sábado, 8 de agosto de 2026

Soberania no discurso, contingenciamento na prática: o que Lula promete para a Defesa em 2026

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A proposta de governo coloca autonomia estratégica, Base Industrial de Defesa e previsibilidade orçamentária no centro da agenda, mas a realidade fiscal brasileira continua impondo limites à capacidade de transformar projetos em poder dissuasório sustentável.

A proposta de governo apresentada por Lula para campanha presidencial de 2026 coloca a Defesa Nacional em uma posição que merece atenção. O documento não trata as Forças Armadas apenas como instrumento de proteção territorial, mas como parte de uma estratégia mais ampla de soberania, desenvolvimento tecnológico, política externa e reindustrialização. Ao afirmar que não existe projeção internacional soberana sem capacidade de Defesa, o programa estabelece uma relação direta entre a capacidade brasileira de atuar no cenário internacional e a existência de instrumentos materiais capazes de sustentar essa atuação.

A premissa é coerente com a realidade estratégica de um país como o Brasil. Com dimensões continentais, extensa faixa de fronteiras, uma área marítima de enorme importância econômica e estratégica, recursos naturais relevantes e pretensões de maior protagonismo internacional, o país precisa possuir capacidade própria para proteger seus interesses. A questão, portanto, não está na necessidade de fortalecer a Defesa, mas na distância que historicamente existe entre a ambição expressa nos documentos oficiais e a capacidade do Estado de garantir recursos suficientes para sustentar essa ambição durante décadas.

É justamente nesse ponto que a proposta de 2026 merece uma leitura crítica. O programa fala em autonomia estratégica, inovação tecnológica, fortalecimento da Base Industrial e Tecnológica de Defesa, defesa cibernética, inteligência, proteção das fronteiras, Amazônia e Amazônia Azul, além de uma política externa mais ativa e de uma capacidade de dissuasão compatível com as responsabilidades brasileiras. Entretanto, todas essas metas possuem uma característica em comum: dependem de continuidade orçamentária. Não basta estabelecer uma prioridade política em determinado momento se no exercício seguinte, a capacidade de financiamento estiver novamente submetida às mesmas incertezas que historicamente afetam os programas estratégicos das Forças Armadas.

Entre a soberania pretendida e o orçamento disponível

O próprio programa de governo reconhece essa dificuldade ao defender que a Defesa precisa contar com um orçamento compatível com suas necessidades e responsabilidades. O documento apresenta como uma conquista do atual governo a aprovação de uma legislação destinada a aumentar a previsibilidade e a continuidade dos investimentos em projetos estratégicos, vinculando essa estabilidade não apenas à modernização das Forças Armadas, mas também ao fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

A mudança de abordagem é importante. Durante décadas, o Brasil conviveu com programas militares concebidos para horizontes de longo prazo, mas financiados dentro de uma lógica essencialmente anual. O resultado é conhecido: projetos que avançam em determinado período, sofrem reprogramações em momentos de restrição fiscal e posteriormente precisam ser retomados, muitas vezes com custos superiores aos inicialmente previstos. Esse ciclo não produz apenas atrasos. Ele compromete a capacidade de planejamento das Forças, reduz a previsibilidade para fornecedores e pode afetar justamente a autonomia tecnológica que os programas pretendem construir.

A Defesa possui uma característica que torna esse problema particularmente grave. O investimento inicial é apenas uma parte do custo de uma capacidade militar. Um caça moderno exige treinamento, manutenção, infraestrutura, armamentos, peças e suporte logístico durante todo seu ciclo de vida. Uma fragata não se transforma em poder naval simplesmente porque foi entregue à Marinha; ela precisa permanecer disponível para navegar, operar seus sensores e sistemas de armas e cumprir os ciclos de manutenção previstos. O mesmo vale para submarinos, blindados, radares, sistemas de comunicação e praticamente qualquer outro meio de emprego militar.

Por isso, a discussão sobre previsibilidade não deveria estar restrita aos grandes contratos. Ela precisa alcançar a operação e a manutenção das capacidades existentes, porque é nessa etapa que uma parcela significativa da capacidade militar efetivamente se materializa.

Os R$ 5 bilhões anuais e o limite da solução

A Lei Complementar 221/2025 representa uma tentativa de enfrentar parte desse problema. O mecanismo permite excluir determinadas despesas de projetos estratégicos de Defesa das regras fiscais, limitado ao menor valor entre a dotação do Novo PAC destinada à Defesa e R$ 5 bilhões por exercício, durante até seis exercícios a partir de 2026. No limite máximo, a medida pode representar até R$ 30 bilhões ao longo do período.

Trata-se de uma iniciativa relevante e que deve ser reconhecida como tal. Ao criar um tratamento fiscal diferenciado para determinados investimentos estratégicos, o governo admite implicitamente que projetos de Defesa não podem ser submetidos integralmente à mesma lógica de uma despesa convencional de curto prazo. Um programa de submarinos, uma nova classe de navios ou a produção de aeronaves militares exige compromissos financeiros que atravessam diferentes governos e diferentes ciclos econômicos.

Entretanto, é preciso evitar uma interpretação exagerada desse mecanismo. Os R$ 5 bilhões anuais não constituem um orçamento adicional livre para as Forças Armadas, nem significam que toda a estrutura de Defesa estará protegida contra bloqueios e contingenciamentos. O mecanismo está direcionado a determinadas despesas de capital e aos projetos enquadrados nos critérios estabelecidos pela legislação. A rotina operacional das Forças continua dependendo do orçamento geral e das decisões fiscais tomadas ao longo de cada exercício.

Essa distinção é fundamental porque existe uma diferença considerável entre garantir dinheiro para construir uma nova capacidade e garantir recursos para manter disponível aquilo que já foi construído. O teste veio no próprio ano de 2026

É nesse contexto que o bloqueio de R$ 1,43 bilhão enfrentado pela Marinha em 2026 ganha relevância para a análise da proposta eleitoral. A restrição atingiu áreas relacionadas à manutenção de meios e programas estratégicos, envolvendo iniciativas como o Programa Nuclear da Marinha, o PROSUB, a obtenção de navios-patrulha e contratos relacionados a mísseis e sistemas de armas.

A própria Marinha deixou claro que o bloqueio não representava uma paralisação imediata de suas operações, o que é importante para evitar interpretações alarmistas. O alerta, entretanto, está relacionado ao efeito progressivo que a manutenção das restrições pode provocar sobre a disponibilidade dos meios. Em uma Força Armada, os efeitos de uma redução orçamentária raramente aparecem de maneira instantânea. Eles normalmente se acumulam ao longo do tempo, quando uma manutenção é adiada, uma peça não é adquirida, uma docagem é reprogramada, um ciclo de treinamento é reduzido ou uma atividade de apoio deixa de receber os recursos necessários.

É justamente essa característica que torna o episódio relevante para a discussão eleitoral. O governo apresenta a previsibilidade orçamentária como um dos elementos necessários para garantir a continuidade dos programas estratégicos, mas, no mesmo exercício em que o novo mecanismo de proteção fiscal começa a vigorar, a Força Naval  se vê diante de uma restrição bilionária capaz de afetar progressivamente sua disponibilidade operacional caso seja mantida.

Isso não significa que exista uma contradição absoluta entre as duas coisas. O bloqueio decorre de uma conjuntura fiscal mais ampla e não representa necessariamente uma decisão específica de reduzir a capacidade militar da Marinha. Mas o episódio evidencia que a proteção criada para determinados investimentos não resolveu a vulnerabilidade estrutural do orçamento de Defesa como um todo.

O governo investiu, mas a modernização não encerra a discussão

Também seria equivocado construir essa análise a partir da afirmação de que o governo Lula não realizou investimentos na Defesa. A própria proposta eleitoral apresenta uma série de resultados obtidos desde 2023, incluindo a execução de R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos, a entrega de sete caças F-39E Gripen, a produção da primeira aeronave em território brasileiro, a aquisição de três KC-390, a entrega da primeira de quatro fragatas e a produção de viaturas blindadas.

São resultados concretos e representam avanços relevantes para as capacidades militares brasileiras e para a indústria nacional. O problema está em considerar que a entrega desses equipamentos encerra o processo de modernização. Na realidade, ela inicia uma nova etapa.

O F-39E Gripen precisa de horas de voo, manutenção, armamentos, treinamento de pilotos e técnicos e infraestrutura adequada. O KC-390 precisa ser sustentado ao longo de seu ciclo de vida. As fragatas da classe Tamandaré precisarão de recursos para manutenção, tripulações treinadas, munições, sensores e sistemas de armas. Os blindados produzidos precisam permanecer disponíveis para emprego. Em todos esses casos, a capacidade militar depende de uma cadeia de sustentação que continua exigindo recursos muito depois da fotografia oficial da entrega.

Essa é uma das maiores dificuldades do debate público brasileiro sobre Defesa: frequentemente se contabiliza o que foi adquirido, mas não se mede com a mesma atenção o quanto está efetivamente disponível para emprego e quanto custa manter essa disponibilidade.

A Base Industrial de Defesa também depende da continuidade

A proposta de 2026 procura transformar a Base Industrial de Defesa em um dos instrumentos da política de desenvolvimento econômico. O conceito é particularmente relevante porque uma indústria militar tecnologicamente sofisticada pode gerar efeitos sobre setores civis, formar profissionais altamente especializados, ampliar a capacidade de inovação e criar produtos com potencial de exportação. Mas existe uma condição para que esse modelo funcione: previsibilidade de demanda.

Empresas que desenvolvem tecnologias sensíveis não conseguem estruturar investimentos de longo prazo se não tiverem alguma segurança sobre a continuidade dos programas que sustentam suas linhas de produção. O desenvolvimento de um radar, de um sistema de guerra eletrônica, de um míssil ou de uma aeronave envolve investimentos em engenharia, infraestrutura, certificação, cadeia de fornecedores e pessoal altamente qualificado. Quando os programas são interrompidos ou reprogramados repetidamente, o impacto pode atingir muito mais do que o cronograma de entrega de determinado equipamento.

O Brasil já experimentou esse problema em diferentes momentos de sua história. A indústria de Defesa nacional demonstrou capacidade de desenvolver produtos sofisticados, mas também enfrentou períodos em que a falta de encomendas e a instabilidade financeira comprometeram competências construídas ao longo de anos. Recuperar posteriormente uma capacidade industrial perdida costuma ser muito mais caro do que preservá-la de maneira contínua.

Por isso, a promessa de utilizar a Defesa como vetor de neoindustrialização só será plenamente sustentável se o Estado conseguir transformar a previsibilidade em política permanente de demanda, e não apenas em exceção fiscal destinada a determinados projetos.

Amazônia, fronteiras e Amazônia Azul exigem presença permanente

O programa também estabelece a proteção das fronteiras, da Amazônia e da Amazônia Azul como prioridades estratégicas. A escolha é coerente com a dimensão territorial brasileira e com o valor econômico e geopolítico dessas regiões, mas também evidencia a dimensão do desafio orçamentário.

A proteção de áreas tão extensas não pode ser realizada por meio de iniciativas episódicas. Exige aeronaves disponíveis, navios capazes de permanecer no mar, sensores funcionando, sistemas de comunicação operacionais, unidades terrestres treinadas e uma estrutura permanente de comando e controle. O mesmo raciocínio se aplica à vigilância das fronteiras e ao combate aos ilícitos transnacionais.

Quando a proposta fala em ampliar essa capacidade, portanto, não está falando apenas de comprar novos equipamentos. Está assumindo um compromisso de sustentação operacional que precisará ser financiado durante todo o período de vida desses sistemas.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre soberania precisa abandonar o terreno abstrato. A soberania brasileira sobre a Amazônia Azul, por exemplo, não é reforçada simplesmente porque o país possui uma nova fragata em seu inventário. Ela é reforçada quando essa fragata está disponível, tripulada, abastecida, armada e integrada aos demais sistemas de vigilância e comando.

O protagonismo internacional também precisa de sustentação material

A política externa ocupa espaço significativo na proposta de 2026. O programa pretende aprofundar a integração sul-americana, fortalecer o Mercosul, ampliar a aproximação com o BRICS e o Sul Global e manter uma presença mais ativa junto à África, Ásia, Oriente Médio e Europa. O Atlântico Sul também é apresentado como área de importância estratégica para o Brasil.

Essa agenda pode ser executada prioritariamente por meios diplomáticos, como tradicionalmente ocorre na política externa brasileira. Entretanto, o próprio programa estabelece que a projeção internacional precisa estar acompanhada de capacidade de Defesa e dissuasão.

A relação é importante porque diplomacia e capacidade militar não são alternativas excludentes. Um país pode defender a solução pacífica dos conflitos, atuar pelo multilateralismo e, ao mesmo tempo, manter Forças Armadas capazes de proteger seus interesses caso o ambiente estratégico se deteriore.

A dissuasão, porém, depende de credibilidade. E credibilidade não é construída apenas com documentos estratégicos ou declarações políticas. Ela depende da existência de capacidades que possam ser empregadas quando necessário.

Quanto maior a ambição internacional do Brasil, portanto, maior será a necessidade de compatibilizar essa ambição com os recursos destinados à Defesa.

Seria igualmente equivocado atribuir toda essa dificuldade ao atual governo. A instabilidade do orçamento de Defesa é um problema estrutural brasileiro e atravessa diferentes administrações, independentemente de suas orientações políticas.

O Brasil possui programas que exigem décadas para serem concluídos, mas continua submetendo parcela importante das decisões de financiamento à dinâmica fiscal de cada exercício. Governos mudam, prioridades econômicas mudam, crises aparecem e o orçamento é novamente reorganizado.

O resultado é uma tensão permanente entre a necessidade de construir capacidades futuras e a obrigação de manter as capacidades presentes.

É justamente por isso que a proposta de 2026 precisa ser analisada com uma régua mais exigente. O governo reconhece o problema e apresenta uma solução parcial por meio de mecanismos de previsibilidade para projetos estratégicos. A questão é saber se essa solução conseguirá sobreviver às mesmas pressões fiscais que historicamente atingem a Defesa. A experiência de 2026 mostra que essa pergunta ainda está aberta.

A diferença entre ter e poder empregar

Talvez o ponto central para compreender essa discussão esteja na diferença entre patrimônio militar e capacidade de defesa.

Um país pode possuir determinado número de aeronaves, navios, blindados ou sistemas de armas e ainda assim não conseguir empregar todos eles simultaneamente. A disponibilidade depende de manutenção, peças, combustível, munição, treinamento, infraestrutura e pessoal. Essa realidade é particularmente importante quando se fala em modernização.

A incorporação de novas plataformas é fundamental, mas não substitui a necessidade de manter as existentes. Uma Força Armada moderna precisa de um ciclo contínuo que começa no desenvolvimento tecnológico, passa pela aquisição e incorporação e continua durante décadas por meio de manutenção, modernização, treinamento e reposição de estoques. É justamente esse ciclo que torna a previsibilidade orçamentária tão importante.

Sem ela, o Estado pode até conseguir realizar grandes investimentos pontuais, mas terá dificuldade para transformar esses investimentos em capacidade militar sustentada.

O desafio colocado pela proposta de 2026

A proposta de governo de Lula para a eleição de 2026 apresenta, portanto, uma agenda de Defesa ambiciosa, em vários aspectos, coerente com os interesses estratégicos permanentes do Brasil. O fortalecimento da Base Industrial de Defesa, a autonomia tecnológica, a proteção das fronteiras, da Amazônia e da Amazônia Azul, o desenvolvimento da capacidade cibernética e a manutenção de uma estrutura de dissuasão são objetivos que ultrapassam governos e deveriam integrar qualquer estratégia nacional de longo prazo. O ponto crítico está na execução.

O governo pode apresentar resultados concretos desde 2023, como os novos Gripen, KC-390, fragatas e blindados, e ao mesmo tempo continuar enfrentando um problema estrutural de financiamento da Defesa. Uma realidade não elimina a outra. O Brasil avançou em determinados programas, mas ainda precisa resolver como manter essas capacidades disponíveis e como garantir que os projetos estratégicos tenham continuidade independentemente das oscilações fiscais.

É justamente por isso que o bloqueio de R$ 1,43 bilhão enfrentado pela Marinha em 2026 possui um significado que vai além do valor nominal. Ele funciona como um teste para a promessa de previsibilidade apresentada pelo próprio governo. Se uma política de Defesa pretende ser tratada como instrumento de soberania, precisa existir uma separação mais clara entre o que pode ser ajustado em uma crise fiscal e aquilo que representa capacidade estratégica indispensável ao Estado.

A Lei Complementar 221 representa um passo nessa direção ao proteger determinadas despesas de projetos estratégicos, mas seus limites também mostram que ainda não existe uma blindagem abrangente da política de Defesa. O desafio permanece sendo construir um modelo no qual investimento, operação, manutenção e desenvolvimento tecnológico sejam tratados como partes de uma mesma estratégia, e não como despesas que competem entre si a cada novo ciclo orçamentário.

No fim, é justamente aí que a proposta eleitoral de 2026 precisa ser colocada à prova. A soberania defendida pelo programa exige mais do que novos contratos e entregas. Exige que o Brasil consiga manter seus meios operacionais, preservar suas cadeias industriais, financiar suas tecnologias críticas e sustentar suas Forças Armadas durante os períodos em que o orçamento estiver sob maior pressão.

A questão, portanto, não é simplesmente se o governo Lula investiu ou não em Defesa. Os números e os programas em andamento mostram que houve investimentos. A questão mais profunda é se o modelo proposto consegue superar a velha dificuldade brasileira de transformar investimentos pontuais em capacidades militares sustentáveis ao longo de décadas.

Porque quando um governo afirma que não existe projeção internacional soberana sem capacidade de Defesa, ele estabelece para si mesmo uma obrigação que vai além do discurso eleitoral. A partir desse momento, a previsibilidade orçamentária deixa de ser apenas uma reivindicação das Forças Armadas e passa a ser parte da própria política de soberania que o programa promete defender.

E é justamente nesse ponto que 2026 coloca o governo diante de sua maior contradição: enquanto a proposta eleitoral apresenta a Defesa como instrumento permanente de soberania, a execução orçamentária continua demonstrando que diante das pressões fiscais, parte dessa mesma capacidade ainda pode ser colocada na mesa de negociação.

A pergunta que permanece para a campanha é, portanto, menos ideológica e muito mais objetiva: o próximo governo pretende apenas reconhecer que a soberania exige uma Defesa forte ou está disposto a construir um orçamento capaz de sustentá-la quando a realidade fiscal deixar de ser favorável?


Por Angelo Nicolaci


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Grifo-F/BR x EL/M-2032: quando o desempenho dos radares contam apenas parte da história

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A comparação entre os radares empregados pelo F-5M da FAB e pelo AF-1M da Marinha mostra que alcance de detecção não é sinônimo de capacidade de combate.

Quando dois radares entram em comparação, é natural que o primeiro dado que chame atenção seja o alcance. É objetivo, fácil de colocar lado a lado e cria rapidamente a impressão de que existe um vencedor. Mas, no combate aéreo, a história é bem mais complexa.

A comparação entre o Grifo-F/BR, empregado nos F-5M da Força Aérea Brasileira, e o EL/M-2032, instalado nos AF-1M "Skyhawk" da Marinha do Brasil, é um bom exemplo disso. Os dois sistemas foram escolhidos para modernizar aeronaves de gerações anteriores, mas responderam a requisitos diferentes e foram incorporados a arquiteturas de combate distintas.

EL/M-2032

A primeira diferença aparece justamente nos números divulgados para os dois sistemas. A Marinha do Brasil informa que o EL/M-2032 empregado no AF-1M possui modos ar-ar, ar-mar e ar-solo, além de capacidade de acompanhamento de alvos marítimos. Segundo a Força Naval, o radar pode alcançar até 128 quilômetros no modo ar-ar e até 256 quilômetros no rastreamento de alvos marítimos.

O Grifo-F/BR, por sua vez, equipa os F-5M modernizados pela FAB e integra um conjunto muito mais amplo de modificações realizadas na aeronave. O sistema oferece capacidade multimodo, incluindo operação look-down/shoot-down, e foi integrado à arquitetura de missão do caça e ao emprego de armamentos como o míssil ar-ar Derby. É nesse ponto que uma comparação baseada exclusivamente em alcance começa a apresentar suas limitações.

Um radar não possui um único alcance operacional. A distância na qual um contato pode ser detectado depende de fatores como a assinatura radar do alvo (RCS), seu aspecto em relação à aeronave, altitude, velocidade, condições do ambiente eletromagnético e o modo de operação utilizado pelo sensor.

Um alvo de grande assinatura, voando em determinada condição, poderá ser detectado a uma distância muito superior àquela obtida contra um alvo de menor assinatura RCS ou em outro aspecto. Por isso, números de alcance máximo não podem ser tratados como uma espécie de régua universal para definir qual radar é superior. E existe outro detalhe ainda mais importante: detectar não é o mesmo que combater.

A detecção é apenas o primeiro elo de uma cadeia que envolve acompanhamento, classificação, identificação, geração de solução de tiro, transferência de informações, decisão de engajamento e emprego do armamento.

Um radar pode enxergar mais longe, mas isso não significa automaticamente que a aeronave terá uma vantagem proporcional no combate. É justamente por isso que o contexto de cada programa de modernização precisa ser considerado.

No caso do AF-1M, o EL/M-2032 foi incorporado a uma plataforma cuja modernização buscou ampliar significativamente as capacidades do antigo A-4KU Skyhawk. A aeronave recebeu novos sistemas de missão, cockpit digital, guerra eletrônica, comunicações e outros equipamentos, além do novo radar.

A capacidade de trabalhar nos modos ar-ar, ar-mar e ar-solo é particularmente relevante para uma aeronave destinada a operar dentro da estrutura da Aviação Naval e no ambiente onde o domínio marítimo é parte central do cenário operacional. O F-5M seguiu outra lógica.

A FAB precisava manter operacionalmente relevante uma frota de aeronaves concebidas décadas antes, transformando-as em plataformas capazes de operar em um ambiente de combate muito diferente daquele para o qual haviam sido originalmente projetadas.

GRIFO-F

O programa de modernização incorporou o radar Grifo-F/BR e também novos aviônicos, computador de missão, sistemas de guerra eletrônica, comunicações, data-link e capacidade de empregar armamentos modernos.

O resultado não foi simplesmente um F-5 com um radar novo. Foi uma nova arquitetura de missão instalada sobre uma plataforma antiga. Essa diferença é fundamental para compreender por que não faz sentido afirmar que o F-5M é inferior ao AF-1M apenas porque os números divulgados para o alcance do radar são diferentes.

O radar do caça precisa ser analisado dentro do sistema de combate ao qual pertence. E, no caso da FAB, isso nos leva diretamente ao E-99M.

A defesa aérea brasileira foi estruturada para operar com diferentes sensores e plataformas trabalhando de forma integrada. As aeronaves de alerta antecipado e controle aéreo ampliam a consciência situacional e permitem que os caças recebam informações sobre o ambiente operacional que vão muito além daquilo que conseguiriam obter apenas com o sensor instalado na própria aeronave. Isso muda completamente a interpretação sobre o F-5M.

A ideia de que o caça estaria praticamente “cego” sem o E-99 parte de uma visão na qual cada aeronave precisaria construir sozinha toda a imagem do campo de batalha. Não é essa a lógica da guerra aérea moderna.

Em uma arquitetura conectada, o caça continua utilizando seu próprio radar. Ele precisa detectar, acompanhar e atuar sobre os contatos que estejam dentro de sua capacidade. Mas pode receber informações de outras plataformas e sistemas, reduzindo o tempo necessário para procurar determinado setor e aumentando sua consciência sobre o cenário.

O E-99, portanto, não existe para compensar uma suposta incapacidade absoluta do radar do F-5M. Ele existe porque uma aeronave de alerta antecipado exerce uma função diferente e complementar, produzindo uma visão muito mais ampla do espaço aéreo e contribuindo para coordenar as aeronaves de combate.

O mesmo raciocínio vale para o armamento. A presença do Derby no F-5M representa uma mudança importante em sua capacidade de combate além do alcance visual. Mas o míssil não deve ser analisado isoladamente.

Para que uma arma BVR seja empregada de maneira eficiente, é necessário combinar informações de sensores, processamento, consciência situacional, comunicação e uma solução de engajamento adequada. A capacidade de combate nasce dessa combinação. É por isso que o debate sobre Grifo-F/BR e EL/M-2032 é mais interessante do que parece.

A Marinha escolheu um radar com características adequadas às necessidades do AF-1M e ao ambiente em que a aeronave deveria operar. A FAB adotou outra solução para o F-5M, dentro de um programa que buscava transformar uma plataforma antiga em um caça capaz de permanecer relevante na defesa aérea brasileira.

Não são necessariamente escolhas comparáveis em uma escala simples de “melhor” ou “pior", são respostas diferentes para problemas diferentes. Isso não significa ignorar as diferenças entre os sistemas.

O EL/M-2032 apresenta características de alcance e modos de operação que o tornam uma solução relevante para o AF-1M, especialmente na atuação sobre o ambiente marítimo. O Grifo-F/BR, por outro lado, foi incorporado a uma arquitetura de combate na qual o radar é apenas uma das ferramentas disponíveis ao F-5M.

É justamente essa diferença entre sensor e sistema de combate que costuma desaparecer quando a discussão fica restrita às fichas técnicas. O radar é importante, muito importante, mas ele não luta sozinho.

A aeronave precisa transformar a informação obtida pelo sensor em consciência situacional. Essa informação precisa ser processada, compartilhada quando necessário e utilizada para orientar uma decisão. Depois, o armamento precisa ser capaz de transformar essa decisão em efeito.

Nesse ponto, o F-39E Gripen introduz uma mudança de patamar na FAB. A incorporação de um caça equipado com radar AESA, sistemas avançados de guerra eletrônica, sensores modernos, processamento mais poderoso e elevada capacidade de integração em rede representa uma mudança geracional em relação ao F-5M.

Mas isso não apaga a lógica pela qual o F-5M foi modernizado. O programa não pretendia transformar o F-5 em um caça de quinta geração. Pretendia extrair o máximo de uma plataforma existente e mantê-la capaz de cumprir suas funções dentro da estrutura de defesa aérea brasileira. É justamente por isso que comparar apenas o alcance dos radares pode produzir uma conclusão errada.

O EL/M-2032 pode apresentar números superiores em determinadas condições e modos de operação. Isso é uma informação relevante. Mas a pergunta operacional não termina aí, o que importa é o que aquela informação permite fazer.

Um radar que detecta um contato precisa estar conectado a um sistema capaz de transformar aquela detecção em consciência situacional e, posteriormente, em capacidade de engajamento.

É nesse ponto que a comparação entre Grifo-F/BR e EL/M-2032 deixa de ser apenas uma disputa entre dois equipamentos e passa a revelar duas formas diferentes de construir capacidade de combate.

No fim, os números contam apenas uma parte da história. O verdadeiro valor de um radar aparece quando ele deixa de ser apenas um sensor e passa a funcionar como parte de um sistema de combate. É nessa integração entre radar, guerra eletrônica, comunicações, data-link, armamento, plataforma e operador que se mede a capacidade real de uma aeronave.

E é justamente por isso que, quando colocamos Grifo-F/BR e EL/M-2032 lado a lado, a pergunta mais interessante não é simplesmente qual deles enxerga mais longe. É entender o que cada um permite que o vetor faça com aquilo que conseguiu enxergar.


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Exército demonstra integração de drones ao Proteus-SGP na viatura Guaiucurus

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Solução apresentada no CTEx conecta sensores aéreos ao sistema de gerenciamento da plataforma e leva vídeo e telemetria diretamente ao BMS, ampliando a capacidade de reconhecimento e a consciência situacional

No campo de batalha moderno, enxergar primeiro continua sendo uma vantagem, mas já não basta. A informação precisa chegar rapidamente a quem está em condições de transformá-la em decisão. Foi justamente essa lógica que esteve no centro de uma demonstração realizada pelo Exército Brasileiro no Centro Tecnológico do Exército (CTEx), onde a viatura Guaiucurus recebeu em tempo real dados provenientes de um sistema aéreo remotamente pilotado (SARP).

A demonstração realizada em 31 de julho durante a Exposição de Materiais alusiva ao Dia do Quadro de Engenheiros Militares, mostrou a integração de telemetria e vídeo de um drone ao Battle Management System (BMS) da plataforma por meio do Proteus-SGP.

Na prática, o que antes poderia funcionar como dois sistemas independentes passa a fazer parte de uma mesma arquitetura operacional. O SARP atua como sensor aéreo, enquanto a Guaiucurus recebe e apresenta essas informações à tripulação dentro de seu próprio ambiente de gerenciamento.

A diferença parece simples, mas possui consequências importantes. Com o drone operando à frente ou sobre determinada área, a viatura pode ampliar sua percepção do terreno sem necessariamente precisar se expor para obter aquela informação. O comandante passa a receber na própria interface da plataforma imagens e dados produzidos por um sensor que está fora da viatura, inclusive informações provenientes da câmera térmica.

É nesse ponto que a demonstração deixa de ser apenas uma integração tecnológica e passa a representar uma mudança na doutrina de emprego da plataforma.

Do sensor aéreo ao comandante

Durante uma missão de reconhecimento, a capacidade de observar além da linha de visada da viatura pode fazer diferença entre avançar às cegas ou tomar uma decisão baseada em informações atualizadas.

O drone pode ser empregado como um sensor avançado, observando uma área de interesse e transmitindo suas informações para a Guaiucurus. A tripulação, por sua vez, recebe esse dado dentro do sistema de gerenciamento da plataforma.

A integração da câmera térmica amplia ainda mais essa possibilidade. O sensor aéreo pode produzir imagens em condições nas quais a observação convencional apresenta limitações, permitindo que a tripulação tenha uma percepção diferente do terreno durante operações noturnas ou em ambientes de baixa visibilidade.

Mais do que receber uma imagem, a Guaiucurus passa a receber informação de um sensor que não está fisicamente dentro dela.

Essa diferença é importante porque aproxima a plataforma terrestre de uma lógica de combate em rede, na qual a capacidade de uma unidade não está limitada aos sensores instalados diretamente sobre seu veículo.

Proteus-SGP evolui como arquitetura de integração

O Proteus-SGP não surgiu agora. O sistema vem sendo desenvolvido pelo Exército Brasileiro há anos com uma proposta que vai além de simplesmente reunir informações em uma tela.

A ideia é criar uma arquitetura capaz de integrar os diferentes sistemas eletrônicos da plataforma, permitindo que sensores, comunicações e sistemas de missão trabalhem dentro de um mesmo ambiente.

O projeto já passou por avaliações em plataformas como o VBTP-MR Guarani e o VBMT-LR Guaicurus, dentro de um processo que busca ampliar a integração dos sistemas embarcados e fornecer ao comandante uma visão mais completa da plataforma e do ambiente operacional.

O desenvolvimento também está relacionado aos conceitos de Generic Vehicle Architecture (GVA) e NATO Generic Vehicle Architecture (NGVA), utilizados como referência para a integração de sistemas eletrônicos em veículos militares.

A evolução apresentada no Guaiucurus acrescenta uma camada importante a esse conceito. O sistema passa a incorporar dados produzidos fora da própria viatura, conectando o domínio aéreo ao terrestre.

Isso abre uma possibilidade particularmente importante para plataformas que precisam permanecer em serviço durante décadas. Enquanto a estrutura física de um veículo possui um ciclo de vida longo, sensores, computadores, rádios e sistemas de missão evoluem em ritmo muito mais rápido.

Uma arquitetura de integração permite acompanhar parte dessa evolução sem transformar cada nova tecnologia em um projeto completamente independente.

A viatura como parte de uma rede

A demonstração também ajuda a compreender como está mudando o papel das plataformas terrestres. Uma viatura de reconhecimento deixa de ser apenas um veículo equipado com seus próprios sensores e passa a funcionar como um nó dentro de uma rede maior. Ela pode receber informações produzidas por drones, compartilhar seus próprios dados e, dependendo da arquitetura empregada, alimentar outros elementos da força. Nesse modelo, não é necessário que todos os sensores estejam fisicamente concentrados na mesma plataforma.

O SARP pode observar uma área distante. O Guaiucurus pode utilizar essa informação para orientar sua movimentação. Outros elementos podem receber posteriormente os dados produzidos pelo conjunto. O ganho está na integração.

É justamente aí que o Proteus-SGP ganha relevância. Ao funcionar como uma camada de gerenciamento e integração, o sistema permite aproximar diferentes equipamentos dentro de uma mesma arquitetura operacional.

Essa abordagem também cria espaço para futuras incorporações de sensores, sistemas de comunicação e equipamentos de missão, acompanhando a evolução tecnológica sem necessariamente exigir uma nova plataforma a cada ciclo de modernização.

Reconhecimento com maior profundidade

A aplicação mais evidente da capacidade apresentada está nas missões de reconhecimento. Uma plataforma terrestre precisa obter o máximo possível de informações antes de comprometer sua posição. O emprego de um SARP permite ampliar a profundidade da observação enquanto a viatura permanece em uma posição mais protegida.

Isso pode ser especialmente relevante em terrenos onde obstáculos naturais ou urbanos limitam a observação direta.

O drone pode ultrapassar uma elevação, observar uma área além de uma construção ou acompanhar um setor enquanto a viatura permanece em uma posição de espera. As informações retornam à plataforma e passam a integrar o quadro apresentado ao comandante.

A câmera térmica acrescenta outra camada a esse processo, permitindo explorar diferenças de assinatura térmica que não seriam necessariamente percebidas pelos sensores convencionais.

O resultado é uma consciência situacional construída a partir de diferentes fontes. A viatura não precisa necessariamente enxergar tudo por seus próprios meios. Ela precisa estar conectada aos sensores capazes de enxergar aquilo que seus próprios sistemas não conseguem.

Mais do que modernizar uma viatura

O avanço apresentado no CTEx mostra uma mudança importante na forma de pensar a modernização dos meios terrestres.

Durante muito tempo, a evolução de uma viatura esteve associada principalmente à proteção, mobilidade e poder de fogo. Esses elementos continuam fundamentais, mas a dimensão digital passou a ocupar espaço cada vez maior.

Uma plataforma equipada com sensores modernos, mas incapaz de compartilhar suas informações, possui uma limitação que não está necessariamente relacionada ao desempenho de seus equipamentos.

Da mesma forma, um drone capaz de produzir imagens de alta qualidade perde parte de seu potencial se a informação não chegar rapidamente ao elemento que precisa utilizá-la. A integração entre SARP, Proteus-SGP e BMS busca justamente reduzir essa distância.

O dado é produzido no ar, transmitido para a plataforma terrestre, integrado ao sistema e apresentado ao comandante. A cadeia entre sensor e decisão se torna mais curta.

Essa é uma das características que definem a transformação digital dos campos de batalha contemporâneos.

Um passo na direção do combate conectado

A demonstração realizada pelo Exército Brasileiro não representa apenas a conexão entre um drone e uma viatura. Ela mostra uma arquitetura na qual diferentes plataformas podem começar a compartilhar informações em tempo real, ampliando a capacidade de uma força sem necessariamente aumentar proporcionalmente o número de sistemas empregados.

Para a Guaiucurus, isso significa transformar o SARP em uma extensão de sua capacidade de reconhecimento. Para o Proteus-SGP, representa uma evolução de seu papel como elemento de integração dos sistemas embarcados.

E, para a força terrestre, aponta para um modelo no qual plataformas, sensores e sistemas de comando e controle passam a trabalhar de maneira cada vez mais conectada.

O que foi apresentado no CTEx pode parecer discreto diante de um novo veículo ou de um novo sistema de armas, mas possui um peso crescente no campo de batalha moderno. Quando diferentes plataformas conseguem compartilhar informações em tempo real, a vantagem deixa de estar apenas em quem possui o melhor sensor ou a viatura mais protegida. Passa também a estar nas mãos de quem consegue transformar informação em decisão antes do adversário.


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Pacto de Meca: Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão desenham novo eixo de dissuasão no Oriente Médio

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Acordo que estabelece que um ataque armado contra qualquer um dos três países será considerado uma agressão contra todos representa mais do que uma aproximação política: ele cria uma nova camada de segurança entre o Golfo, Anatólia e o Sul da Ásia

A assinatura em Meca do "Acordo Conjunto de Defesa de Meca" por Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão marca uma mudança relevante na arquitetura de segurança do Oriente Médio. O ponto central do entendimento é direto: um ataque armado contra qualquer um dos três Estados será considerado um ataque contra todos. Ao mesmo tempo, os governos envolvidos fizeram questão de apresentar o acordo como defensivo, sem apontar formalmente um adversário específico e sem substituir os compromissos bilaterais ou multilaterais já existentes.

À primeira vista, pode parecer apenas mais um acordo de cooperação entre países que já mantêm relações militares próximas. O elemento que muda sua dimensão estratégica, porém, é a combinação de três capacidades bastante distintas.

Türkiye traz uma força militar de grande, a segunda maior da OTAN, e uma indústria de defesa que deixou de ser apenas consumidora de tecnologia estrangeira para se tornar exportadora e desenvolvedora de sistemas próprios. A Arábia Saudita acrescenta recursos financeiros, infraestrutura estratégica e uma posição geográfica central para o Golfo e as rotas energéticas. O Paquistão, por sua vez, introduz uma dimensão militar que nenhum dos outros dois possui: uma força armada experiente e um arsenal nuclear. É justamente essa composição que torna o pacto particularmente relevante.

Da relação bilateral ao mecanismo trilateral

O acordo não surgiu do vazio. Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão já mantinham relações militares em diferentes níveis, enquanto Ancara e Islamabad possuem uma cooperação particularmente estreita no setor de defesa.

O relacionamento entre Paquistão e Arábia Saudita também ganhou uma nova dimensão com o Acordo Estratégico de Defesa Mútua, firmado em setembro de 2025. O IISS avaliou à época que o entendimento tinha potencial para consolidar e revitalizar décadas de cooperação militar, diplomática e econômica, embora seus mecanismos de implementação permanecessem pouco transparentes.

Essa relação já começou a produzir efeitos concretos. Em abril de 2026, o Ministério da Defesa saudita anunciou a chegada de uma força militar paquistanesa à Base Aérea King Abdulaziz, incluindo aeronaves de caça e apoio, vinculada ao acordo bilateral de defesa. O objetivo declarado era elevar a coordenação militar e a prontidão operacional entre as duas forças.

Portanto, o novo pacto trilateral não parte de uma folha em branco. Ele amplia uma estrutura que já vinha sendo construída.

A variável Türkiye muda o cálculo

A entrada formal de Türkiye acrescenta uma dimensão que vai além da simples ampliação do número de forças disponíveis.

A Türkiye é membro da OTAN desde 1952 e possui a segunda maior força militar da Aliança. Sua posição geográfica também lhe proporciona acesso ao Mediterrâneo, ao Mar Negro e ao Oriente Médio, enquanto os Estreitos Turcos dão a Ancara uma posição singular sobre as comunicações marítimas entre o Mar Negro e o Mediterrâneo.

Mas talvez o aspecto mais importante seja a transformação de sua Base Industrial de Defesa. O setor turco vem ampliando sua capacidade de desenvolver e exportar aeronaves, drones, mísseis, sistemas eletrônicos, navios e veículos blindados. Esse processo transformou a indústria de defesa da Türkiye uma ferramenta de política externa e de construção de parcerias estratégicas.

A aproximação com Riad também possui uma dimensão industrial. A participação de empresas turcas em grandes eventos de defesa na Arábia Saudita e a assinatura de acordos entre os dois países demonstram que a relação ultrapassa a esfera diplomática e avança para a cooperação tecnológica e comercial.

Isso é importante porque o pacto pode evoluir de uma garantia política de segurança para uma arquitetura de cooperação militar-industrial. E essa talvez seja uma das consequências mais relevantes do acordo.

Riad busca mais autonomia estratégica

A posição saudita merece atenção especial. Durante décadas, a segurança do reino esteve profundamente vinculada à presença e às capacidades norte-americanas. Isso não significa que a Arábia Saudita esteja abandonando os Estados Unidos. O cenário é mais complexo. Riad parece estar adotando uma estratégia de diversificação de garantias e fornecedores, evitando depender de um único parceiro para sua segurança.

Os números ajudam a dimensionar a capacidade financeira disponível. Segundo o SIPRI, a Arábia Saudita gastou aproximadamente US$ 83,2 bilhões em defesa no ano de 2025, tornando-se o oitavo maior investidor em defesa no mundo. A Türkiye gastou cerca de US$ 30 bilhões, enquanto o Paquistão registrou US$ 11,9 bilhões. Somados, os três países representaram aproximadamente US$ 125 bilhões em despesas militares em 2025.

Mas dinheiro, isoladamente, não produz capacidade militar. É justamente aí que a combinação se torna interessante: Riad possui recursos para financiar aquisição, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico; Türkiye possui uma crescente capacidade industrial; e Islamabad oferece experiência operacional, treinamento e uma estrutura militar que mantém estreitos vínculos com a Arábia Saudita há décadas.

O componente nuclear precisa ser tratado com cautela

Existe inevitavelmente uma discussão sobre o fato do Paquistão ser uma potência nuclear.

Seria, entretanto, um erro interpretar automaticamente o novo acordo como uma extensão da dissuasão nuclear paquistanesa para a Arábia Saudita.

Até o momento, não há indicação pública de que o pacto estabeleça qualquer compromisso nuclear. O próprio desenho divulgado pelas partes é convencional e defensivo, enquanto análises anteriores sobre a relação Paquistão-Arábia Saudita apontam que a dissuasão nuclear paquistanesa permanece fundamentalmente orientada para a ameaça percebida proveniente da Índia. Essa distinção é fundamental.

O valor estratégico do Paquistão para o acordo não depende necessariamente da transferência ou extensão de um guarda-chuva nuclear. Islamabad possui forças convencionais significativas, capacidade aérea, defesa antiaérea, experiência em operações e uma estrutura militar capaz de projetar contingentes para fora de seu território.

A presença paquistanesa na Arábia Saudita demonstra que essa cooperação pode assumir forma operacional concreta sem necessariamente cruzar a linha nuclear.

O verdadeiro teste será operacional

É aqui que o entusiasmo em torno do acordo precisa encontrar uma dose de realismo. Declarar que um ataque contra um membro será considerado um ataque contra todos produz dissuasão política, mas não significa automaticamente que exista uma força conjunta pronta para responder de maneira integrada.

O comunicado do acordo não detalha quais forças seriam empregadas, em quanto tempo, sob qual comando, com quais regras de engajamento ou mediante quais mecanismos de consulta. Também não está claro até que ponto o compromisso obrigará cada país a realizar determinada ação militar em defesa dos demais. Essa é uma diferença fundamental entre aliança declaratória e aliança operacional.

Para transformar o pacto em capacidade militar efetiva seriam necessários exercícios combinados, procedimentos de comando e controle, intercâmbio de inteligência, protocolos de mobilização, interoperabilidade de comunicações, planejamento logístico e, sobretudo, definição de quais cenários acionariam a resposta coletiva. Sem esses elementos, o acordo funciona principalmente como mecanismo de sinalização estratégica. E sinalização em geopolítica também é capacidade.

O problema da geografia

Existe ainda um desafio estrutural. Os três países estão separados por grandes distâncias e pertencem a ambientes estratégicos distintos. A Türkiye está diretamente ligada ao Mediterrâneo Oriental, Mar Negro, Cáucaso e Oriente Médio. A Arábia Saudita está no centro do Golfo e da Península Arábica. O Paquistão está inserido no Sul da Ásia, com sua principal preocupação militar convencional historicamente concentrada na Índia, além de enfrentar desafios em sua fronteira ocidental.

Isso significa que a cláusula de defesa coletiva não elimina os cálculos nacionais. Pelo contrário, em uma crise real, cada capital terá de decidir até onde está disposta a ir.

Para Islamabad, por exemplo, um conflito que envolvesse diretamente a Arábia Saudita poderia exigir a redistribuição de recursos militares de seu principal teatro estratégico, o Sul da Ásia. Para Türkiye, a questão seria ainda mais complexa diante de seus compromissos com a OTAN, sua posição no Mediterrâneo Oriental e seus próprios interesses no Oriente Médio.

A existência do pacto, portanto, não significa que os três países passem a compartilhar automaticamente uma mesma percepção de ameaça.

O impacto sobre o Irã

Embora os signatários afirmem que o acordo não é dirigido contra nenhum país específico, é impossível ignorar o ambiente no qual ele foi assinado.

O Irã é uma das principais variáveis estratégicas desse novo arranjo. A escalada regional e os ataques contra Estados do Golfo elevaram significativamente a percepção de risco em Riad e nas demais monarquias da região.

Entretanto, existe uma variável importante: o Paquistão mantém uma relação geográfica e diplomática com Irã.

Os dois países compartilham uma extensa fronteira e possuem interesses comuns em questões como controle fronteiriço, terrorismo e segurança regional. Islamabad precisa administrar cuidadosamente essa relação.

Assim, o Paquistão não necessariamente deseja transformar o pacto em uma estrutura explicitamente anti-Irã. Isso ajuda a explicar por que a linguagem oficial enfatiza a natureza defensiva do acordo.

Israel também precisa entrar no cálculo

A equação não termina em Teerã. Türkiye e o Paquistão vêm adotando posições críticas em relação às operações israelenses, enquanto a Arábia Saudita procura equilibrar suas preocupações de segurança com seus interesses econômicos e diplomáticos.

O resultado é uma configuração na qual o pacto pode funcionar como mecanismo de dissuasão em múltiplas direções, sem necessariamente constituir uma aliança militar ofensiva contra Israel ou contra o Irã.

Essa ambiguidade é provavelmente deliberada. Ela permite que os três países ampliem sua margem de manobra sem assumir publicamente um compromisso de guerra contra um adversário específico.

O fator Estados Unidos

Também seria precipitado interpretar o acordo como uma simples ruptura saudita com Washington. O que está ocorrendo parece mais próximo de uma redistribuição do risco estratégico.

A Arábia Saudita continua dependente de sistemas norte-americanos em áreas críticas de sua defesa. Ao mesmo tempo, busca aprofundar relações com Türkiye, Paquistão e outros parceiros.

Para Riad, a lógica parece ser menos "substituir os Estados Unidos" e mais evitar que a segurança nacional saudita dependa exclusivamente de Washington. Essa distinção é essencial.

Diante do cenário no qual ataques de mísseis, drones e ameaças às rotas marítimas podem ocorrer em múltiplos eixos, possuir diferentes parceiros capazes de fornecer meios, treinamento, inteligência e apoio operacional aumenta a resiliência estratégica.

Mais do que um pacto, um laboratório de cooperação militar

O ponto que merece maior atenção daqui para frente será observar se o acordo avançará para uma estrutura institucional.

Se Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão começarem a estabelecer exercícios trilaterais regulares, centros de coordenação, mecanismos de inteligência compartilhada e programas conjuntos de defesa, estaremos diante de algo qualitativamente diferente.

A dimensão industrial pode ser ainda mais importante. A Türkiye já demonstrou capacidade de transformar relações políticas em contratos de defesa, enquanto a Arábia Saudita possui recursos financeiros e ambições de desenvolver sua própria indústria de defesa. O Paquistão, por sua vez, oferece experiência acumulada em produção, manutenção e emprego de sistemas militares em ambiente operacional.

Esse triângulo pode produzir cadeias de cooperação tecnológica, produção conjunta e transferência de conhecimento, especialmente em drones, guerra eletrônica, defesa aérea, munições guiadas, sistemas navais e comando e controle.

O histórico recente já mostra que essa convergência não é apenas teórica. A cooperação naval entre Türkiye e Paquistão avançou para a construção conjunta de navios da classe MILGEM, enquanto Riad vem ampliando sua relação com a indústria turca.

Uma nova geometria de poder

O significado maior do Acordo de Meca está justamente na mudança da geometria estratégica. Durante décadas, a segurança do Oriente Médio foi estruturada predominantemente em torno de grandes potências externas e alianças bilaterais. O movimento atual aponta para algo diferente: potências regionais tentando construir mecanismos próprios de dissuasão e cooperação.

Não estamos diante de uma nova OTAN islâmica, pelo menos não neste momento. A comparação é tentadora, mas tecnicamente prematura. Falta ao acordo uma estrutura institucional, comando militar integrado, mecanismos públicos de acionamento e o nível de interoperabilidade existente na Aliança Atlântica.

O que existe hoje é algo mais interessante e, talvez, mais adaptável: uma arquitetura trilateral de segurança baseada em interesses convergentes, capaz de crescer conforme as circunstâncias.

A grande questão agora não é saber se Türkiye, Arábia Saudita e Paquistão possuem capacidade militar relevante. Os três possuem. A questão é saber até onde estarão dispostos a transformar essa capacidade nacional em capacidade coletiva.

Se o acordo permanecer restrito à declaração política, seu impacto será principalmente diplomático e dissuasório. Se evoluir para planejamento operacional, exercícios combinados, integração de inteligência e cooperação industrial, poderá representar o surgimento de um novo polo de poder militar entre o Mediterrâneo, o Golfo e o Sul da Ásia. E é justamente essa evolução que deverá ser acompanhada de perto nos próximos meses.


Por Angelo Nicolaci


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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Exército Brasileiro testa radar SENTIR M20 em cenário que combina vigilância terrestre e detecção aérea

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Novo sistema radar desenvolvido no Brasil foi submetido a testes no Campo de Provas da Marambaia, avaliando sua capacidade de detectar pessoas e aeronaves em diferentes condições de distância, altitude e velocidade

A capacidade de vigilância do Exército Brasileiro ganhou mais um importante capítulo com a realização de uma série de testes técnicos envolvendo o radar SENTIR M20. A atividade, conduzida pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx), buscou verificar em condições controladas, o desempenho do sistema na detecção de alvos terrestres e aéreos, incluindo pessoas e aeronaves em movimento.

Os ensaios ocorreram nos dias 21 e 22 de julho, no Campo de Provas da Marambaia no Rio de Janeiro, e fazem parte do processo de avaliação de materiais destinados ao emprego pela Força Terrestre. O objetivo foi verificar a capacidade do SENTIR M20 de detectar uma pessoa a pé a distâncias de até 4 quilômetros, além de acompanhar aeronaves a até 12 quilômetros, considerando diferentes parâmetros de altitude e velocidade.

Para a avaliação do desempenho contra alvos terrestres, foi empregado um militar equipado com armamento e capacete, permitindo reproduzir uma situação operacional mais próxima daquela encontrada em campo. Já para os ensaios de detecção aérea, o Exército utilizou um helicóptero HM-1 Pantera K2 do 2º Batalhão de Aviação do Exército (2º BAvEx).

A atividade foi conduzida na chamada Linha V (Rampa) sob coordenação da Primeira-Tenente do Quadro de Engenheiros Militares - Engenharia Eletrônica, Rebeca Ribeiro Kurchchoff, adjunta da Seção de Avaliação de Material de Emprego Militar. Engenheiros e técnicos do CAEx, além de militares do 2º BAvEx, também participaram dos testes.

Mais do que uma simples verificação de alcance, esse tipo de ensaio é fundamental para determinar como um sistema de sensores se comporta diante de diferentes tipos de alvos e condições de emprego. Para uma força terrestre que amplia progressivamente sua capacidade de operar em ambientes multidomínio, a integração entre vigilância, consciência situacional e resposta operacional tornou-se um elemento cada vez mais relevante.

Tecnologia nacional aplicada à defesa

O SENTIR M20 representa um dos resultados da aproximação entre o Exército Brasileiro e a indústria nacional de defesa. O radar de vigilância terrestre é fruto da parceria com a Embraer, dentro de uma iniciativa apoiada pela Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).

Essa relação entre Forças Armadas, indústria e instituições públicas de fomento é particularmente importante para o desenvolvimento de tecnologias críticas no Brasil. Além de atender a uma necessidade operacional específica, projetos dessa natureza contribuem para preservar conhecimento tecnológico no país e ampliar a capacidade da Base Industrial de Defesa de desenvolver soluções próprias.

No campo operacional, um radar capaz de identificar e acompanhar alvos terrestres amplia a consciência situacional das tropas, permitindo detectar movimentações antes que estas estejam visualmente perceptíveis aos elementos de uma unidade. Quando associado a outros sensores e sistemas de comando e controle, esse tipo de capacidade pode contribuir para formar uma imagem mais completa do ambiente operacional.

A realização dos testes com o SENTIR M20 também evidencia a importância do CAEx dentro do ciclo de desenvolvimento e aquisição de sistemas militares. É nessa etapa que os equipamentos deixam o ambiente de desenvolvimento e passam a ser submetidos a critérios técnicos e operacionais que determinarão sua adequação ao emprego pela Força Terrestre.

No caso do SENTIR M20, a avaliação envolvendo simultaneamente um alvo terrestre e uma aeronave amplia a compreensão sobre a versatilidade do sistema. O emprego do HM-1 Pantera K2 como alvo aéreo acrescenta uma dimensão prática aos ensaios, permitindo verificar o comportamento do radar diante de uma plataforma real em voo.

O processo integra o esforço do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército para colocar à disposição da Força Terrestre equipamentos seguros, confiáveis e adequados às necessidades do campo de batalha contemporâneo.

A evolução desse tipo de capacidade é especialmente relevante diante de um ambiente operacional no qual a detecção antecipada deixou de estar restrita às grandes plataformas. Drones, equipes de reconhecimento, veículos leves e outros elementos de baixa assinatura passaram a exigir sensores capazes de ampliar a percepção do campo de batalha em tempo real.

Nesse contexto, sistemas nacionais como o SENTIR M20 assumem importância que vai além de suas características individuais. Eles fazem parte de uma arquitetura maior de sensores, comunicações e sistemas de comando e controle que permitirá ao Exército Brasileiro avançar na construção de uma força mais conectada, capaz de detectar, acompanhar e responder com maior rapidez às ameaças presentes no ambiente operacional.


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