domingo, 1 de maio de 2016

“O que falta ao país é planejamento”, diz Vicente Falconi


Vicente Falconi, 75 anos, é um dos mais influentes consultores de empresas do país. Foi o idealizador da chamada cultura Ambev (que ele prefere chamar de cultura Falconi), marcada pela obsessão com as metas e a meritocracia. Replicou o modelo em várias corporações, como o Itaú e a Gerdau, e nos últimos 15 anos levou a experiência para o setor público. Falconi gosta de dizer que promoveu “choques de gestão” em prefeituras, governos e administrações federais, numa lista que vai de Aécio Neves (em Minas) até Lula e Dilma. Aqui, ele aponta caminhos para tornar mais eficientes os serviços públicos.
     
Por que o setor público tem tanta dificuldade para se tornar mais eficiente?

Algumas organizações, como a Polícia Federal, estão muito bem. Nós trabalhamos com eles no governo Lula, sabemos que a atitude ali é boa. O mesmo ocorre com instituições como o Ministério Público e o Banco Central. Outras, como o Ministério da Saúde, não vão bem. Porque não têm departamento de RH, por exemplo. Não têm seleção, avaliação, treinamento, carreira estruturada. O Ministério da Saúde tem um giro de pessoal muito grande, a turma faz concurso para entrar e depois fica de olho para passar em outro lugar, porque aquilo lá não é futuro para ninguém. Futuro é estar na PF, no BC. Eu escrevi três cartas para a presidente, logo após as eleições, para falar dessas coisas.


Ela respondeu?

Não, pô. Ela recebeu umas 500 mil cartas. O problema maior é que nosso país não tem um planejamento. O que falta é um planejamento de 50 anos: a que taxa queremos crescer, o que isso vai demandar em energia e capital, como a população vai variar de idade.


O senhor fez um plano para melhorar a gestão do Ministério da Saúde. O que deu errado?

Foi o seguinte. O Gerdau [Jorge, empresário] me levou para um almoço com a presidente, em 2011. Foi um papo muito bom. E ela falou muito sobre saúde. Então eu disse ao Mateus [Bandeira, CEO da consultoria Falconi]: vamos investir nisso, desenhar um sistema de saúde. Gastamos R$ 1 milhão para fazer o projeto. Fomos ao ministério e apresentamos a proposta. A ideia era treinar 300 servidores para atacar um dos grandes problemas: a gestão de hospitais públicos. O foco seriam duas coisas. Primeiro, fazer uma filtragem na entrada. O paciente precisa ser internado ou não? Se não precisa, vai para um posto de atendimento, toma um remédio e volta para casa. Iríamos criar um indicador de ritmo de internação. Uma vez internado, a gente faria outro indicador, do tempo médio de permanência. Hoje, ele gira em torno de 15 dias. Nos hospitais particulares, fica próximo a três dias. Se você pegar os hospitais públicos e reduzir o índice à metade, para 7,5 dias, seria como dobrar a capacidade de atendimento. É como construir os hospitais de novo, a custo zero. E nós decidimos trabalhar a preço de custo, para ajudar o país. Mas eles não toparam.


Onde emperrou?

Podem ter pensado: “esse Falconi é do PSDB, gosta de trabalhar com o Aécio”. É difícil entrar na cabeça das pessoas. Foi um “não, obrigado”.


A gestão de um país não é diferente da gestão de uma empresa, por envolver temas mais sensíveis?

Isso é conversa fiada. Do ponto de vista gerencial é exatamente a mesma coisa que uma empresa. É só colocar o objetivo certo: não é dar lucro, é servir. Quais são os indicadores? Qual é a meta? Se não atingi-la, quem é o responsável? A educação está melhor do que a saúde por um simples motivo: foram criados o Ideb e o Enem e ainda tem um indicador internacional, o Pisa. Quando existe indicador, você pode avaliar, colocar meta. Tudo isso o Ministério da Educação tem. Você pode até reclamar da educação, mas não pode falar que ela não está melhorando, porque está, sem dúvida.


Em conversas reservadas, Jorge Paulo Lemann afirma que, se colocassem o pessoal da Ambev no governo, a gestão melhoraria. Falta mais Ambev nos serviços públicos?

Todo mundo pode ter mentalidade Ambev, Klabin, Suzano, tem várias empresas boas no Brasil. O que elas têm? Um departamento de RH, que recruta pessoas adequadas, faz treinamento intenso, avalia, promove os melhores. São coisas básicas, que a área pública não tem. A Polícia Federal tem. O Banco Central tem. Eu acho que a Polícia Federal é Ambev, o BC é Ambev. Acredito que ele tenha usado essa expressão para dizer o seguinte: se você treinar as pessoas e usar a meritocracia, aquilo vira uma máquina de produzir resultado.


A meritocracia da Ambev...

Pois é, todo mundo fala de Ambev... A Ambev usa o sistema da Falconi. Várias empresas adotaram o modelo. Acho que o setor privado brasileiro vai muito bem, obrigado.


Algumas empresas não vão tão bem.

Vou te contar. A gente, que é velho, já passou por muita coisa. Eu comecei a pesquisar sobre gestão na década de 70. Encontrei normas canadenses de qualidade e comecei a me aprofundar. Foi dali que surgiu tudo o que somos hoje. Comecei a escrever livros. Entre 1989 e 1996, escrevi seis, que venderam mais de 1 milhão de exemplares. Muitas das terminologias fui eu que criei. Então se formou no Brasil uma cultura gerencial. O padrão do gerente brasileiro subiu muito. Muito.

A contribuição desse trabalho é inegável, mas existem críticas. Ouve-se que na Ambev, por exemplo, há uma excessiva pressão para atingir metas. O que o senhor pensa disso?


Olha, eu não sei de que pressão estão falando. Porque fala quem não entende. Não existe guerra, pressão, esse negócio de “ai, tô sofrendo”. Todas as metas são negociadas, em cada estágio. O processo de correr atrás de meta, na verdade, é um processo de correr atrás de conhecimento. Sabe por que o profissional da Ambev é valorizado no mercado? Porque é competente.


A crise ética no país, agravada pelos problemas na Petrobras e nas empreiteiras, pode deixar a percepção de que as empresas daqui são mais corruptas do que a média. O senhor presta consultoria em vários países. Essa percepção se justifica?

Eu não tenho essa medida. Nunca vi isso explícito entre nossos clientes. Desvios éticos, no longo prazo, não valem a pena para uma empresa.


Mas estão no noticiário todos os dias.

Talvez em alguns setores, mas não é um negócio generalizado.

O senhor pensa em assumir um cargo público depois de se aposentar?

Não. Eu vou sair da empresa com quase 80 anos. Mas não vou, necessariamente, deixar a atividade. Enquanto estiver andando e respirando, vou ajudar, desde que seja requisitado. E é provável que me chamem. Sou muito querido pelos consultores.


Fonte: Época Negócios

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