quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Ascensão e queda do titã de reconhecimento soviético

A gigantesca embarcação de propulsão nuclear SSV-33 Ural foi lançada em 1983. Equipado com tecnologia de reconhecimento de última geração, foi um dos veículos mais avançados do seu tempo. Mas os caprichos da história fizeram com que estivesse fadado à obscuridade.

Foi a partir do cais de construção “A” do estaleiro Baltisk de Leningrado (atual São Petersburgo), onde as seções traseiras dos navios de assalto anfíbio franceses da classe “Mistral” estão agora sendo construídos para a Marinha russa, que o SSV-33 Ural deslizou pela rampa de lançamento em 1983.
O veículo era, em suas dimensões, comparável com o cruzador nuclear soviético da classe "Orlan", além de semelhante em tonelada de deslocamento ao porta-aviões Almirante Gortchkov, lançado um ano antes.
O navio soviético de três mastros tinha 265 metros de comprimento, quatro metros mais longo do que o porta-aviões francês Charles de Gaulle), e 30 metros de largura. Embora não tivesse sistemas de mísseis ou cabine de pilotagem, o seu tamanho e a inclusão de uma cúpula de radar indicavam a sua designação estratégica.
Depois de os EUA adotarem nos anos 1970 o conceito de “ataque de decapitação”, uma ofensiva nuclear preventiva que visa derrubar as capacidades de comando e controle do inimigo, e com a modificação de sistemas de base avançada dos EUA na Europa Ocidental, as tensões com a União Soviética foram novamente intensificadas.
Em 1979, foi tomada a decisão de implantar 572 mísseis Pershing-2 na Europa, criando uma pressão sem precedentes sobre a União Soviética, monitorando potenciais lançamentos de mísseis balísticos a partir de qualquer ponto do globo.
A inteligência soviética concentrou sua atenção no Atol de Kwajalein, a pouco menos de 4 mil quilômetros ao sul de Honolulu, que se tornou o terreno de ensaio dos EUA para os sistemas de defesa antimísseis, mísseis balísticos intercontinentais Minuteman e os novos mísseis Peacekeeper. No entanto, a União Soviética não tinha nem bases navais nem instalações de vigilância eletrônica (como a base de espionagem Lourdes, em Cuba) nessa parte do mundo.

Realidade a bordo

Mais de 200 instituições científicas, escritórios de projetos, fábricas e outras organizações estiveram envolvidas na construção dessa máquina, que era essencialmente uma base flutuante onde especialistas se reuniam e analisavam informações.
O navio tinha tripulação de quase mil pessoas, e, além de suas funções militares e científicas, contava com salas de bilhar, centro esportivo, cinemas, duas saunas e uma piscina.
Foi em meio a essa realidade que a liderança soviética se viu obrigada a considerar equipar um navio de reconhecimento gigante com extensas capacidades autônomas (ou seja, de propulsão nuclear) para operar próximo à costa dos EUA e ao atol de testes no Pacífico.
Esse navio seria capaz de reunir dados sobre todos os objetos suborbitários em voo em qualquer lugar do mundo. O Projeto 1941, ou “Titan”, resultou, enfim, em um dos navios mais peculiares da história naval, o SSV-33 Ural.
A principal arma do navio era o sistema de rádio-reconhecimento “Coral”, que vinha sendo desenvolvido pelo centro de produção científica Vympel desde 1975. Esse complexo de sistemas conseguia identificar qualquer alvo, monitorar os canais de comunicação, rastrear satélites e identificar as especificações de qualquer espaçonave a uma distância de 1.500 quilômetros.
Seus sete poderosos sistemas eletrônicos de rádio e uma série de supercomputadores ES-1046 e Elbrus foram projetados para monitorar os lançamentos de mísseis, determinar o tipo de foguetes, alcance, local de lançamento e coordenadas de alvo, o peso da carga útil e informações telemétricas, bem como a composição química do combustível de foguete utilizado.
Vida curta
Depois dos trabalhos finais serem concluídos em 1988, o Ural entrou em serviço como o carro-chefe da seção de reconhecimento da Frota do Pacífico. Em setembro de 1989, um cabo de comunicação do Ministério das Relações Exteriores japonês relatou a presença de “um enorme navio nuclear de especificação desconhecida a oeste da ilha de Okinawa”, revelando ao mundo a chegada do gigante à sua estação permanente.
Todos os sistemas de bordo foram testados durante a viagem do mar Báltico rumo ao Extremo Oriente, apontando de 1.000 quilômetros de distância o lançamento americano do ônibus espacial Columbia e dois satélites eletro-ópticos e de espionagem desenvolvidos no âmbito do programa militar norte-americano “Guerra nas estrelas”.
Porém, o Ural estava destinada a nunca atingir o Atol de Kwajalein. O período inicial de dificuldades coincidiu com o colapso da União Soviética, quando até mesmo as embarcações mais confiáveis ​​perderam sua prontidão de combate em meio aos longos períodos de atracação.
A infraestrutura necessária para manter o Titan ainda não tinha sido construída e ele permaneceu ancorado funcionando às custas de suas reservas elétricas.
O Ural monitorava toda a região norte do Oceano Pacífico, interceptando comunicações de rádio da força aérea e da defesa marinha e submarina dos Estados Unidos e do Japão. Mas sua sorte foi progressivamente indo por água abaixo.
Em 1990, um fio danificado provocou um incêndio na sala de máquinas da popa e, dois anos depois, ambos os reatores deram perda total. A partir de então, o navio foi usado como abrigo para oficiais júnior da frota e irreverentemente apelidado de “porta-beliche”.
Depois de um período ativo em serviço, foi finalmente desativado em 2001 e ancorado em um cais remoto ao lado do cruzador míssil Almirante Lazarev (antigo Frunze), antes de ser enviado para um ferro-velho em 2010.

Fonte: Gazeta Russa

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