sábado, 28 de outubro de 2017

Ser jornalista - esta metamorfose ambulante...

Não se sabe ao certo qual foi o primeiro jornal do mundo. Mas devido seu impacto social, expressão e importância histórica, especialistas apontam o Acta Diurna, jornal oficial do Império Romano, criado em 59 a.C, como o primeiro. Foi fundado pelo pioneiro empreendedor global de um veículo de comunicação – nada mais, nada menos que o temível imperador Júlio César.
Para esse intento, surgiram os primeiros jornalistas do mundo, na época, chamados de correspondentes imperiais. Esses profissionais foram distribuídos por todas as províncias romanas para cobrir e escrever notícias. Seu objetivo era falar sobre as conquistas militares, científicas e políticas do governo imperial e por incrível que pareça sua publicação era diária.
O mais interessante não para por aí. Hoje é praticamente impossível imaginar um jornal sem a tecnologia da informação e comunicação atuais. Mas lá na época de Júlio César não existia tecnologia nem para impressão e mesmo que tivesse não haveria papel em quantidade suficiente. Por isso, o Acta Diurna era publicado em grandes placas brancas de papel e madeira, igual os outdoors atuais, e exposto em praça pública nas grandes cidades do império para as pessoas lerem de graça.
Hoje a distribuição on-line é instantânea e a impressa por toda infraestrutura de transportes e comunicação existentes é muito rápida, observando, claro, a lógica de tempo e espaço. Imaginem a dificuldade e vagareza para disseminar uma notícia no Império Romano. Embora publicadas todos os dias, os textos eram transportados a pé ou a cavalo e as notícias tinham uma defasagem de dias, até semanas. Em termos modernos elas sofriam um grande “delay”.
Logicamente, como se tratava de um jornal oficial do império, não era e não tinha pretensão nenhuma de ser imparcial. Jamais publicava notícias negativas e nem escândalos envolvendo pessoas públicas ou aliadas do Imperador. Um sonho de consumo para políticos e megaempresários atuais.
Imaginem as condições precárias dos nossos ancestrais jornalistas?
Vamos fazer uma viagem no tempo, para o presente, percorrendo mais de dois mil anos de jornalismo. Quanta coisa mudou para os profissionais de comunicação e de todas as áreas, não é mesmo? A ideia da aldeia global de McLuhan se tornou uma realidade devido ao avanço da ciência e tecnologia. Uma informação é transmitida em tempo real a qualquer lugar do globo. César ficaria eufórico com a facilidade de disseminar uma notícia atualmente. Imagine transmitir ao vivo o incêndio de Roma, cujo suspeito número um é o imperador Nero, e a cobertura completa da crucificação de Jesus Cristo?
“Prefiro ser essa metamorfose ambulante”.
Mas hoje? A quantas andam os jornalistas? Nunca foi tão atual e necessária essa vontade do mestre Raul Seixas principalmente para os jornalistas de plantão. Com todo aparato tecnológico disponível essa profissão tem passado por uma crise de identidade. A tendência é tudo, absolutamente tudo convergir para internet, e um único aparelho, o que indica portátil, móvel, de uso pessoal. Isso faz com que o mundo todo, setores como mídia, comércio, indústria, serviços, pessoas, profissionais também estejam aí, fazendo com que o jornalista, antes apenas pesquisador, apurador, questionador, bom escritor, obstinado, observador aprendesse também a navegar, fotografar, filmar, editar, configurar, programar, e tantos “ars” que possam surgir.
Alguns especialistas dizem que a profissão irá acabar. Mas considero isso um velho clichê que vem a tona todas as vezes que uma nova tecnologia surge. Inúmeras profissões foram extintas muito antes de terem a chance de se adaptar por conta disso. Na prática não é isso que se observa. Elas evoluem, ou, mudam de nome, ou se misturam com outras, sofrem mutações, ou “metamorfoses ambulantes”. Assim é o jornalista. Hoje a profissão exige uma multidisciplinaridade, um conhecer moderno, quebrar paradigmas, não enxergar a tecnologia como inimiga. O mundo muda, mudamos juntos.
Acredito que quando as novas gerações, nativas desta era da informação, chegarem ao mercado de trabalho com essa aptidão profissional, esse carisma, resistências de gerações passadas do jornalismo vão se render as mudanças. Não vejo como negativo. É uma evolução natural. O jornalista literário, as grandes reportagens podem não estar presentes com tanta frequência em jornais, sites, ou jornalismo televiso ou radiofônico, mas encontramos em algumas revistas, livros-reportagem, programas de TV, canais de notícias. Eles estão mudando de ares, formas, linguagens. É ideia da evolução e seleção natural. Ou evolui, agrega ou é expelido, já dizia Darwin.
O desemprego é parte da crise econômica que atravessa nosso país, onde anunciantes deixam de investir em publicidade, ainda a principal fonte de faturamento dos grandes e pequenos veículos. Mas grande parte desse cenário é a dificuldade de encontrar profissionais com vários “ars” exigidos atualmente.
Nós profissionais da comunicação precisamos ser inquietos no aprender e estarmos conectados com as tendências que surgem numa velocidade alucinante. Não adianta permanecermos no saudosismo, caso contrário, seremos "expelidos".
Um campo ilimitado
Outra questão importante é que hoje o jornalismo permite aos seus operadores o pleno exercício da profissão em qualquer lugar, de várias formas, com diversos tipos de abordagens e formatos jurídicos. Podem crescer em um veículo de comunicação tradicional, na web, fazer seu próprio blog, assessoria de imprensa, produzir conteúdo, trabalhar em casa, no shopping, no carro, numa biblioteca, co-working, etc, etc, etc......
Carlos Castilho, pesquisador de mídias discerniu a respeito: “Quando as TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) deram às pessoas a capacidade de produzir, publicar e difundir notícias foi quebrada uma das bases fundamentais da indústria dos jornais, revistas, radiojornalismo e do telejornalismo. Além disso, as crenças e valores que sustentam a retórica das empresas de comunicação jornalística perderam validade na medida em que a imprensa deixou de ter a exclusividade no fornecimento de notícias para a população”.
A essência não mudou: apuração, pesquisa, estudar, estudar, estudar, ler, ler, ler, analisar criticamente, relacionar-se com as fontes, conectar-se, networking... mas as qualificações aumentaram.
Uma pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia mostrou que esta transformações e incertezas sobre a profissão são a base para o desenvolvimento de um novo modelo de negócios e de um novo sistema de gestão para projetos jornalísticos.
“A crise do modelo tradicional, baseado na publicidade paga, a sobrevivência de novos empreendimentos jornalísticos dependerá mais do que agora do envolvimento do público seja como fornecedor de conteúdos (crowdsourcing), seja com participação financeira por meio de doações ou acesso pago”, ressalta Castilho.
O céu é o limite. Precisamos nos reinventar todos os dias, nos esvaziar para nos enchermos do novo e assim ir se adequando a cada necessidade.
Infelizmente, as faculdades de jornalismo não evoluíram a esse respeito. Formam profissionais para atuarem da maneira antiga. Ultrapassada. O profissional atual precisa ser um autodidata.
É isso ou ficar fora do jogo, irmos para o chuveiro mais cedo. Ou você prefere “(...) ter aquela velha opinião formada sobre tudo”?
Por: Jorn Mendes Netto Jornalista, Assessor de imprensa, web marketing, relações públicas
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