quarta-feira, 27 de julho de 2016

O pragmatismo de EUA e Rússia na crise síria

Americanos e russos demonstram há anos pontos de vista diferentes em relação à guerra civil. Apesar disso, eles se encontram em Genebra para apresentar um novo plano de cooperação para o problema.
Faltam muitas coisas, tanto alimentos quanto segurança. Nas últimas três semanas, o Exército sírio mantém cercada a cidade de Aleppo – e, desde então, a situação humanitária piorou consideravelmente. Cerca de 300 mil habitantes permaneceram na cidade. Eles mal podem garantir o seu abastecimento. E também sofrem com os ataques da Força Aérea do presidente Bashar al-Assad.
Quase mil pessoas morreram desde o início dos combates em torno da segunda metrópole do país, localizada no norte da Síria, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, sediado em Londres. O Exército não estaria hesitando nem mesmo em atacar hospitais civis: somente no início desta semana, 18 pessoas morreram por bombardeio de helicóptero.
De acordo com a especialista em Oriente Médio Bente Scheller, diretora da Fundação Heinrich Böll em Beirute, o regime de Assad se vê no caminho da vitória. "Ele está significantemente mais forte que a oposição no momento", afirma. "Para mim, o regime se sente ainda mais forte do que realmente está."
Precisamente por essa razão, ele poderá vir a se engajar de forma mais determinada na reconquista da cidade, prossegue Scheller, acrescentando que as tropas de Assad conseguiriam então uma importante virada.
Diante desse contexto, o secretário de Estado americano, John Kerry, e seu colega russo, Serguei Lavrov, chegaram a um acordo, nesta terça-feira no Laos, sobre um novo plano de cooperação para a Síria. Tal proposta deverá ser apresentada nas próximas semanas. Para tal, o enviado especial das Nações Unidas para a crise na Síria, Staffan de Mistura, se reuniu nesta quarta-feira (27/07) com representantes dos EUA e da Rússia.
As conversações com o enviado americano Michael Raney e o vice-ministro do Exterior russo, Gennadiy Gatilov, acontecem em Genebra, na Suíça. Espera-se que as negociações iniciadas no começo deste ano levem a um acordo de paz.
Para uma solução pacífica do conflito, o governo sírio e a oposição devem realizar negociações diretas, afirmou Lavrov, citado por agências de notícias russas. Posteriormente, representantes dos EUA, Rússia e Nações Unidas pretendem se encontrar também em Bruxelas para discutir sobre novos passos com vista à resolução do conflito na Síria.
Sob pressão de tempo
Não se espera muito dessa nova rodada de negociações, afirma Bente Scheller. Segundo a especialista em Oriente Médio, já houve várias reuniões desse tipo, e é pouco provável que tais conversas possam mudar algo em agosto.
"Os EUA estão sob certa pressão, já que em breve vão ter que lidar com sua campanha presidencial. Então não deverá sobrar muito espaço para temas de política externa. Assim, existe por parte dos americanos certa pressão para que seja feito mais um avanço. Mas eu não consigo ver algo construtivo saindo disso, algo duradouro", opina.
Durante anos, EUA e Rússia tiveram pontos de vista diferentes em relação à Síria, principalmente no que diz respeito ao destino político de Assad. Tais diferenças levaram os países ocidentais a atuar com contenção. Enquanto os russos ficaram do lado de Assad, os americanos exigem há muito a saída do ditador sírio. Nesse ponto, os EUA concordam com a oposição secular, a quem fornecem apoio militar não letal.
"Difícil aliado"
Quanto a isso, até hoje, não houve mudanças substanciais, sublinha Bente Scheller. No entanto, a especialista explica que a relação da Rússia com o regime Assad nunca foi fácil. "Pois, por um lado, a Rússia tem interesse em apoiar Assad e seu regime. Porém, o regime tem mostrado repetidamente que segue seus próprios caminhos, que não é somente um inimigo difícil, mas também um aliado complicado."
Cada vez mais, continua Scheller, Moscou tem ficado ciente dos custos da assistência financeira e política a Assad. De fato, ao seguir tal curso, a Rússia tem feito poucos amigos no mundo sunita: com sua oposição ao presidente sírio, tais Estados – liderados pela Arábia Saudita – têm se posicionado também contra Moscou.
Se os EUA quiserem, realmente, atuar em prol de mudanças na Síria, agora seria o momento certo. Para Obama, esta seria a última oportunidade de acelerar, ao menos de certa forma, o fim da tragédia – deixando, assim, algo para a sua reputação nos futuros livros de história. Com sua política para o Oriente Médio, o presidente americano não pôde convencer o mundo árabe, muito menos com sua relutância frente à crise na Síria.
O regime Assad se beneficiou muito dessa relutância dos EUA. Mesmo assim, somente com muito esforço, o ditador sírio conseguiu reverter a situação na Síria a seu favor, afirma Bente Scheller, da Fundação Heinrich Böll.
Segundo Scheller, com a ajuda militar russa, Assad foi capaz de colocar a oposição na defensiva e talvez ele possa desmantelar, completamente, a força e o impacto militar de seus opositores. "Mas talvez a parte mais difícil comece mais tarde", afirma a especialista: pois, com o fim da oposição secular, a sociedade também estaria inteiramente destruída.

Fonte: Deutsche Welle

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