"Avispas Negras" (Vespas Negras) é o nome pelo qual ficaram conhecidos, fora de Cuba, os elementos mais qualificados do aparato de forças especiais e segurança estratégica do Estado cubano. Não se trata, oficialmente, de uma unidade com designação formal pública, brasão próprio ou ordem de batalha aberta, como ocorre com forças especiais ocidentais. O termo funciona mais como uma identificação operacional e simbólica, associada a militares e agentes selecionados das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e do Ministério do Interior, empregados em missões sensíveis, internas e externas, onde o regime considera que a falha não é aceitável.
A origem dessas forças remonta aos primeiros anos do regime revolucionário, quando Cuba passou a estruturar não apenas forças armadas convencionais, mas também um sistema robusto de segurança do Estado, voltado à preservação do poder político. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, com apoio doutrinário soviético e experiência adquirida em missões externas, especialmente na África, Cuba desenvolveu quadros especializados em infiltração, proteção de lideranças, contrainteligência e combate de curta distância. Desse caldo histórico surgem os homens que, mais tarde, seriam identificados como Avispas Negras.
O treinamento desses operadores ocorre dentro de um sistema fechado, fragmentado e altamente compartimentado. Diferentemente de forças especiais ocidentais, onde centros de instrução são relativamente conhecidos, o treinamento cubano privilegia o anonimato, a descentralização e a diluição das capacidades em estruturas maiores. O processo começa com a seleção de militares e agentes jovens, oriundos tanto das FAR quanto do MININT, com histórico de disciplina rígida, confiabilidade política absoluta e resistência psicológica elevada. A lealdade ideológica não é um critério secundário; ela é central.
Após a triagem inicial, os selecionados passam por ciclos de formação que incluem preparo físico intenso, técnicas de combate aproximado, tiro instintivo, progressão em ambientes confinados, segurança de autoridades, vigilância e contra-vigilância, além de forte ênfase em controle emocional sob estresse. Há também treinamento em ambientes urbanos densos, interrogatório, proteção de instalações sensíveis e reação imediata a tentativas de captura ou eliminação de figuras-chave do regime.
Relatos de dissidentes e analistas indicam que parte desses operadores recebe instrução complementar em doutrina estrangeira, principalmente russa, com foco em operações de segurança do Estado, proteção de alvos estratégicos e repressão a ameaças internas. Não se trata de uma força orientada para guerra expedicionária moderna nos moldes ocidentais, mas sim para controle, dissuasão e sobrevivência do núcleo de poder.
No plano internacional, Cuba empregou esse tipo de força de forma recorrente, ainda que discreta. Durante a Guerra Fria, operadores cubanos estiveram presentes em países africanos aliados, como Angola e Etiópia, atuando não apenas como instrutores, mas também em funções de proteção de lideranças e instalações críticas. Na América Latina, a presença sempre foi mais sensível e, por isso, mais negada. Ainda assim, há indícios consistentes de atuação em países alinhados politicamente, com destaque para a Venezuela a partir dos anos 2000.
Na Venezuela, a presença cubana evoluiu de assessoria política e de inteligência para algo mais profundo. Ao longo dos anos, militares e agentes cubanos passaram a integrar o sistema de segurança do Estado venezuelano, influenciando estruturas de inteligência, controle social e proteção do alto comando. Dentro desse arranjo, elementos associados aos Avispas Negras passaram a compor o anel mais interno de segurança de Nicolás Maduro. Sua função era clara: garantir a sobrevivência física do líder e impedir qualquer ação de captura ou eliminação.
Esse tipo de missão molda a mentalidade do operador. A doutrina é defensiva, reativa e centrada no terreno conhecido. O operador é treinado para reconhecer padrões de ameaça interna, antecipar movimentos previsíveis e reagir com violência controlada e imediata. O problema surge quando esse modelo entra em choque com uma força que opera fora desses padrões.
A operação norte-americana em Caracas expôs exatamente esse ponto de ruptura. As forças dos Estados Unidos não enfrentaram os Avispas Negras como uma tropa convencional nem como uma milícia desorganizada. Enfrentaram como um núcleo de segurança rígido, previsível em sua função e limitado em sua capacidade de adaptação frente a um adversário com domínio total do ambiente operacional.
A superioridade norte-americana não se manifestou apenas no momento do contato armado. Ela se construiu antes, no domínio da inteligência, na coleta persistente de informações, na modelagem do alvo, no mapeamento de rotinas, na identificação de padrões humanos e técnicos. Quando o contato ocorreu, os defensores já haviam perdido o principal ativo em operações especiais: a consciência situacional.
Os 32 cubanos mortos durante a operação estavam cumprindo exatamente o papel para o qual foram treinados. Permaneceram em posição, tentaram reagir localmente e resistiram até o limite de suas capacidades. O que não possuíam era margem de manobra. Sem comunicações eficazes, sem coordenação superior e sem capacidade de reforço, foram neutralizados de forma rápida e assimétrica.
Não houve falha individual relevante. Houve falha estrutural. A doutrina de proteção, baseada em presença física, controle de acesso e reação imediata, mostrou-se insuficiente diante de uma operação de captura de alto valor conduzida por uma força com integração plena entre inteligência, aviação, cibernética e operadores de ação direta.
A extração de Maduro em poucos minutos, sem baixas norte-americanas confirmadas, consolidou essa assimetria. A missão não exigia ocupação, nem combate prolongado, nem demonstração de força. Exigia velocidade, precisão e controle absoluto do tempo. Nesse tipo de cenário, a defesa perde antes mesmo de perceber que o ataque começou.
O episódio de Caracas não apaga décadas de atuação dos Avispas Negras nem invalida sua eficácia dentro do contexto para o qual foram concebidos. Ele, no entanto, deixa uma lição clara para qualquer força de segurança estatal: treinamento rígido, coragem e lealdade não compensam defasagens doutrinárias, isolamento tecnológico e ausência de integração sistêmica.
Quando se amplia a análise e se compara o desempenho e a concepção dos Avispas Negras com outras forças especiais consolidadas no cenário internacional, o episódio de Caracas ganha contornos ainda mais claros. A diferença fundamental não está apenas no nível individual do combatente, mas no ecossistema operacional no qual cada força está inserida.
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| Spetsnaz |
As forças especiais russas, genericamente conhecidas como Spetsnaz, oferecem um bom ponto de comparação. Assim como os cubanos, os Spetsnaz nasceram de uma lógica estatal rígida, voltada à preservação do regime e à execução de missões sensíveis sob forte controle político. No entanto, ao longo das últimas décadas, especialmente após os conflitos na Chechênia, na Síria e na Ucrânia, essas unidades passaram por um processo contínuo de adaptação. Embora ainda carreguem traços de centralização e rigidez, os Spetsnaz modernos operam com maior integração entre inteligência, guerra eletrônica, drones, fogos de apoio e forças convencionais. A doutrina russa, ainda que distinta da ocidental, reconhece a necessidade de operar em ambientes complexos e contestados, com múltiplas camadas de apoio. Isso dá aos Spetsnaz uma flexibilidade que os Avispas Negras, pela própria natureza do sistema cubano, não desenvolveram plenamente.
No extremo oposto do espectro estão as forças especiais dos Estados Unidos. A Delta Force, oficialmente conhecida como 1st Special Forces Operational Detachment-Delta, representa um modelo no qual o operador é apenas uma parte de um sistema muito mais amplo. A seleção é brutal, o treinamento é contínuo e adaptativo, mas o verdadeiro diferencial está na integração total com inteligência estratégica, vigilância persistente, meios aéreos dedicados, capacidades cibernéticas e apoio logístico global. A Delta não atua isolada; ela opera como ponta de lança de um aparato que inclui satélites, plataformas aéreas tripuladas e não tripuladas, equipes de análise em tempo real e cadeias de comando extremamente curtas. Nesse modelo, o combate direto é apenas a fase final de um processo que começa muito antes do primeiro disparo.
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| Delta Force |
O mesmo se aplica ao DEVGRU, a unidade de operações especiais navais dos Estados Unidos. Embora com foco marítimo, o DEVGRU desenvolveu ao longo dos anos uma capacidade híbrida, atuando com excelência em ambientes urbanos, costeiros e interiores. Assim como a Delta, o DEVGRU opera dentro de uma lógica de domínio total do ambiente operacional, onde surpresa, velocidade e assimetria são construídas por meio de inteligência e preparação extensiva. A diferença central em relação aos Avispas Negras está no fato de que, para essas unidades americanas, a missão não é defender um espaço ou resistir a um ataque, mas impor um colapso rápido ao sistema adversário.
No contexto brasileiro, forças como o GRUMEC, da Marinha do Brasil, e o COMANF, do Corpo de Fuzileiros Navais, ocupam uma posição intermediária interessante nessa comparação. São unidades altamente profissionais, com processos seletivos rigorosos, treinamento técnico sólido e forte cultura operacional. O GRUMEC, em particular, possui excelência reconhecida em operações marítimas especiais, mergulho de combate e ações de infiltração complexas. O COMANF, por sua vez, desenvolveu uma doutrina robusta de operações anfíbias e ações diretas, com crescente integração a meios modernos de comando e controle.
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| GRUMEC |
A diferença fundamental entre essas forças brasileiras e os Avispas Negras não está na capacidade individual do combatente, mas na filosofia de emprego. Enquanto o modelo cubano prioriza controle, defesa do poder político e compartimentação extrema, as forças brasileiras vêm evoluindo dentro de uma lógica de interoperabilidade, treinamento conjunto e adaptação doutrinária, ainda que com limitações orçamentárias e estruturais conhecidas.
O comparativo deixa claro que o fracasso dos Avispas Negras em Caracas não deve ser interpretado como ausência de treinamento ou coragem, mas como resultado direto de um modelo operacional fechado, concebido para um tipo específico de ameaça e incapaz de responder a um adversário que opera de forma sistêmica, integrada e global.
Forças como Delta Force, DEVGRU e, em menor escala, unidades modernas dos Spetsnaz e forças especiais brasileiras, operam com a compreensão de que a guerra contemporânea não é vencida apenas no contato armado. Ela é vencida na coleta de dados, na análise, na antecipação, na quebra da consciência situacional do inimigo e no controle absoluto do tempo e do espaço.
Caracas demonstrou que, no confronto entre modelos, não basta ser elite. É preciso pertencer a um sistema que permita à elite operar no seu máximo potencial. E essa talvez seja a lição mais dura deixada pelo fim dos Avispas Negras naquela madrugada: no campo das operações especiais modernas, a excelência individual só sobrevive quando sustentada por uma estrutura capaz de evoluir junto com a guerra.
A guerra moderna, especialmente no campo das operações especiais, não perdoa modelos fechados em si mesmos. Quem não evolui, não se adapta e não enxerga o campo de batalha como um sistema integrado acaba derrotado não por falta de vontade, mas por excesso de previsibilidade.
Caracas foi menos um confronto entre homens armados e mais um choque entre épocas diferentes da guerra. E, nesse choque, os Avispas Negras representaram um modelo que já não responde plenamente às exigências do campo de batalha contemporâneo.
por Angelo Nicolaci
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