sexta-feira, 27 de julho de 2018

A transição afegã do Mi-17 para o UH-60A, emergem os problemas

Conforme publicado aqui no GBN News no último mês de junho, Washington resolveu substituir a frota de aeronaves Mi-17 de fabricação russa, adquiridos através da Rosoboronexport entre 2011 e 2013 afim de equipar as forças do Afeganistão, por aeronaves UH-60A Black Hawk, iniciando uma controversa medida, "UH-60A para o Afeganistão? Uma escolha acertada para substituir os Mi-17?".

Como é de conhecimento público, o Congresso norte americano influenciou de todas as formas a decisão de substituir os Mi-17 no Afeganistão pelo UH-60A, contrariando claramente a lógica e doutrina de emprego do meio naquele teatro de operações, sendo uma clara decisão política e comercial em detrimento das capacidades operacionais, ignorando as questões técnicas e estratégicas.

Conforme relatamos há pouco mais de um mês, a transição do Mi-17 para o UH-60A, apresentava prováveis problemas técnicos e operacionais que surgiriam com essa mudança. Diversos analistas militares alertaram com relação aos diversos problemas que envolvem o emprego do UH-60A naquele cenário específico, os quais apresentaram uma série de relatórios detalhando as limitações de emprego do UH-60A.

Agora na fase de execução dessa transição de aeronaves, já são registrados inúmeros problemas no progresso desse programa, voar e manter o UH-60A no lugar do Mi-17 tem representado um grande problema aos afegãos, pois como sabemos, o UH-60A é uma aeronave muito mais complexa, o que requer mais investimento na formação das equipes de manutenção e operação desta aeronave, sem contar na infraestrutura necessária para sua operação se comparados ao que era necessário até então para voar o Mi-17.

Os senadores americanos há muito tempo defendem a substituição dos helicópteros russos por análogos norte americanos no Afeganistão, o que de fato gera um grande problema do ponto de vista doutrinário e logístico. 

A Força Aérea Afegã recebeu os helicópteros Mi-17 comprados pelos EUA junto a russa Rosoboronexport, como parte do esforço de capacitação e fortalecimento daquela nação e suas instituições militares. Além dos requisitos técnicos, à época das aquisições, representantes do US Army apontaram a aquisição do Mi-17 como uma solução viável e adequada do ponto de vista técnico, econômico e principalmente operacional, principalmente porque os afegãos já sabiam pilotar e manutenir a aeronave em questão.

As contestações de senadores sobre essa decisão levou a inúmeras audiências públicas, onde foram travados muitos debates. Até que o senador Richard Blumenthal, conseguiu aprovar o cancelamento dos contratos para aquisição e apoio aos Mi-17 afegãos existentes com a Rosoboronexport, aproveitando a situação envolvendo Moscou e o  governo sírio de Bashar Assad, que fornecia armas e equipamentos ao governo sírio contrariando a posição dos EUA e seus aliados com relação aquele conflito, impondo fortes limitações às negociações com a empresa russa.

Os contratos originalmente assinados entre o Departamento de Defesa dos EUA e a Rosoboronexport no período de 2011 a 2013, previam a aquisição de 73 aeronaves Mi-17 para o Afeganistão. Porém, a suspensão dos contratos se deu quando ainda restava a entrega de 15 aeronaves previstas. 

A decisão controversa de implementar cerca de 160 UH-60A Black Hawk no Afeganistão prosseguiu mesmo diante dos relatórios. Ainda segundo oficiais do US Army, o senado havia sido alertado sobre as dificuldades de tal transição, particularmente no que diz respeito a manutenção e treinamento, segundo relatório recente, esses problemas tem ganhando forma de forma cada vez mais preocupante.  Principalmente quando se analisa os dados que apontam uma grande dependência do apoio norte americano, pois em termos comparativos, os afegãos realizam 80% da manutenção dos Mi-17 e apenas 20% são feitos por empresas contratadas, já com os UH-60A a manutenção é quase que totalmente dependente dos norte americanos contratados para implementar a transição entre as aeronaves. 

De acordo com a 9ª AETF-A, encarregada de conduzir a transição em conjunto com os afegãos, o Mi-17 é muito mais fácil de ser assimilado de acordo com nível educacional que possui a população afegã em geral. do que o UH-60A em termos de manutenção. Por causa disso, dificilmente os afegão serão capazes de realizar assimilar a manutenção no curto e médio prazo.

Os Mi-17 estão sendo desativados progressivamente, havendo hoje 47 aeronaves do tipo em operação, mas esse número deve ser reduzido para 20 aeronaves até o final de 2019, sendo reduzido apenas 12 aeronaves em 2022. Mas uma pergunta que se faz é: Como se dará a formação dos pilotos e equipes de solo? Essa com certeza é uma questão preocupante, tendo em vista a necessidade de substituição das tripulações e equipes técnicas nos próximos anos, enquanto os UH-60A ainda estão sendo preparados para ser entregues, tendo sido entregues apenas oito aeronaves, com outras 45 ainda em fase de revisão e preparação, de uma estimativa de 160 totais anunciada pelo congresso.

Outro problema que já se vislumbra no horizonte próximo, diz respeito a perda de capacidade com a redução e futura retirada de serviço dos Mi-17. Com a transição do Mi-17 para o UH-60A, emergem lacunas que serão abertas com a saída do Mi-17. Por exemplo, o Black Hawk não possui capacidade de içamento comparável a apresentada pelo Mi-17, sendo incapaz de transportar o volume de carga que o Mi-17 carrega. Comparativamente, são necessários dois UH-60A para transportar a mesma carga de um Mi-17.

As tropas afegãs operando em áreas remotas de grande altitude estarão desprovidas do apoio que antes recebiam dos Mi-17, pois os Black Hawks não podem voar nas mesmas altitudes e condições que um Mi-17, ou seja, não podem operar em áreas remotas do país.

Sinceramente, é preocupante e lamentável a decisão tomada pelo congresso, sobrepondo as doutrinas de emprego e necessidades técnicas para cumprir as missões previstas pelas forças afegãs, o que poderá resultar não apenas na perda de vidas, mas abrir um lacuna que pode ter um impacto muito maior sobre as capacidades logísticas e de atuação do exército afegão, abrindo espaço aos grupos insurgentes que operam em regiões remotas do país.


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