terça-feira, 16 de junho de 2015

Quebra de acordo entre EUA e Rússia pode recolocar Europa na linha de fogo

Washington alega que Moscou violou tratado de forças nucleares assinado em 1987. Se os EUA renunciarem ao acordo, especialistas preveem graves consequências, sobretudo no contexto dos acontecimentos na Ucrânia.

A assinatura do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (TNP), em 1987,  foi um dos passos fundamentais para reduzir a ameaça de guerra nuclear entre a União Soviética e os Estados Unidos. Agora os EUA alertam para a possibilidade de se retirarem desse acordo sob alegação de que Moscou não o cumpre há dois anos.

“Os falcões da política estão interessados no fracasso do acordo. Também os lobistas do complexo industrial-militar de ambas as partes estão contra ele, pois, se o contrato deixar de existir, será reativada a corrida armamentista”, disse à Gazeta Russa o diretor do Conselho Russo dos Negócios Estrangeiros, Ivan Timofeev.

Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, não há nenhum esclarecimento concreto do lado norte-americano sobre a violação de qualquer artigo do acordo pela Rússia. Enquanto isso, as autoridades dos EUA sugerem uma possível resposta, como a implantação de mísseis de curto e médio alcance na Europa, com respaldo britânico.

Se os EUA renunciarem ao acordo, as consequências podem ser graves – especialmente no contexto dos acontecimentos na Ucrânia, onde a Rússia e o Ocidente ainda não desenvolveram as regras do jogo. “A situação da segurança na Europa irá piorar bastante. Aumentará o risco de conflito e começará uma corrida armamentista”, disse Timofeev.

Em julho de 2014, o jornal “The New York Times” divulgou que Barack Obama enviara uma carta ao homólogo russo Vladímir Pútin, expressando o seu protesto por um suposta violação do TNP. O primeiro descumprimento do acordo teria ocorrido durante testes de mísseis cruzeiro conduzidos pela Rússia em 2008.

Pressão dos EUA

O vice-diretor do Centro de Estudos Complexos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia, Dmítri Suslov, acredita que os americanos estejam blefando. “O mais provável é que se trate de chantagem. Washington dá a entender a Moscou a sua prontidão para uma corrida armamentista séria, ao ponto de regressarmos aos anos 80.”

Além disso, segundo o especialista, o rompimento do acordo poderia resultar em uma divisão no próprio núcleo da Otan. “A França e a Alemanha se opõem, uma vez que não querem voltar a ficar na mira dos mísseis russos”, explica Suslov.

“Mesmo que os Estados Unidos tentem, sob esse pretexto, convencer a Europa a apoiar o seu projeto de defesa antimísseis, é provável que a aposta não irá funcione. A defesa antimísseis é incomparavelmente inferior à eficácia das armas ofensivas”, acrescenta.

Linha direta com a Europa

As autoridades russas já ameaçaram implantar mísseis Iskander na região de Kaliningrado, caso os Estados Unidos se retirem do TNP. Mas os especialistas entrevistados pela Gazeta Russa acreditam que as autoridades nacionais deveriam ter mais cautela ao abordar o assunto.

“Se os EUA tomarem essa iniciativa, Moscou deve responder com cuidado e tentar discutir o tema em nível político. É preciso dialogar com os europeus. É necessário explicar-lhes que o principal perdedor nesse caso é a Europa”, disse Timofeev. “Os mísseis dos EUA serão colocados nela, e os da Rússia, ficarão apontados para ela.”

Suslov concorda que é preciso negociar com os europeus. “Os americanos foram os primeiros a falar da possibilidade de abandonar o acordo, não a Rússia. É necessário usar isso para iniciar uma conversa intensa com os europeus”, sugere.

“É pouco provável que consigamos dividir a Otan ou iniciar um diálogo sobre a mudança dos fundamentos da segurança europeia. No entanto, conseguiremos, pelo menos, iniciar um diálogo sobre segurança que até agora não existiu. Um diálogo sem a participação dos EUA”, acrescenta. 

Fonte: Gazeta Russa

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