segunda-feira, 4 de julho de 2016

Quais são os países mais autossuficientes do mundo - e o que ganham com isso?

Buscar a autossuficiência é um instinto natural do ser humano e esse sentimento também se reflete muitas vezes nos países.
Mas essa busca traz um impedimento que pode contrariar conceitos básicos da economia tradicional: países podem obter vantagens se comercializarem bens entre si, privilegiando o que sabem fazer melhor em vez de tentar produzir tudo.
A verdade, segundo especialistas, é que nenhuma das duas estratégias deve ser levada ao extremo: países podem buscar elementos de autossuficiência sem deixar de suprir necessidades mais básicas com outras nações.
Até porque alguns dos países mais autossuficientes hoje em dia são grandes comerciantes.
Autossuficiente e comerciante
Os Estados Unidos são um exemplo disso. É um dos países mais identificados com o livre comércio e importa todo o tipo de bens e serviços.
No entanto, os especialistas apontam os EUA como uma das poucas nações que conseguiriam sobreviver sem comércio exterior.
"Quanto às necessidades de energia, os Estados Unidos são bastante autossuficientes, já que têm petróleo e uma capacidade enorme de refino", disse à BBC Gal Luft, diretor do Instituto de Análise para Segurança Global, centro de pesquisa sediado em Washington.
Petroleiro nos Estados Unidos.Image copyrightGETTY IMAGES
Image captionÀs vezes é mais eficiente importar petróleo do que produzir localmente
"É uma das poucas economias que poderiam eventualmente ser autossuficientes nesse campo se assim quisessem", acrescenta.
Mas Luft considera que buscar isso não seria, necessariamente, uma boa opção para os Estados Unidos. Washington compra volumes substanciais de petróleo bruto por razões econômicas. Há diferentes tipos de petróleo e, em muitos casos, pode ser mais eficiente trazê-lo de fora.

Política

Há ainda razões políticas, esclarece Luft, indicando que se os Estados Unidos deixassem de comprar petróleo bruto de certos países isso poderia desestabilizar essas nações e gerar outros problemas para os EUA.
E em caso de emergência? Os EUA mantêm uma reserva estratégica de petróleo, grandes quantidades de petróleo bruto armazenadas para circunstâncias em que importações não estejam disponíveis.
"Mas é importante lembrar o que aconteceu durante o furacão Katrina, em 2005", destacou o especialista. Na ocasião, a oferta de petróleo no país foi afetada.
SupermercadoImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionOs países mais autossuficientes são muitas vezes grandes comerciantes
"Durante esse período, os Estados Unidos nem sequer podiam usar sua reserva estratégica e acabaram tendo que importar petróleo", explica Luft.
A Noruega é outro exemplo citado por Luft de país que poderia se aproximar facilmente da autossuficiência energética. Mas, na opinião dele, isso não seria interessante para o governo. "O que eles ganhariam com a autossuficiência e se fechando para o resto do mundo?", questiona.

Alimentos

Outra medida de autossuficiência é a capacidade de produzir os próprios alimentos.
Em oposição aos que garantem que o livre comércio é sempre a maneira mais eficiente de gerenciar demandas de abastecimento interno dos países, outros citam argumentos como os da segurança alimentar para destacar a necessidade de se manter a capacidade interna de produção de alimentos.
Novamente, há especialistas que dizem que os dois conceitos podem ser conciliados. E afirmam que os países mais autossuficientes são muitas vezes os maiores importadores de comida.
"Muitas vezes, a ideia da autossuficiência alimentar é classificada pelos críticos como uma atitude extrema, ineficiente e até perigosa", disse à BBC Jeniffer Clapp, especialista em segurança alimentar e sustentabilidade da Universidade de Waterloo no Canadá, sobre a situação em que um país fecha suas fronteiras e se recusa a participar de qualquer transação comercial, buscando produzir todos os alimentos de que necessita.
Mas outra maneira de entender a autossuficiência, segundo Clapp, é quando um país busca produzir parte de sua comida em um nível equivalente a 100% ou mais de suas necessidades de consumo.
PetroleirosImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionAlguns especialistas dizem que, mesmo que fosse possível, a autossuficiência pode não ser a melhor alternativa

Comércio

"Isso não impede o comércio. Pode ser que em algumas circunstâncias, esses países queiram importar alguns bens alimentícios, mas sua capacidade doméstica é suficiente", afirmou Clapp.
Nesse grupo de países líderes em autossuficiência alimentar, Clapp inclui países entre os quais se destacam Canadá, Austrália e Argentina, além dos Estados Unidos.
"É mais útil pensar na autossuficiência como um espectro gradual de políticas do que como um extremo. Poucos países no mundo fecham suas fronteiras a todo tipo de comércio ou dependem completamente do comércio para seu consumo de alimentos. A maioria está em um ponto intermediário", diz a pesquisadora.
"Cada país tem que avaliar sua própria situação, porque eles enfrentam circunstâncias diferentes. Não se pode dizer que a autossuficiência é uma boa ou má ideia em geral."
"Há muitos casos em que um país pode estar interessado em melhorar sua capacidade de produzir certos bens de consumo, como o arroz, que tem sido suscetível a uma alta variação de preços", pontua Clapp.
Assim, na busca da autossuficiência, especialistas recomendam evitar posições absolutas e ser pragmático ao estabelecer quanto o país dependerá de fontes externas para satisfazer suas necessidades de bens primários. 

Fonte: BBC Brasil

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