terça-feira, 24 de maio de 2016

As chances de Trump contra Hillary

Donald Trump ultrapassou Hillary Clinton nas pesquisas eleitorais, de acordo com a média mantida pelo site RealClearPolitics. Tecnicamente, os dois estão empatados – Trump mantém uma desprezível dianteira de 0,2 ponto percentual. Exatamente dois meses atrás, contudo, Hillary detinha uma vantagem confortável de 20 pontos sobre Trump. A perspectiva de Trump na presidência dos Estados Unidos deixou, portanto, de ser uma possibilidade remota para se tornar uma probabilidade real. Será que ele vai levar?

Vários fatores contam a favor de Trump. Primeiro, ele é um forasteiro, um outsider na política. Diz o que pensa, sem medo de incomodar este ou aquele grupo. Seu discurso populista, contra políticos tradicionais e o “politicamente correto”, atrai um eleitor majoritariamente branco, com baixo nível educacional. É a classe média que perdeu na crise de 2008 e não se recuperou. Trump se beneficia do ressentimento com a alta desigualdade e com a sensação de que a política americana só trabalha para os ricos e poderosos.

Esse tipo populismo faz sucesso em todos os Estados e tem uma capacidade maior de conquistar votos em redutos tradicionalmente democratas. Foi o que aconteceu nas primárias da Costa Leste, vencidas de lavada por Trump. Ele é um desafio maior para a campanha de Hillary do que seria um candidato convencional.

O segundo fator favorável a Trump é que ele conseguiu limpar, no próprio partido, o terreno para a indicação. Contra as previsões iniciais, chegará vitorioso à Convenção de julho, em Cleveland, Ohio. Ainda sofre uma resistência enorme entre lideranças republicanas – como Mitt Romney, Paul Ryan, John McCain, Lindsay Graham ou Marco Rubio. Mas seus acenos têm surtido efeito. Grandes doadores de campanha já se conformaram que apoiar Trump será a única forma de manter o partido unido.

Paradoxalmente, depois de uma campanha que esfacelou os republicanos, é hoje Hillary que enfrenta o desafio de unir o partido. Seu rival, o populista de esquerda Bernie Sanders, sabe que não tem condição matemática de levar a candidatura. Mesmo assim, ao contrário de todos os republicanos que abandoram a corrida por não ter chance, Sanders insiste em levar a campanha até o final e entrou em conflito aberto com o Comitê Nacional Democrata. Os democratas chegarão, portanto, divididos à Convenção da Filadélfia, também em julho.

É Sanders o outsider no Partido Democrata. É ele que atrai os eleitores insatisfeitos com a política. Não é coincidência que, nas pesquisas, ele se saia melhor que Hillary no embate com Trump. Também não é coincidência que Hillary tenha adotado um discurso mais radical em economia e em favor das minorias, para tentar atrair eleitores simpáticos a Sanders – mas isso incomoda ainda mais outra parcela de eleitores, que se afasta dos democratas para aderir à candidatura Trump.

A principal dificuldade de Trump serão as minorias. Sua campanha xenófoba e chauvinista, com ataques a imigrantes e muçulmanos, tornou seu nome um anátema entre latinos, negros e mulheres. Ele tem até tentado fazer média com o público feminino. Foi ao programa da apresentadora Megyn Kelly, da Fox News, onde tentou remediar os ataques grosseiros feitos a ela no início da campanha – para quem não lembra, no primeiro debate dos pré-candidatos, Trump insinuou de uma forma nada elegante que Kelly estava exaltada por estar menstruada. Não deu muito certo.

Outra dificuldade é o mapa eleitoral. Nos Estados Unidos, a eleição é indireta. Delegados de cada um dos estados votam no vitorioso local no Colégio Eleitoral. Na contabilidade estado a estado, Hillary ainda leva uma ampla vantagem – 201 votos contra 164 de Trump, segundo o RealClearPolitics. Há ainda 173 votos indefinidos, nos estados conhecidos como estados-pêndulo, que votam ora democrata, ora republicano. Para vencer, Trump precisa levar Flórida, Indiana, Ohio e Pensilvânia. A proporção de latinos e negros nesses estados torna essa missão dificílima para ele.

Há, enfim, a gestão detalhada da campanha. Trata-se de uma atividade hoje sofisticadíssima nos Estados Unidos, onde há software capaz de detectar a tendência dos eleitores por código postal e várias outras variáveis. Tanto George W.Bush quanto Barack Obama levaram a Presidência com a ajuda de ferramentas digitais poderosas para avaliar o potencial de cada eleitor e escolher a melhor estratégia para conquistá-lo.

A vantagem dos democratas nesse campo é reconhecida pelos próprios republicanos. A equipe especializada em dados de Hillary tem o triplo do tamanho da que Obama reuniu em 2012. A própria organização física da campanha, tudo aquilo que envolve cartazes, folhetos e anúncios, é muito superior entre os democratas. Trump é um outsider que ainda não conquistou a máquina partidária – e a máquina serve acima de tudo para fazer campanha.


Trump despreza esse tipo de vantagem de Hillary. Afirmou que sua campanha estará baseada sobretudo em comícios, debates televisivos e na sua personalidade. Já provou que tem uma personalidade incomparável à de qualquer outro candidato. Ainda precisa provar que ela basta para vencer.

Fonte: G1 Notícias

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