quarta-feira, 4 de novembro de 2026

França avança no desenvolvimento do drone submarino de grande porte UCUV

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A França deu mais um passo no desenvolvimento de sua capacidade de guerra submarina não tripulada. A Agência de Inovação de Defesa (AID) e a Naval Group assinaram um acordo para a realização do demonstrador operacional do UCUV (Unmanned Combat Underwater Vehicle), um veículo submarino não tripulado de grande porte destinado a missões de longa duração.

O anúncio, divulgado em 4 de novembro de 2026, durante a Euronaval, formaliza uma nova etapa de um programa desenvolvido desde 2023, com participação da Direção-Geral de Armamento (DGA), da Marinha Francesa e da indústria naval.

O UCUV deverá demonstrar elevada autonomia e capacidade de permanência no mar, além de ser aerotransportável e poder ser lançado tanto a partir de instalações portuárias quanto de navios de superfície. Sua proposta é atender a diferentes missões, desde inteligência, vigilância e reconhecimento até ações de neutralização.

Um dos principais desafios tecnológicos está na autonomia decisória controlada. O sistema deverá adaptar seu comportamento às condições ambientais, às mudanças táticas e a eventuais avarias, podendo operar individualmente ou em coordenação com outros sistemas.

Essa autonomia não significa ausência de supervisão humana. A concepção apresentada pela DGA prevê que o veículo execute suas tarefas respeitando as determinações do operador, mesmo durante missões prolongadas e em ambientes nos quais a comunicação submarina é limitada.

O desenvolvimento aproveita os resultados obtidos com um demonstrador industrial de drone oceânico desenvolvido pela própria Naval Group. Os ensaios marítimos anteriores permitiram avaliar tecnologias essenciais para a evolução do UCUV, reduzindo riscos na passagem para a nova fase.

A iniciativa também mobilizará uma cadeia industrial francesa composta por grandes empresas, médias companhias e pequenas empresas especializadas, distribuídas por regiões como Var, Morbihan, Manche, Loire-Atlantique, Yvelines, Bouches-du-Rhône e Seine-et-Marne.

As primeiras experimentações no mar estão previstas para 2028. Essa etapa deverá validar as escolhas tecnológicas e avaliar a resposta operacional do sistema diante das novas exigências do combate naval.

O desafio estratégico do domínio submarino

O desenvolvimento do UCUV acompanha uma mudança importante na disputa pelo ambiente submarino. A proteção de cabos de comunicação, estruturas energéticas e outras infraestruturas críticas exige meios capazes de ampliar a vigilância e a presença em áreas marítimas extensas.

Para a França, que possui territórios ultramarinos distribuídos pelo Atlântico, Pacífico e Índico, a capacidade de operar veículos submarinos de grande porte e longa autonomia representa um instrumento adicional de monitoramento e atuação marítima.

Para o Brasil, o avanço merece atenção. A extensão da Amazônia Azul, a concentração de infraestruturas estratégicas no ambiente marítimo e a dependência de conexões submarinas tornam a vigilância do espaço oceânico uma questão de segurança nacional. O desenvolvimento de capacidades próprias ou a cooperação tecnológica nesse segmento deverá integrar as discussões futuras sobre a evolução dos meios da Marinha do Brasil.

O UCUV ainda é um demonstrador em desenvolvimento, e não uma capacidade operacional já incorporada à Marinha Francesa. Seus resultados a partir de 2028 serão fundamentais para avaliar o alcance real dessa nova geração de sistemas submarinos não tripulados.


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terça-feira, 3 de novembro de 2026

CTEx e ARES firmam acordo para desenvolver sistema antidrone baseado no REMAX

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O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a ARES Aeroespacial e Defesa formalizaram, em 29 de outubro de 2026, um Acordo de Parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação voltado ao desenvolvimento de um sistema antidrone baseado na estação de armas REMAX.

Segundo as informações divulgadas pelo CTEx, o objetivo é desenvolver uma solução com recursos dedicados à detecção, identificação, acompanhamento e neutralização cinética de drones de pequeno porte.

O sistema deverá permitir operação integral a partir do interior de viaturas. Entre as plataformas citadas pelo Exército estão a Viatura Blindada de Transporte de Pessoal Guarani 6×6 e a Viatura Blindada Multitarefa Guaicurus 4×4.

O REMAX foi desenvolvido anteriormente em parceria entre o CTEx e a ARES. De acordo com o comunicado institucional, mais de 300 unidades já foram entregues ao Exército Brasileiro. A estação existente é remotamente controlada e estabilizada, permitindo ao operador empregar o armamento sem deixar a proteção da viatura.

A nova iniciativa busca ampliar essa capacidade para uma função antidrone, incorporando os recursos necessários para detectar e acompanhar alvos aéreos de pequeno porte e realizar sua neutralização cinética.

O CTEx prevê disponibilizar um protótipo para testes no primeiro semestre de 2027. Essa previsão corresponde à etapa de desenvolvimento e avaliação, não representando confirmação de adoção operacional ou produção em série.

Até o momento, não foram divulgados detalhes sobre os sensores, o armamento previsto para a nova configuração, o alcance de detecção e engajamento, o investimento ou o cronograma completo do projeto.

O acordo representa uma nova aplicação para uma tecnologia já empregada pelo Exército. Os resultados dos testes do protótipo deverão demonstrar a viabilidade técnica da solução e sua adequação à proteção das guarnições de viaturas blindadas contra drones de pequeno porte.


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Saab leva inteligência artificial ao combate aéreo e prepara o Gripen para operar com sistemas não tripulados

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A Saab anunciou nesta terça-feira (3) um novo avanço no desenvolvimento de inteligência artificial aplicada ao combate aéreo. A empresa sueca revelou uma família própria de agentes de Inteligência Artificial (IA), desenvolvidos internamente e já submetidos a ensaios em voo a bordo do Gripen E. O anúncio representa um passo importante na preparação de futuras arquiteturas de combate, nas quais aeronaves tripuladas poderão atuar em conjunto com plataformas não tripuladas, compartilhando tarefas e decisões táticas.

O avanço vai além da utilização de algoritmos para auxiliar o piloto. Durante os ensaios, um dos agentes desenvolvidos pela Saab controlou autonomamente a aeronave em cenários simulados de combate além do alcance visual (Beyond Visual Range – BVR), demonstrando a capacidade de executar decisões táticas durante operações aéreas complexas.

A empresa destaca que desenvolveu não apenas os agentes, mas também os ambientes de treinamento e as ferramentas necessárias para sua avaliação e evolução. Essa autonomia sobre toda a cadeia tecnológica permite à Saab controlar como os sistemas aprendem, como suas decisões são verificadas e de que maneira novas capacidades podem ser incorporadas às aeronaves.

Do apoio ao piloto à autonomia tática

A família de agentes apresentada pela Saab foi concebida para atuar em diferentes configurações operacionais. Uma possibilidade é apoiar o piloto diretamente no cockpit, auxiliando na interpretação do cenário e na tomada de decisões. Outra perspectiva envolve a utilização desses agentes em plataformas aéreas não tripuladas, operando ao lado de caças tripulados.

Essa segunda aplicação possui implicações importantes para o futuro do poder aéreo. Em vez de depender exclusivamente de aeronaves tripuladas, uma força aérea poderá empregar diferentes plataformas conectadas, distribuindo tarefas de reconhecimento, acompanhamento de ameaças e apoio ao combate.

Nesse contexto, a inteligência artificial poderá permitir que aeronaves não tripuladas acompanhem caças tripulados, executando tarefas sob uma arquitetura de comando coordenada. O objetivo é ampliar a capacidade operacional, distribuir riscos e permitir que o piloto concentre sua atenção nas decisões de maior relevância tática.

A Saab não apresentou, nesse anúncio, uma plataforma não tripulada específica já integrada operacionalmente a esses agentes. Entretanto, deixou claro que a infraestrutura desenvolvida para o programa foi concebida para permitir a expansão das capacidades e sua aplicação em diferentes plataformas.

AI Fighter Pilot Academy: milhões de horas de treinamento simulado

Um dos pilares dessa iniciativa é a AI Fighter Pilot Academy, estrutura criada pela Saab para desenvolver, treinar e avaliar seus agentes de inteligência artificial.

Nesse ambiente, os sistemas são submetidos a milhões de horas de voo simulado, abrangendo diferentes cenários e situações de combate aéreo. Por meio da avaliação contínua das decisões tomadas em relação aos objetivos estabelecidos, os agentes aprendem a adaptar suas estratégias e aperfeiçoar seu desempenho.

Uma das capacidades já submetidas à validação em condições reais de voo é o combate BVR, no qual a identificação, o acompanhamento e o engajamento de ameaças ocorrem além do alcance visual dos pilotos.

É uma modalidade de combate particularmente complexa, pois exige o processamento de informações provenientes de diferentes sensores, avaliação de ameaças, gestão de energia e posicionamento da aeronave, além da tomada de decisões em janelas de tempo reduzidas.

A utilização de ambientes simulados permite explorar uma quantidade de combinações táticas que seria impraticável reproduzir exclusivamente em exercícios reais. Entretanto, a validação em voo continua sendo indispensável para verificar o comportamento dos agentes diante das condições efetivas de operação de uma aeronave.

A empresa também ressalta que segurança e controle são incorporados desde o início do desenvolvimento, uma questão fundamental quando se trata de sistemas capazes de influenciar ou executar decisões em um ambiente de combate.

Gripen E: uma arquitetura preparada para a evolução por software

A escolha do Gripen E como plataforma para esses ensaios não é casual. A arquitetura definida por software da aeronave permite integrar e testar novas capacidades com ciclos de desenvolvimento mais curtos, sem depender necessariamente de plataformas experimentais dedicadas.

Essa característica representa uma vantagem importante em um cenário no qual a evolução tecnológica ocorre em ritmo acelerado. A possibilidade de atualizar sistemas, testar novos algoritmos e incorporar funcionalidades amplia a capacidade de adaptação da aeronave diante de novas ameaças e requisitos operacionais.

Segundo Peter Nilsson, chefe da unidade Advanced Programs da área de Aeronautics da Saab, o futuro do combate aéreo não será definido por plataformas individuais operando isoladamente, mas por redes de sistemas tripulados e não tripulados trabalhando de maneira coordenada.

A empresa também destaca a Sferical AI, iniciativa sueca de inteligência artificial soberana que oferece capacidade computacional segura e em larga escala para o desenvolvimento de sistemas avançados. A Saab participa como uma das parceiras fundadoras, reforçando a dimensão nacional e estratégica dessa iniciativa.

Da experiência com o Centaur à inteligência artificial própria

O anúncio atual também precisa ser compreendido à luz dos avanços apresentados pela Saab em junho de 2025, quando a empresa divulgou os primeiros voos do agente Centaur, desenvolvido em parceria com a Helsing.

Naquela ocasião, o sistema foi integrado ao Gripen E e executou manobras autônomas em cenários de combate BVR, além de fornecer indicações ao piloto para o disparo de armamentos. Um dos ensaios colocou o agente diante de um Gripen D real, permitindo avaliar seu comportamento em situações dinâmicas, com integração de dados dos sensores.

Agora, a Saab apresenta uma família própria de agentes e uma infraestrutura de desenvolvimento sob seu controle. A diferença é relevante: a empresa passa a demonstrar não apenas sua capacidade de integrar inteligência artificial desenvolvida por terceiros, mas também de construir e controlar internamente os componentes fundamentais dessa tecnologia.

Isso não significa que o Centaur tenha sido substituído ou que os novos agentes já estejam certificados para emprego operacional em combate. O anúncio trata de desenvolvimento e validação em voo, com expansão progressiva das capacidades.

O significado para o Brasil e o futuro do programa Gripen

Para o Brasil, operador do Gripen E/F, essa evolução merece atenção especial. O programa brasileiro representa uma parceria industrial e tecnológica de longo prazo com a Suécia, envolvendo transferência de tecnologia, participação da indústria nacional e capacitação de profissionais em diferentes áreas da engenharia aeronáutica.

A evolução da inteligência artificial embarcada em aeronaves de combate acrescenta uma nova dimensão a essa parceria. O domínio sobre software, algoritmos, integração de sensores e sistemas de missão poderá ser tão relevante quanto as capacidades tradicionais de fabricação e manutenção das plataformas.

Nesse cenário, é importante que o Brasil acompanhe de perto a evolução dos agentes de IA e avalie quais competências poderão ser incorporadas ao seu ecossistema de defesa, especialmente no desenvolvimento de software aeronáutico, processamento de dados, integração de sensores e sistemas autônomos.

Isso não significa presumir que os agentes apresentados pela Saab estarão automaticamente disponíveis para a frota brasileira ou que a transferência tecnológica do programa Gripen contemple essas capacidades específicas. O acesso dependerá dos acordos, requisitos de segurança e decisões de cooperação tecnológica entre os países e as empresas envolvidas.

Entretanto, a evolução apresentada em 2026 reforça a importância de preservar e ampliar a capacidade nacional de absorver tecnologias críticas, evitando que a modernização futura das aeronaves dependa exclusivamente de soluções externas.

Uma nova dimensão da superioridade aérea

A apresentação da Saab aponta para uma transformação que vai além da modernização dos caças atuais. A inteligência artificial começa a assumir um papel mais amplo na organização do combate aéreo, com potencial para transformar a relação entre pilotos, aeronaves tripuladas e sistemas autônomos.

A possibilidade de operar agentes de IA em aeronaves de combate abre caminho para arquiteturas nas quais o piloto deixa de ser responsável por executar individualmente todas as tarefas e passa a coordenar uma rede de capacidades distribuídas.

O desafio será garantir que essa autonomia seja confiável, verificável e compatível com as regras de engajamento e os níveis de autoridade estabelecidos pelas forças aéreas.

A Saab está construindo essa capacidade a partir de uma plataforma já existente, utilizando a arquitetura do Gripen E para reduzir o intervalo entre desenvolvimento, integração e ensaios em voo. É um movimento que evidencia como a disputa pela superioridade aérea está migrando também para o domínio dos algoritmos, da computação e da soberania tecnológica.

Para o Brasil, essa transformação reforça que o futuro do Gripen não será definido apenas por radares, sensores, motores e armamentos, mas também pela capacidade de evoluir continuamente seu software e integrar novas tecnologias ao ambiente de combate.


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Embraer fortalece suporte europeu do C-390 com a Fokker como centro autorizado na Holanda

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A Embraer avança na estruturação de sua rede internacional de suporte ao C-390 Millennium na Europa. Em anúncio realizado nesta terça-feira (3), a fabricante brasileira confirmou a nomeação do Fokker Services Group como Centro de Serviço Autorizado para atender à frota de cinco aeronaves adquiridas pela Força Aérea Real dos Países Baixos.

O acordo estabelece uma estrutura local de manutenção e suporte técnico, incluindo assistência presencial por meio de representantes de serviço de campo (Field Service Representatives – FSRs), que acompanharão a introdução da aeronave na operação e prestarão apoio às equipes holandesas.

A iniciativa representa mais um passo na estratégia da Embraer de consolidar um ecossistema de sustentação próximo aos operadores internacionais do C-390, fator particularmente importante para uma aeronave militar multimissão cuja disponibilidade depende não apenas de suas capacidades de voo, mas também da eficiência da cadeia logística, manutenção e fornecimento de componentes.

Indústria local e disponibilidade operacional

A escolha do Fokker Services Group possui relevância adicional por envolver uma empresa com tradição na indústria aeroespacial holandesa e atuação internacional em serviços de engenharia, manutenção, reparo e suporte aeronáutico.

Com cinco instalações distribuídas pela Europa, Ásia e Américas, a companhia possui competências em modificações e engenharia, manutenção de componentes, serviços de estrutura e conversão de aeronaves. Sua participação no programa C-390 amplia o envolvimento da indústria holandesa na introdução e sustentação da nova plataforma.

Para a Embraer, estabelecer uma estrutura de suporte no próprio país operador contribui para aproximar a fabricante das necessidades cotidianas da Força Aérea, oferecendo assistência técnica e operacional durante a fase de entrada em serviço e ao longo da vida operacional da frota.

O CEO do Fokker Services Group, Roland van Dijk, destacou que a nomeação reconhece a capacidade técnica de suas equipes e amplia os serviços oferecidos aos operadores militares. Já Frederico Lemos, Chief Commercial Officer da Embraer Defesa & Segurança, ressaltou que a parceria fortalece os laços com a Força Aérea Real dos Países Baixos e representa uma colaboração estratégica de longo prazo.

Um programa europeu de 13 aeronaves

Os Países Baixos adquiriram cinco C-390 Millennium para substituir sua frota de C-130 Hercules. A aquisição integra uma iniciativa conjunta com Áustria e Suécia, que encomendaram quatro aeronaves cada, totalizando 13 unidades.

Os Países Baixos assumiram a posição de nação líder do programa conjunto, buscando aproveitar ganhos de escala em aquisição, treinamento e sustentação, além de favorecer a padronização das aeronaves e a interoperabilidade entre os operadores.

O cronograma oficial holandês prevê o recebimento das primeiras aeronaves no final de 2027, com a conclusão das entregas até 2029. A introdução do C-390 também envolve a preparação de tripulações, infraestrutura, simuladores e sistemas necessários à operação.

Nesse cenário, a designação do Fokker Services Group como centro autorizado antecipa uma etapa fundamental: assegurar que a estrutura de suporte esteja preparada para acompanhar a chegada dos novos vetores.

Sustentação como diferencial competitivo

O avanço do C-390 no mercado internacional demonstra que a competitividade de uma aeronave militar não se limita às características de desempenho, capacidade de carga ou versatilidade operacional. A existência de uma estrutura de suporte eficiente, com capacidade de resposta próxima ao operador, tornou-se um dos elementos determinantes nas decisões de aquisição e na manutenção da disponibilidade das frotas.

Com capacidade para transportar até 26 toneladas de carga útil, o C-390 Millennium foi desenvolvido para cumprir missões de transporte de tropas e equipamentos, lançamento aéreo, evacuação aeromédica, busca e salvamento, operações humanitárias e combate a incêndios. Também pode receber um sistema de reabastecimento em voo de instalação rápida, permitindo atuar como aeronave-tanque ou receptora de combustível.

Ao estabelecer uma parceria com o Fokker Services Group, a Embraer amplia sua presença industrial e logística na Europa, fortalecendo o relacionamento com um operador que também participa de uma iniciativa multinacional de padronização e cooperação.

Para a indústria aeroespacial brasileira, o movimento tem significado estratégico. A exportação de uma plataforma militar de alto valor agregado precisa ser acompanhada por uma rede internacional capaz de garantir manutenção, suporte técnico, disponibilidade e evolução das capacidades ao longo de décadas.

O C-390 não está apenas conquistando novos operadores. A Embraer está construindo a estrutura necessária para sustentar sua presença nesses mercados, um componente essencial para transformar vendas internacionais em parcerias industriais e operacionais duradouras.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Rafale M realiza primeiro pouso no porta-aviões INS Vikrant da Marinha Indiana

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A variante embarcada Rafale M, desenvolvido pela francesa Dassault Aviation, realizou em 29 de outubro seu primeiro pouso no porta-aviões INS Vikrant da Marinha Indiana. A operação foi concluída com sucesso na primeira tentativa e representa um marco no processo de integração da aeronave ao navio-aeródromo indiano, que deverá receber o modelo como parte da modernização de sua aviação naval.

A Marinha Indiana divulgou o resultado em 30 de outubro, acompanhando o anúncio com imagens do pouso. Segundo a instituição, os ensaios em andamento representam os primeiros passos para a futura operacionalização do Rafale M em sua estrutura de aviação embarcada. O comunicado, entretanto, não detalhou todas as etapas ainda necessárias para a conclusão do processo de integração.

O teste está relacionado ao programa de aquisição de 26 aeronaves Rafale Marine, contratado junto à França em abril de 2025. O acordo intergovernamental, assinado em 28 de abril daquele ano, contempla 22 caças monopostos e quatro aeronaves biposto, além de treinamento de tripulações, simuladores, equipamentos associados, armamentos e suporte logístico baseado em desempenho.

Programa de aquisição e modernização da aviação naval

A contratação dos Rafale M foi formalizada em um acordo de aproximadamente 63 mil crore de rúpias, equivalente a cerca de US$ 7,5 bilhões na divulgação internacional do contrato. As aeronaves foram selecionadas para equipar os porta-aviões INS Vikrant e INS Vikramaditya, ampliando as opções disponíveis à Marinha Indiana para suas operações aéreas embarcadas.

O Rafale M é a versão naval do caça francês Rafale, desenvolvida para operar a partir de porta-aviões. Sua aquisição permitirá à Índia incorporar uma plataforma de combate embarcada que compartilha características e sistemas com os Rafale já operados pela Força Aérea Indiana, favorecendo a interoperabilidade, treinamento, logística e suporte.

De acordo com o Ministério da Defesa indiano, o contrato também contempla transferência de tecnologia para permitir a integração de armamentos de fabricação local às aeronaves. O acordo prevê ainda a instalação de uma unidade de produção de fuselagens do Rafale na Índia, além de estruturas de manutenção, reparo e revisão geral para motores, sensores e armamentos. Essas iniciativas estão inseridas no esforço de ampliar a participação da indústria indiana no programa e sua integração à cadeia de fornecimento da aeronave.

O cronograma oficial estabelece que a entrega das 26 aeronaves seja concluída até 2030, com treinamento das tripulações na França e na Índia. A incorporação dos caças deverá ampliar a capacidade de operação aérea dos dois porta-aviões indianos, proporcionando à Marinha uma nova plataforma para suas missões no ambiente marítimo.

Um marco na integração ao INS Vikrant

O primeiro pouso bem-sucedido no INS Vikrant representa uma etapa importante para a futura operação do Rafale M a partir do porta-aviões de construção indiana. O resultado demonstra o avanço dos ensaios de integração entre a aeronave e o navio, mas não significa que a incorporação operacional esteja concluída.

Com as entregas previstas para os próximos anos, a Marinha Indiana seguirá conduzindo as etapas necessárias à preparação de suas tripulações e à integração do novo caça à estrutura embarcada. O ensaio de 29 de outubro marca, assim, o início de uma nova fase do programa, aproximando a aviação naval indiana da operação do Rafale Marine em seus porta-aviões.


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França transforma Rafale em laboratório voador para desenvolver o futuro padrão F5

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A Direção-Geral de Armamento da França (DGA) recebeu o Rafale B374, primeira aeronave do modelo destinada ao centro DGA Essais en vol na configuração de avião-banco de ensaios (ABE). A aeronave será utilizada no desenvolvimento e na avaliação de equipamentos e armamentos previstos para as futuras evoluções do caça, incluindo o padrão F5.

Construído pela Dassault Aviation, o B374 foi entregue na configuração F4.1 e corresponde à 73ª e última aeronave do quarto lote de produção do Rafale. Antes de receber as modificações permanentes, o caça será equipado com instalações reversíveis de ensaio e medição. Essa configuração inicial permitirá que participe das atividades de desenvolvimento do padrão atualmente em serviço, enquanto são preparados os trabalhos necessários para sua transformação em uma plataforma dedicada aos testes de voo.

A próxima etapa está prevista para o segundo trimestre de 2027, quando a Dassault Aviation realizará uma modificação mais abrangente na aeronave. O trabalho incluirá a instalação das interfaces necessárias para que a DGA Essais en vol incorpore instrumentação completa e permanente, ampliando os recursos disponíveis para acompanhar e avaliar os sistemas submetidos aos ensaios.

Preparação para os testes do Rafale F5

A configuração de avião-banco de ensaios permitirá que o B374 opere como um laboratório voador, equipado com instrumentos de medição, registradores de dados e ligação de dados com as equipes responsáveis pelo acompanhamento das atividades em solo. Esses recursos permitirão avaliar tecnologias aeronáuticas em condições reais de voo, incluindo sistemas de navegação e ataque, sensores, armamentos, comunicações e softwares embarcados.

O retorno da aeronave à frota de ensaios está previsto para 2028. Nessa etapa, o B374 deverá incorporar uma versão específica, denominada “laranja”, do Ensemble Modulaire de Traitement de l’Information (EMTI), sistema modular de processamento de informações que utiliza um software de computador de bordo configurado especialmente para atividades de teste.

Essa configuração permitirá a instalação e avaliação de futuros sensores previstos para o padrão F5, entre eles o radar de nova geração RBE2 XG, que se encontra em desenvolvimento. Além de apoiar os trabalhos relacionados ao F5, o B374 também será empregado nos ensaios das próximas evoluções do padrão F4.

Renovação da frota de ensaios

O B374 será o primeiro Rafale configurado como avião-banco de ensaios (ABE) incorporado diretamente à DGA Essais en vol, substituindo o B348, que vinha sendo disponibilizado ao centro por meio de um empréstimo de longo prazo da Força Aérea e Espacial Francesa. Sua chegada faz parte do processo de renovação da frota de aeronaves empregadas pela DGA na avaliação de sistemas aeronáuticos e armamentos, assegurando uma plataforma dedicada ao acompanhamento das evoluções tecnológicas do Rafale. Após as modificações previstas, o B374 permitirá concentrar em uma única aeronave os recursos de instrumentação e medição necessários aos ensaios de voo, apoiando tanto a validação de atualizações do padrão F4 quanto o desenvolvimento e a integração de tecnologias destinadas ao futuro F5.


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Saab inicia produção da nova lancha de combate CB90 CX para a Marinha da Suécia

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A Saab apresentou a CB90 CX (Combat Boat 90 Capability X), nova versão da família de embarcações de combate CB90, desenvolvida para ampliar as capacidades operacionais da plataforma. A embarcação incorpora sistemas atualizados e maior capacidade de carga útil, passando a oferecer configurações voltadas à guerra antinavio, inteligência, vigilância e reconhecimento, além de defesa aérea de curto alcance. A produção da nova embarcação já está em andamento para a Suécia, seu cliente lançador. A Marinha sueca deverá operar a CB90 CX em conjunto com a CB90 NG, versão de menor porte da família.

Segundo a Saab, a CB90 CX é maior que suas antecessoras e foi projetada para operar em uma gama mais ampla de condições marítimas. A plataforma mantém características das versões anteriores, tradicionalmente empregadas no transporte de tropas, mas incorpora capacidade para receber uma variedade maior de equipamentos e sistemas de missão.

Um dos principais elementos da nova embarcação é o Núcleo Oceânico Autônomo da Saab, desenvolvido para permitir operações tripuladas e não tripuladas. A empresa não detalhou no anúncio os níveis de autonomia disponíveis nem os procedimentos específicos previstos para cada modalidade de operação.

Três configurações operacionais

A CB90 CX foi apresentada com três configurações distintas, cada uma direcionada a uma função operacional.

Na configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), a embarcação utiliza o radar Giraffe 1X, também desenvolvido pela Saab, para ampliar a consciência situacional em múltiplos domínios. A versão antinavio foi concebida para proporcionar capacidade de ataque contra embarcações de superfície além do horizonte. O comunicado, entretanto, não identifica o armamento que será empregado nessa configuração nem apresenta informações sobre alcance ou parâmetros de engajamento. Já a configuração de defesa aérea de curto alcance utiliza um canhão automático antiaéreo, acrescentando uma capacidade específica de proteção contra ameaças aéreas.

De acordo com a Saab, as três configurações poderão operar conjuntamente ou integradas a uma força mais ampla, combinando vigilância e armamentos em diferentes posições e áreas de atuação.

Uma evolução da família CB90

A nova CB90 CX preserva a proposta básica da família CB90, mas amplia o conjunto de capacidades que podem ser incorporadas à plataforma. A possibilidade de operar com ou sem tripulação também representa uma das principais novidades anunciadas pela fabricante.

“Ao passo que as realidades operacionais mudam, o mesmo acontece com a CB90”, afirmou Anders Hellman, chefe da unidade de negócios Docksta da Saab. Segundo o executivo, o futuro das operações navais envolve distribuir maior capacidade de combate por toda a força, e não apenas ampliar o número de plataformas disponíveis.

A família CB90 está em serviço em nove marinhas, distribuídas pela Europa, Oriente Médio, África, Ásia-Pacífico e Américas. Com a CB90 CX, a Saab amplia a oferta da linha, mantendo a plataforma voltada a diferentes necessidades operacionais e incorporando novas configurações de missão. A Suécia será a primeira operadora da nova versão, que passará a integrar sua frota ao lado da CB90 NG.


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ZOPACAS 40 anos: Brasil e o desafio de transformar liderança diplomática em segurança estratégica no Atlântico Sul

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Quatro décadas depois de sua criação, a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul ganha novo impulso sob a presidência brasileira. Estratégia aprovada no Rio de Janeiro amplia a agenda para defesa, segurança marítima e proteção de infraestruturas críticas, mas sua efetividade dependerá da capacidade dos países-membros de converter compromissos políticos em iniciativas permanentes.

O Atlântico Sul ocupa uma posição que ultrapassa sua dimensão geográfica. É uma via essencial para o comércio internacional, abriga importantes recursos naturais, conecta economias de dois continentes e concentra infraestruturas indispensáveis ao funcionamento de sociedades cada vez mais dependentes da circulação de dados, energia e mercadorias. Cabos submarinos, portos, instalações offshore, rotas comerciais e áreas de exploração de recursos marinhos compõem uma rede de interesses estratégicos cuja proteção exige mais do que iniciativas isoladas de cada país.

É nesse contexto que a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) chega aos 40 anos. Criada em 27 de outubro de 1986, por iniciativa brasileira e por meio da Resolução 41/11 da Assembleia Geral das Nações Unidas, a organização reúne 24 países da América do Sul e da costa ocidental africana. Sua concepção nasceu no ambiente internacional marcado pela Guerra Fria, pela disputa entre grandes potências e pela preocupação dos países da região em preservar o Atlântico Sul como espaço de paz, cooperação e desenvolvimento, afastado da lógica de confrontação militar que caracterizava outros ambientes estratégicos.

A iniciativa também refletia uma preocupação particularmente relevante para os países do hemisfério sul: impedir que a região se transformasse em palco de rivalidades externas, corrida armamentista ou instalação de estruturas militares capazes de comprometer sua autonomia política. A resolução que estabeleceu a ZOPACAS reforçou a necessidade de preservar a região como zona livre de armas nucleares e de outras armas de destruição em massa, ao mesmo tempo em que estimulava a cooperação econômica, científica, ambiental e política entre seus integrantes.

Quatro décadas depois, o cenário internacional é profundamente diferente, mas a preocupação que deu origem ao mecanismo permanece atual. A competição entre potências voltou a ocupar posição central na agenda internacional, enquanto a segurança marítima passou a envolver ameaças que não se limitam à presença de forças navais convencionais. Ações de espionagem, pesca ilegal, tráfico internacional, sabotagem, ameaças cibernéticas e riscos às infraestruturas submarinas ampliaram a complexidade da proteção dos espaços marítimos.

A preservação do Atlântico Sul como região de paz, portanto, não significa ignorar os riscos ou abrir mão da capacidade de defesa. Ao contrário, exige que os países costeiros desenvolvam condições para conhecer o que acontece em suas águas, proteger seus interesses e responder de maneira coordenada a ameaças que ultrapassam fronteiras nacionais.

Uma iniciativa estratégica que precisa superar os períodos de baixa atividade

A trajetória da ZOPACAS demonstra que sua relevância política nem sempre foi acompanhada por continuidade institucional. Embora tenha sido criada em 1986, o mecanismo enfrentou longos intervalos entre suas reuniões ministeriais. Depois de encontros realizados em diferentes momentos de sua história, a VIII Reunião Ministerial ocorreu apenas em 2023, em Mindelo, Cabo Verde, dez anos após a reunião anterior, realizada em Montevidéu.

Esse intervalo evidencia uma das principais fragilidades históricas da iniciativa: a dificuldade de manter uma agenda de trabalho contínua entre as reuniões de alto nível. A existência de objetivos comuns e de declarações políticas não assegura, por si só, a execução de projetos, a manutenção de canais de comunicação ou a construção de capacidades compartilhadas.

A Resolução 75/312 da Assembleia Geral da ONU de 2021, contribuiu para a retomada institucional ao estimular a realização periódica de reuniões ministeriais e encontros anuais à margem da Assembleia Geral. A reunião de Mindelo em 2023, representou um passo importante nesse processo, e a presidência cabo-verdiana impulsionou discussões que contribuíram para a construção de uma agenda mais organizada de cooperação.

O Brasil assumiu novamente papel central em abril de 2026, quando sediou no Rio de Janeiro, a IX Reunião Ministerial da ZOPACAS. O encontro, realizado nos dias 8 e 9 de abril, reuniu representantes de 21 dos 24 Estados-membros e marcou o início da presidência brasileira pro tempore, que sucedeu Cabo Verde e terá duração de três anos.

Mais importante do que a transferência da presidência foi a adoção da Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro, documento que procura estabelecer uma metodologia de trabalho e organizar as prioridades dos países participantes. A reunião também aprovou a Declaração do Rio de Janeiro, reafirmando os princípios políticos que orientam o mecanismo.

A nova estratégia representa uma tentativa de superar o modelo baseado predominantemente em encontros diplomáticos e declarações de intenção. O documento organiza a cooperação em 11 blocos temáticos, distribuídos entre áreas relacionadas à governança oceânica, defesa e segurança marítimas, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

O instrumento, entretanto, possui natureza política e cooperativa não vinculante. Isso significa que não cria obrigações jurídicas internacionais automáticas para os países participantes. A adesão a cada bloco e às respectivas ações é voluntária, condicionada às legislações nacionais, às políticas públicas e aos recursos disponíveis de cada Estado.

Essa característica preserva a flexibilidade diplomática da ZOPACAS, mas também impõe uma exigência: a continuidade das iniciativas dependerá da disposição política dos governos, da capacidade de coordenação e da disponibilidade de recursos para transformar as propostas em atividades efetivas.

Segurança marítima e defesa: o núcleo estratégico da nova agenda

Entre os aspectos mais relevantes da Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro está a ampliação da agenda de defesa e segurança marítima. A proteção do Atlântico Sul deixou de ser uma questão restrita à defesa das águas territoriais e passou a envolver um conjunto de interesses que se estendem por toda a infraestrutura econômica, energética e digital da região.

O documento prevê iniciativas de cooperação em defesa, intercâmbio de instrutores e alunos, desenvolvimento de projetos conjuntos relacionados a materiais, equipamentos e sistemas de defesa, consultas entre os países e realização de exercícios. Também estimula a aquisição preferencial de produtos, sistemas e plataformas de vigilância produzidos pelos próprios Estados-membros, desde que atendidos padrões de interoperabilidade.

Esse ponto merece atenção especial. A cooperação em defesa não se resume à realização de exercícios ou à aproximação entre instituições militares. Ela pode criar oportunidades para que os países da região desenvolvam soluções tecnológicas, ampliem a capacidade de suas indústrias e reduzam vulnerabilidades decorrentes da dependência externa em áreas consideradas estratégicas.

Para o Brasil, essa agenda dialoga diretamente com os interesses da Base Industrial de Defesa. O país possui empresas e instituições capazes de fornecer sistemas de comunicação, sensores, radares, soluções de vigilância, plataformas navais, aeronaves e equipamentos empregados em diferentes ambientes operacionais. A aproximação com países africanos pode abrir oportunidades para projetos conjuntos, capacitação, transferência de conhecimento e integração de sistemas.

Entretanto, a possibilidade de cooperação industrial dependerá de iniciativas concretas, estudos de requisitos, financiamento, acordos entre governos e capacidade de sustentação dos equipamentos ao longo de seu ciclo de vida. A existência de uma previsão na estratégia não significa que contratos ou programas de aquisição tenham sido estabelecidos.

Outro eixo importante é o fortalecimento da Consciência Situacional Marítima. Conhecer o tráfego, identificar embarcações suspeitas, acompanhar atividades em áreas de interesse e compartilhar informações são capacidades fundamentais para a segurança marítima. Nenhum país precisa, ou consegue, manter isoladamente vigilância permanente sobre toda a extensão dos espaços oceânicos que afetam seus interesses.

A cooperação entre centros de monitoramento, autoridades marítimas e forças navais pode ampliar a capacidade de identificar atividades irregulares e construir um quadro mais abrangente da situação no mar. Para isso, porém, é necessário estabelecer procedimentos de compartilhamento de informações, padrões técnicos, mecanismos de proteção de dados e canais de comunicação que funcionem também fora dos períodos de exercício.

A interoperabilidade, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como a capacidade de equipamentos diferentes operarem em conjunto. Ela envolve doutrina, treinamento, protocolos, comunicações e confiança institucional. Sem esses elementos, a disponibilidade de sensores e sistemas de vigilância não se converte necessariamente em uma resposta coordenada.

Cabos submarinos, energia e infraestruturas críticas: a dimensão menos visível da segurança

A proteção das infraestruturas críticas marítimas constitui outra frente de grande relevância para o futuro da ZOPACAS. Os cabos submarinos de telecomunicações transportam parcela essencial do tráfego internacional de dados, conectando continentes, centros financeiros, governos e sistemas de comunicação. Sua interrupção pode produzir efeitos que ultrapassam o setor de telecomunicações, afetando serviços públicos, operações comerciais e atividades econômicas.

O Atlântico Sul também abriga instalações portuárias, plataformas de exploração de petróleo e gás, terminais, rotas de abastecimento e estruturas de apoio à atividade marítima. No caso brasileiro, a dimensão energética é particularmente significativa, considerando a importância da produção offshore e a concentração de atividades econômicas em áreas marítimas.

A proteção desses ativos exige coordenação entre autoridades civis, operadores privados, órgãos de inteligência e instituições de defesa. Também demanda capacidade de monitoramento, identificação de anomalias e resposta a incidentes que podem envolver desde acidentes e danos ambientais até ações deliberadas de sabotagem.

A Estratégia do Rio de Janeiro reconhece a proteção de infraestruturas críticas como tema de cooperação. A inclusão desse assunto demonstra uma compreensão mais ampla da segurança marítima, na qual a proteção do oceano não se limita à defesa contra ameaças militares tradicionais.

A questão central será definir como essa cooperação poderá funcionar na prática. O compartilhamento de informações sobre incidentes, a realização de avaliações conjuntas de risco, o intercâmbio de boas práticas e a capacitação de equipes especializadas são caminhos possíveis. A construção de mecanismos permanentes de comunicação entre os países seria especialmente importante para evitar que cada ocorrência seja tratada como um episódio isolado.

Também será necessário considerar as diferenças de capacidade entre os membros. Alguns países possuem estruturas avançadas de vigilância e resposta, enquanto outros enfrentam limitações de recursos, tecnologia e pessoal especializado. Uma agenda de cooperação efetiva deverá considerar essas assimetrias e buscar soluções que permitam ampliar a capacidade regional sem criar dependências excessivas.

A aproximação com a África e a dimensão industrial da cooperação

A ZOPACAS possui uma característica geopolítica singular: reúne países sul-americanos e africanos em torno de um espaço marítimo compartilhado. Essa configuração oferece ao Brasil uma oportunidade de ampliar sua presença diplomática e estratégica na costa ocidental africana, região que possui importância crescente para o comércio, a segurança marítima, a exploração de recursos naturais e a conectividade entre os dois continentes.

A relação com os países africanos não deve ser tratada apenas como uma agenda de política externa. Existe uma dimensão econômica e tecnológica que pode aproximar instituições de pesquisa, universidades, centros de formação militar e empresas da Base Industrial de Defesa.

A cooperação pode abranger formação de pessoal, manutenção de equipamentos, intercâmbio de experiências operacionais, desenvolvimento de soluções de vigilância e projetos conjuntos em áreas nas quais o Brasil possui conhecimento acumulado. A experiência brasileira em operações navais, monitoramento marítimo, construção naval e desenvolvimento de sistemas de defesa pode oferecer oportunidades de colaboração, desde que exista demanda identificada e capacidade de execução.

A própria estratégia estimula projetos conjuntos de materiais, equipamentos e serviços de defesa, além de incentivar a preferência por produtos desenvolvidos pelos países da região. Trata-se de uma diretriz que pode favorecer a integração industrial, mas cuja implementação dependerá de condições comerciais, financiamento, padronização e confiança entre os participantes.

Para o GBN Defense, esse é um dos aspectos que merece acompanhamento: a ZOPACAS pode funcionar como ambiente de aproximação entre a demanda por segurança marítima dos países africanos e as capacidades tecnológicas e industriais disponíveis no Brasil. Contudo, essa possibilidade somente ganhará consistência quando surgirem projetos identificáveis, apoio do governo federal, fontes de financiamento, objetivos definidos de politica externa e de comércio exterior.

Meio ambiente marinho: o primeiro acordo negociado no âmbito da ZOPACAS

A agenda ambiental também ganhou um instrumento de maior alcance durante a reunião ministerial de abril. Em 9 de abril de 2026, foi assinada no Rio de Janeiro a Convenção para a Proteção do Meio Ambiente Marinho no Atlântico Sul, apresentada pelo governo brasileiro como o primeiro acordo negociado no âmbito da ZOPACAS.

O texto estabelece compromissos de cooperação, capacitação, prevenção e controle de danos ao ambiente marinho, além de prever medidas de proteção de espécies, intercâmbio de informações e promoção da cultura oceânica. Sua importância está em reconhecer que a preservação do Atlântico Sul exige uma abordagem regional, especialmente diante de problemas que não respeitam limites marítimos nacionais, como poluição, degradação de ecossistemas e atividades pesqueiras irregulares.

É necessário, porém, distinguir assinatura de entrada em vigor. A convenção prevê que começará a produzir efeitos internacionais 30 dias após o depósito do quarto instrumento de ratificação. Na consulta ao Portal Concórdia, do Itamaraty, em 2 de novembro de 2026, o acordo ainda aparecia como assinado/adotado, em tramitação no Ministério das Relações Exteriores, sem registro de instrumentos de ratificação depositados ou de entrada em vigor.

Portanto, embora a assinatura represente um avanço diplomático, a convenção ainda depende das etapas internas e internacionais necessárias para se tornar juridicamente efetiva. Esse processo será um indicador importante da disposição dos países em transformar compromissos ambientais em obrigações concretas.

A dimensão ambiental também possui relação direta com a segurança marítima. A degradação de ecossistemas, a pesca ilegal e a exploração inadequada de recursos podem comprometer a estabilidade econômica de comunidades costeiras e ampliar tensões entre países. A proteção ambiental, nesse sentido, não é uma agenda paralela à segurança: integra a própria sustentabilidade dos interesses marítimos da região.

O desafio da implementação começa agora

A Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro estabeleceu um método para organizar o trabalho. Os países poderiam manifestar interesse em participar de blocos específicos no prazo de até um mês após a adoção do documento. Depois da formação dos blocos, deveriam ser designados coordenadores em até 45 dias. Cada bloco deverá elaborar um programa de ação em até sete meses a partir da adoção da estratégia, contendo iniciativas acordadas, cronograma indicativo e, quando possível, necessidades de recursos e fontes potenciais de financiamento.

O documento também prevê mecanismos de acompanhamento. Os participantes deverão informar resultados, desafios e lições aprendidas a partir das ações concluídas, permitindo avaliar a evolução dos projetos e considerar sua ampliação para outros parceiros.

A dimensão institucional também merece atenção. Ao encerrar a reunião ministerial de abril, o chanceler Mauro Vieira anunciou a criação no Ministério das Relações Exteriores, de uma unidade dedicada exclusivamente à ZOPACAS, que deverá sediar o Centro de Pontos Focais do mecanismo. A estrutura foi concebida para supervisionar e coordenar a implementação da estratégia e de seus programas de ação.

A iniciativa responde a uma fragilidade histórica: a necessidade de manter a articulação entre os países mesmo quando não há reuniões ministeriais. Sem uma estrutura de acompanhamento, a continuidade das ações tende a depender excessivamente da iniciativa individual de governos ou de instituições participantes.

O 3º Simpósio Marítimo da ZOPACAS realizado em 10 de abril, foi apresentado pelo chanceler como a primeira entrega concreta da estratégia recém-adotada. O encontro coordenado pela Marinha do Brasil, reuniu autoridades civis e militares para discutir o fortalecimento da cooperação marítima e da segurança no Atlântico Sul. Sua realização demonstrou a possibilidade de dar continuidade técnica à agenda ministerial, embora um simpósio, por si só, não represente a criação de uma capacidade operacional permanente.

Em 27 de outubro, data em que a ZOPACAS completou quatro décadas, a Escola Superior de Defesa (ESD) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) promoveram o seminário “40 anos da ZOPACAS: cooperação e paz no entorno estratégico”. O encontro reuniu autoridades, pesquisadores e especialistas para discutir a relevância estratégica do Atlântico Sul e as perspectivas de cooperação entre os países da região. A programação acadêmica contribuiu para o debate sobre o futuro do mecanismo, mas não deve ser confundida com uma nova deliberação ministerial ou com a execução de projetos operacionais.

O Atlântico Sul como responsabilidade estratégica brasileira

Para o Brasil, a presidência da ZOPACAS representa uma oportunidade de articular interesses que já fazem parte da política de defesa e de sua estratégia marítima. A dimensão do litoral, a extensão das águas sob jurisdição nacional, a importância da Amazônia Azul, a exploração de petróleo e gás, os recursos pesqueiros e a dependência de rotas marítimas e cabos submarinos tornam a estabilidade do Atlântico Sul uma questão diretamente ligada à soberania e ao desenvolvimento nacional.

Essa responsabilidade não pode ser exercida apenas por meio de declarações diplomáticas. A liderança brasileira exigirá capacidade de articulação, continuidade institucional e disposição para contribuir com meios técnicos, conhecimento, formação e projetos que também atendam às necessidades dos parceiros africanos.

A Marinha do Brasil possui papel relevante nesse processo, tanto pela experiência acumulada em operações e exercícios quanto pela capacidade de promover intercâmbio profissional e cooperação naval. Entretanto, a complexidade dos desafios exige participação coordenada de diferentes órgãos do Estado, incluindo Defesa, Relações Exteriores, ciência e tecnologia, meio ambiente, autoridades portuárias e operadores de infraestruturas críticas.

Também será necessário preservar a coerência entre a ambição diplomática e a capacidade nacional de sustentação. A cooperação regional não substitui a responsabilidade brasileira de manter meios navais, sistemas de vigilância, pessoal especializado e estruturas capazes de proteger os próprios interesses marítimos. Da mesma forma, a construção de uma agenda comum não deve ser interpretada como a formação de uma aliança militar ou de uma força naval permanente. A ZOPACAS continua sendo um mecanismo de articulação política e cooperação, não uma organização de defesa coletiva.

A diferença é importante: preservar o Atlântico Sul como zona de paz não significa desconsiderar a competição internacional ou renunciar à capacidade de dissuasão. Significa fortalecer a autonomia dos países da região para decidir seus próprios caminhos, proteger seus recursos e cooperar diante de ameaças comuns, sem transformar o oceano em extensão de disputas externas.

Aos 40 anos, a ZOPACAS encontra uma oportunidade de renovar seu papel. A estratégia aprovada no Rio de Janeiro oferece uma estrutura mais organizada, a presidência brasileira estabelece uma responsabilidade política e os temas selecionados refletem a complexidade dos desafios contemporâneos. Mas a experiência das últimas décadas recomenda cautela: a distância entre o compromisso diplomático e a capacidade efetiva de cooperação pode ser grande.

O resultado dessa nova fase deverá ser medido por entregas verificáveis: programas de ação implementados, mecanismos de compartilhamento de informações em funcionamento, exercícios e capacitações realizados, projetos industriais desenvolvidos, infraestruturas críticas protegidas e instrumentos ambientais efetivamente ratificados.

O aniversário de 40 anos, portanto, não deve ser entendido apenas como uma celebração de sua trajetória. É um marco para avaliar se os países do Atlântico Sul estão dispostos a transformar uma visão política compartilhada em uma arquitetura de cooperação capaz de produzir resultados duradouros. Para o Brasil, o desafio é fazer da presidência uma oportunidade de liderança concreta, e não apenas mais um capítulo de sua diplomacia marítima.


por Angelo Nicolaci


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Pesquisa da EGN projeta economia bilionária na manutenção das Fragatas Tamandaré com novo modelo logístico

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Pesquisa sobre Logística Baseada em Desempenho identifica potencial de economia de até R$ 2 bilhões em 30 anos, mas evidencia que a disponibilidade da nova Esquadra dependerá de previsibilidade orçamentária, gestão logística e capacidade de sustentação industrial.

A construção de uma nova geração de fragatas representa muito mais do que a renovação dos meios da esquadra. Significa incorporar sistemas de combate mais complexos, sensores avançados, armamentos modernos e uma arquitetura tecnológica que exige uma estrutura de manutenção compatível com as capacidades operacionais pretendidas. Para a Marinha do Brasil, entretanto, o desafio não termina com a entrega das Fragatas Classe Tamandaré. É justamente a partir de sua entrada em serviço que começa uma das etapas mais importantes e financeiramente exigentes do programa: garantir sua disponibilidade ao longo das próximas décadas.

Essa questão foi examinada pelo oficial Alexandre Almeida dos Santos, em dissertação apresentada em 2024 à Escola de Guerra Naval (EGN), durante o Curso de Estado-Maior para Oficiais Superiores. Intitulado “A logística baseada em desempenho: viabilidade para a implantação nas Fragatas Classe ‘Tamandaré’”, o trabalho investiga a aplicação da Performance-Based Logistics (PBL), ou Logística Baseada em Desempenho, como alternativa para organizar a manutenção e o apoio logístico dos quatro navios.

A pesquisa parte de uma realidade conhecida pelas forças navais: a aquisição de um meio moderno não assegura, por si só, sua disponibilidade operacional. A capacidade de manter uma fragata pronta para cumprir suas missões depende de uma cadeia que envolve sobressalentes, reparos, documentação técnica, infraestrutura, pessoal especializado, atualização de sistemas e recursos financeiros continuamente disponíveis.

No caso brasileiro, essa equação ganha uma dimensão ainda maior diante das restrições orçamentárias enfrentadas pela Marinha e da necessidade de sustentar simultaneamente os meios que já compõem a Esquadra e aqueles que estão sendo incorporados por meio dos programas de modernização e renovação da esquadra.

O custo que começa depois da entrega

O debate sobre o Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT) costuma concentrar-se na construção dos navios, nas capacidades de combate e na participação da indústria nacional. São aspectos fundamentais, mas representam apenas parte do investimento necessário para transformar a nova classe em capacidade militar efetiva.

Uma fragata precisa permanecer operacional durante décadas, período no qual seus equipamentos estarão sujeitos a desgaste, falhas, obsolescência e necessidade de modernização. Sistemas de propulsão, geração de energia, sensores, comunicações, armamentos e gerenciamento de combate possuem ciclos de manutenção próprios e exigem planejamento permanente.

É nesse contexto que a Gestão do Ciclo de Vida (GCV) e o Apoio Logístico Integrado (ALI) assumem importância estratégica. Em vez de tratar a manutenção como uma necessidade posterior à aquisição, essas metodologias procuram incorporar desde a fase de obtenção os requisitos necessários para operar, reparar e sustentar os sistemas ao longo de sua vida útil.

A dissertação destaca que o modelo de obtenção por construção adotado no PFCT oferece vantagens nesse sentido. Diferentemente de uma compra de oportunidade, na qual frequentemente existem limitações para obter informações técnicas e históricos de manutenção, o desenvolvimento de um novo meio permite estruturar antecipadamente a documentação, os processos e os recursos necessários ao suporte logístico.

Essa é uma vantagem que precisa ser preservada. O investimento realizado na construção dos navios só alcançará seu pleno retorno se o conhecimento técnico e os instrumentos de gestão previstos no programa forem efetivamente incorporados à rotina da Marinha.

PBL: remunerar resultados, não apenas serviços

A Logística Baseada em Desempenho propõe uma mudança na relação entre o contratante e seus fornecedores. No modelo tradicional, a contratação costuma estar associada ao fornecimento de peças, à execução de reparos ou à realização de serviços específicos. No PBL, o foco passa a ser o resultado operacional previamente estabelecido.

Na prática, a Marinha poderia definir metas de disponibilidade de equipamentos, confiabilidade, tempo de resposta para reparos e cumprimento dos prazos de fornecimento de componentes. A remuneração do contratado estaria vinculada ao atendimento desses parâmetros, criando incentivos para reduzir falhas, antecipar necessidades de manutenção e melhorar a eficiência do suporte.

A lógica é interessante porque procura alinhar os interesses da Força e da indústria. O fornecedor deixa de ter como objetivo exclusivo executar intervenções e entregar componentes, passando a ter interesse direto em manter os sistemas disponíveis e reduzir a ocorrência de falhas que elevem os custos de sustentação.

A dissertação utiliza experiências internacionais para examinar essa possibilidade, incluindo contratos de apoio logístico aos motores dos helicópteros Apache, no Reino Unido, e às aeronaves de transporte C-130J Super Hercules da Força Aérea Australiana.

Essas experiências demonstram que o modelo pode ser aplicado a sistemas militares complexos. Entretanto, sua reprodução no Brasil exige considerar as características da estrutura industrial, a disponibilidade de fornecedores, os mecanismos de fiscalização e, principalmente, a capacidade de assegurar o cumprimento dos compromissos financeiros assumidos.

O PBL também não significa transferir integralmente a manutenção ou o conhecimento técnico à iniciativa privada. A Marinha precisa preservar competências próprias, domínio sobre a configuração dos sistemas, capacidade de fiscalização e condições para atuar diante de situações em que o fornecedor não consiga cumprir suas obrigações. Em sistemas de defesa, eficiência contratual e autonomia técnica precisam caminhar juntas.

A projeção financeira revela a dimensão do desafio

Um dos pontos mais expressivos do trabalho está na comparação entre os custos projetados de manutenção das quatro fragatas e os recursos destinados ao Programa Geral de Manutenção da Marinha (PROGEM).

Com base em informações levantadas em 2024, o pesquisador utilizou como referência um orçamento aproximado de R$ 371 milhões para o PROGEM naquele exercício. Para projetar a evolução desse montante até 2029, adotou uma expectativa de inflação anual de 4,02%, extraída do cenário econômico disponível à época.

A partir dessa premissa, o orçamento de referência alcançaria aproximadamente R$ 451,8 milhões em 2029.

Paralelamente, o estudo estimou os custos anuais de manutenção das quatro Fragatas Classe Tamandaré entre R$ 280 milhões e R$ 450 milhões, considerando a entrada de todos os navios na fase de operação e apoio.

A comparação é significativa. Pelas premissas adotadas na dissertação, a manutenção da nova classe poderia representar entre aproximadamente 62% e praticamente a totalidade do PROGEM projetado para 2029.

É importante ressaltar que não estamos diante de despesas já realizadas ou de dotações orçamentárias aprovadas para aquele exercício. São estimativas acadêmicas construídas em 2024, com base nas informações e premissas disponíveis naquele momento. A evolução dos preços, os contratos de manutenção, o cronograma de incorporação dos navios e as decisões orçamentárias podem modificar substancialmente esse cenário.

Ainda assim, o exercício expõe uma questão que não pode ser ignorada: a entrada em operação das quatro fragatas acrescentará uma demanda expressiva à estrutura de manutenção da Marinha, que continuará responsável pela sustentação de submarinos, navios de superfície, aeronaves e demais meios empregados no cumprimento de suas atribuições.

O problema, portanto, não se limita a encontrar recursos para manter as Tamandaré. É necessário evitar que a concentração de despesas em uma nova classe comprometa a disponibilidade dos demais meios da Esquadra.

Até R$ 2 bilhões em economia: o potencial e seus limites

Ao examinar os benefícios financeiros do PBL, o pesquisador utiliza referências do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que apontam possibilidades de redução dos custos de manutenção entre 5% e 15% ao ano, dependendo das condições de aplicação do modelo.

Aplicando o percentual máximo de 15% ao limite superior da estimativa de manutenção das quatro fragatas de R$ 450 milhões anuais, chega-se a uma economia potencial de R$ 67,5 milhões por ano.

Considerando os 30 anos de vida operativa projetados para os navios, a dissertação apresenta uma redução acumulada que poderia alcançar aproximadamente R$ 2 bilhões, sem considerar a inflação ao longo do período.

O resultado é expressivo, mas precisa ser interpretado dentro de seus limites metodológicos. Não representa uma economia já obtida, uma previsão contratual consolidada ou um compromisso assumido pelos fornecedores do programa. Trata-se de uma simulação construída a partir de percentuais de experiências internacionais aplicados às estimativas brasileiras.

Para transformar essa possibilidade em resultado concreto, seria necessário demonstrar que os contratos conseguem efetivamente reduzir custos sem comprometer a qualidade dos serviços, a disponibilidade dos sistemas e a capacidade de resposta da Marinha.

Também seria indispensável estabelecer indicadores objetivos, mecanismos de auditoria e critérios claros para atribuir responsabilidades por falhas ou indisponibilidades. Uma redução aparente de despesas não representa necessariamente ganho operacional se vier acompanhada de atrasos na reposição de componentes, perda de capacidade de manutenção ou dependência excessiva de um único fornecedor. O verdadeiro resultado de um contrato PBL deve ser medido pela relação entre custo, disponibilidade e desempenho entregue.

A estrutura logística prevista no programa pode fazer a diferença

Um aspecto particularmente relevante da dissertação está na identificação dos instrumentos de gestão logística previstos no próprio Programa Fragatas Classe Tamandaré.

Entre eles está o MB LCM Solution, sistema informatizado desenvolvido para o projeto brasileiro, destinado ao gerenciamento do ciclo de vida dos navios e ao acesso às informações necessárias às atividades de manutenção.

O programa também prevê a entrega de um Plano de Gestão do Ciclo de Vida para cada fragata, contemplando indicadores de desempenho e eficácia dos sistemas, gerenciamento de configuração, garantia da qualidade, gestão de riscos e gerenciamento da obsolescência. Outro instrumento importante é o Banco de Dados de Apoio Logístico (BDAL), que deverá reunir informações técnicas sobre componentes, especificações, sobressalentes e requisitos necessários à execução das atividades de manutenção.

Esses recursos podem constituir a base para contratos orientados por desempenho, pois permitem conhecer antecipadamente as necessidades de suporte e acompanhar a evolução dos sistemas durante sua vida operacional.

Entretanto, é necessário distinguir a previsão contratual de entrega dessas ferramentas de sua efetiva maturidade operacional. A existência de um sistema informatizado ou de um banco de dados não garante, isoladamente, a qualidade das informações ou sua utilização adequada.

Será necessário manter os registros atualizados, integrar os dados aos processos de manutenção e desenvolver capacidade institucional para transformar essas informações em decisões. Indicadores como disponibilidade operacional, tempo médio entre falhas, tempo médio de reparo e cumprimento dos prazos de fornecimento precisam ser acompanhados de forma contínua e verificável. Sem essa disciplina, o PBL corre o risco de se transformar em um contrato baseado em metas formais, sem correspondência efetiva com a disponibilidade dos meios.

A indústria nacional precisa fazer parte da equação

A sustentação das Fragatas Classe Tamandaré também abre uma discussão importante sobre o papel da Base Industrial de Defesa brasileira. A capacidade de construir navios de guerra representa uma conquista relevante, mas a consolidação de uma indústria naval de defesa exige continuidade. A manutenção, a modernização e a atualização dos sistemas precisam gerar oportunidades para empresas nacionais, técnicos e engenheiros que possam acumular conhecimento e atender às necessidades da Marinha.

Nesse contexto, a adoção de contratos de longo prazo pode contribuir para dar previsibilidade à cadeia de fornecedores, estimular investimentos em infraestrutura e ampliar a capacidade de atendimento no País.

Entretanto, esse resultado não é automático. A estrutura contratual precisa considerar a participação da indústria nacional, a transferência efetiva de conhecimento, o acesso à documentação técnica e a preservação de competências estratégicas.

A dependência excessiva de fornecedores externos pode criar vulnerabilidades, especialmente em períodos de crise internacional, restrições de exportação ou interrupções nas cadeias globais de suprimentos.

Para uma Marinha que precisa garantir a defesa de um espaço marítimo de dimensões continentais, a autonomia logística possui valor estratégico. Não basta possuir um navio moderno; é necessário ter condições de mantê-lo disponível sem ficar excessivamente condicionado às decisões comerciais ou políticas de terceiros.

Previsibilidade orçamentária: o elo entre o contrato e a disponibilidade da Esquadra

A adoção da Logística Baseada em Desempenho exige uma condição que, embora não seja novidade no planejamento de defesa brasileiro, continua sendo um dos seus maiores desafios: a capacidade de assegurar recursos ao longo do tempo. Um contrato dessa natureza não se sustenta apenas pela definição de metas e indicadores. Ele pressupõe que a Marinha consiga honrar compromissos plurianuais e que os fornecedores tenham condições de planejar investimentos, manter estoques, qualificar pessoal e estruturar uma cadeia de suporte compatível com as exigências dos navios.

Essa relação é particularmente sensível quando se trata de sistemas de combate complexos, cuja manutenção depende de componentes específicos, assistência técnica especializada, em determinados casos com fornecedores estrangeiros. A interrupção do fluxo financeiro pode repercutir muito além do contrato diretamente afetado, comprometendo a reposição de peças, adiando intervenções programadas e ampliando o tempo necessário para recuperar equipamentos indisponíveis. O efeito acaba chegando ao nível operacional: uma fragata pode estar incorporada à Esquadra, mas ter sua capacidade de emprego reduzida por limitações na sustentação.

Há ainda uma questão que merece atenção. O modelo PBL transfere ao fornecedor parte da responsabilidade pelos resultados de suporte, mas não elimina os riscos que estão fora de seu controle. Atrasos nos pagamentos, restrições de importação, dificuldades na cadeia internacional de suprimentos e alterações nas prioridades de financiamento podem afetar o cumprimento das metas contratadas. Por isso, não basta estabelecer indicadores de disponibilidade e penalidades por desempenho insuficiente. É necessário construir contratos que distribuam adequadamente os riscos, definam responsabilidades e ofereçam condições reais para que os compromissos assumidos sejam cumpridos.

Para a Marinha, isso significa incorporar a sustentação das Tamandaré ao planejamento financeiro de longo prazo, sem tratar a manutenção como uma despesa residual, disputando recursos apenas depois de atendidas as necessidades de aquisição. O mesmo raciocínio precisa alcançar a Base Industrial de Defesa. Empresas nacionais dificilmente investirão na formação de equipes, infraestrutura e capacidade de fornecimento especializada se não houver perspectiva de continuidade das demandas. A previsibilidade, nesse caso, não beneficia apenas a administração naval ou os contratados: contribui para preservar conhecimento, ampliar a participação industrial brasileira e reduzir vulnerabilidades externas.

A pesquisa, entretanto, não deve ser interpretada como uma proposta contratual pronta para implementação. O próprio trabalho não desenvolve uma análise jurídica completa dos instrumentos de contratação do PBL à luz da legislação brasileira, nem demonstra a execução prática desse modelo nas Fragatas Classe Tamandaré. A viabilidade apontada é, portanto, uma avaliação acadêmica que identifica caminhos e condicionantes, mas cuja aplicação ainda exigiria estudos complementares, definição de responsabilidades, avaliação de riscos e estruturação de mecanismos de fiscalização.

O ponto central é que a Marinha não poderá colher os benefícios de um modelo de manutenção orientado por desempenho se não houver condições de financiar o desempenho que pretende exigir. A modernização da Esquadra precisa ser acompanhada por uma política de sustentação compatível com a complexidade dos meios incorporados. Caso contrário, o País corre o risco de investir na aquisição de capacidades que, por falta de continuidade financeira e logística, não conseguirão entregar todo o potencial operacional previsto.

O desafio estratégico é sustentar a Esquadra, não apenas incorporar novos navios

A contribuição mais relevante da pesquisa de Alexandre Almeida dos Santos está em trazer para o centro do debate uma dimensão frequentemente secundarizada nos programas de modernização naval: a capacidade de sustentar os meios incorporados durante toda a sua vida operacional. No caso das Fragatas Classe Tamandaré, essa discussão ganha especial importância porque estamos diante de uma nova geração de navios, dotada de sistemas cuja complexidade tecnológica exige uma estrutura de apoio compatível, tanto em recursos financeiros quanto em infraestrutura, pessoal e capacidade industrial.

A Logística Baseada em Desempenho oferece uma alternativa para organizar essa estrutura, aproximando os interesses da Marinha e dos fornecedores em torno de resultados mensuráveis. Entretanto, seria um equívoco tratar o PBL como solução isolada para as limitações de financiamento da Força. Um contrato bem estruturado pode melhorar a gestão dos estoques, reduzir o tempo de reparo e estimular maior confiabilidade dos equipamentos, mas não consegue compensar a ausência de recursos, a fragilidade de uma cadeia de fornecimento ou a falta de capacidade técnica para fiscalizar os serviços contratados. A eficiência logística depende de uma estrutura institucional e financeira capaz de sustentar os compromissos assumidos.

É justamente nessa relação que identificamos o principal alerta da dissertação. A incorporação de meios tecnologicamente mais avançados eleva também o nível de exigência sobre a estrutura responsável por mantê-los. Sensores, sistemas de armas, propulsão e equipamentos eletrônicos possuem necessidades específicas de manutenção, ciclos de obsolescência e dependências de fornecimento que precisam ser consideradas desde o planejamento da aquisição. Quando a expansão das capacidades operacionais não é acompanhada por uma evolução correspondente dos recursos destinados à sustentação, surge um desequilíbrio que pode comprometer o próprio resultado da modernização.

Essa questão não diz respeito apenas às quatro fragatas. A Marinha precisa administrar uma estrutura diversificada de meios, com diferentes gerações tecnológicas, requisitos de manutenção e demandas operacionais. A chegada das Tamandaré acrescenta novas capacidades à Esquadra, mas também introduz obrigações permanentes de financiamento e suporte. A disputa por recursos entre programas de construção, manutenção, modernização e operação exige planejamento integrado, capaz de evitar que a sustentação de uma nova classe ocorra à custa da disponibilidade de outros meios igualmente importantes para o cumprimento das atribuições navais.

A dimensão industrial também precisa integrar essa equação. O conhecimento adquirido durante a construção dos navios somente se converterá em autonomia duradoura se houver continuidade na participação de empresas brasileiras nas atividades de manutenção, atualização e suporte dos sistemas. Isso exige acesso à documentação técnica, capacitação de profissionais, desenvolvimento de fornecedores e condições para que a indústria invista em estruturas especializadas. Sem uma perspectiva de demanda ao longo do ciclo de vida, parte do conhecimento desenvolvido durante a construção corre o risco de não se consolidar em capacidade nacional permanente, mantendo a sustentação condicionada a fornecedores externos.

Por isso, a discussão sobre o PBL deve ser acompanhada de uma reflexão mais ampla sobre a forma como o Brasil planeja e financia seus programas estratégicos de defesa. A sustentação precisa deixar de ser tratada como uma etapa posterior à aquisição e passar a integrar, desde o início, as decisões sobre requisitos, contratos, financiamento e participação industrial. Isso pressupõe continuidade administrativa, previsibilidade orçamentária e mecanismos que permitam à Marinha planejar compromissos de longo prazo sem perder a capacidade de responder às necessidades imediatas da Esquadra.

As Fragatas Classe Tamandaré representam um investimento importante na renovação do Poder Naval brasileiro. Entretanto, o resultado desse esforço não será definido exclusivamente pela entrega dos navios ou pelas capacidades incorporadas ao seu projeto. Será determinado também pela capacidade de financiar sua operação, preservar o conhecimento necessário à manutenção e assegurar que os sistemas permaneçam disponíveis ao longo das décadas de serviço. A pesquisa da Escola de Guerra Naval contribui justamente para colocar essa responsabilidade em perspectiva: modernizar a Esquadra exige não apenas recursos para construir novos meios, mas uma estrutura orçamentária permanente capaz de mantê-los operacionais.


por Angelo Nicolaci


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