a geração de capacidades tecnológicas críticas, a resiliência do Estado frente a cenários de instabilidade regional e a consolidação do Brasil como ator responsável e previsível no campo da segurança e da defesa.

A BASE INDUSTRIAL DE DEFESA BRASILEIRA COMO ATIVO ESTRATÉGICO DE ESTADO 

Sob a perspectiva adotada por organismos multilaterais e centros de análise estratégica, a indústria de defesa constitui um dos pilares da capacidade estatal em contextos de incerteza geopolítica. No caso brasileiro, a BID é composta por um ecossistema industrial diversificado, que abrange os domínios aeroespacial, naval, terrestre, espacial, cibernético, comunicações e eletroeletrônico, fomentando empresas de alta tecnologia, plenamente estabelecidas e integradas ao setor produtivo do país independentemente da origem de seu capital. O critério relevante para avaliação estratégica não reside no país de origem das empresas, mas na capacidade de investimentos, na transferência de tecnologias, na geração de valor local, na retenção de competências tecnológicas, na formação de capital humano altamente qualificado e na aderência dessas capacidades às prioridades de defesa e segurança nacionais. 

EXPANSÃO DAS EXPORTAÇÕES E INSERÇÃO INTERNACIONAL 

Nos últimos anos, a Base Industrial de Defesa brasileira apresentou um crescimento expressivo de suas exportações, refletindo ganhos de competitividade, maturidade tecnológica e reconhecimento internacional de seus produtos e sistemas. O aumento significativo das vendas externas demonstra a capacidade da BID de atender a padrões internacionais rigorosos, operar em cadeias globais de valor e competir em mercados altamente regulados. Do ponto de vista das relações internacionais, esse desempenho projeta o Brasil como um fornecedor relevante de produtos e sistemas de defesa, ampliando sua presença diplomática, fortalecendo parcerias estratégicas e contribuindo para sua política externa por meio de instrumentos de cooperação industrial e tecnológica. Entretanto, essa inserção internacional mais robusta contrasta com um desafio estrutural persistente no plano doméstico. 

A ASSIMETRIA ENTRE CAPACIDADE INDUSTRIAL E A DEMANDA INTERNA 

Apesar da evolução tecnológica e do desempenho exportador da BID, as Forças Armadas brasileiras enfrentam limitações significativas de absorção dessas capacidades, em razão de sucessivos cortes orçamentários e da elevada rigidez do orçamento de defesa, historicamente concentrado em despesas obrigatórias. Essa assimetria gera um paradoxo estratégico: o Brasil dispõe de uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver e produzir sistemas avançados, mas ainda carece de previsibilidade orçamentária e continuidade programática para incorporá-los de forma sistemática às suas próprias forças. Sob a ótica de políticas públicas, essa desconexão reduz o efeito multiplicador dos investimento em defesa,  enfraquece a indução tecnológica gerada por encomendas governamentais, limita o planejamento de longo prazo da indústria e amplia a dependência da BID em relação ao mercado externo, tornando-a mais vulnerável a ciclos internacionais e restrições geopolíticas. 

THINK TANKS* internacionais frequentemente apontam que a demanda doméstica estável é elemento crítico para a sustentabilidade de uma indústria de defesa, não apenas como cliente, mas como indutor de inovação, padronização e soberania operacional.

IMPLICAÇÕES PARA AUTONOMIA ESTRATÉGICA E POLÍTICA EXTERNA 

A persistência de baixos níveis de investimento em aquisição e modernização de meios compromete a credibilidade dissuasória do país e restringe a sua capacidade de atuação autônoma em cenários regionais e multilaterais. Além disso, limita a plena exploração dos benefícios estratégicos associados à BID, tais como: 

➢ Domínio do ciclo de vida dos sistemas; 

➢ Autonomia do suporte logístico e de manutenção; 

➢ Capacidade de adaptação rápida a novos cenários de ameaça; 

➢ Continuidade logística e operacional das Forças Armadas em cenários de crise; 

➢ Redução de vulnerabilidades externas em sistemas sensíveis; 

➢ Capacidade nacional de manutenção, modernização e integração de plataformas estratégicas; 

➢ Flexibilidade diplomática, ao diminuir dependências críticas de fornecedores externos. 


Para países com ambições de protagonismo regional, a literatura estratégica destaca a importância de alinhar política industrial de defesa, planejamento militar e política externa, evitando que capacidades industriais avancem de forma dissociada das necessidades operacionais do Estado. 

EMPRESAS BRASILEIRAS COM CAPITAL INTERNACIONAL E INSERÇÃO GLOBAL 

A presença de empresas brasileiras com capital internacional na BID deve ser analisada sob uma ótica pragmática e estratégica. Em um setor caracterizado por cadeias globais altamente reguladas e intensivas em tecnologia, a participação em programas internacionais amplia o acesso a mercados, padrões tecnológicos e processos industriais avançados. A experiência internacional demonstra que países com BID robusta combinam capital nacional e internacional, desde que preservem o controle soberano sobre requisitos operacionais, propriedade intelectual sensível e ciclos de vida dos sistemas estratégicos. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

O fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira ocorre em um momento de profunda transformação do ambiente internacional. O crescimento das exportações confirma a relevância e a competitividade da BID, mas também expõe uma fragilidade estrutural que é a limitada capacidade do Estado brasileiro de absorver, de forma contínua e previsível, as soluções que ele próprio ajuda a desenvolver. 

Para organismos internacionais e centros de análise estratégica, a principal questão não é a existência de capacidades industriais, mas a coerência entre ambição estratégica, financiamento público e governança institucional. Superar essa assimetria exige uma abordagem de política de Estado, que reconheça a BID, que é composta por empresas nacionais e empresas brasileiras com capital internacional, como um instrumento central da autonomia estratégica brasileira, capaz de contribuir simultaneamente para a segurança nacional, o desenvolvimento tecnológico e a inserção internacional do país. 


* Think tanks são instituições dedicadas à produção de conhecimento aplicado, com foco em análise, pesquisa e formulação de propostas para orientar políticas públicas, estratégias governamentais, decisões empresariais e debates da sociedade.


por Mauro Beirão 


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Trinta e dois cubanos mortos em operação dos EUA na Venezuela expõem o envolvimento militar de Havana

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A escalada das tensões na Venezuela ganhou um novo e dramático capítulo após ataques militares conduzidos pelos Estados Unidos em território venezuelano, que resultaram na morte de 32 membros das forças de segurança cubanas e na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A informação foi confirmada pelo governo de Cuba em comunicado oficial transmitido pela televisão estatal, com base em dados das agências Agerpres, DPA, AFP e EFE.

Segundo Havana, os militares cubanos mortos, integrantes das Forças Armadas Revolucionárias e do Ministério do Interior, estavam em missão na Venezuela a pedido das autoridades locais, no contexto da cooperação estratégica entre os dois países. O governo cubano afirmou que os militares “cumpriram seu dever com dignidade e heroísmo”, tendo morrido em combate direto ou em decorrência de bombardeios contra instalações venezuelanas. Em resposta às mortes, o presidente Miguel Díaz-Canel decretou dois dias de luto nacional.

A operação militar dos EUA ocorreu na manhã de sábado e teve como principal objetivo a captura de Nicolás Maduro, que foi retirado do país e transferido para os Estados Unidos. Atualmente, o ex-presidente venezuelano encontra-se detido em Nova York, onde deverá responder a acusações que incluem conspiração para cometer narcoterrorismo e conspiração para importar cocaína.

O presidente norte-americano Donald Trump confirmou a operação e comentou publicamente as baixas do lado cubano, destacando que não houve perdas entre as forças dos EUA. Ao ser questionado sobre a possibilidade de Cuba se tornar um novo alvo, Trump evitou indicar ações imediatas, mas reforçou o discurso de que Havana enfrenta um colapso econômico iminente, agravado pela possível interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano.

A crise reacendeu o debate sobre o papel estratégico da Venezuela no tabuleiro geopolítico das Américas. O país detém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, além de expressivas jazidas de ouro, fatores que historicamente atraem o interesse de potências globais. Nas últimas décadas, a crescente influência de países como Rússia, China e Irã em Caracas passou a ser vista em Washington como um fator de risco direto à segurança regional.

Essa percepção, inclusive, já foi retratada na cultura popular. Em uma das temporadas da série Jack Ryan, da Amazon Prime, o protagonista destaca a Venezuela como uma ameaça subestimada aos Estados Unidos. Em uma cena emblemática, enquanto outros personagens citam Rússia, China e Coreia do Norte como os principais riscos globais, o personagem chama atenção para a proximidade geográfica da Venezuela com o território norte-americano e para o perigo estratégico que representaria a instalação de armamentos avançados, ou mesmo mísseis nucleares, em um país alinhado a adversários históricos dos EUA, traçando um paralelo com a Crise dos Mísseis de Cuba, nos anos 1960.

No plano diplomático, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, classificou o regime cubano como “um grande problema”, ressaltando o apoio de Havana a Maduro. Rubio, que há anos defende uma postura dura em relação a Cuba, evitou especular sobre próximos passos, mas reforçou críticas ao modelo político cubano, marcado pelo partido único e por denúncias recorrentes de violações de direitos humanos.

As relações entre Cuba e Venezuela se intensificaram desde o fim da década de 1990, com a ascensão de Hugo Chávez. Após a tentativa de golpe de 2002, a presença cubana em assuntos militares venezuelanos se ampliou, consolidando uma aliança baseada em interesses políticos, estratégicos e econômicos. A Venezuela tornou-se o principal fornecedor de petróleo para Cuba, enquanto Havana passou a enviar, entre outros recursos, pessoal médico e assessores técnicos.

Atualmente, Cuba enfrenta uma das piores crises econômicas de sua história recente, marcada por escassez de combustível, apagões frequentes e forte queda no turismo. Analistas apontam que a perda do petróleo venezuelano pode acelerar ainda mais o colapso da economia cubana, ampliando instabilidade social e política na ilha.

Diante desse cenário, a captura de Nicolás Maduro e o confronto direto envolvendo forças cubanas e norte-americanas sinalizam uma mudança significativa no nível de envolvimento dos Estados Unidos na crise venezuelana. Mais do que um episódio isolado, o ocorrido reforça a centralidade da Venezuela nas disputas estratégicas do hemisfério ocidental e evidencia como alianças regionais e interesses globais continuam a moldar a segurança e a estabilidade das Américas.


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Elbit Systems conquista contratos de US$ 150 milhões para fornecimento de sistemas DIRCM

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A Elbit Systems anunciou a assinatura de novos contratos no valor total aproximado de US$ 150 milhões para o fornecimento de seus avançados sistemas de contramedidas infravermelhas direcionadas (DIRCM), reforçando sua posição como um dos principais fornecedores globais de soluções de autoproteção para aeronaves de alto valor.

De acordo com as informações divulgadas, no âmbito do primeiro contrato, a Elbit Systems irá equipar a frota de aeronaves de um país europeu com sua tecnologia DIRCM de última geração, adicionando uma camada avançada de proteção a plataformas aéreas estratégicas. Outros pedidos incluem o fornecimento de sistemas DIRCM para frotas de aeronaves de transporte de países europeus membros da OTAN, ampliando a segurança operacional e a capacidade de sobrevivência dessas aeronaves em missões críticas de transporte aéreo.

Esses novos contratos ampliam o portfólio já existente da empresa na Europa e em outras regiões, consolidando uma base crescente de clientes que buscam proteger frotas de aeronaves de alto valor contra ameaças modernas, especialmente em ambientes operacionais cada vez mais complexos e contestados.

O sistema J-MUSIC™ DIRCM, desenvolvido pela Elbit Systems, foi projetado especificamente para a proteção de aeronaves contra mísseis portáteis de defesa aérea (MANPADS). A solução combina tecnologia laser avançada com sensores e recursos de imagem de última geração, permitindo a detecção, o rastreamento e a neutralização de ameaças infravermelhas de forma eficaz. Atualmente, o sistema está em operação em uma ampla variedade de aeronaves militares e comerciais ao redor do mundo.

Com capacidade para enfrentar ameaças em constante evolução, os sistemas DIRCM da Elbit Systems oferecem elevado desempenho, flexibilidade operacional e integração simplificada em diferentes tipos de aeronaves, contribuindo diretamente para o aumento da segurança de missões críticas e da proteção do pessoal envolvido.

Comentando os novos contratos, Oren Sabag, gerente-geral da divisão ISTAR & EW da Elbit Systems, destacou que a confiança contínua depositada pelas comunidades europeia e global nas soluções DIRCM da empresa reflete sua reputação crescente como fornecedora inovadora de tecnologias de defesa aérea. Segundo ele, a Elbit Systems tem se consolidado como referência na oferta de soluções eficazes para a proteção de aeronaves e tripulações frente às ameaças mais avançadas do cenário atual.

O crescimento da demanda por sistemas DIRCM reflete uma tendência clara no ambiente de segurança contemporâneo, marcada pela proliferação de MANPADS e pela maior exposição de aeronaves de transporte, reabastecimento e comando a ameaças assimétricas. Nesse contexto, soluções de autoproteção avançadas tornaram-se componentes essenciais para a sobrevivência de plataformas aéreas de alto valor, impulsionando investimentos contínuos por parte de forças armadas e operadores governamentais, especialmente na Europa e entre os países membros da OTAN.


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Türkiye defende reintegração ao programa F-35 como passo para fortalecer laços com os EUA e a OTAN

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O presidente da Türkiye, Recep Tayyip Erdoğan, declarou que o país deve ser reintegrado ao programa de caças de quinta geração F-35, liderado pelos Estados Unidos, afirmando que essa medida contribuiria para a normalização das relações bilaterais com Washington e para o fortalecimento da segurança coletiva da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Em resposta escrita a perguntas da agência Bloomberg, Erdoğan destacou que a reinclusão da Türkiye no programa faz parte de um esforço mais amplo para reparar as relações entre Ancara e os Estados Unidos, que se deterioraram ao longo da última década, especialmente após a decisão turca de adquirir sistemas de defesa aérea de fabricação russa.

Segundo o presidente, a atual convergência política entre Ancara e Washington em áreas como defesa, energia e a condução de conflitos regionais tem contribuído para redefinir o papel da Türkiye dentro da OTAN, ao mesmo tempo em que exige um delicado equilíbrio econômico e estratégico nas relações com a Rússia.

Erdoğan afirmou que a exclusão da Türkiye do programa F-35 foi injusta e ressaltou que levou pessoalmente essa questão ao então presidente Donald Trump durante uma reunião realizada na Casa Branca, em setembro. A retirada da Türkiye do programa ocorreu como consequência direta da aquisição do sistema de defesa aérea S-400, fornecido pela Rússia, decisão que gerou forte reação por parte de Washington.

De acordo com Erdoğan, o retorno de Trump ao cargo abriu uma nova oportunidade para reconstruir as relações entre a Türkiye e os Estados Unidos sobre bases mais razoáveis e construtivas. O presidente enfatizou que a entrega das aeronaves F-35 já pagas pela Türkiye, bem como a reinclusão do país no programa, são medidas importantes e necessárias tanto para a melhoria das relações bilaterais quanto para o reforço das capacidades defensivas da OTAN.

Paralelamente ao debate em torno do F-35, a Türkiye também mantém negociações com os Estados Unidos para a aquisição de caças F-16 Block 70. Embora as discussões sobre valores ainda estejam em andamento, Erdoğan afirmou esperar que os termos do acordo reflitam o espírito de cooperação da aliança atlântica, citando como referência a experiência turca no processo de aquisição de aeronaves Eurofighter.

A Türkiye foi formalmente excluída do programa F-35 em 2019, após a confirmação da compra do sistema S-400. Na ocasião, os Estados Unidos justificaram a decisão com o argumento de que a operação de um sistema de origem russa poderia comprometer a segurança do F-35, permitindo a coleta de dados sensíveis sobre as capacidades avançadas da aeronave. A Casa Branca afirmou à época que o F-35 não poderia coexistir com uma plataforma de inteligência russa capaz de explorar suas características tecnológicas.

Desde então, a questão permanece como um dos principais pontos de tensão nas relações entre Ancara e Washington, ao mesmo tempo em que a Türkiye busca preservar sua autonomia estratégica e manter seu papel como um dos pilares da OTAN na região.


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Força Aérea do Paquistão testa com sucesso o míssil de cruzeiro lançado do ar "Taimoor"

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A Força Aérea do Paquistão (PAF) realizou com sucesso o teste de lançamento do míssil de cruzeiro lançado do ar "Taimoor", em um movimento que reforça os esforços do país para modernizar suas capacidades militares e ampliar o alcance de suas opções de dissuasão convencional.

De acordo com comunicado oficial da PAF, o ensaio foi conduzido a partir de um caça Mirage-V, confirmando avanços significativos rumo à integração operacional do sistema. Durante o voo de teste, foram validados parâmetros essenciais de desempenho, incluindo os sistemas de navegação integrada, guiamento e precisão na fase terminal do míssil.

O Taimoor é um míssil de cruzeiro ar-superfície de longo alcance, projetado para engajar alvos terrestres e navais a distâncias de até 600 quilômetros. Segundo as informações divulgadas, o míssil opera em baixa altitude, adotando um perfil de voo com acompanhamento do relevo (terrain following), o que reduz sua assinatura radar e aumenta sua capacidade de sobrevivência frente a sistemas modernos de defesa aérea em camadas.

Este teste marca o primeiro voo do míssil Taimoor reconhecido publicamente, representando um passo decisivo em sua transição de protótipo para um sistema comprovado em voo. O armamento foi apresentado pela primeira vez em 2022, durante a Exposição Internacional de Defesa IDEAS, quando ainda se encontrava em fase conceitual e foi apresentado como uma evolução potencial do portfólio de mísseis de cruzeiro lançados do ar do Paquistão. Até então, nenhum teste em voo havia sido oficialmente confirmado ou divulgado.

Analistas consideram o Taimoor um desenvolvimento derivado da família de mísseis de cruzeiro Ra’ad e Ra’ad-II, já em serviço no país. Em relação às versões anteriores, o novo míssil incorpora uma arquitetura aprimorada de navegação e orientação, além de maior integração com a plataforma de lançamento, possibilitando conceitos de engajamento a maiores distâncias e com maior precisão.

O êxito do teste tende a fortalecer a postura de dissuasão convencional do Paquistão, ao mesmo tempo em que amplia a flexibilidade operacional da Força Aérea do Paquistão para missões de ataque de longo alcance e alta precisão. Em um ambiente regional marcado por elevados níveis de complexidade e competição estratégica, a incorporação de capacidades desse tipo representa um incremento relevante ao poder aéreo paquistanês.


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Türkiye integra o sistema de defesa aérea de longo alcance Siper-1 ao "Domo de Aço"

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Türkiye deu mais um passo importante no fortalecimento de sua defesa aérea ao incorporar oficialmente o sistema de longo alcance Siper-1 à sua rede nacional de defesa, conhecida como "Domo de Aço" (Çelik Kubbe). O anúncio foi feito pelo Secretariado das Indústrias de Defesa após a conclusão bem-sucedida dos testes de aceitação da primeira bateria do sistema, marcando sua entrada em serviço operacional.

Segundo o órgão, o Siper-1 foi submetido a uma série de avaliações rigorosas, destinadas a comprovar sua capacidade de detectar, rastrear e neutralizar ameaças aéreas em ambientes complexos e de alta exigência operacional. Esses testes são considerados essenciais para a integração do sistema às modernas operações de defesa aérea em camadas adotadas pelas forças armadas turcas.

O Secretário das Indústrias de Defesa, Haluk Görgün, destacou que o ensaio incluiu um cenário projetado para reproduzir a congestão típica do espaço aéreo real. Nesse contexto, o sistema precisou identificar e interceptar um alvo hostil enquanto aeronaves amigas operavam simultaneamente na mesma área de engajamento. O desempenho bem-sucedido demonstrou a capacidade do Siper-1 de discriminar corretamente entre alvos amigos e inimigos, realizando a interceptação sem comprometer a segurança do espaço aéreo.

Desenvolvido de forma conjunta pelas empresas turcas ASELSAN e ROKETSAN, o Siper-1 constitui a camada de longo alcance e alta altitude do conceito de defesa aérea em camadas da Türkiye. O sistema foi concebido para proteger infraestruturas críticas, centros populacionais e instalações estratégicas contra aeronaves, mísseis de cruzeiro e outras ameaças aéreas, funcionando como o escudo externo da arquitetura do Domo de Aço.

Imagens divulgadas após a conclusão dos testes revelaram mais detalhes sobre a complexidade do engajamento realizado. Dois drones-alvo a jato foram empregados em formação cerrada para simular um ambiente aéreo misto. Um dos drones representava uma aeronave hostil, enquanto o outro atuava como plataforma amiga. O míssil Siper-1 adquiriu o alvo hostil e realizou a interceptação com sucesso, ação que foi registrada em vídeo pelo drone considerado amigo.

Embora parâmetros específicos de desempenho, como alcance máximo e altitude de engajamento, permaneçam classificados, as evidências visuais confirmam a capacidade do sistema de operar de forma eficaz em espaços aéreos densos e contestados. Essa característica é considerada cada vez mais relevante diante da evolução das ameaças aéreas modernas, que exploram elevada manobrabilidade, táticas de saturação e crescente complexidade eletrônica para desafiar as redes de defesa.

Com o Siper-1 avançando da fase de testes para a implantação operacional, o conceito do Domo de Aço se aproxima de um escudo nacional plenamente integrado. Essa arquitetura é baseada em sensores, sistemas de comando e controle e interceptores desenvolvidos internamente, reforçando a autonomia tecnológica da Türkiye e sua capacidade de proteger o espaço aéreo nacional frente a ameaças cada vez mais sofisticadas.


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Marinha do Brasil intensifica treinamento da tripulação do futuro Navio Doca Multipropósito Oiapoque

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Em meio ao processo de comissionamento do futuro Navio Doca Multipropósito (NDM) Oiapoque, a Marinha do Brasil (MB) avança na capacitação da tripulação que será designada para operar a nova unidade, com envio do segundo grupo de militares que receberão treinamento. Atualmente, os militares estão sendo treinados na Base Naval de Plymouth, no Reino Unido, em um programa de cooperação técnica que inclui transferência de conhecimentos, certificações e treinamentos essenciais para garantir a plena prontidão operacional do navio.

O NDM Oiapoque, ex-HMS Bulwark, é um navio de assalto anfíbio de grande porte, com 176 metros de comprimento, 28 metros de boca e 18.500 toneladas de deslocamento. Projetado para operações anfíbias de larga escala, o navio possui capacidade para transportar até 710 pessoas, incluindo tropas de assalto, pessoal de apoio e equipe de comando, além de operar múltiplos helicópteros de grande porte, como UH-15 "Super Cougar" e SH-16 Seahawk, simultaneamente a partir de seu convés de voo.

Histórico como HMS Bulwark

O navio foi originalmente construído para a Marinha Real Britânica e comissionado como HMS Bulwark em 2001. Durante sua carreira no Reino Unido, destacou-se em operações de assalto anfíbio, exercícios conjuntos com aliados da OTAN e missões humanitárias em áreas afetadas por desastres naturais. O HMS Bulwark combinava capacidade de transporte de veículos, tropas e helicópteros, além de servir como plataforma de comando e controle, coordenando operações complexas de assalto e evacuação.

Ao longo de sua carreira britânica, o navio provou ser altamente versátil, capaz de atuar tanto em conflitos convencionais quanto em operações de assistência humanitária, reforçando sua reputação como um dos mais modernos e completos navios anfíbios da época.

Capacidade operacional e técnica

O Oiapoque é projetado para transportar e operar:

  • Até 710 pessoas, incluindo forças de assalto, tripulação e equipes de apoio.

  • Veículos anfíbios e blindados leves, garantindo capacidade de projeção rápida de força em áreas costeiras.

  • Helicópteros de grande porte, permitindo suporte aéreo direto às operações terrestres e missões de transporte de tropas e suprimentos.

  • Sistemas de comando e controle integrados, que permitem coordenação de múltiplas unidades durante operações complexas.

Com essas características, o Oiapoque se posiciona como um ativo estratégico da Marinha do Brasil, apto para operações de projeção de força, resposta a crises humanitárias e apoio emergencial em desastres naturais, ampliando significativamente a capacidade operacional da Força Naval.

Treinamento e prontidão

O envio do segundo grupo de militares para o Reino Unido reforça o compromisso da MB em assegurar tripulação plenamente treinada, capacitada para operar sistemas complexos, coordenar logística, transporte de tropas e aeronaves, além de atuar em missões conjuntas internacionais.

A preparação inclui:

  • Treinamento em manutenção preventiva e corretiva dos sistemas do navio.

  • Operação do convoo e coordenação de helicópteros.

  • Simulações de assalto anfíbio e desembarque de tropas e veículos.

  • Exercícios de comando e controle, logística e comunicação em operações conjuntas.

Impacto estratégico

A incorporação do NDM Oiapoque representa um salto significativo na capacidade operacional da Marinha do Brasil, alinhando-se à estratégia de modernização da frota anfíbia e fortalecimento da projeção de poder. Diferente de possuir apenas equipamentos, a MB assegura manutenção adequada, disponibilidade real do navio e tripulação adestrada, garantindo que o NDM Oiapoque esteja pronto para responder rapidamente a crises nacionais ou internacionais.

Com isso, o Brasil amplia sua presença estratégica na região, garantindo capacidade de resposta rápida, coordenação de operações complexas e atuação em apoio à população, consolidando o NDM Oiapoque como um pilar da força naval brasileira para as próximas décadas.


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domingo, 4 de janeiro de 2026

A guerra antes da guerra: inteligência, soberania e as lições da operação na Venezuela

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A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos não foi fruto de improviso, nem de uma simples demonstração de poder militar. O que ocorreu na Venezuela expôs, de forma quase pedagógica, uma realidade incontornável dos conflitos modernos: a guerra começa muito antes do primeiro tiro, e o fator decisivo raramente está no campo de batalha visível.

O êxito rápido da operação, a ausência de baixas e a capacidade de localizar, capturar e extrair o chefe de Estado em poucas horas indicam que o território, o ambiente político e as estruturas de poder venezuelanas já estavam profundamente mapeados e fragilizados. Isso não se constrói em dias, mas em meses, às vezes até anos de trabalho silencioso de inteligência.

Esse tipo de operação só é possível quando o Estado-alvo já foi exaustivamente estudado em suas camadas formais e informais: cadeias de comando oficiais e paralelas, disputas internas, lealdades reais versus aparentes, rotinas pessoais, falhas de segurança, vulnerabilidades psicológicas e dependências logísticas. A ação militar, nesse contexto, é apenas o momento final de um processo muito mais longo e complexo.

Inteligência como o verdadeiro centro de gravidade do conflito moderno

No século XXI, a superioridade militar deixou de estar exclusivamente ligada ao número de soldados, tanques ou aeronaves. Hoje, quem vence é quem possui informação de qualidade, antecipada e confiável. Inteligência humana, interceptação de comunicações, análise de redes sociais, mapeamento de rotinas, estudo de cadeias de comando e identificação de fissuras institucionais são elementos tão ou mais decisivos do que o emprego direto da força.

O conceito clássico de centro de gravidade, desenvolvido por Clausewitz, deslocou-se progressivamente do campo físico para o campo informacional e cognitivo. O alvo prioritário já não é apenas a força inimiga, mas sua capacidade de decidir, reagir e manter coesão interna. Quando a inteligência funciona, o combate se transforma em formalidade. O inimigo já está identificado, isolado, monitorado e, muitas vezes, neutralizado psicologicamente e politicamente antes mesmo de perceber que está sob ataque.

O caso venezuelano ilustra isso com clareza. Não houve surpresa estratégica por parte dos executores da operação, apenas a materialização de um cenário que já estava, na prática, decidido.

Venezuela: um Estado que perdeu o controle de si mesmo

A ausência de uma resposta coordenada das forças venezuelanas sugere um Estado que já não controlava plenamente suas próprias engrenagens. A localização precisa do presidente, a previsibilidade de seus deslocamentos e a incapacidade de reação indicam falhas graves de contrainteligência, segurança institucional e comando.

Mais do que falhas pontuais, o que se observou foi a perda de controle sistêmico. Um Estado funcional é aquele capaz de proteger informações sensíveis, manter compartimentação, garantir lealdade institucional e detectar anomalias em seus próprios fluxos de poder. Quando isso não ocorre, a estrutura passa a operar de forma transparente para o adversário, e opaca para si mesma.

Não se trata apenas de superioridade externa, mas de colapso interno. Um Estado que permite infiltração, vazamento de informações e cooptação de quadros estratégicos torna-se vulnerável por definição. Nesse estágio, a soberania já está comprometida antes mesmo de qualquer ação militar aberta.

Expurgos, aparelhamento e a erosão silenciosa da defesa

Um dos fatores centrais para essa fragilidade foi o processo prolongado de aparelhamento ideológico das instituições venezuelanas. Ao longo dos anos, expurgos e promoções baseadas em lealdade política corroeram a profissionalização das Forças Armadas e dos órgãos de segurança.

Quando a meritocracia é substituída por alinhamento ideológico, a competência dá lugar à desconfiança interna, a iniciativa é sufocada e a contrainteligência se enfraquece. Oficiais e agentes passam a operar mais preocupados em demonstrar fidelidade política do que em cumprir sua função institucional. O resultado é a quebra do espírito crítico, a redução da capacidade de antecipação e a paralisia decisória.

A defesa nacional deixa de ser uma política de Estado e passa a ser um instrumento de governo, e isso historicamente cobra um preço alto. Estados que trilham esse caminho tornam-se previsíveis, penetráveis e, em última instância, descartáveis do ponto de vista estratégico.

Soberania não é discurso, é capacidade real

A Venezuela demonstra que soberania não se sustenta em retórica. Soberania exige capacidade concreta de detectar ameaças, reagir a elas e negar acesso ao adversário. Quando um país não consegue identificar infiltrações, proteger seus centros decisórios e garantir o funcionamento de suas instituições em crise, sua soberania existe apenas no papel.

No mundo contemporâneo, a violação da soberania raramente ocorre por meio de invasões clássicas. Ela se dá pela captura de processos decisórios, pela manipulação de elites, pelo controle indireto de informações e pela erosão da confiança interna. Quando o Estado percebe, o dano já está feito. Essa é uma lição dura, mas necessária.

O alerta para o Brasil: inteligência como política de Estado

O caso venezuelano deve servir de alerta direto para o Brasil. Apesar de sua dimensão continental e relevância regional, o país ainda apresenta fragilidades importantes em sua estrutura de inteligência estratégica e contrainteligência.

A defesa do espaço aéreo, marítimo, cibernético e de infraestruturas críticas depende menos de discursos e mais de informação qualificada, integrada e antecipada. Sem inteligência eficaz, qualquer capacidade militar torna-se reativa, limitada e vulnerável. Grandes plataformas, armamentos modernos e efetivos numerosos perdem valor quando operam às cegas.

Nesse contexto, o fortalecimento da Agência Brasileira de Inteligência é fundamental. A ABIN precisa ser pensada como um instrumento de Estado, não de governo, com autonomia técnica, visão estratégica e foco na proteção dos interesses nacionais, independentemente de ideologias, ciclos eleitorais ou pressões conjunturais.

Uma agência de inteligência só cumpre sua função quando consegue dizer verdades desconfortáveis ao poder político, e sobreviver institucionalmente a isso.

Concurso é necessário, mas não é suficiente

Uma agência de inteligência moderna pode sim contar com quadros concursados, especialmente nas áreas analíticas e administrativas. No entanto, a experiência internacional mostra que isso é insuficiente para a construção de uma capacidade real de inteligência operacional.

Ativos estratégicos e agentes de campo não surgem apenas de provas teóricas. Eles exigem vivência, discrição, capacidade de leitura de ambientes complexos, habilidade de adaptação e acesso natural a círculos de poder e informação. Esses perfis são raros e, muitas vezes, não se encaixam em modelos burocráticos tradicionais.

Por essa razão, serviços de inteligência maduros combinam diferentes formas de recrutamento e seleção, incorporando profissionais oriundos da diplomacia, das forças armadas, do setor empresarial estratégico, da indústria de defesa, da tecnologia, da comunicação e das relações internacionais.

Inteligência se faz com pessoas, não apenas com organogramas, normas e carimbos.

Ativos não óbvios: onde está a informação hoje

No mundo contemporâneo, informação sensível não circula apenas em quartéis ou gabinetes oficiais. Ela transita por embaixadas, empresas de tecnologia, indústrias de defesa, organismos internacionais, ambientes acadêmicos, círculos empresariais e no ecossistema da comunicação e redes sociais.

Pessoas com acesso legítimo a esses ambientes, que dialogam regularmente com diplomatas, empresários, políticos, militares, adidos, gestores públicos e formadores de opinião, possuem uma capacidade única de percepção de tendências, mudanças de humor político, alinhamentos internacionais e riscos emergentes.

Quando devidamente selecionadas, treinadas e enquadradas dentro de parâmetros legais e éticos, essas pessoas podem tornar-se ativos estratégicos de altíssimo valor. Não se trata de espionagem indiscriminada, mas da construção de redes de percepção, antecipação e compreensão profunda de cenários.

Inteligência moderna é, acima de tudo, a capacidade de entender o que está mudando antes que todos percebam.

Meritocracia acima de rótulos

O ponto central é que a seleção desses quadros deve ser feita por mérito, perfil e capacidade real, não por origem institucional, filiação política ou alinhamento ideológico. Civis e militares podem desempenhar funções estratégicas, desde que possuam preparo técnico, equilíbrio emocional, ética sólida e compromisso inequívoco com o Estado e a nação.

Quando a inteligência se submete a disputas políticas, interesses de partidos políticos ou modelos excessivamente burocráticos, ela deixa de ser instrumento de proteção nacional e passa a ser apenas mais uma repartição administrativa, inofensiva para o adversário e perigosa para o próprio país.

A lição silenciosa da Venezuela

A operação que resultou na captura de Nicolás Maduro deixa uma mensagem inequívoca. No mundo atual, guerras não são vencidas por quem grita mais alto, faz discursos inflamados ou desfila mais tropas, mas por quem enxerga antes, entende melhor e age com precisão cirúrgica.

Países que negligenciam inteligência, contrainteligência e profissionalização institucional descobrem tarde demais que a guerra já foi decidida, e não a seu favor.

Para o Brasil, a escolha é clara. Investir seriamente em inteligência, tecnologia e capital humano não é uma opção ideológica, é uma necessidade estratégica. Soberania real só existe quando o Estado é capaz de se proteger por dentro, antecipar ameaças e agir como nação, e não como projeto de poder temporário.


por Angelo Nicolaci


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