segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Avispas Negras em Caracas: A Queda da Elite Cubana diante das Forças Especiais dos EUA

0 comentários

"Avispas Negras" (Vespas Negras) é o nome pelo qual ficaram conhecidos, fora de Cuba, os elementos mais qualificados do aparato de forças especiais e segurança estratégica do Estado cubano. Não se trata, oficialmente, de uma unidade com designação formal pública, brasão próprio ou ordem de batalha aberta, como ocorre com forças especiais ocidentais. O termo funciona mais como uma identificação operacional e simbólica, associada a militares e agentes selecionados das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e do Ministério do Interior, empregados em missões sensíveis, internas e externas, onde o regime considera que a falha não é aceitável.

A origem dessas forças remonta aos primeiros anos do regime revolucionário, quando Cuba passou a estruturar não apenas forças armadas convencionais, mas também um sistema robusto de segurança do Estado, voltado à preservação do poder político. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, com apoio doutrinário soviético e experiência adquirida em missões externas, especialmente na África, Cuba desenvolveu quadros especializados em infiltração, proteção de lideranças, contrainteligência e combate de curta distância. Desse caldo histórico surgem os homens que, mais tarde, seriam identificados como Avispas Negras.

O treinamento desses operadores ocorre dentro de um sistema fechado, fragmentado e altamente compartimentado. Diferentemente de forças especiais ocidentais, onde centros de instrução são relativamente conhecidos, o treinamento cubano privilegia o anonimato, a descentralização e a diluição das capacidades em estruturas maiores. O processo começa com a seleção de militares e agentes jovens, oriundos tanto das FAR quanto do MININT, com histórico de disciplina rígida, confiabilidade política absoluta e resistência psicológica elevada. A lealdade ideológica não é um critério secundário; ela é central.

Após a triagem inicial, os selecionados passam por ciclos de formação que incluem preparo físico intenso, técnicas de combate aproximado, tiro instintivo, progressão em ambientes confinados, segurança de autoridades, vigilância e contra-vigilância, além de forte ênfase em controle emocional sob estresse. Há também treinamento em ambientes urbanos densos, interrogatório, proteção de instalações sensíveis e reação imediata a tentativas de captura ou eliminação de figuras-chave do regime.

Relatos de dissidentes e analistas indicam que parte desses operadores recebe instrução complementar em doutrina estrangeira, principalmente russa, com foco em operações de segurança do Estado, proteção de alvos estratégicos e repressão a ameaças internas. Não se trata de uma força orientada para guerra expedicionária moderna nos moldes ocidentais, mas sim para controle, dissuasão e sobrevivência do núcleo de poder.

No plano internacional, Cuba empregou esse tipo de força de forma recorrente, ainda que discreta. Durante a Guerra Fria, operadores cubanos estiveram presentes em países africanos aliados, como Angola e Etiópia, atuando não apenas como instrutores, mas também em funções de proteção de lideranças e instalações críticas. Na América Latina, a presença sempre foi mais sensível e, por isso, mais negada. Ainda assim, há indícios consistentes de atuação em países alinhados politicamente, com destaque para a Venezuela a partir dos anos 2000.

Na Venezuela, a presença cubana evoluiu de assessoria política e de inteligência para algo mais profundo. Ao longo dos anos, militares e agentes cubanos passaram a integrar o sistema de segurança do Estado venezuelano, influenciando estruturas de inteligência, controle social e proteção do alto comando. Dentro desse arranjo, elementos associados aos Avispas Negras passaram a compor o anel mais interno de segurança de Nicolás Maduro. Sua função era clara: garantir a sobrevivência física do líder e impedir qualquer ação de captura ou eliminação.

Esse tipo de missão molda a mentalidade do operador. A doutrina é defensiva, reativa e centrada no terreno conhecido. O operador é treinado para reconhecer padrões de ameaça interna, antecipar movimentos previsíveis e reagir com violência controlada e imediata. O problema surge quando esse modelo entra em choque com uma força que opera fora desses padrões.

A operação norte-americana em Caracas expôs exatamente esse ponto de ruptura. As forças dos Estados Unidos não enfrentaram os Avispas Negras como uma tropa convencional nem como uma milícia desorganizada. Enfrentaram como um núcleo de segurança rígido, previsível em sua função e limitado em sua capacidade de adaptação frente a um adversário com domínio total do ambiente operacional.

A superioridade norte-americana não se manifestou apenas no momento do contato armado. Ela se construiu antes, no domínio da inteligência, na coleta persistente de informações, na modelagem do alvo, no mapeamento de rotinas, na identificação de padrões humanos e técnicos. Quando o contato ocorreu, os defensores já haviam perdido o principal ativo em operações especiais: a consciência situacional.

Os 32 cubanos mortos durante a operação estavam cumprindo exatamente o papel para o qual foram treinados. Permaneceram em posição, tentaram reagir localmente e resistiram até o limite de suas capacidades. O que não possuíam era margem de manobra. Sem comunicações eficazes, sem coordenação superior e sem capacidade de reforço, foram neutralizados de forma rápida e assimétrica.

Não houve falha individual relevante. Houve falha estrutural. A doutrina de proteção, baseada em presença física, controle de acesso e reação imediata, mostrou-se insuficiente diante de uma operação de captura de alto valor conduzida por uma força com integração plena entre inteligência, aviação, cibernética e operadores de ação direta.

A extração de Maduro em poucos minutos, sem baixas norte-americanas confirmadas, consolidou essa assimetria. A missão não exigia ocupação, nem combate prolongado, nem demonstração de força. Exigia velocidade, precisão e controle absoluto do tempo. Nesse tipo de cenário, a defesa perde antes mesmo de perceber que o ataque começou.

O episódio de Caracas não apaga décadas de atuação dos Avispas Negras nem invalida sua eficácia dentro do contexto para o qual foram concebidos. Ele, no entanto, deixa uma lição clara para qualquer força de segurança estatal: treinamento rígido, coragem e lealdade não compensam defasagens doutrinárias, isolamento tecnológico e ausência de integração sistêmica.

Quando se amplia a análise e se compara o desempenho e a concepção dos Avispas Negras com outras forças especiais consolidadas no cenário internacional, o episódio de Caracas ganha contornos ainda mais claros. A diferença fundamental não está apenas no nível individual do combatente, mas no ecossistema operacional no qual cada força está inserida.

Spetsnaz

As forças especiais russas, genericamente conhecidas como Spetsnaz, oferecem um bom ponto de comparação. Assim como os cubanos, os Spetsnaz nasceram de uma lógica estatal rígida, voltada à preservação do regime e à execução de missões sensíveis sob forte controle político. No entanto, ao longo das últimas décadas, especialmente após os conflitos na Chechênia, na Síria e na Ucrânia, essas unidades passaram por um processo contínuo de adaptação. Embora ainda carreguem traços de centralização e rigidez, os Spetsnaz modernos operam com maior integração entre inteligência, guerra eletrônica, drones, fogos de apoio e forças convencionais. A doutrina russa, ainda que distinta da ocidental, reconhece a necessidade de operar em ambientes complexos e contestados, com múltiplas camadas de apoio. Isso dá aos Spetsnaz uma flexibilidade que os Avispas Negras, pela própria natureza do sistema cubano, não desenvolveram plenamente.

No extremo oposto do espectro estão as forças especiais dos Estados Unidos. A Delta Force, oficialmente conhecida como 1st Special Forces Operational Detachment-Delta, representa um modelo no qual o operador é apenas uma parte de um sistema muito mais amplo. A seleção é brutal, o treinamento é contínuo e adaptativo, mas o verdadeiro diferencial está na integração total com inteligência estratégica, vigilância persistente, meios aéreos dedicados, capacidades cibernéticas e apoio logístico global. A Delta não atua isolada; ela opera como ponta de lança de um aparato que inclui satélites, plataformas aéreas tripuladas e não tripuladas, equipes de análise em tempo real e cadeias de comando extremamente curtas. Nesse modelo, o combate direto é apenas a fase final de um processo que começa muito antes do primeiro disparo.

Delta Force

O mesmo se aplica ao DEVGRU, a unidade de operações especiais navais dos Estados Unidos. Embora com foco marítimo, o DEVGRU desenvolveu ao longo dos anos uma capacidade híbrida, atuando com excelência em ambientes urbanos, costeiros e interiores. Assim como a Delta, o DEVGRU opera dentro de uma lógica de domínio total do ambiente operacional, onde surpresa, velocidade e assimetria são construídas por meio de inteligência e preparação extensiva. A diferença central em relação aos Avispas Negras está no fato de que, para essas unidades americanas, a missão não é defender um espaço ou resistir a um ataque, mas impor um colapso rápido ao sistema adversário.

No contexto brasileiro, forças como o GRUMEC, da Marinha do Brasil, e o COMANF, do Corpo de Fuzileiros Navais, ocupam uma posição intermediária interessante nessa comparação. São unidades altamente profissionais, com processos seletivos rigorosos, treinamento técnico sólido e forte cultura operacional. O GRUMEC, em particular, possui excelência reconhecida em operações marítimas especiais, mergulho de combate e ações de infiltração complexas. O COMANF, por sua vez, desenvolveu uma doutrina robusta de operações anfíbias e ações diretas, com crescente integração a meios modernos de comando e controle.

GRUMEC

A diferença fundamental entre essas forças brasileiras e os Avispas Negras não está na capacidade individual do combatente, mas na filosofia de emprego. Enquanto o modelo cubano prioriza controle, defesa do poder político e compartimentação extrema, as forças brasileiras vêm evoluindo dentro de uma lógica de interoperabilidade, treinamento conjunto e adaptação doutrinária, ainda que com limitações orçamentárias e estruturais conhecidas.

O comparativo deixa claro que o fracasso dos Avispas Negras em Caracas não deve ser interpretado como ausência de treinamento ou coragem, mas como resultado direto de um modelo operacional fechado, concebido para um tipo específico de ameaça e incapaz de responder a um adversário que opera de forma sistêmica, integrada e global.

Forças como Delta Force, DEVGRU e, em menor escala, unidades modernas dos Spetsnaz e forças especiais brasileiras, operam com a compreensão de que a guerra contemporânea não é vencida apenas no contato armado. Ela é vencida na coleta de dados, na análise, na antecipação, na quebra da consciência situacional do inimigo e no controle absoluto do tempo e do espaço.

Caracas demonstrou que, no confronto entre modelos, não basta ser elite. É preciso pertencer a um sistema que permita à elite operar no seu máximo potencial. E essa talvez seja a lição mais dura deixada pelo fim dos Avispas Negras naquela madrugada: no campo das operações especiais modernas, a excelência individual só sobrevive quando sustentada por uma estrutura capaz de evoluir junto com a guerra.

A guerra moderna, especialmente no campo das operações especiais, não perdoa modelos fechados em si mesmos. Quem não evolui, não se adapta e não enxerga o campo de batalha como um sistema integrado acaba derrotado não por falta de vontade, mas por excesso de previsibilidade.

Caracas foi menos um confronto entre homens armados e mais um choque entre épocas diferentes da guerra. E, nesse choque, os Avispas Negras representaram um modelo que já não responde plenamente às exigências do campo de batalha contemporâneo.


por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui


Continue Lendo...

Elbit Systems fecha contratos de US$ 275 milhões para sistemas avançados de guerra eletrônica na Ásia-Pacífico incluindo o DIRCM

0 comentários

A Elbit Systems anunciou hoje (12) a assinatura de contratos que totalizam aproximadamente US$ 275 milhões para o fornecimento de um conjunto avançado de sistemas de guerra eletrônica (EW) voltados à autoproteção aérea, incluindo seu sistema de contramedida infravermelha direta (DIRCM), para um país da região Ásia-Pacífico. Os contratos serão executados ao longo de um período de cinco anos, reforçando a presença da empresa em um dos mercados estratégicos mais dinâmicos do setor de defesa global.

De acordo com os termos firmados, a Elbit Systems fornecerá um conjunto abrangente de soluções de guerra eletrônica projetadas para proteger plataformas de helicópteros contra ameaças modernas, especialmente mísseis guiados, aumentando significativamente a capacidade de sobrevivência da aeronave e a eficácia no cumprimento de missões em ambientes hostis. A solução integra sensores eletrônicos avançados, processamento de sinais de última geração e contramedidas automatizadas, permitindo alerta antecipado, identificação precisa de ameaças e resposta rápida e coordenada frente a um amplo espectro de riscos.

Entre os sistemas incluídos nos contratos está o Mini-MUSIC DIRCM, desenvolvido para a proteção de aeronaves de asa fixa e rotativa de pequeno e médio porte, incluindo helicópteros. O sistema utiliza tecnologias avançadas de laser e rastreamento para detectar, acompanhar e neutralizar mísseis infravermelhos, oferecendo uma camada crítica de defesa contra ameaças cada vez mais disseminadas no campo de batalha moderno. Construído com base em anos de experiência operacional comprovada e sustentado por centenas de milhares de horas de voo em ambientes militares reais, o Mini-MUSIC já demonstrou sua eficácia na proteção de aeronaves e de seus tripulantes em cenários de alta complexidade.

Os sistemas fornecidos serão adaptados especificamente à plataforma de helicóptero do cliente e às suas necessidades operacionais, garantindo integração plena com os demais sistemas da aeronave e desempenho otimizado em diferentes perfis de missão. Essa flexibilidade permite que as soluções ofereçam proteção robusta tanto em operações convencionais quanto em cenários assimétricos, onde ameaças portáteis e imprevisíveis representam um risco constante.

Esses novos contratos se somam a uma série de acordos firmados pela Elbit Systems nos últimos anos no segmento de autoproteção aérea, abrangendo diversos países e forças armadas, incluindo nações da OTAN e outros operadores europeus. O movimento reforça a posição da empresa como um dos principais fornecedores globais de soluções integradas de guerra eletrônica e proteção de plataformas aéreas.

Comentando sobre o anúncio, Bezhalel (Butzi) Machlis, Presidente e CEO da Elbit Systems, destacou que os contratos refletem a crescente confiança dos clientes da região Ásia-Pacífico nas soluções avançadas e comprovadas em combate desenvolvidas pela empresa. Segundo ele, os sistemas integrados de guerra eletrônica e contramedidas DIRCM da Elbit oferecem capacidades altamente sofisticadas de detecção e neutralização de ameaças, elevando a sobrevivência das aeronaves e a eficácia operacional em ambientes de missão cada vez mais complexos. Machlis ressaltou ainda o compromisso da empresa em fortalecer parcerias estratégicas e apoiar as necessidades em constante evolução de seus clientes em uma região considerada prioritária para a indústria de defesa.


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

TERREMOTO NO HAITI - "A coragem é a primeira das qualidades humanas, porque é a qualidade que garante as demais."*

0 comentários

Somos administradores do caos, os Batalhões de Paz Brasileiros no Haiti, eram preparados para um enorme fluxograma de situações, mas cerca de 300 mil mortos em um minuto e meio, em Porto Príncipe, não estava nos planejamentos. No meu primeiro dia de missão, como Oficial de Estado-Maior de Assuntos Civis (G-9), fiquei soterrado no QG da ONU em 12 de janeiro de 2010, onde mais de 130 almas desencarnaram e apenas 5 não estavam no manifesto, eu sou um deles.

Vi a morte chegar, pedi a Deus para não me acovardar, para cuidar da minha Família e agradeci a abundante existência, assim como faço até hoje. Lembro do meu Adjunto, Major Guimarães, correr à frente com a minha mochila e ser soterrado; ouvi o último suspiro de várias pessoas na cápsula de sobrevivência; tirei a corda da bandeira da ONU e, com a ajuda do Coronel Kersul, desescalei o prédio tombado à procura de sobreviventes. Embaixo, escutei o Tenente-Coronel Alexandre Santos pedindo socorro; entrei num túnel à sua procura e outros tremores ocorreram, foram quase 30 em 12 horas, período que lá fiquei. Falei pra ele: vou buscar ajuda! A Companhia da Bolívia estava chegando no local, os guiei até lá e com as mãos, depois de quase 6 horas, conseguimos retirá-lo numa maca.

Carreguei pessoas que morreram nos meus braços ao chegarem nas ambulâncias e em carros na MINUSTAH. Vi cenas surreais...Continuei procurando pessoas na estrutura, identifiquei Jude Brice, um Agrônomo haitiano formado no Brasil. Ouvi batidas na laje e respondi, 12 horas depois ele foi salvo.

O Coronel Soares, hoje General, então Subcomandante do BRABATT, ao ouvir o meu relato pelo rádio da viatura, pois os celulares não funcionavam, mandou me resgatar, uma das suas muitas decisões de líder naquele momento. Ele também me autorizou a voltar 48 horas depois para resgatar os corpos dos Irmãos tombados.

De G9, junto com a minha Equipe – Capitão de Fragata Marcio, Tenente-Coronel Spangenbeg, Major da Bolívia Adriazolla, Subtenentes Casemiro e Neves, e Sargentos Aijalon e Airton; fomos elevados às responsabilidades de Ajuda Humanitária. Coordenamos e participamos da distribuição de 10 mil toneladas de materiais, em 7 meses; auxiliamos mais de 300 instituições; produzimos projetos para ajudar aquele povo: reforma de escola, criação de praça poliesportiva, estruturação de colônia de pescadores na Ilha de La Gonave, limpeza dos canais e recuperação do meio ambiente. Atuamos nos locais dos mais necessitados e onde a tropa operava para pacificar.

Como conseguimos tudo isso? Ao projetar o Estado Brasileiro, nós militares o fazemos com VALORES, isto nos confere o lastro moral para a luta. Temos valores, o Exército Brasileiro tem valores: Patriotismo, Civismo, Fé na Missão, Amor à Profissão, Espírito de Corpo e Aprimoramento Técnico-Profissional. A Instituição é maior que seus homens e é perpétua! Desde 2010, ministrei, no Brasil e no exterior, palestras sobre a importância dos valores em situações de crise. Emocionante observar públicos tão diferentes com o mesmo resultado de estímulo emocional. Fazer o bem faz bem e contagia!  

Nestes 16 anos do Terremoto no Haiti, gostaria de reverenciar a memória da Doutora Zilda Arns, do Embaixador Luiz Carlos da Costa, do Tenente PMDF Cleiton e dos Heróis do Exército Brasileiro, responsáveis por manter um ambiente seguro e estável no Haiti e projetar o Brasil no mundo: Coronéis Emílio, Zanin e Cysneiros; os Majores Adolfo e Guimarães; o Tenente Bruno; o Subtenente Raniel Camargos; os Sargentos Souza Lima, Davi e Carvalho; os Cabos Seraphin, Pedrotti e Arí; e os Soldados Felipe, Anacleto, Detimermani, da Silva e Kleber. Solicito, um minuto de silêncio...

Foi uma honra estar em momento tão difícil no Haiti e cumprir a minha missão de Brasileiro!


Coronel Veterano do Exército Brasileiro Adriano AZEVEDO, 12 de janeiro de 2026.


Este testemunho foi escrito pelo Coronel Adriano de Souza Azevedo, veterano do Exército Brasileiro, um dos nossos heróis nacionais que serviu no Haiti durante a MINUSTAH, exatamente no período mais dramático e desafiador da missão brasileira sob a égide da ONU. Suas palavras não são apenas um relato pessoal, mas um registro histórico vivo do heroísmo, da coragem, da liderança e dos valores que norteiam as Forças Armadas do Brasil. Elas traduzem o espírito de sacrifício de homens e mulheres que, mesmo diante do caos absoluto instaurado naquele fatídico 12 de janeiro de 2010, escolheram salvar vidas, cumprir a missão e honrar a Pátria. Esta é também uma homenagem solene a todos os que tombaram naquele dia, aos que sobreviveram carregando marcas eternas na alma, e a cada militar, policial, civil e brasileiro que esteve no Haiti, projetando ao mundo o que o Brasil tem de mais nobre: humanidade, coragem, solidariedade e compromisso com a paz.



GBN Defense - A informação começa aqui

*Winston Churchill


Continue Lendo...

Exército Brasileiro avança nas negociações para aquisição do sistema antiaéreo EMADS

0 comentários

O Exército Brasileiro entrou na fase decisiva do processo que pode resultar na aquisição do sistema antiaéreo de média altura e médio alcance EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), desenvolvido pela MBDA. A negociação, conduzida no formato governo a governo, ganhou ritmo nas últimas semanas e já envolve a discussão de termos técnicos, logísticos e financeiros, indicando que a decisão deixou o campo dos estudos preliminares e avançou para um estágio mais concreto.

A possível incorporação do EMADS representa um movimento estratégico relevante, especialmente diante das limitações históricas da defesa antiaérea terrestre brasileira. Atualmente, o país dispõe majoritariamente de sistemas de curto alcance, adequados à proteção pontual de tropas e instalações específicas, mas insuficientes para lidar com ameaças modernas que operam em médias altitudes e a maiores distâncias, como aeronaves de alta performance, mísseis de cruzeiro e veículos aéreos não tripulados de longo alcance.

Essa lacuna operacional tornou-se ainda mais evidente nos últimos anos, à medida que conflitos recentes ao redor do mundo demonstraram o papel central da defesa aérea na proteção de infraestruturas críticas e na garantia da liberdade de ação das forças terrestres. Nesse contexto, o Exército Brasileiro passou a buscar uma solução capaz de elevar significativamente seu patamar tecnológico e operacional.

O EMADS surge como a alternativa que melhor atende a esses requisitos. Trata-se de um sistema modular, móvel e altamente interoperável, baseado nos mísseis da família CAMM e CAMM-ER, capazes de engajar múltiplos tipos de alvos com cobertura de 360 graus. Seu conceito de lançamento vertical, aliado a sensores modernos e sistemas avançados de comando e controle, permite rápida reação e integração com outras camadas da defesa aérea.

Um dos fatores que pesaram na escolha da solução italiana foi a sinergia com capacidades já existentes nas Forças Armadas brasileiras. A Marinha do Brasil, por exemplo, adotou os mísseis CAMM nas fragatas da Classe Tamandaré, o que abre caminho para ganhos logísticos, padronização de treinamentos e maior interoperabilidade entre as forças, reduzindo custos ao longo do ciclo de vida do sistema.

A formalização dessa preferência ocorreu com a publicação.no início de 2026 da diretriz do Estado-Maior do Exército, que estabelece os parâmetros para a obtenção de um sistema de artilharia antiaérea de média altura e médio alcance. O documento define não apenas o EMADS como referência principal do programa, mas também delineia etapas de implantação, capacitação de pessoal, infraestrutura de apoio e perspectivas de modernização futura.

Antes disso, o Brasil chegou a considerar outras alternativas, como o sistema indiano Akash. No entanto, divergências relacionadas à versão tecnológica oferecida e à capacidade de atender aos requisitos operacionais brasileiros levaram ao encerramento das negociações, abrindo espaço para uma solução europeia considerada mais alinhada às necessidades da Força Terrestre.

As negociações com a Itália avançam no momento em que o orçamento de defesa passa a refletir, ainda que de forma gradual, a compreensão da importância da defesa aérea. Estimativas indicam que os investimentos associados ao programa podem variar entre 3,4 e 5 bilhões de reais, dependendo da configuração final do sistema, do pacote logístico, do suporte técnico e das condições de financiamento acordadas entre os governos.

Além do ganho operacional imediato, o acordo em discussão também envolve expectativas de cooperação industrial e transferência de tecnologia. Esse aspecto é visto como fundamental para fortalecer a base industrial de defesa brasileira, ampliar a autonomia tecnológica do Brasil e criar condições para futuras evoluções do sistema em território nacional.

Do ponto de vista estratégico, a aquisição do EMADS representa mais do que a introdução de um novo sistema. Trata-se de um passo concreto rumo à construção de uma defesa aérea em camadas, conceito amplamente adotado por países que levam a sério a proteção de seu espaço aéreo. Ao integrar sistemas de curto, médio e, no futuro, longo alcance, o Brasil amplia sua capacidade de dissuasão e reduz vulnerabilidades críticas em um cenário internacional cada vez mais instável.

A experiência recente de conflitos modernos demonstra que a ausência de uma defesa aérea eficaz pode comprometer não apenas operações militares, mas também a segurança de centros urbanos, instalações industriais, portos, aeroportos e estruturas energéticas. Para um país de dimensões continentais como o Brasil, essa vulnerabilidade assume proporções ainda maiores.

Nossa análise é clara: o avanço nas negociações para a aquisição do EMADS sinaliza maturidade estratégica e compreensão do ambiente de ameaças do século XXI. Investir em defesa aérea não é um luxo nem gasto, mas uma necessidade básica da soberania. A continuidade desses investimentos, com planejamento de longo prazo e estabilidade orçamentária, será determinante para que o Brasil deixe de atuar de forma reativa e passe a ocupar uma posição mais consistente na proteção de seu território e de seus interesses estratégicos.


GBN Defense - A informação começa aqui


Continue Lendo...

domingo, 11 de janeiro de 2026

Análise - Irã em ponto de inflexão: crise interna, pressões externas e o risco de um erro de cálculo histórico

0 comentários

O Irã atravessa um daqueles momentos raros em que variáveis internas e externas se alinham de forma perigosa, criando um ambiente estratégico altamente instável. Não se trata apenas de protestos recorrentes, de uma crise econômica cíclica ou de mais um capítulo da longa tensão entre Teerã e o Ocidente. O que se observa é um processo estrutural de desgaste do modelo de poder iraniano, somado a um ambiente internacional que embora evite discursos inflamados, se prepara silenciosamente para diferentes cenários.

Esses períodos de inflexão histórica costumam ser mal interpretados em tempo real. Governos tendem a superestimar sua capacidade de controle, enquanto atores externos, muitas vezes, subestimam a resiliência de regimes autoritários. O perigo não reside apenas na crise em si, mas na combinação entre convicções rígidas, leituras equivocadas e decisões tomadas sob pressão.

Desde 1979, a República Islâmica do Irã construiu sua sobrevivência a partir de uma lógica de segurança permanente. O regime nasceu sob a percepção de cerco externo e internalizou essa visão como doutrina de Estado. O controle social rígido, a repressão seletiva e a centralidade da Guarda Revolucionária não são desvios autoritários ocasionais, mas pilares estruturais de governança. A legitimidade do sistema não se baseia no consenso amplo, mas na capacidade de impor ordem, manter coesão interna e projetar força.

Esse modelo foi eficaz por décadas, sobretudo porque se apoiava em uma geração moldada pela revolução e pela guerra contra o Iraque. No entanto, a sociedade iraniana de hoje é profundamente diferente daquela que sustentou o regime em seus primeiros anos. A demografia mudou, os centros urbanos se expandiram, o nível educacional cresceu e a exposição ao mundo exterior tornou-se inevitável, mesmo sob censura.

A economia, que já foi instrumento de coesão nacional durante períodos de confronto, transformou-se em fator de erosão social. Sanções prolongadas, má gestão estrutural, corrupção endêmica e isolamento financeiro criaram um ambiente no qual expectativas de ascensão social praticamente desapareceram para grande parte da população jovem. O descompasso entre qualificação e oportunidades é um dos motores silenciosos da insatisfação.

Os protestos recentes expressam essa mudança qualitativa. Eles não surgem apenas como reação a medidas específicas, mas como manifestação de um esgotamento psicológico coletivo. Quando a contestação deixa de pedir reformas pontuais e passa a questionar o próprio sentido do presente e do futuro, o regime enfrenta um desafio mais profundo do que a simples restauração da ordem.

O aparato repressivo segue funcional. A Guarda Revolucionária mantém coesão, as forças de segurança permanecem leais e o sistema judicial continua alinhado ao núcleo do poder. Contudo, a história mostra que regimes não colapsam apenas quando perdem capacidade coercitiva, mas quando começam a sofrer fissuras internas, fadiga institucional e conflitos silenciosos entre elites políticas, militares e econômicas.

A posição regional do Irã amplifica cada tensão doméstica. Trata-se de um ator central no equilíbrio de poder do Oriente Médio, com influência direta no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. Qualquer sinal de instabilidade interna desperta atenção imediata de Israel, não por retórica ideológica, mas por cálculo estratégico. Países do Golfo observam com cautela, temendo tanto uma escalada militar quanto um colapso desordenado que gere instabilidade crônica.

O uso de atores não estatais aliados, como o Hezbollah, Hamas e Houthis permanece como instrumento de dissuasão e projeção indireta. Esse modelo permite ao Irã ampliar sua influência regional sem confrontação direta, mas também cria riscos de escaladas involuntárias, sobretudo em contextos de crise interna, quando governos recorrem a ameaças externas como mecanismo de coesão doméstica.

No plano internacional, os Estados Unidos adotam uma postura deliberadamente ambígua. Washington evita discursos maximalistas sobre mudança de regime, consciente do histórico de intervenções mal-sucedidas. Ao mesmo tempo, os sinais operacionais indicam que a crise iraniana é tratada como cenário de alta prioridade estratégica.

A movimentação de forças especiais americanas para o Reino Unido deve ser interpretada sob essa lógica. Não se trata de um prenúncio automático de intervenção, mas de preparação logística e operacional para resposta rápida. Bases britânicas oferecem capacidade estratégica, interoperabilidade com aliados da OTAN e acesso facilitado a múltiplos teatros. Esse tipo de posicionamento é típico de estratégias de dissuasão moderna: estar pronto sem anunciar intenção.

Exercícios conjuntos, reforço de capacidades de inteligência, vigilância ampliada e coordenação com aliados europeus indicam que Washington trabalha com cenários que vão desde uma escalada regional até um colapso parcial do Estado iraniano. A prioridade parece ser evitar surpresa estratégica, não provocar confronto direto.

A Europa adota uma postura ainda mais cautelosa, moldada por vulnerabilidades próprias. O continente teme impactos diretos sobre fluxos migratórios, estabilidade energética e segurança interna. Por isso, a resposta europeia se concentra em sanções direcionadas, condenações diplomáticas e esforços para manter canais de diálogo abertos. A leitura predominante é que qualquer colapso abrupto do Irã produziria efeitos sistêmicos difíceis de conter.

É nesse ponto que a inteligência comparativa se torna essencial. O Iraque de 2003 demonstrou como a remoção de um regime autoritário pode destruir o próprio Estado. A Síria desde 2011 ilustra como repressão prolongada combinada com fragmentação social gera guerras de duração indefinida. A Líbia evidencia os riscos do colapso institucional sem plano de reconstrução. A dissolução da União Soviética mostra que sistemas aparentemente sólidos podem implodir de forma lenta, silenciosa e inesperada. Assim como a Venezuela revela os limites da pressão externa direta e a resiliência de regimes isolados.

O Irã observa com atenção, assim como Washington e seus aliados.

Nesse contexto, a atuação do príncipe herdeiro Reza Pahlavi adiciona uma variável simbólica relevante. A partir dos Estados Unidos, ele tenta se apresentar como figura de unidade e alternativa de poder. Historicamente, líderes no exílio tendem a superestimar sua capacidade de mobilização interna e subestimar a complexidade sociopolítica do país que pretendem governar. Para o regime iraniano, sua presença é útil como instrumento narrativo, reforçando a ideia de conspiração estrangeira.

Até o momento, os Estados Unidos evitam endossar projetos personalistas de mudança de regime, conscientes de que a história demonstra os riscos de se apostar em soluções simplificadas para problemas profundamente estruturais.

Diante desse cenário, alguns desdobramentos permanecem plausíveis. Uma estabilização repressiva com concessões mínimas. Um processo gradual de acomodação interna. Uma fragmentação lenta e perigosa das estruturas de poder. Uma tentativa de desvio por meio de escalada regional. Ou, no pior cenário, um erro de cálculo interno ou externo que desencadeie uma crise de grandes proporções.

Nenhuma dessas trajetórias é inevitável, mas todas estão abertas.

O maior risco neste momento não é a mudança em si, mas a má leitura do tempo histórico. Estados raramente colapsam quando todos esperam. Eles colapsam quando acreditam demais em suas próprias narrativas ou quando seus adversários confundem prontidão com controle.

Os cenários que se desenham a partir da atual crise iraniana não apontam para uma única trajetória linear, mas para um campo de possibilidades onde variáveis internas e externas interagem de forma dinâmica. Um primeiro cenário, considerado por muitos analistas como o de menor atrito imediato, é o da sobrevivência adaptativa do regime. Nele, o sistema teocrático-islâmico consegue absorver o choque por meio de repressão seletiva, concessões econômicas pontuais e uma reorganização interna das elites, especialmente dentro do IRGC. Esse modelo já foi testado no passado, sobretudo após 2009, e se baseia na fragmentação da oposição, no cansaço social e na ausência de uma liderança interna capaz de unificar o descontentamento. A leitura de Washington e das capitais europeias é que esse cenário não representa estabilidade real, mas apenas posterga uma crise estrutural mais profunda, mantendo o Irã como um ator imprevisível, pressionado economicamente e cada vez mais dependente de alianças assimétricas com Rússia e China.

Um segundo cenário, mais instável e potencialmente explosivo, envolve uma escalada de protestos com fissuras reais dentro do aparato de segurança e do sistema político. Aqui, o ponto de inflexão não seria apenas a mobilização popular, mas a decisão de setores do IRGC, da polícia ou mesmo do clero de não sustentar integralmente a repressão. Esse tipo de dinâmica guarda paralelos perigosos com a Síria em 2011, quando manifestações inicialmente localizadas evoluíram para um conflito sistêmico ao se cruzarem com deserções e disputas internas pelo poder. No caso iraniano, o risco adicional reside na capacidade do regime de externalizar a crise, provocando tensões regionais no Golfo, no Iraque, no Líbano ou mesmo com Israel, como forma de recompor a coesão interna por meio do inimigo externo. É precisamente esse cenário que mantém forças especiais americanas em prontidão e justifica a concentração de meios no Reino Unido, ponto logístico-chave para projeção rápida no Oriente Médio.

Um terceiro cenário, observado com atenção crescente por círculos de inteligência ocidentais, é o da transição induzida externamente, ainda que sem uma invasão direta nos moldes do Iraque em 2003. Trata-se de uma combinação de pressão econômica máxima, isolamento diplomático, operações de informação, apoio indireto a grupos oposicionistas e estímulo a lideranças no exílio, entre elas Reza Pahlavi, que tem se posicionado de forma cada vez mais explícita como alternativa simbólica ao regime. Diferentemente do Iraque ou da Líbia, onde a remoção do poder ocorreu de forma abrupta e militarizada, esse modelo buscaria uma implosão controlada do sistema, embora a experiência histórica mostre que o controle raramente se mantém após o colapso das estruturas centrais. Para os europeus, esse é o cenário mais desconfortável: desejam mudanças, mas temem o vácuo de poder, a fragmentação territorial e uma nova onda de instabilidade regional com impactos diretos sobre energia, migração e segurança.

Por fim, existe um quarto cenário, menos discutido publicamente, mas presente nas análises mais profundas: o de uma transição caótica e prolongada, marcada por disputas entre múltiplos polos de poder, ao molde da lenta derrocada da extinta União Soviética, porém em um contexto muito mais volátil. Nesse quadro, o Irã não colapsa de uma vez, nem se reforma plenamente. Ele se fragmenta politicamente, com centros de poder concorrentes, economias paralelas, milícias regionais e crescente perda de controle do Estado central. Esse cenário seria extremamente perigoso para o equilíbrio estratégico do Oriente Médio, especialmente no que diz respeito ao programa nuclear, ao controle de mísseis balísticos e às redes de influência iranianas fora de suas fronteiras. É justamente para esse tipo de desfecho que os Estados Unidos mantêm uma postura de vigilância intensa, combinando dissuasão militar, coordenação com aliados europeus e sinais claros de que, assim como na Venezuela, não aceitam indefinidamente regimes considerados hostis quando estes entram em estado de colapso interno prolongado.

O Irã encontra-se, de fato, em um ponto de inflexão. A história ainda não definiu o desfecho. Mas uma lição permanece clara: o custo de errar agora será alto demais para todos os envolvidos, dentro e fora da região.

Quando os fatos finalmente se cristalizarem, quando os arquivos forem abertos, quando as decisões hoje tomadas em silêncio vierem à tona, ficará evidente que os sinais estavam todos ali, visíveis para quem soube observar com método, história e coragem intelectual. Esta análise não pretende prever o futuro com arrogância, mas registrar, com responsabilidade estratégica, o momento exato em que a história começou a mudar de direção. E é nesse ponto que o GBN Defense se posiciona: não como espectador dos acontecimentos, mas como intérprete atento do tempo em que eles ainda estavam sendo escritos.


por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui



Continue Lendo...

Porta-aviões, boatos no Planalto e a fragilidade estrutural do poder naval brasileiro

0 comentários

Nos últimos dias, um episódio curioso e revelador passou a circular com força em redes sociais e em círculos ligados à política e à Defesa. Segundo relatos não confirmados, o presidente Lula teria solicitado à Marinha do Brasil que se preparasse para a eventual mobilização de um porta-aviões, apenas para ser informado de que o país não dispõe mais de um navio dessa categoria em operação. A história rapidamente ganhou contornos de ironia e foi tratada, por muitos, como anedota ou constrangimento institucional.

Não há confirmação oficial do ocorrido, nem registros de qualquer ordem nesse sentido. Ainda assim, reduzir o episódio a um boato ou a uma piada é desperdiçar a oportunidade de discutir algo muito mais relevante. Independentemente de sua veracidade, a narrativa expõe uma fragilidade real e estrutural da Defesa brasileira e escancara um problema mais profundo: a distância entre o debate público e a complexidade real do poder naval no século XXI.

O Brasil operou porta-aviões por décadas e construiu, ao longo desse período, uma doutrina consistente de aviação embarcada, reconhecida inclusive por marinhas estrangeiras. Essa capacidade foi interrompida com a desativação do NAe "São Paulo" em 2017, após sucessivos problemas técnicos, limitações orçamentárias e a ausência de um planejamento sustentável de longo prazo. Desde então, a Marinha do Brasil passou a operar sob severas restrições, sendo obrigada a priorizar capacidades mínimas para o cumprimento de suas missões constitucionais.

O equívoco recorrente está na forma como esse debate é conduzido. A ausência de um porta-aviões costuma ser tratada como um problema isolado, quase como um símbolo de declínio, quando na realidade ela é apenas a face mais visível de um desafio estrutural muito maior. Um navio-aeródromo não é, por si só, sinônimo de poder naval. Ele é apenas o elemento central de um sistema extremamente complexo, que depende de uma cadeia de meios de escolta, apoio e comando para existir de forma minimamente segura e eficaz.

Um grupo-tarefa centrado em um porta-aviões exige, por exemplo, fragatas modernas com forte capacidade de defesa aérea, dotadas de radares de longo alcance, mísseis superfície-ar de médio e longo alcance e sistemas de combate capazes de operar em ambiente de guerra de alta intensidade. Sem isso, o navio-aeródromo fica vulnerável a ataques aéreos, mísseis antinavio e saturação de alvos — ameaças comuns no cenário naval contemporâneo.

Da mesma forma, a presença de navios com capacidade de guerra antissubmarino (ASW) é indispensável. Submarinos convencionais modernos, operando de forma silenciosa, representam uma das maiores ameaças a meios de alto valor. Sem escoltas equipadas com sonares rebocados, helicópteros ASW, torpedos e integração em tempo real, um porta-aviões se transforma em um alvo estratégico de alto risco.

Outro elemento crítico frequentemente ignorado é a sustentação logística. Um porta-aviões não opera de forma autônoma por longos períodos. Ele depende diretamente de navios de apoio logístico capazes de realizar reabastecimento no mar de combustível, munição, mantimentos e peças de reposição. Sem esses meios, qualquer operação de maior duração ou distância torna-se inviável, limitando drasticamente o alcance estratégico do grupo naval.

Além disso, é imprescindível uma arquitetura de comando, controle e comunicações C4ISR plenamente integrada. Um NAe exige consciência situacional permanente, enlace de dados seguro com aeronaves, escoltas, submarinos e forças conjuntas, além de capacidade de guerra eletrônica para proteção ativa e passiva. Sem isso, a operação deixa de ser um multiplicador de força e passa a ser um passivo operacional.

Nesse contexto, um porta-aviões isolado não representa poder, mas vulnerabilidade. A experiência recente de conflitos e exercícios navais ao redor do mundo demonstra que, em ambientes saturados por mísseis antinavio de longo alcance, drones, sensores distribuídos e sistemas de negação de área (A2/AD), a sobrevivência de meios de alto valor depende diretamente da qualidade, da quantidade e da integração dos meios que o protegem. Não se trata de ambição, mas de realidade operacional.

É justamente nesse ponto que o boato cumpre um papel involuntariamente útil. Ele força o debate a sair do campo simbólico e entrar na esfera estrutural. A pergunta correta não é se o Brasil deveria ter um porta-aviões hoje, mas se possui ou pretende construir uma Esquadra equilibrada, tecnologicamente atualizada e coerente com sua dimensão marítima e com seus interesses estratégicos no Atlântico Sul.

O Brasil detém uma das maiores áreas marítimas sob jurisdição do mundo, a chamada Amazônia Azul, que abriga rotas comerciais vitais, recursos energéticos estratégicos e responsabilidades crescentes no entorno regional. Proteger esse espaço exige mais do que a presença pontual de meios: exige persistência, dissuasão e prontidão contínua. Isso só é possível com fragatas e corvetas modernas em número adequado, capazes de operar de forma integrada, com sensores eficientes, armamentos compatíveis com as ameaças atuais e elevada disponibilidade operacional.

Programas como o das Fragatas Classe Tamandaré representam avanços importantes e necessários. Eles introduzem navios modernos, com alto grau de automação, sistemas de combate integrados e potencial de evolução ao longo de sua vida útil. No entanto, quatro fragatas, por mais avançadas que sejam, não resolvem sozinhas o desafio de vigilância, presença e controle de uma área marítima da dimensão da Amazônia Azul. A lacuna é tanto quantitativa quanto qualitativa.

O debate, portanto, precisa ir além do superficial. Defesa aérea de área, guerra antissubmarino, integração com a aviação naval, interoperabilidade com forças conjuntas, capacidade logística e comando e controle são partes indissociáveis de um mesmo sistema. Sem essa visão sistêmica, qualquer discussão sobre reaparelhamento corre o risco de se transformar em uma coleção de soluções desconectadas.

O episódio do suposto porta-aviões, verdadeiro ou não, escancara uma deficiência crônica no debate nacional sobre Defesa: a busca por respostas simples para problemas complexos. Poder naval não se constrói com improviso, anúncios pontuais ou decisões isoladas. Ele é fruto de planejamento de longo prazo, previsibilidade orçamentária, continuidade política e compreensão clara do papel estratégico do mar para o Brasil.

Se esse boato serviu para algo, foi para provocar uma reflexão necessária. Não sobre a ausência de um tipo específico de navio, mas sobre a urgência de se pensar a Marinha do Brasil como um sistema integrado de capacidades, coerente com os desafios do presente e preparado para os riscos do futuro. Sem isso, histórias como essa continuarão surgindo não como fatos, mas como sintomas de um debate que ainda precisa amadurecer.


por Angelo Nicolaci


GBN Defense – A informação começa aqui


Continue Lendo...

sábado, 10 de janeiro de 2026

Testes de aceitação da Fragata Tamandaré avançam com apoio do Esquadrão VF-1

0 comentários

Entre os dias 13 e 21 de novembro e de 5 a 11 de dezembro, a Marinha do Brasil avançou em mais uma etapa decisiva do processo de incorporação da Fragata Tamandaré (F-200). Nesse período, o 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (EsqVF-1), operando a partir da Base Aérea de Florianópolis (BAFL), foi empregado em voos específicos voltados aos testes de aceitação do novo meio naval.

As missões tiveram como objetivo principal a verificação e validação do Sistema de Combate da Fragata Tamandaré, componente central da capacidade operacional do navio. Trata-se de uma fase crítica do ciclo de testes, na qual sensores, sistemas de armas e enlaces de comunicação são avaliados de forma integrada, em condições próximas às de emprego real.

Durante os voos, as aeronaves do VF-1 executaram perfis previamente planejados, desenhados para simular diferentes cenários de ameaça aérea. Esses perfis permitem avaliar a capacidade dos radares do navio em detectar, rastrear e classificar alvos, bem como a eficiência dos sistemas de comando e controle na consolidação das informações táticas e na geração de uma consciência situacional coerente.

No âmbito do radar, os testes envolvem a detecção de alvos em diferentes altitudes, velocidades e assinaturas, avaliando alcance, precisão e estabilidade do rastreamento. As passagens das aeronaves em variados azimutes e regimes de voo permitem verificar possíveis zonas de sombra, latência de atualização e a capacidade do sistema em manter múltiplos contatos simultaneamente, algo essencial para operações modernas em ambientes saturados.

Paralelamente, os testes também avaliam o funcionamento do sistema de armas, ainda que, nessa fase, não envolvam necessariamente disparos reais. O foco está na cadeia de engajamento: desde a detecção inicial do alvo, passando pela designação, cálculo de solução de tiro e resposta do sistema. Esse processo permite confirmar se os sensores, o sistema de combate e os armamentos “conversam” de forma correta, sem perdas de informação ou atrasos críticos.

Outro elemento central dessas atividades é a verificação dos sistemas de comunicação e enlace de dados. As missões possibilitam testar a troca de informações entre a fragata e as aeronaves, validando a interoperabilidade, a segurança dos enlaces e a capacidade de compartilhamento de dados táticos em tempo real. Em um cenário operacional contemporâneo, essa integração é fundamental para operações conjuntas e combinadas, ampliando o alcance dos sensores do navio e aumentando sua capacidade de resposta.

Os voos conduzidos pelo VF-1 também representaram um importante ganho operacional para o Esquadrão. A interação direta com um navio dotado de sistemas de última geração permite aos pilotos e às equipes de apoio aprofundar o conhecimento sobre procedimentos, limitações e potencialidades do meio naval, fortalecendo a doutrina de emprego conjunto entre aeronave e navios de superfície.

A execução bem-sucedida dos perfis planejados confirma a maturidade do processo de testes e contribui diretamente para o avanço da Fragata Tamandaré em direção à sua plena capacidade operacional. Cada etapa concluída reduz incertezas, ajusta sistemas e consolida procedimentos, aproximando o navio de sua transferência definitiva ao setor operativo.

Mais do que simples voos de avaliação, essas atividades refletem a complexidade do desenvolvimento e da aceitação de um moderno meio de combate naval. Elas demonstram a importância da aviação naval como elemento essencial na validação dos sistemas de combate e reforçam o caráter integrado do Programa Fragatas Classe Tamandaré, um dos pilares da renovação da capacidade de superfície da Marinha do Brasil.

 

GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Bisturi ou martelo: por que a Delta Force, e não o SEAL Team Six, conduziu uma extração de alto risco como a de Nicolás Maduro

0 comentários

Em determinados momentos, o noticiário internacional passa a ser ocupado por narrativas que beiram o cinematográfico. Relatos fragmentados, reconstruções especulativas e rumores ganham espaço como se descrevessem operações concretas, muitas vezes sem qualquer lastro factual verificável. A extração de Nicolás Maduro da Venezuela insere-se nesse campo nebuloso. Mais relevante do que discutir o episódio é compreender, sob uma perspectiva técnica e estratégica, qual tipo de força seria empregada em uma operação com esse nível de complexidade política, militar e diplomática.

Quando se observa o aparato de operações especiais dos Estados Unidos, essa análise conduz inevitavelmente a uma comparação entre duas de suas unidades mais conhecidas: a Delta Force e o SEAL Team Six, oficialmente denominado DEVGRU. A distinção entre ambas não está associada à qualidade de seus operadores, ao grau de letalidade ou ao prestígio institucional. Trata-se, sobretudo, de uma diferença de função, filosofia operacional e lógica de emprego estratégico.

O Comando Conjunto de Operações Especiais dos Estados Unidos (JSOC) não seleciona unidades com base em simbolismos ou percepções públicas. Cada missão é desenhada a partir de variáveis rigorosas, como ambiente político, densidade urbana, risco de escalada internacional, necessidade de captura ou neutralização do alvo, tempo disponível para execução, nível de exposição midiática e consequências estratégicas de curto e longo prazo. Nesse contexto, a diferença entre Delta Force e DEVGRU pode ser compreendida de forma clara por meio de uma analogia recorrente entre profissionais da área: "o bisturi e o martelo".

A Delta Force representa o bisturi da guerra moderna. Criada para operar em cenários de altíssima complexidade, é uma unidade moldada para atuar onde o erro não é uma opção e onde a violência indiscriminada pode gerar efeitos estratégicos desastrosos. Sua lógica não se baseia no choque, mas no controle. Seus operadores são treinados para infiltrar-se profundamente em ambientes hostis, misturar-se à população, operar sob identidades encobertas e adaptar-se continuamente a cenários voláteis e imprevisíveis.

Diferentemente de forças orientadas para o assalto direto, a Delta é estruturada para lidar com múltiplos atores simultaneamente: forças regulares, milícias, serviços de inteligência adversários, civis, aliados ambíguos e até atores não estatais. Seu treinamento enfatiza leitura comportamental, tomada de decisão sob pressão extrema e autonomia tática. Trata-se de uma força desenhada para capturar alvos de alto valor vivos, quando isso é politicamente desejável, e para administrar as consequências de uma operação que não termina no momento da extração, mas se prolonga no campo diplomático e informacional.

Em uma operação envolvendo a retirada de um chefe de Estado em exercício, como Nicolás Maduro, o desafio transcende o domínio militar. Estariam em jogo a reação imediata de forças leais ao regime, a mobilização de milícias, a atuação de serviços de inteligência estrangeiros, o comportamento da população civil e, sobretudo, o impacto regional e internacional da ação. Trata-se de um ambiente onde a discrição, a capacidade de improvisação e o controle do ritmo da operação são mais valiosos do que a superioridade de fogo. Esse é precisamente o terreno para o qual a Delta Force foi concebida.

O SEAL Team Six, por sua vez, opera sob uma lógica distinta. O DEVGRU é o martelo: a ferramenta empregada quando o tempo é o fator decisivo e quando a missão exige velocidade, violência controlada e encerramento imediato da ameaça. Sua especialidade são assaltos diretos de alta intensidade, retomadas de instalações, ações de contraterrorismo com foco na neutralização rápida do alvo e operações complexas que combinam ambientes marítimos, aéreos e terrestres.

O exemplo mais emblemático desse perfil operacional é a Operação Neptune Spear, conduzida no Paquistão em 2011, que resultou na eliminação de Osama bin Laden. A missão foi executada a centenas de quilômetros do litoral, em um ambiente urbano densamente povoado e politicamente sensível. Ainda assim, o planejamento admitia desde o início a possibilidade e a aceitabilidade estratégica da eliminação do alvo. O resultado foi uma ação rápida, decisiva e irreversível. Bin Laden foi neutralizado, e seu corpo foi retirado da área de operações.

Esse desfecho não representa uma falha, mas uma decisão estratégica coerente com o objetivo da missão. Quando a prioridade é eliminar uma ameaça e encerrar um ciclo operacional, o DEVGRU é a escolha natural. O martelo entra em cena quando não há espaço para sutilezas.

A diferença fundamental entre os dois cenários reside no objetivo político da operação. A eliminação de um líder terrorista gera efeitos estratégicos distintos daqueles produzidos pela captura de um chefe de Estado. No segundo caso, a operação não se encerra com a infiltração ou a retirada física do alvo. Ela desencadeia uma cadeia de eventos diplomáticos, jurídicos e geopolíticos que precisam ser antecipados e administrados desde o primeiro minuto.

Manter o alvo vivo, evitar danos colaterais excessivos, controlar narrativas internacionais, impedir massacres subsequentes e conduzir a extração sob pressão política extrema exige uma força capaz de pensar estrategicamente enquanto executa taticamente. Esse é o domínio clássico da Delta Force.

Enquanto o martelo resolve problemas quando o tempo se esgota e a força se impõe como solução final, o bisturi existe para preservar o que é estrategicamente relevante e remover apenas o elemento necessário. A guerra contemporânea, especialmente no campo das operações especiais, não é vencida apenas com poder de fogo, mas com discernimento, precisão e escolha adequada dos meios.

É importante destacar que não há rivalidade entre Delta Force e DEVGRU. Elas não competem; elas se complementam. A verdadeira superioridade do sistema de operações especiais dos Estados Unidos reside justamente na capacidade de empregar a ferramenta certa para o problema certo, no momento certo.

Em última instância, a questão central não é qual unidade produziria a operação mais espetacular, mas qual teria maiores chances de cumprir o objetivo estratégico sem transformar uma ação cirúrgica em um terremoto geopolítico. E, nesse tipo de missão, a experiência demonstra que o bisturi quase sempre precede o martelo.


por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...

Orçamento de R$ 142,5 bilhões e pouca capacidade militar: o problema é estrutural, não da tropa

0 comentários

O orçamento do Ministério da Defesa previsto para 2026, estimado em cerca de R$ 142,4 bilhões, à primeira vista sugere um esforço financeiro relevante por parte do Estado brasileiro. Em termos absolutos, trata-se de um dos maiores orçamentos da União. No entanto, uma análise mais profunda revela que esse volume de recursos não se traduz automaticamente em capacidade militar compatível com as responsabilidades estratégicas do país. O problema central da Defesa brasileira não está apenas no quanto se gasta, mas em como esse gasto é estruturado e sustentado ao longo do tempo.

O Brasil possui características singulares no campo da Defesa. É um país de dimensões continentais, com extensas fronteiras terrestres, vasto espaço aéreo, uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo e crescente relevância estratégica no Atlântico Sul. As Forças Armadas são demandadas não apenas para a dissuasão externa, mas também para operações de garantia da lei e da ordem, combate a ilícitos transnacionais, apoio à defesa civil, missões humanitárias e compromissos internacionais. Esse conjunto de atribuições exige meios modernos, elevada prontidão e investimentos contínuos em tecnologia, logística e treinamento.

O principal entrave para que o orçamento de Defesa cumpra plenamente esse papel está na sua composição. Estimativas indicam que entre 75% e 80% dos recursos são absorvidos por despesas obrigatórias, sobretudo salários, aposentadorias e pensões. São compromissos legítimos do Estado brasileiro, mas de natureza previdenciária e administrativa, distintos da atividade-fim da Defesa. Na prática, essa estrutura faz com que apenas uma parcela reduzida do orçamento esteja disponível para custeio operacional e investimentos, limitando a modernização das Forças Armadas e impondo avanços graduais a programas estratégicos que exigiriam maior previsibilidade financeira.

Apesar dessas restrições, o Brasil mantém projetos estruturantes relevantes. Na Marinha do Brasil, além do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que envolve a construção de submarinos convencionais e o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear, destaca-se o Programa das Fragatas Classe Tamandaré. A incorporação de quatro fragatas modernas representa um avanço importante em termos de capacidade de combate, interoperabilidade e fortalecimento da Base Industrial de Defesa. Contudo, o número previsto está aquém das necessidades reais do Brasil. A dimensão da Amazônia Azul, a proteção de rotas marítimas e de infraestruturas estratégicas e a necessidade de presença naval permanente exigiriam uma força de escoltas mais numerosa, capaz de sustentar operações contínuas no mar.

No Exército Brasileiro, os desafios são igualmente expressivos. Projetos como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON) ampliam a capacidade de vigilância e combate a ilícitos, mas avançam de forma faseada, condicionados à disponibilidade orçamentária. Paralelamente, cresce a necessidade de renovação dos meios blindados. O inventário atual apresenta limitações frente às ameaças contemporâneas, tornando urgente a obtenção de um novo carro de combate principal, com maior proteção, poder de fogo e integração digital. Soma-se a isso a demanda por veículos blindados leves e de reconhecimento, capazes de operar com mobilidade, proteção e consciência situacional em diferentes cenários operacionais. Outro ponto sensível é a defesa antiaérea, ainda carente de sistemas de médio e longo alcance capazes de proteger tropas, instalações estratégicas e infraestruturas críticas contra aeronaves, mísseis e drones.

Na Força Aérea Brasileira, os programas Gripen e KC-390 Millennium permanecem como pilares da modernização. O Gripen introduz capacidades avançadas de combate aéreo, guerra eletrônica e operação em rede, enquanto o KC-390 fortalece a logística militar e se consolida como um produto de exportação, projetando a indústria nacional no mercado internacional. Ambos exigem previsibilidade orçamentária para garantir cronogramas, evolução tecnológica e eficiência econômica. Além disso, a FAB enfrenta desafios na ampliação da vigilância do espaço aéreo, no fortalecimento da defesa antiaérea integrada e no desenvolvimento de capacidades nos domínios espacial e cibernético.

Esses programas estratégicos exercem impacto direto na economia nacional. A indústria de defesa é intensiva em tecnologia, gera empregos altamente qualificados e promove inovação com aplicações de uso dual, beneficiando setores civis como aviação, comunicações, materiais avançados e sistemas de controle. A instabilidade no fluxo de recursos, no entanto, encarece projetos, fragiliza cadeias produtivas e reduz o retorno econômico e tecnológico desses investimentos.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o desafio da Defesa brasileira não reside apenas no volume nominal de recursos, mas na forma como o orçamento é estruturado. A permanência das despesas previdenciárias dentro do orçamento da atividade-fim cria uma distorção que compromete o planejamento estratégico e reduz a capacidade de transformar recursos em poderio efetivo. É nesse contexto que ganha relevância a proposição de um Fundo Previdenciário da Defesa.

A criação de um Fundo Previdenciário da Defesa teria como objetivo separar, de forma clara e transparente, as despesas com inativos e pensionistas do orçamento destinado ao preparo, ao emprego e ao reaparelhamento das Forças Armadas. Não se trata de retirar direitos ou reduzir benefícios, mas de reorganizar o modelo orçamentário, alinhando a estrutura financeira à lógica da política de Defesa.

Esse fundo poderia ser estruturado como uma entidade previdenciária vinculada à União, com governança própria, regras claras de gestão e mecanismos rigorosos de controle. Sua administração poderia contar com um conselho gestor formado por representantes do Ministério da Defesa, do Ministério da Fazenda, das Forças Armadas e de órgãos de controle, garantindo equilíbrio entre responsabilidade fiscal, visão estratégica e respeito às especificidades da carreira militar.

O financiamento do fundo poderia ocorrer por múltiplas fontes. A principal delas seria o aporte direto do Tesouro Nacional, refletindo a responsabilidade do Estado com seus compromissos previdenciários. A isso se somariam as contribuições já realizadas pelos militares da ativa, preservando o caráter contributivo do sistema. Fontes complementares, como receitas extraordinárias vinculadas à área de Defesa, poderiam fortalecer a sustentabilidade do fundo ao longo do tempo.

A implementação do modelo exigiria uma transição gradual e cuidadosamente planejada. Um caminho viável seria o da transição geracional. Militares atualmente na ativa, na reserva e seus pensionistas manteriam integralmente as regras vigentes, com seus direitos garantidos. Novos ingressos passariam a integrar um sistema ajustado às novas diretrizes, compatível com a realidade fiscal e demográfica do país, sem comprometer a atratividade da carreira militar. Esse processo permitiria que o fundo acumulasse patrimônio progressivamente, reduzindo a dependência exclusiva do Tesouro no longo prazo.

À medida que as despesas previdenciárias fossem absorvidas pelo fundo, o orçamento do Ministério da Defesa seria gradualmente desonerado, ampliando a parcela destinada a investimentos estratégicos. Essa reorganização permitiria maior previsibilidade financeira para programas estruturantes, reduziria custos decorrentes de atrasos e descontinuidades e fortaleceria a Base Industrial de Defesa. Além disso, aumentaria a transparência fiscal, qualificando o debate público sobre o real nível de investimento do Brasil em Defesa.

Mais do que uma mudança contábil, a criação de um Fundo Previdenciário da Defesa representa uma escolha estratégica. Significa reconhecer que a Defesa é uma política de Estado, que exige planejamento de longo prazo, estabilidade financeira e coerência entre objetivos e meios. Um orçamento de Defesa efetivamente voltado para defesa é condição essencial para reduzir lacunas de capacidade, fortalecer a dissuasão e consolidar a autonomia tecnológica nacional.

Em síntese, os cerca de R$ 142,4 bilhões previstos para 2026 garantem a manutenção da estrutura atual, mas não são suficientes para responder plenamente às demandas estratégicas do país enquanto persistir o atual modelo de alocação de recursos. O desafio brasileiro não é apenas gastar mais, mas gastar melhor. A reorganização do orçamento, com a separação clara entre previdência e capacidade de defesa, surge como um passo decisivo para transformar planejamento em poder real e alinhar a Defesa brasileira às exigências do século XXI.


Por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Continue Lendo...
 

GBN Defense - A informação começa aqui Copyright © 2012 Template Designed by BTDesigner · Powered by Blogger