sábado, 29 de julho de 2017

A nova realidade do conflito urbano assimétrico

Os recentes conflitos na Síria e no Iraque tem apresentado uma nova dimensão dos conflitos modernos, onde em sua grande maioria se dá diante de um cenário assimétrico, com a grande maioria dos confrontos ocorrendo no interior de cidades e áreas urbanas, um novo desafio para as forças regulares, que enfrentam um teatro de operação que lhes restringe demasiadamente sua capacidade de manobra e progressão de forças.


O conflito sírio e a operação iraquiana para libertar Mosul do controle de radicais islâmicos do EI e outros grupos extremistas, apresentaram um cenário adverso, com extrema limitação ao emprego de meios convencionais, forçando o desenvolvimento de novas estratégias de combate, visando atender as necessidades expostas pelo novo cenário.

A fácil dissimulação de "combatentes" em meio a população civil, a vantagem representada pela arquitetura urbana que limita a operação de MBTs e outros tipos de viaturas, as quais ficam demasiadamente expostas ao ataque de mísseis anti-carro, as limitações ao apoio aéreo aproximado, além da dificuldade de determinar a localização do inimigo em face das inúmeras construções e suas ruínas, o que cria uma imensa rede de "trincheiras" vertical e abrigos, dando vantagem á franco atiradores e combatentes portando RPGs e outros tipos de armamento, cria um imenso desafio á progressão de tropas e a conquista do domínio destas cidades. Lembrando o quão difícil é a "limpeza" destas áreas, uma vez que podem se formar bolsões de resistência em meio a população civil, algo que torna o combate ainda mais complicado, uma vez que o inimigo muita das vezes se vale do uso da população civil como escudos humanos.

Ainda há diversas áreas dentro dos centros urbanos onde não há possibilidade de ter o apoio de VBTPs e outros meios blindados, restringindo o fogo de artilharia e apoio aéreo, tendo de se travar o combate contra o inimigo por vielas e corredores estreitos, os quais podem estar sob cobertura de atiradores entrincheirados e bem armados , que dificilmente vão abandonar suas posições, o que impede o rápido avanço de tropas e resulta em muitas baixas.

A recente libertação de Mosul do controle extremista do EI deverá servir como base para preparação e criação de novas doutrinas de combate que deverão ser ministrados no adestramento e aprimoramento das forças militares de emprego em conflito urbano.

O EI após dominar Mosul, criou rapidamente uma grande estratégia, onde se valeu da combinação de táticas assimétricas e conhecimento geográfico das cidades sob seu domínio, para compensar a inferioridade do seu arsenal e meios, sem contar com qualquer meio aéreo, se valeu do clássico emprego da artilharia, usando recursos como morteiros e foguetes capturados das forças governamentais, além de criar oficinas para fabricação artesanal de foguetes e explosivos, adaptando diversos veículos civis para emprego "militar" e mesmo se valendo de veículos capturados quando da fuga de tropas do governo. Estas capacidades do EI limitaram o avanço por longos períodos, forçando a concepção de novas estratégias e adaptações no emprego de meios convencionais a nova realidade.

Usando uma extensa rede de túneis e outras táticas, O EI usou a capacidade de ocultação de seus efetivos no meio urbano para reduzir drasticamente a capacidade de apoio aéreo das forças da coalizão. 

Os extremistas fizeram uso de drones comuns adaptados ao combate, lançando bombas e granadas sobre as forças da coalizão que avançavam pelos centros urbanos, sendo já algo que era esperado, uma vez que a massiva venda de drones de emprego civil e desportivo, possibilitou o fácil acesso a uma tecnologia barata e de fácil emprego. 

O mesmo se deu em diversas áreas de Aleppo e outras cidades sírias libertadas pelas forças do governo sírio com apoio russo.

O combate urbano é o grande desafio para as forças terrestres. Pois o número de incidentes e baixas entre civis é extremamente alto, apesar de tantas armas de precisão e sistemas inteligentes, ainda é difícil eliminar alvos sem que haja efeitos colaterais, algo que tem de ser equacionado antes da decisão de se lançar bombardeios, pois por mais "cirúrgicos" que sejam, a explosão muitas vezes atinge não só a zona alvo, mas refúgios de civis localizados a "zona de morte" do armamento empregado. tal fato, leva muitas vezes pelo opção do envio de forças especiais, as quais podem atuar de forma mais "limpa" na neutralização do inimigo, porém, o custo pode ser a baixa em combate de diversos operadores desta força, uma vez que estarão operando dentro do território inimigo.

Uma importante lição que se adquiriu com os conflitos em andamento na Síria e Iraque, é a necessidade de se investir em capacitação das forças especiais e desenvolver novas tecnologias para emprego das mesmas no cenário urbano, isso tem resultado em uma série de avaliações e relatórios que possibilitarão as tropas da coalizão e forças russas envolvidas no conflito o desenvolvimento de táticas e recursos para suas forças de operações especiais, algo que representa um vultoso investimento na formação de seus operadores, o que deverá representar um custo muito superior ao que necessitam as forças regulares, forçando ainda a qualificações bem mais próximas destas as exigidas das forças especiais, mesmo que as forças regulares atuem após o "trabalho" das forças especiais nas operações de ”limpeza”, missão que é apontada como o novo papel das forças regulares em conflitos urbanos. 

As forças regulares devem assumir o lugar das forças especiais depois do primeiro embate, o que deixa clara a necessidade de atenção para formação e treinamento para as forças militares em geral. Pois os desafios tecnológicos não serão o ápice do campo de batalha moderno, uma vez que o combatente do moderno teatro de operações terá de lidar com áreas de atuação extremamente traiçoeiras, com combate ocorrendo em ambiente muito restrito e que muitas vezes impossibilitará o emprego dos meios de apoio convencionais, trazendo ao combatente a responsabilidade de traçar o avanço no território inimigo consciente da possível ausência do apoio da artilharia ou aviação.

Um novo conceito de combate emerge das experiencias colhidas nos dois sangrentos conflitos, quer seja pela ameaça representada por forças não estatais, quer pelo teatro de operações que apresenta sérias limitações ao emprego convencional de tropas e meios.


Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio e leste europeu, especialista em assuntos de defesa e segurança.


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