quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Revolução Farroupilha - O mais longo conflito brasileiro

Nesta quinta-feira, 20 de setembro, comemoramos 183 anos da "Revolução Farroupilha", ou "Revolução Rio-Grandense", que é sem dúvida uma das mais importantes páginas da história brasileira, a qual esta repleta de episódios e atos de heroísmo que infelizmente hoje pouco se reverbera entre nossos jovens e mesmo a população em geral, a qual pouco conhece nossa rica história e as tradições que guardam nossa diversa nação.

A revolução que teve inicio como forma de buscar mudanças no tratamento dado pelo império a província no sul do Brasil, evoluiu ao longo de seu desenrolar, tendo sido palco de grandes e sangrentas batalhas entre as tropas do império e as forças rio-grandenses, teve em seu ápice proclamada a ruptura da região com o restante do império, onde chegou a ser proclamada a República Rio-Grandense.

Revolução Farroupilha ganhou notoriedade não apenas pelos fatores que levaram a eclosão do conflito e a resolução do mesmo, mas principalmente pelo viés separatista que tomou o conflito, tendo sido o momento que apresentou maior ameaça à integridade territorial brasileira.

Gen. Bento Gonçalves
A Revolução Farroupilha teve como principais fatores para sua eclosão a insatisfação dos estancieiros gaúchos com a política fiscal do império sobre a província. Naquele período da história, a província do Rio Grande do Sul tinha como principal produto o charque (carne-seca), sendo um dos principais alimentos destinados aos escravos na região sudeste e nordeste do Brasil.

Para entendermos um pouco melhor a questão, o charque produzido na província do Rio Grande do Sul  sofria com a cobrança de uma pesada carga tributária realizada pelo governo central, enquanto o que era produzido pelos uruguaios e argentinos tinha uma taxação muito inferior a praticada sobre os rio-grandenses. Essa postura do governo central tornava o produto gaúcho menos competitivo, uma vez que devido aos altos impostos era impossível praticar um preço competitivo no mercado. 

Mas o descontentamento gaúcho não era só com a questão tributária sobre a província e seu principal produto, ou sobre a reivindicação de uma taxação justa sobre o charque estrangeiro para tornar a concorrência entre o produto nacional e o estrangeiro mais justa. Haviam outras razões que levaram a Revolução Farroupilha as vias de fato. Abaixo listamos alguns dos principais fatores que corroboraram para a eclosão do conflito e a grande adesão gaucha ao movimento:

  • Insatisfação com a taxação sobre o gado na fronteira Brasil-Uruguai e os impostos sobre o Charque rio-grandense.
  • Insatisfação com a criação da Guarda Nacional.
  • Insatisfação com a negativa do governo em assumir os prejuízos causados pela praga de carrapatos que causou grande impacto sobre a pecuária na região em 1834.
  • Insatisfação com a centralização do governo e a falta de autonomia da província, além do descontentamento com a importância dada a província nas decisões do império.
  • O florescer dos ideais federalistas e republicanos na região, que cresciam diante do descontentamento com o império.

Todo esse caldeirão efervescente culminou com a explosão da revolta no dia 20 de setembro de 1835 com os gaúchos tomando o controle de Porto Alegre e obrigando o presidente da província, Fernandes Braga, a fugir para Rio Grande. Bento Gonçalves, que planejou o ataque, empossou no cargo o vice, Marciano Ribeiro.


Bento Manoel
Em resposta a deposição de Fernandes Braga, o império nomeou José de Araújo Ribeiro, porém, a nomeação não agradou os líderes da revolução, onde o principal objetivo da revolta era a nomeação de um presidente que defendesse os interesses rio-grandenses, assim decidiram por prorrogar o mandato de Marciano Ribeiro até 9 de dezembro. Araújo Ribeiro, então, decidiu partir para Rio Grande e tomou posse no Conselho Municipal da cidade portuária.


Bento Manoel, um dos líderes da tomada de Porto Alegre em 20 de setembro, decidiu romper com seu apoio a revolução e passou a apoiar Araújo Ribeiro.

O líder rio-grandense Bento Gonçalves, tentou uma conciliação ao convidar Araújo Ribeiro a tomar posse em Porto Alegre, mas este recusou o convite. Ao invés disso, Araújo Ribeiro com a ajuda de Bento Manoel, seguiu na busca pela adesão de outros líderes militares, como Osório. A crise na província se agravou com decisão do governo central de transferir em 3 de março de 1836 as repartições para Rio Grande, selando a ruptura. Como toda ação gera uma reação, os líderes farroupilhas prenderam o conceituado major Manuel Marques de Souza em Pelotas, o qual foi levando para Porto Alegre e detido no navio-prisão "Presiganga", ancorado no Guaíba.

General Neto
Em 9 de setembro de 1836 sob comando do General Neto, os rio-grandenses impuseram uma violenta derrota ao coronel João da Silva Tavares no Arroio Seival, naquela ocasião e em virtude do impasse político que o conflito havia chegado, foi feita a proclamação da República Rio-Grandense. Naquele dia o movimento passava a ser separatista. A província do Rio Grande do Sul declarava sua separação do território brasileiro e a formação da República Rio-grandense, também conhecida como República de Piratini.

A Revolução Farroupilha liderada por grandes líderes gaúchos, tinha como um dos seus maiores nomes Bento Gonçalves, o qual chegou a ocupar a presidência da proclamada república por um período, porém outros nomes importantes não podem deixar de ser lembrados, como o italiano Giuseppe Garibaldi e do militar brasileiro David Canabarro. Estes dois responsáveis por espalhar os ideais separatistas da revolução a outras províncias, onde em julho de 1839 foram responsáveis por levar a guerra contra o império para a província de Santa Catarina, fundando lá a República Juliana.

Gen. David Canabarro
A República Juliana, no entanto, teve duração extremamente curta, pois essa região foi retomada pelo governo imperial em novembro do mesmo ano. A Revolução Farroupilha, apesar da sua longa duração e da sua extensão para outra província do Sul do Brasil, teve no geral, combates de baixa  e média intensidade, concentrando-se em confrontos de cavalaria, dos quais pode-se destacar a vitória rio-grandense na Batalha de Seival. No entanto, à medida que a reação imperial consolidava-se, os rio-grandenses perdiam força e partiam para a guerra de guerrilha.


Barão de Caxias
Para conter a revolta na província do Rio Grande do Sul, o império brasileiro designou ninguém menos que Luís Alves de Lima e Silva, o então Barão de Caxias, futuramente conhecido como Duque de Caxias, muito conhecido como "O Pacificador". A ação de Caxias à frente de 12 mil homens foi extremamente eficiente, pois conseguiu sufocar os revolucionários com ações militares estratégicas, adotando a sua grande habilidade diplomática, conseguiu levar os líderes da revolução à negociação. A paz foi alcançada enfim no dia 1 de março de 1845, com a assinatura do Tratado de Poncho Verde, em que os rio-grandenses colocaram fim à revolta, após quase dez anos de guerra que teriam causado 47 829 mortes. O acordo realizado entre o império brasileiro e os rio-grandenses estipulou:
  • Taxação em 25% sobre o charque estrangeiro;
  • Anistia para os envolvidos na revolução;
  • Incorporação dos militares farroupilhas ao exército imperial, mantendo sua patente;
  • Os provincianos teriam direito de escolher o próprio presidente de província, porém, isso não foi de fato consumado;
  • Os escravos que lutaram do lado dos rio-grandenses seriam alforriados, algo que não saiu do papel.

Para entender um pouco sobre essa última cláusula do acordo firmado entre o império brasileiro e os rio-grandenses, é preciso lembrar que durante a revolução houve uma grande participação de escravos e negros libertos. Apesar de ser uma das reivindicações dos termos de rendição, é preciso deixar claro que o movimento não tinha de fato um caráter abolicionista, havia, sim quem defendia o abolicionismo, mas o movimento em si não tinha em sua pauta promover a abolição da escravidão. David Canabarro contava com um eficiente grupamento de lanceiros negros, o qual foi atacado de surpresa e dizimado pelas tropas imperiais lideradas por Moringue em 14 de novembro de 1844.


Nosso parceiro Robinson Farinazzo lançou esta semana um vídeo muito interessante tratando deste capítulo da história brasileira, o qual traz uma análise bastante pertinente ao assunto e que convido nossos leitores a acompanhar e complementar seu conhecimento sobre a Revolução Farroupilha. Basta clicar: "A mais longa guerra do Brasil: Revolução Farroupilha". São hoje 183 anos desde o inicio do conflito e pouco mais de 173 anos do final dele, o qual representou importantes mudanças a forma que o império lidava com as províncias periféricas, sendo também o cenário que serviu para o reconhecimento de importantes nomes de nossa história, como Luís Alves de Lima e Silva que viria se tornar o "Duque de Caxias", patrono do Exército Brasileiro.



Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio e leste europeu, especialista em assuntos de defesa e segurança

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5 comentários:

  1. Parabéns pela pesquisa e excelente edição !!!

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    1. Obrigado,

      Nós tentamos sempre trazer um conteúdo claro e objetivo.

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  2. Muito bom e como não sabemos nossa própria historia esta revolução guerra pensei que fosse algo trivial besta e depois de ler um texto percebe a importância e nomes dos heróis nacionais
    O pacificador RSS
    Grande abraço amanhã irei ver o vídeo do arte da guerra do cmdt faribazzo e parabéns Ângelo sempre com matérias que ler e reler
    Fé no Brasil

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    1. Favor, corrigir o trecho: " A paz foi alcançada enfim no dia 1 de março de 1845, com a assinatura do Tratado de Poncho Verde, em que os rio-grandenses colocaram fim à revolta, na condição de derrotados", o exército farrapo não foi derrotado, selou um acordo de paz bem generoso, cheio de cedências a fim de acabar con a guerra que durou 10 anos.

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    2. Boa noite,

      Muito obrigado pela participação, seguindo a dica, nós corrigimos o texto.

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