sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A nova face do terrorismo - Um desafio ao mundo moderno

Hoje estávamos discutindo em um grupo de discussão sobre defesa, do qual participo, a respeito do ataque ao metro de Londres ocorrido há poucas horas, e diante da discussão que se desenrolou entre este jornalista e analista de geopolítica e estratégia, com outros membros do grupo de igual ou maior calibre em termos de conhecimento e percepção dos fatos, entramos em um ponto muito importante, o qual será o tema deste artigo que venho a desenvolver, o qual não espero que pare em minha intervenção com relação à tão polêmico e atual assunto que aflige nossa civilização, embora esteja o Brasil livre de ataques perpetrados por extremista islâmicos, nós somos solidários as nações europeias que estão enfrentando um verdadeiro desafio em seus territórios. Meu objetivo é suscitar o debate, a discussão e a busca pelo conhecimento á respeito deste tema que envolve mais do que uma proposta de ação militar ou política, mas como vou apresentar no desenvolvimento deste artigo, esta mais ligado ao campo das ideias, ao difícil e intangível campo do conhecimento e percepção.

 Há poucas horas uma mochila foi detonada no metro londrino, de acordo com as primeiras informações, trata-se de um artefato caseiro, o qual criou pânico e deixou mais de 20 feridos, ainda sem relatos de vitimas graves ou mortos. Tal ato acendeu a velha retórica imediatista de se lançar uma resposta militar ao ocorrido, onde no debate que se promoveu em nosso grupo de discussão surgiu a seguinte questão levantada por um de nossos participantes: Quando vão reagir contra o terrorismo como agiram no passado? Uma pergunta que leva á uma resposta complexa e sem chegar a uma conclusão que determine uma real solução.

Com relação a questão levantada no grupo, posso dar uma resposta que não será o fim de uma discussão, mas a abertura de um importante debate, pois não há hoje de forma real a possibilidade de dar uma resposta armada como se daria há tempos atrás, quando a ameaça terrorista era concebida por um grupo identificável, que possuía bases e comando centralizado, o que nos dava a possibilidade de responder aos seus atos com uma ação militar de pronta resposta, a qual viria basicamente através de um bombardeio á centros de treinamento, casas que alojavam membros desses grupos e mesmo a eliminação sistemática da liderança e envolvidos no ataque, como ocorreu em resposta ao ato em Munique, com o Mossad atuando de forma clandestina na eliminação dos envolvidos no assassinato dos atletas israelenses por terroristas do grupo intitulado "Setembro Negro".

Porém, com o passar dos anos, assistimos ao avanço do terrorismo internacional e uma mudança em seu "modus operadi", onde em 2001 quando do ataque ás torres do WTC em Nova York, no coração financeiro dos EUA, o grupo Al-Qaeda do terrorista Osama Bin Laden, perpetrou um dos maiores ataques da história, causando milhares de mortes e levando o mundo ao que se intitulou "Guerra ao Terror", uma série de operações de guerra contra grupos terroristas e suas bases, além do ataque a governos supostamente ligados ao terror.

Naquele tempo, tínhamos um terrorismo organizado em células, as quais respondiam á um comando central, era uma estrutura que poderia ser monitorada e ter seus centros de comando e recrutamento identificados e neutralizados através de ataques cirúrgicos, bem como poderiam ter suas comunicações interceptadas. 

A Al-Qaeda por exemplo, possuía campos de treinamento no Afeganistão e em áreas fronteiriças do Paquistão, onde seus membros eram oriundos em sua grande parte do povo de países árabes que estavam sob forte influência de grupos radicais islâmicos, em sua grande parte por Xiitas, que após a primeira invasão do Iraque no principio dos anos 90, passou a pregar que a presença de forças estrangeiras, em especial as norte americanas, e sua interferência sobre os rumos políticos e econômicos dos países árabes, criou uma ruptura entre os poderes políticos regionais, dando força aos líderes politico-religiosos como Osama Bin Laden de conclamar a famosa "Jihad", pregando o ultraje ás crenças e as tradições islâmicas pela presença estrangeira em terras tidas como sagradas pelo Islã. Outrora aliados contra a ameaça soviética no Afeganistão, agora Osama Bin Laden e sua organização declararam guerra aos EUA, primeiro através de ataques em menor escala, depois culminando no inesperado e impensável ataque de 11 de setembro. 

A pronta resposta foi meramente militar, onde esperava-se eliminar pelos meios convencionais de combate a ameaça do terrorismo internacional, porém, após mais de uma década de ações militares que culminaram em mais revezes do que ganhos reais á segurança, não chegamos á conclusão de neutralizar tal ameaça, pelo contrário, a alardeada "Guerra ao terror" resultou na humilhação de muitos cidadãos de origem islâmica, em cenas repudiáveis, como as obtidas nas prisões de Abu Ghraib e Guantánamo, para não perdemos demasiado tempo, somados aos ataques lançados contra "alvos" no Paquistão e outros lugares do Oriente Médio, em que houve por diversas vezes falha na coleta de informação e inteligência, resultando em crassos erros, onde milhares de vidas inocentes foram ceifadas por ataques sem uma real confirmação de seu objetivo e alvo. Ainda na esteira da "Guerra ao Terror", fora forjada falsas provas contra o governo de Saddam Hussein, levando os EUA e aliados a desrespeitar a própria ONU e suas resoluções, lançando uma invasão contra o Iraque, invasão a qual resultou na derrubada do governo legítimo do Iraque sobre a tal "defesa da liberdade", onde culminou com a morte de Saddan e seus filhos, mergulhando o país num abismo de ingerência e conflitos internos, onde diante do vácuo de poder e a ruptura na ordem interna do país, vimos o Iraque mergulhar  no caos absoluto como nunca antes. 

Me limitando a relatar apenas os fatos mais importantes para nossa discussão, pois se eu fosse me ater a todos os fatos e ações nestes 16 anos da "Guerra ao Terror", apontando todos seus atos e efeitos, nos estenderíamos por demais e acabaríamos perdendo o foco de nosso objetivo. Por tanto, dando prosseguimento em nossa linha de análise e raciocínio, podemos concluir um primeiro ponto a ser considerado para o desenvolvimento desse artigo, as operações de guerra contra os grupos extremistas, levaram os mesmos a buscar uma nova forma de atuação, com a qual chegaram á uma "solução" contra a ameaça militar representada pelas forças do ocidente, levando o mundo á um novo patamar do conflito assimétrico e suas variáveis. A Al-Qaeda sucumbiu frente ao poderio bélico dos EUA e seus aliados, porém, como a mitológica Hidra de Lerna, onde o mitológico herói "Hércules" quando esmagava uma de suas cabeças, outras duas surgiam em seu lugar, assim se deu com relação a ameaça terrorista, a mesma se valeu do grande vácuo de poder causado pela interferência dos EUA e seus aliados na região, onde diante da derrubada de importantes peças do tabuleiro do poder regional, com a insatisfação gerada pelo caos resultante da ação militar e o afastamento do "sonho" de liberdade e progresso vendidos aos populares quando da invasão de seu país, os quais assistiram uma limitada ação de reconstrução e apoio ao restabelecimento dos países e seus povos, tendo os mesmos chegado a conclusão óbvia de que o interesse se limitava ao controle político e econômico da região através do suas importantes reservas de hidrocarbonetos (petróleo e gás) e sua posição geográfica, criaram o cenário ideal para o surgimento de uma nova ameaça a paz mundial, a qual se intitulou Estado Islâmico, grupo extremista que conseguiu se valer do ressentimento contra o ocidente e atrair milhares de adeptos aos seus ideais e "ideologia", chegando a tomar importantes regiões no Iraque e na Síria, país que mergulhara numa sangrenta guerra civil fomentada por defensores de interesses políticos e econômicos convergentes aos interesses dos países ocidentais, os quais contrariavam o poder legítimo do país governado por Bashar Al Assad, levando a quase derrubada do governo legítimo e a instauração de mais um estado falido e caótico na região, o qual esta quase suplantando a ameaça do EI com auxílio das forças russas, mas isso é assunto para outro artigo que iremos publicar em breve.

O Estado Islâmico estabeleceu "califados", porém, diferente de outras organizações terroristas que se limitaram a manter sua atuação em países com base islâmica, o mesmo se valeu das vantagens representadas pelos modernos meios de comunicação e redes sociais, "vendendo" sua causa não apenas aos árabes no oriente médio, mas a todos que de alguma forma fossem convencidos por suas ideias, congregando não apenas árabes, mas pessoas de diversas raças e etnias que se convertessem aos ideais propagados pela organização, assim descentralizando suas atividades e implantando "agentes internos" para promover ações de terrorismo no coração das nações que o grupo julga seus "alvos". Ainda aliado a esse fator de uso das redes sociais e da DeepWeb como ferramentas, presenciamos uma enorme entrada de refugiados oriundos da Síria e Líbia, outra nação vítima de uma impensada ação ocidental que culminou na morte do líder Muammar khadafi, tornando a Líbia mais um vespeiro e foco de grupos terroristas e toda sorte de contraventores internacionais. Assim a Europa se viu diante de um desafio o qual não há uma resposta pronta e adequada.

Um dos participantes de nosso grupo disse que todo estado é responsável por proteger seu povo contra ameaças externas, porém, vale ressaltarmos, que, a atual ameaça não possui farda, identidade, nacionalidade ou rosto, tornando nulo se valer dos tradicionais controles de fronteira e imigração. Lembrando que todos os recentes atos tem sido em sua grande maioria realizados por residentes dos países, sendo poucos perpetrados por membros externos que adentraram por suas fronteiras, o que nos leva á um novo desafio no campo de conflito assimétrico.

Hoje a grande questão é como qualificar e identificar o inimigo antes que o mesmo lance um ataque? Tendo o claro conhecimento de que a concepção do ataque terrorista em si não é a destruição física do inimigo, conforme já foi tratado em um de meus artigos aqui publicados, pois a síntese do terrorismo é ruir a sociedade por dentro através da implantação do terror, da sensação de medo e insegurança que suplantam toda sociedade e levantam dúvidas sobre a capacidade do estado de proteger a mesma, afetando todo o conjunto do que define o Estado-Nação, atingindo não um alvo militar, mas sua população e economia. Resumindo, o terrorismo hoje conseguiu suplantar as defesas dos estados-nações, privando a capacidade do estado legítimo de identificar e neutralizar a ameaça, pois o inimigo hoje como supracitado, não possui farda, divisa, nacionalidade ou etnia, qualquer um hoje pode perpetrar um ato terrorista em qualquer ponto do mundo.

As organizações terroristas hoje mudaram o foco delas, onde antes se valiam de membros de origem islâmica, treinados em nações sob seu domínio ou forte influência, como Afeganistão e Paquistão, que depois de preparados e instruídos em sua "missão" eram enviados rumo ao seu objetivo, algo era passível de identificação pelos meios de controle e redes de informação e inteligência, mas que hoje, são recrutados dentro dos países alvos de seus ataques, em especial na Europa, onde hoje possui uma enorme comunidade islâmica, a qual tende a crescer ainda mais com a entrada de refugiados, o que tira do estado a capacidade de controle e previsão de ataques do tipo lançados por "colaboradores" internos destes grupos radicais, sendo um novo panorama sem a adequada resposta no horizonte, principalmente diante da grande facilidade representada pelos meios de comunicações e redes sociais que propiciam um ambiente propício a propagação de ideias e criação de grupos sem uma ligação física entre si.

Voltando a primeira questão sobre quando se haverá uma resposta como antes, a resposta a essa questão é bem simples e direta, nunca, pois houve uma mudança drástica, onde não cabe mais uma solução militar clássica, pois o conflito se dá em outra esfera, não se limita ao físico, onde grupos são formados sem que os mesmos sequer tenham se visto ou tido qualquer contato físico, com muitos sendo recrutados fora dos meios árabes, onde hoje temos uma visão do terrorismo que podemos comparar á "franquias", as quais são criadas diante de ideias e ideais transmitidos aos indivíduos por meios de comunicação os quais em muito tem fugido ao controle do estado, vide o caso de centenas de ocidentais que se convertem ao extremismo islâmico, o qual não deve ser confundido com o Islã, pois não podemos generalizar e apontar o cidadão árabe ou muçulmano como terrorista, pois muitos dos islamista repudiam aos atos desses grupos ditos "Islâmicos" e sua ações que passam muito distante do que reza o Alcorão e os preceitos muçulmanos. Hoje em dia o recrutamento é feito através da venda de ideias, sendo um novo e grande desafio á segurança.

O Estado Islâmico e o terrorismo hoje não é uma simples organização a qual pode ser atacada com armas e tropas convencionais e táticas de combate, o membro do EI hoje não é o individuo que possui ligação direta com o grupo, como organização, mas sim uma vinculação com as ideias e ideais fomentadas pelo grupo e aceitas por este indivíduo. Além deste fato, o EI não é apenas uma organização, mas sim um grupo de organizações que se mantém ligadas ao mesmo ideal de maneira "virtual", temos diversas denominações que integram o EI, diferente da estrutura que possuía a Al Qaeda, que era uma organização "convencional" com divisão em células. 

Hoje em dia o terrorismo é um inimigo o qual requer uma nova forma de resposta, a qual em grande parte limita e muito o uso convencional da força, a qual pode obter resultado inverso, uma vez que o EI e suas subdivisões se valem dos efeitos colaterais das ações de resposta militar para atrair através do ódio mais simpatizantes de sua "causa".

Hoje em dia uma ação militar não cumpre o objetivo de neutralizar o terrorismo, é preciso uma nova percepção da ameaça e sua contraposição no campo das ideias e principalmente na mudança de percepção por parte dos que hoje apoiam a "causa" terrorista, suplantando o sentimento negativo contra o ocidente e superando os ressentimentos criados após anos e anos de descaso e políticas errôneas com a região do oriente médio. O fato é que o combate se dá hoje no campo das ideias, das ações reais de reconciliação com o passado, se dá na mudança das políticas e ingerências que por décadas criaram este monstro que hoje lança ataques e vitimam cidadão inocentes dentro de seu próprio "lar",  pois diferente do que ocorria antigamente, os atos perpetrados não tem como ser impedidos com ações preventivas como controle de armas e etc, vejamos os últimos ataques, se valeram de meios comuns e improviso, com veículos lançados contra pedestres, ataques com facas ou explosivos artesanais onde os matérias são encontrados em qualquer supermercado ou mercearia.

Como disse o comentário de um de nossos amigos, "ideais e ideologias não se matam com armas, tanto que hoje ainda temos diversos grupos nazistas mundo afora". 

Em resumo, enfrentamos uma nova fase do terrorismo, e a opção militar não é mais valida, pois suponhamos que seja lançado um ataque contra um vilarejo no Paquistão onde supostamente se encontram terroristas, e que neste ataque sejam vitimados muitos inocentes e não haja realmente um terrorista naquela área, isso servira de "munição" para o EI atrair os revoltosos com a ação que matou crianças e mulheres inocentes. Tais ações militares só servem para aumentar o ressentimento e a demonização dos EUA e seus aliados pela comunidade islâmica, dando aos extremistas uma grande oportunidade de recrutar novos voluntários para seus quadros. Hoje estamos diante de uma luta no campo das ideias, pois o ser humano possui a faculdade de analisar e tomar para si o que ele considera o certo ou errado, ele é capaz de comprar ou não uma ideia ou ideologia diante de seu senso de percepção sobre o que ele adere ou repudia, e essa percepção é capaz de ser moldado diante das experiencias e meios no qual o individuo vive, suas respostas dependerão de suas experiências de vida, de tudo que ele absorve em sua caminhada e amadurecimento, ninguém nasce bom ou mau, ninguém nasce com escolhas definidas em relação ao seu campo de ideias, tudo isso é moldado no contexto da sociedade em que o mesmo esta inserido e como essa sociedade responde aos seus anseios, é uma questão complexa a qual abro aqui a oportunidade de todos fazerem seu contributo por meio de seus comentários e intervenções.


Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio e leste europeu, especialista em assuntos de defesa e segurança.

Agradecimento a todos membros e participantes do grupo de discussão "Forças de Defesa", no qual tenho o imenso prazer de participar e discutir sobre importantes assuntos, sendo um importante reduto de conhecimento e amizade.


GBN News - A informação começa aqui











0 comentários:

Postar um comentário