terça-feira, 22 de novembro de 2016

A incrível história do piloto que roubou um caça secreto soviético



Em 6 de setembro de 1976, um avião surgiu detrás das nuvens sobre a cidade japonesa de Hakodate, na ilha de Hokkaido. Tinha duas turbinas, mas não parecia com os tipos de aeronaves que os habitantes da cidade estavam acostumados a ver. Na fuselagem, podia-se ver a marca da Força Aérea Soviética.
Na verdade, a aeronave era desconhecida fora das fronteiras da então URSS. O jato pousou na pista do aeroporto local, curta demais para sua potência, e só parou depois de percorrer centenas de metros por sobre a terra. Quando equipes de segurança chegaram perto no avião, o piloto se rendeu.
Ele se identificou como tenente Viktor Ivanovich Belenko. E anunciou que estava desertando.
Deserções eram episódios relativamente comuns na Guerra Fria, mas a diferença neste caso era que, em vez de procurar uma embaixada ocidental ou pedir asilo durante uma viagem ao exterior, o militar soviético, de 29 anos, optou por roubar uma arma secreta das forças armadas de seu país e fazer uma viagem de mais de 600 km.

Capacidade de manobra

O segredo militar que Belenko entregou aos inimigos de Moscou. Governos ocidentais tinham obtido informações sobre um novo projeto militar aeronáutico soviético por volta de 1970. Satélites espiões tinham fotografado um novo tipo de aeronave sendo testada em segredo. Parecia uma enorme aeronave de caça e as autoridades militares, sobretudo as americanas, preocupavam-se com uma característica especial: as imensas asas.
Em aeronaves de combate, isso significa maior capacidade de manobra. E o novo avião parecia ainda contar com motores mais potentes que os anteriormente vistos em modelos soviéticos. Havia dúvidas sobre a capacidade das forças aéreas americanas e aliadas de lidar com essa nova ameaça.
Mais pistas tinham surgido no Oriente Médio: em março de 1971, autoridades israelenses detectaram um novo tipo de aeronave capaz de voar três vezes mais rápido que a velocidade do som e que subiu a grande altitude. A força aérea do país tentou interceptar o avião, mas sequer conseguiu chegar perto dele.
Tratava-se do Mig-25, a resposta soviética para uma série de aviões que os americanos tinham produzido para entrar em operação na década de 60 e cuja grande característica em comum era voar pelo menos três vezes mais rápido que a velocidade do som (Mach 3, que corresponde a 3.700 km/h).
manchete da época
Durante a década de 50, a corrida armamentista nos ares tinha sido equilibrada: os soviéticos, por exemplo, tinham bombardeiros que voavam quase tão rápido e tão alto quando o B-52, o principal modelo americano. Mas o salto tecnológico foi que capaz de fazer uma aeronave aumentar a velocidade de Mach 2 para Mach 3 era extremante desafiador. E os engenheiros soviéticos tinham que fazê-lo para não ficar atrás dos EUA.
O MiG-25 foi projetado para ser feito de aço, material mais pesado e que, por isso, exigiria mais combustível e maior tamanho para compensar o peso e os motores necessários para voar á Mach 3. Era mais barato que o titânio, o material usado pelos americanos. Isso explicou também o tamanho das asas: o MiG-25 tinha asas enormes simplesmente porque precisava delas para se manter no ar, e não para ter mais capacidade de manobra em uma eventual batalha com caças americanos como se especulava no ocidente.

Propaganda

Mas, nos anos 70, o pouco que Washington sabia sobre o novo avião soviético era baseado em fotos borradas tiradas do espaço, além de dados de radar. A não ser que conseguissem ver um desses aviões de perto, o MiG-25 permaneceria como uma ameaça misteriosa.
Tudo isso mudou graças a um piloto soviético desiludido.
Belenko era o que podia se chamar de um cidadão-modelo. Nascido pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, ele havia feito carreira militar e chegado ao posto de piloto de combate, que valia algumas regalias em comparação com cidadãos comuns do regime comunista soviético.
Mas ele vinha perdendo a fé no sistema e, sobretudo, na ideia de que os EUA era tão diabólicos quanto o regime sugeria.
"A propaganda soviética retratava a sociedade americana como mimada e falida. Mas eu tinha dúvidas", disse Belenko, em uma entrevista à revista americana Full Context, em 1996.
Ele percebeu que o avião em que treinava poderia ser seu passaporte para a fuga. Na época, estava se divorciando e estava lotado na base de Chuguyevka, perto da cidade de Vladivostock, no extremo leste da então URSS.
O novo MiG era rápido e podia voar alto, mas seus imensos e sedentos motores não lhe davam muita autonomia e isso lhe deixava fora do alcance das bases americanas mais próximas. O Japão ficava a apenas 644 km de distância.
No dia 6 de setembro de 1976, Belenko decolou para uma missão de treinamento ao lado de outros MiGs.
Nenhum deles estava armado. Ele já havia calculado uma rota e seu avião tinha o tanque cheio. Após deixar a formação da esquadrilha, tomou o rumo do Japão. Para escapar dos radares soviéticos e japoneses, precisava voar muito baixo, algo como apenas 30 metros acima do mar. Quando entrou o suficiente em espaço aéreo japonês, Belenko levou avião para uma altitude de 6 mil metros, justamente para anunciar sua presença.

'Fantasma'

Os controladores de voo militares japoneses tentaram contato, mas o rádio do MiG estava sintonizado em frequências diferentes. Quando jatos japoneses partiram a seu encalço, Belenko foi obrigado a voar baixo mais uma vez para fugir dos radares.
Por todo o tempo, o piloto soviético voava apenas com a memória das cartas aéreas que tinha estudado antes de decolar. Sua intenção era descer na base de Chitose, mas tinha pouco combustível. Hakdodate era a pista mais próxima.

Os japoneses só perceberam que era um MiG depois que Belenko pousou o caça "na marra".
A principal agência de inteligência dos EUA, a CIA, mal podia acreditar no presente que recebera.
O MiG-25 foi levado para uma base militar próxima e examinado peça por peça. "As autoridades americanas conseguiram entender exatamente o que o avião era capaz de fazer", diz o especialista americano em aviação militar Stephen Trimble.
Ao contrário do que o Pentágono temia, Moscou não tinha construído um "super caça", mas sim uma aeronave inflexível e construída para uma função bem específica. "O MiG-25 não era uma aeronave de combate muito eficaz. Era cara e pesada", diz Roger Connor, curador de aviação do Museu Smithsonian.
Havia outros problemas: o voo em Mach 3 colocava imensa pressão sobre os motores e os engenheiros perceberam que a operação em velocidades acima de 3.200 km/h poderiam, basicamente, desmontar o avião. Os pilotos tinham sido instruídos a não exceder Match 2.8. O MiG detectado pelos israelenses voando a Match 3.2 em 1971 basicamente destruiu seus motores e por muito pouco não caiu.
similaridades entre o Mig-25 e o F-15 Eagle
Ironicamente, o "fantasma" do MiG-25 levou os EUA a embarcar em um ambicioso projeto aéreo, que resultou na criação do F-15 Eagle, um caça destinado a ser rápido e com grande capacidade de manobra e que segue em operação após quatro décadas.
O avião russo, que tanto preocupara o Ocidente, era um "cão que ladrava, mas não mordia": seu radar era defasado em relação aos modelos americanos e seus motores consumiam tanto combustível que limitavam o alcance da aeronave.

'Sem mordida'

O MiG-25 podia decolar rápido, voar muito rápido em linha reta para disparar mísseis ou tirar fotos. Era só isso. Depois de remontado parcialmente, o avião roubado por Belenko foi enviado de navio para a URSS. O governo japonês mandou para Moscou uma conta de US$ 40 mil pelo frete e para cobrir os custos pelos danos ao aeroporto de Hakodate.
Ficou claro que o MiG-25 não fazia frente ao SR-71, um dos aviões americanos que tinham inspirado sua construção. "O SR-71 era rápido, mas capaz de correr uma maratona. O MiG era um velocista tipo Usain Bolt. Só que esse Bolt era mais lento que o maratonista", ironiza Connor.
As limitações, porém, não impediram que a URSS construísse mais de 1.200 MiG-25. O caça virou uma peça de prestígio na Força Aérea Soviética, que alardeou a posse do então segundo mais rápido avião do mundo. Países como a Argélia e a Síria ainda usam o MiG-25. A Índia os empregou como aeronave de reconhecimento por 25 anos e só os aposentou em 2006, por falta de peças de reposição.
Belenko foi acolhido nos EUA e ganhou cidadania americana em 1980. Ele vive até hoje nos Estados Unidos, trabalhando como consultor de aviação.
Depois do fim do comunismo, visitou a Rússia a negócios. Sua carteira de identidade militar e as anotações feitas durante o voo para o Japão hoje estão expostas no Museu da CIA, em Washginton.

Fonte: BBC Brasil
correções: GBN News

2 comentários:

Grande história... parabéns pela postagem...

Show. Uma história marcante no mundo da aviação...

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