A incorporação do Centauro II BR ao Exército Brasileiro não representa uma substituição imediata de toda a frota de EE-9 Cascavel. O planejamento apresentado pelo Comandante Logístico, General de Exército Ribeiro, aponta para uma transição gradual, na qual a nova Viatura Blindada de Combate de Cavalaria Multipropósito Sobre Rodas 8x8 (VBC Cav-MSR 8x8) passará a operar ao lado de meios modernizados, formando uma estrutura de capacidades complementares.
Durante a coletiva realizada após a assinatura do contrato do Lote de Experimentação Doutrinária, o General Ribeiro confirmou que o planejamento atual do Exército contempla uma frota de 98 Centauro II BR. A quantidade deve ser alcançada progressivamente, dentro de um programa de longo prazo, e não corresponde a uma substituição imediata de todos os veículos de Cavalaria atualmente empregados pela Força Terrestre.
A dimensão temporal é relevante. A incorporação do Centauro II ocorrerá em etapas, permitindo que o Exército acompanhe a formação das tripulações, a adaptação das estruturas de manutenção, a consolidação da logística e, principalmente, a experimentação da nova plataforma antes da expansão da capacidade para outras organizações militares.
Nesse intervalo, o Cascavel continuará tendo papel importante. O Exército mantém um programa de modernização do EE-9, incorporando novos sistemas e atualizando seus recursos para ampliar sua permanência operacional. O planejamento do Programa Estratégico Forças Blindadas prevê a modernização de 98 Cascavéis, em paralelo à aquisição dos 98 Centauro II.
É importante destacar que esses 98 Cascavéis não representam toda a frota existente do Exército, mas a quantidade atualmente prevista para receber a atualização tecnológica. A modernização ocorre de forma progressiva e busca preservar uma parcela da capacidade existente enquanto a nova geração de viaturas de Cavalaria é incorporada.
A modernização do Cascavel vai muito além de uma simples recuperação mecânica. O programa conduzido pela indústria brasileira incorpora uma nova motorização e atualizações em sistemas como transmissão, suspensão, freios e arrefecimento, além de sistema central de enchimento dos pneus, ar-condicionado e melhorias na torre. O conjunto permite recuperar a mobilidade e ampliar a disponibilidade operacional da plataforma.
A transformação mais significativa, porém, está na arquitetura eletrônica. Os Cascavéis modernizados recebem novos sistemas optrônicos para comandante e atirador, substituindo as antigas soluções ópticas e ampliando a capacidade de observação, identificação e pontaria em diferentes condições de iluminação.
A modernização também incorpora um novo computador de tiro, responsável pelos cálculos balísticos, além de um sistema de comando e controle capaz de processar informações dos sensores e do ambiente operacional em tempo real. O motorista passa a contar ainda com um sistema digital de visão baseado em câmeras, proporcionando consciência situacional de 360 graus e capacidade de operação noturna.
Os novos sistemas de comunicação e navegação completam essa transformação, inserindo o Cascavel em uma arquitetura muito mais conectada do que aquela existente em sua configuração original. Dessa forma, embora mantenha a estrutura básica de uma plataforma concebida há décadas, o veículo passa a contar com recursos eletrônicos compatíveis com as exigências do teatro de operações contemporâneo.
Na prática, isso significa que o projeto não se limita a prolongar a vida mecânica de uma viatura concebida nos anos 1970. A proposta é transformar o EE-9 em uma plataforma capaz de operar dentro de um ambiente de combate no qual sensores, comunicação, consciência situacional e integração de informações passaram a ter papel tão importante quanto o próprio armamento.
Outro avanço importante está no armamento. A modernização prevê a instalação de um lançador de míssil anticarro na torre principal, e o desenvolvimento do Cascavel NG demonstrou a integração do MAX 1.2 AC, desenvolvido pela SIATT. A solução acrescenta ao veículo uma capacidade de enfrentamento de ameaças blindadas que vai além do emprego isolado do canhão de 90 mm.
A integração do MAX 1.2 AC também demonstra como a modernização do Cascavel está associada ao desenvolvimento de uma cadeia nacional de tecnologias de defesa. Os sistemas optrônicos desenvolvidos pela Opto Space & Defense, empresa do Grupo AKAER, fazem parte dessa arquitetura tecnológica, contribuindo para elevar a capacidade de detecção, identificação e engajamento da viatura.
A lógica é diferente daquela de uma simples substituição de frota. O Centauro II introduz uma plataforma 8x8 com canhão de 120 mm, maior capacidade de aquisição e engajamento de alvos e uma arquitetura digital mais avançada. O Cascavel modernizado, por sua vez, permanece como um meio de reconhecimento e combate sobre rodas, mas atualizado para continuar relevante dentro das capacidades disponíveis ao Exército.
O Centauro II representa o salto qualitativo da Cavalaria brasileira. Com configuração 8x8, a viatura é equipada com a torre HITFACT MkII, desenvolvida pela Leonardo, e armada com o canhão de 120/45 mm de alma lisa. Trata-se de uma torre estabilizada e digitalizada, projetada para permitir o emprego do armamento em movimento, com elevada precisão e capacidade de engajamento em diferentes condições operacionais.

A capacidade de combate do Centauro II, porém, não está concentrada apenas no calibre de seu canhão. A torre HITFACT MkII integra uma arquitetura de sensores, controle de tiro, comunicações e gerenciamento do campo de batalha que coloca a viatura em outro patamar tecnológico. O comandante conta com o sistema panorâmico ATTILA D, capaz de realizar observação independente da torre em 360 graus, com imagem estabilizada, câmeras diurnas e térmicas de alta resolução e telêmetro laser. Já o atirador dispõe do sistema LOTHAR SD, com visão térmica, telêmetro laser, rastreamento automático de alvos e cálculo balístico digital.
Essa configuração permite ao Centauro II detectar, identificar, acompanhar e engajar alvos de forma muito mais rápida e precisa. O comandante pode pesquisar o campo de batalha independentemente da direção apontada pela torre, enquanto o sistema de controle de tiro fornece ao atirador os dados necessários para realizar o engajamento, inclusive contra alvos móveis e durante o deslocamento da viatura.
Outro elemento fundamental é a arquitetura de comunicações e comando e controle. A HITFACT MkII foi concebida com sistemas de comunicação e gerenciamento do campo de batalha, além de intercomunicador digital, permitindo que a viatura opere integrada a uma estrutura de combate em rede. Dessa forma, as informações obtidas pelos sensores podem ser transformadas em consciência situacional e compartilhadas dentro da estrutura operacional.
A proteção também representa uma mudança significativa em relação ao Cascavel. O Centauro II possui arquitetura de proteção balística modular, proteção contra minas e dispositivos explosivos improvisados, além de soluções destinadas a aumentar a sobrevivência da guarnição. A plataforma também incorpora sistemas de alerta laser e recursos destinados a ampliar a proteção da tripulação diante de diferentes ameaças.
A mobilidade completa esse conjunto. A configuração 8x8, associada ao conjunto motriz, transmissão, suspensão e sistemas de controle, permite ao Centauro II combinar elevada mobilidade tática com um poder de fogo tradicionalmente associado a plataformas de maior porte. Essa característica é particularmente importante para uma Força que precisa deslocar seus meios rapidamente por grandes distâncias e operar em diferentes regiões do território nacional.
O Centauro II, portanto, não deve ser compreendido apenas como um Cascavel de maior calibre. Ele representa uma mudança de arquitetura de combate. Seu poder de fogo, sensores, controle de tiro, proteção, comunicações e capacidade de operar em rede formam um sistema integrado, no qual a viatura deixa de ser apenas uma plataforma de armas e passa a funcionar como um nó de combate conectado ao restante da força.
É justamente nessa diferença de capacidades que está a lógica para a manutenção simultânea dos dois veículos.
O Cascavel modernizado terá outra função dentro dessa estrutura. Sua atualização permitirá que continue desempenhando missões de reconhecimento, segurança, patrulhamento e combate, explorando sua mobilidade e incorporando sensores, comunicações e armamento anticarro mais modernos. Em determinadas situações, poderá atuar como elemento de reconhecimento e vigilância, contribuindo para localizar e acompanhar ameaças, enquanto o Centauro II empregará sua maior proteção, poder de fogo e capacidade de aquisição e engajamento de alvos nos momentos em que essas características forem determinantes.
Essa composição permite ao Exército distribuir suas plataformas de acordo com as necessidades de cada organização militar e com as características das missões. O Centauro II concentra maior poder de fogo, proteção e capacidade tecnológica, enquanto os Cascavéis modernizados podem continuar sendo empregados em quantidade relevante, complementando a nova frota.
A estratégia também reduz o risco de uma ruptura operacional durante a renovação da Cavalaria. Em vez de retirar uma grande quantidade de veículos antigos antes que exista uma quantidade suficiente de novos sistemas plenamente incorporados, a Força Terrestre pode conduzir a transição progressivamente, mantendo capacidade disponível enquanto desenvolve a nova estrutura.
Há, porém, uma dimensão doutrinária ainda mais importante nessa decisão. A manutenção simultânea das duas plataformas não significa apenas administrar uma frota de veículos de diferentes gerações. Ela permite que o Exército construa uma nova forma de emprego da Cavalaria sem precisar abandonar imediatamente uma capacidade que ainda pode ser relevante após sua modernização.
O Centauro II passa a ocupar o espaço de maior capacidade dentro dessa estrutura, especialmente nas missões que exigem maior proteção, poder de fogo, alcance de detecção e capacidade de engajamento. O Cascavel modernizado, por sua vez, poderá cumprir tarefas nas quais sua mobilidade, menor porte, quantidade disponível e novos recursos de sensores, comunicação e capacidade anticarro sejam suficientes ou vantajosos.
Essa diferenciação é importante porque o Cascavel modernizado não pretende se transformar em um Centauro II. A modernização busca justamente preservar a utilidade operacional de uma plataforma existente, enquanto o Centauro II introduz uma nova geração de capacidades. As duas viaturas passam, portanto, a ocupar posições diferentes dentro de uma mesma arquitetura de Cavalaria.
O modelo está alinhado ao próprio desenho do Programa Forças Blindadas, que combina aquisição de novas plataformas com a modernização de meios já existentes. O programa contempla simultaneamente o Centauro II e a modernização dos Cascavéis, permitindo que a renovação das capacidades da Força Terrestre seja realizada de maneira progressiva.
Há ainda um aspecto de planejamento de longo prazo que merece atenção. O projeto de modernização estabelece que os Cascavéis modernizados deverão permanecer em serviço por pelo menos 15 anos após a entrega da última viatura modernizada. Esse horizonte coloca a modernização em uma perspectiva muito mais ampla do que simplesmente preencher o período de transição até a chegada dos Centauro II.
Na prática, significa que os dois sistemas deverão conviver por um período prolongado. Enquanto os 98 Centauro II forem incorporados progressivamente, os Cascavéis modernizados continuarão ativos e integrados à estrutura operacional do Exército, permitindo que a Força desenvolva sua doutrina, forme pessoal, consolide a logística e explore as diferentes possibilidades de emprego das duas plataformas.
Esse período de coexistência também poderá produzir um efeito importante sobre o futuro da Cavalaria brasileira. Quando os últimos Cascavéis modernizados se aproximarem do final de sua vida útil, o Exército já terá acumulado anos de experiência operacional com o Centauro II e poderá avaliar de maneira mais precisa quais capacidades serão necessárias para a próxima geração de viaturas de Cavalaria.
Nesse cenário, embora não exista hoje uma decisão estabelecida nesse sentido, poderá surgir no futuro a necessidade de um novo programa de obtenção para substituir os Cascavéis modernizados quando eles chegarem ao fim de sua vida operacional. Esse eventual programa poderá aproveitar a experiência acumulada com o Centauro II para definir os requisitos tecnológicos e doutrinários de uma futura geração de viaturas de Cavalaria.
A perspectiva cria um ciclo de renovação no qual a modernização dos Cascavéis garante capacidade operacional no médio e longo prazo, enquanto a incorporação dos Centauro II permite ao Exército desenvolver uma nova doutrina e consolidar uma arquitetura de combate mais conectada, protegida e letal.
A incorporação da nova plataforma, portanto, não se encerra simplesmente com a entrega das 98 unidades. O Exército terá pela frente um processo de formação de pessoal, consolidação da cadeia logística, desenvolvimento doutrinário e experiência operacional que poderá influenciar decisões futuras sobre a Cavalaria.
Também existe uma dimensão econômica. A aquisição de 98 Centauro II representa um investimento elevado e sua incorporação ocorrerá ao longo de vários anos. Manter 98 Cascavéis modernizados permite distribuir os investimentos ao longo do tempo, evitando que toda a capacidade da Cavalaria dependa da rápida substituição de uma plataforma por outra.
O próprio conceito de modernização do Cascavel reforça essa estratégia. O objetivo não é transformar o EE-9 em um equivalente ao Centauro II, mas ampliar sua utilidade operacional enquanto a nova geração de viaturas é incorporada. São projetos com níveis tecnológicos e capacidades diferentes, destinados a desempenhar funções que podem se complementar dentro da mesma estrutura.
Nesse cenário, o Centauro II deve ser entendido como parte de uma transformação mais ampla da Cavalaria brasileira. A Força Terrestre não está apenas adquirindo uma nova viatura, mas reorganizando progressivamente sua capacidade de reconhecimento e combate sobre rodas, combinando novos sistemas com a extensão da vida operacional de plataformas existentes.
Ao final do ciclo de vida dos Cascavéis modernizados, o Exército poderá então decidir se será necessário um novo programa para substituí-los e qual plataforma melhor atenderá às necessidades daquele momento. Essa decisão poderá ocorrer em um ambiente tecnológico muito diferente do atual, com maior integração entre viaturas tripuladas e não tripuladas, sensores distribuídos, sistemas de proteção mais avançados e uma arquitetura de comando e controle ainda mais integrada.
O ponto central, portanto, não está apenas no número de 98 Centauro II ou de 98 Cascavéis modernizados, mas na forma como o Exército pretende utilizar o tempo para transformar sua Cavalaria. A coexistência das duas plataformas cria uma janela para experimentar novos conceitos de emprego, avaliar a integração entre sensores, sistemas de comando e controle e meios não tripulados, além de identificar quais capacidades realmente produzem vantagem no campo de batalha.
Essa experiência terá valor para além do atual programa. O emprego continuado do Centauro II permitirá ao Exército medir, na prática, o impacto de uma viatura de maior poder de fogo, proteção e consciência situacional sobre a organização e o emprego das unidades de Cavalaria. Ao mesmo tempo, os Cascavéis modernizados servirão como referência para avaliar até onde uma plataforma de geração anterior, atualizada com tecnologia nacional, consegue permanecer eficiente diante da evolução das ameaças.
É nesse processo que estará o verdadeiro resultado do programa. Mais do que entregar uma nova viatura ou prolongar a vida de outra, o Exército estará produzindo conhecimento operacional para definir a Cavalaria das próximas décadas. Quando chegar o momento de substituir os Cascavéis modernizados, a decisão não deverá partir apenas da necessidade de adquirir um novo veículo, mas de uma experiência acumulada sobre quais níveis de proteção, poder de fogo, sensores, mobilidade, conectividade e integração em rede serão efetivamente necessários. O Centauro II, nesse sentido, não representa apenas o próximo passo da Cavalaria brasileira, mas também uma referência para definir o que virá depois dele.
Por Angelo Nicolaci
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