sábado, 2 de setembro de 2017

7 de Setembro - Somos realmente independentes?

Dando prosseguimento a nossa série de releituras de nossos artigos sobre a “Independência do Brasil”, vamos abordar uma questão muito delicada e de vital importância à nossa nação, tecnológica, ponto no qual em grande parte ainda somos uma nação extremamente dependentes, principalmente no que diz respeito a alta tecnologia e tecnologia de defesa.

Hoje vivemos em um mundo cada vez mais globalizado, onde o conhecimento “flui”, mas a verdade como bem sabemos não é bem essa, principalmente no que diz respeito a vanguarda tecnológica, pois quem investe em pesquisa e desenvolvimento jamais irá ceder o “pulo do gato” a um futuro concorrente, embora muitos afirmem que o mercado esta cada vez mais estreito e as grandes industrias e centros de pesquisa buscam desenvolver programas em parceria, compartilhando os trabalhos de desenvolvimento afim de reduzir os custos do projeto, ainda há e muito a proteção feroz da propriedade intelectual e tecnológica.

O Brasil por décadas manteve uma política retrograda e desconexa com relação as pesquisas tecnológicas e o desenvolvimento, investindo muito menos de um terço do que se investe a exemplo na Europa ou EUA, tornando-se um país por demais atrasado no que diz respeito a capacidade tecnológica. Bom exemplo disso esta em sua casa agora, nós não dominamos a tecnologia de microprocessadores e muitos itens que são comuns em eletro-eletrônicos que você possui em sua casa. Coisas que podem parecer simples, mas pelas quais pagamos um alto preço por não possuirmos nossa independência tecnológica, um dos efeitos colaterais de nosso processo de independência, um dos males de desse processo que se restringiu a esfera política, mantendo por tempo demasiado uma postura colonial e conservador, enquanto efervescia no mundo a primeira revolução industrial, nos mantendo com uma matriz agricultora e ignorando as necessidades de investir na pesquisa e desenvolvimento industrial e tecnológico.

Hoje a maior parte de tudo que produzimos, ou melhor, montamos, pois a nacionalização dos meios tecnológicos é sempre muito baixa e compreensível do ponto de vista estratégico e de mercado por parte dos detentores de tal tecnologia, o que restringe por demais o crescimento da industria nacional. Você pode estar achando que estou equivocado, pois os números indicam o crescimento de nossa matriz industrial, mas eu faço algumas perguntas: Quem são os seus fornecedores de tecnologia? De onde vem os meios? Qual seu custo? Em que acrescenta a nossa independência tecnológica?

Possuímos hoje a terceira maior fabricante de aviões do mundo, a Embraer. Mas mesmo estando entre os maiores do mercado a mesma possui uma enorme dependência externa, pois toda tecnologia eletrônica, de motores e principalmente de materiais vem de fornecedores externos, sendo apenas integrados aqui no Brasil. No campo de Defesa podemos citar inúmeras vezes que sofremos com o embargo americano a venda de nossos equipamentos à determinadas nações, pois os mesmo possuíam sistemas de "propriedade" americana. Alguns criticam a postura americana e ficam até indignado com tal fato, mas vamos olhar por outra ótica, digamos que você desenvolveu um motor super eficiente e de alto desempenho para equipar aeronaves de combate, e uma fabrica de aeronaves comprou de você para equipar suas aeronaves, mas o mesmo resolveu vender estas aeronaves com o motor que você desenvolveu a uma nação com a qual você tenha atritos que ameaçam vir a se tornar agressão, o que você faria? Logicamente iria proibir seu cliente de vender a seu inimigo, correto? Mas se ele desenvolveu um motor próprio, ele poderá vender a quem quiser sem consultar ninguém, pois a tecnologia é dele. Essa é a grande importância de se possuir independência tecnológica.

O Brasil tem perfil para se tornar um grande desenvolvedor de novas tecnologias e ser independente neste quesito, mas os principais passos neste sentido são deixados de lado. Devido a este fato pagamos as vezes mais que o dobro por determinados produtos em seus países de origem, na prática, significa que temos um custo tecnológico vinte vezes superior, além de estarmos a mercê da vontade do detentor de tal tecnologia nos ceder ou não a mesma, o que em grande parte resulta na aquisição de tecnologias atrasadas ou mesmo inferiores.

Quando se combina esse fator com a degradação da universidade pública brasileira, que é responsável pela maior parte das pesquisas no país, e a maior participação do ensino superior privado na formação, a situação se agrava, pois não haverá esperança de produção científica e tecnológica, uma vez que, de modo geral, as universidades particulares não investem em pesquisa. Deste modo, além de aumentar o abismo tecnológico do país, elimina-se o caminho para a emancipação científica e tecnológica em que pode constituir-se a pesquisa.

É oportuno mencionar os pesados investimentos feitos em pesquisa nos países detentores da independencia tecnológica à insignificância de recursos aplicados pelos países meramente consumidores de tecnologia. Está nesta diferença a principal raiz da supremacia tecnológica que determina a dominação econômica.

Não tendo tecnologia própria, impedidos de produzi-la, pela atrofia da pesquisa, ou de adquirir tecnologia importada, devido a seu alto custo estaremos ilhados, perpetuando nossa condição colonial de fornecedor de matéria primaria e consumidor de bens de alto valor agregado, ainda permanecendo submissos as regras e vontades dos detentores da tecnologia.

Um dos setores de grande importância para nossa sociedade e que exibe uma dependência quase que completa é o farmacêutico, o Brasil está em situação deficitária no que se refere ao desenvolvimento de inovações que contemplem a área de saúde. “Como o Brasil não detém tecnologia, precisa importar os produtos. Dessa forma, a balança comercial do setor é extremamente deficitária”. Dados do Ministério da Saúde mostram que o déficit comercial brasileiro no setor de fármacos e medicamentos é de aproximadamente US$ 3,5 bilhões. Falta ao país a adoção de políticas públicas consistentes e de longo prazo que possam alavancar o número de inovações na área. Como o país investe pouco, a dependência tecnológica cresce à medida que as inovações são mundialmente geradas.

O Brasil tem capacidade instalada para realização de trabalhos importantes na área de saúde. Atualmente as maiores responsáveis por essas pesquisas no país são as instituições públicas, apoiadas com recursos governamentais. Mesmo assim, o número de pesquisas é pequeno, além disto, existe uma desconexão entre as pesquisas realizadas e a utilização desses conhecimentos. Ainda há a falta de investimento na produção nacional de produtos quimicos necessários a esse setor, sendo mais de 90% importado, o que aumenta vertiginosamente o custo dos nossos medicamentos.

Em média: 1kg de soja custa US$ 0,10, 1kg de automóvel custa US$ 10 , 1kg de aparelho eletrônico custa US$ 100, 1kg de avião custa US$1.000 (10.000 quilos de soja) e 1kg de satélite custa US$ 50.000.Vejam, quanto mais tecnologia agregada tem um produto, maior é o seu preço, mais empregos foram gerados na sua fabricação e mais divisas são captadas pela economia do pais.

Os países ricos sabem muito bem disso. Eles investem na pesquisa científica e tecnológica, mantendo sempre sua independência tecnológica, pois como todos sabem, conhecimento é poder, e conhecimento assim como independência não se compram, se conquistam.

O Brasil é muito dependente da tecnologia externa. Quando fabricamos bens com alta tecnologia, fazemos apenas a parte final da produção.Por exemplo: o Brasil produz 5 milhões de televisores por ano e nenhum brasileiro projeta televisor. O miolo da TV, do telefone celular e de todos os aparelhos eletrônicos, é importado. Somos meros montadores de kits eletrônicos. Casos semelhantes também acontecem na indústria mecânica, de remédios e, incrível, até na de alimentos. O Brasil entra com a mão-de-obra barata e os recursos naturais. Os projetos, a tecnologia, o chamado pulo do gato, ficam no estrangeiro, com os verdadeiros donos do negócio.

É importante compreendermos que os donos dos projetos tecnológicos são os donos das decisões econômicas, são os donos do dinheiro, são os donos das riquezas do mundo. Assim como as águas dos rios correm para o mar, as riquezas do mundo correm em direção aos países detentores das tecnologias avançadas. A dependência científica e tecnológica acarretou para nós brasileiros a dependência econômica, política e cultural.

Hoje nos deparamos com um fase delicada e muito importante dentro de nossas Forças Armadas,que passam por um período onde há vários programas com vista ao seu reaparelhamento, o qual esta totalmente sendo desenhado sobre tecnologias as quais não dominamos, o que nos trás um custo altíssimo e sérias limitações, uma vez que o pouco que se possuía de nossa outrora vasta industria de defesa, hoje é dividida em pequenas ilhas de expertise em termos de pesquisa, desenvolvimento e domínio tecnológico, o que não nos oferece a oportunidade de desenvolver e produzir meios nacionais para atender à nossas necessidades no campo de defesa, lembrando que, mesmo quando possuíamos uma grande indústria de defesa nos anos 80, boa parte da mesma dependia de sistemas e componentes oriundos de industrias estrangeiras, fossem eles produzidos sob licença ou fornecido diretamente pelas mesmas.

Só para citar um simples exemplo desta dependência neste setor tão vital a soberania nacional, o que deveria ser preocupante para nós, basta olhar para nossa indústria de mísseis, a extinta Mectron, que desenvolveu o MAA-1 “piranha”, durante a fase de desenvolvimento, teve a necessidade de comprar junto aos EUA componentes da cabeça de guiagem, o sensor foi escolhido e a cabeça do míssil projetada para receber tal componente, mas no momento da entrega recebemos dos americanos um produto totalmente fora das especificações as quais solicitamos, e até inferior, mas os mesmos alegaram que só forneceriam aquele componente que foi enviado, causando um aumento no custo de desenvolvimento de nosso míssil, uma vez que tivemos de reprojetar a cabeça de guiagem. Uma experiência que deixou mais do que clara a nossa dependência tecnológica e seu alto custo.

Estamos em um ponto no qual devemos decidir se seremos independentes ou só mais uma “colônia”, pois há recursos e meios para se alcançar essa independência, e isso não será feito do dia para noite, como muitos acreditam que ocorrerá com o PROSUB, ou a compra dos "Caracal" junto a França ou mesmo com o programa conjunto de desenvolvimento do caça F-39 Grippen, pois tecnologia não se vende, se desenvolve, a tal transferência de tecnologia tão propagada no âmbito de compras determinados na END (Estratégia Nacional de Defesa), não resultará em uma solução para nossa dependência tecnológica, mas pode ser um pequeno passo de centenas a serem dados por nosso governo em conjunto com a comunidade científica e a iniciativa privada, que devem
Juntos arcar com os custos de tal independência. Pois nenhum dos fornecedores destes programas de Defesa irão dar assim de mão beijada a sua tecnologia, algo que lhes custou bilhões em pesquisa e anos de desenvolvimento. Mas o que temos assistido atualmente é mais do mesmo, cortes consecutivos nos orçamentos de defesa que afetam diretamente tais programas, a falta de recursos para aquisição e desenvolvimento de novos meios, o que tem sido preterido à compras de oportunidades de meios que não agregam em nada nossa capacidade industrial e tecnológica.

Mas para tranquilizar um pouco nossos compatriotas, temos ilhas de independência tecnológica e domínio pleno, como são o caso de nossas centrífugas para enriquecimento de Urânio ou a capacidade de explorar petróleo em águas profundas pela Petrobrás, embora a petrolífera tenha sofrido um pesado golpe com escândalos de corrupção.

Cabe a cada um de nós decidir até quando vamos continuar sendo uma nação dependente, e comemorar mais uma vez neste ano a nossa dependente “Independência”.

Em nosso próximo artigo desta série vamos abordar as questões econômicas e culturais de nossa “Independência”.



Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio e leste europeu, especialista em assuntos de defesa e segurança.



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