sábado, 14 de novembro de 2015

Terrorismo em Paris: Enfrentamos uma nova cruzada?

Na última noite (13), eu assitia ao noticiário e fiquei perplexo com as notícias que vinham de Paris. Terroristas orquestraram um ataque a múltiplos pontos da capital francesa, um ato de barbárie repudiável.

Tal ataque me fez refletir sobre alguns pontos que tenho observado nos últimos anos, como jornalista, estudioso das relações internacionais e em especial amante dos estudos geopolíticos, notei que viemos nas últimas décadas enfrentando mudanças significativas em relação ao Oriente Médio e mesmo a política interestatal.

Por décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, vivemos focados na bipolarização política, econômica e mesmo de certa forma social, uma vez que todo individuo sofre influencia do meio ao qual vive e as relações deste indivíduo com o Estado Nação, Estado Sócio-Econômico, Identidade de grupo e o mundo externo. Bem seguindo essa linha, o mundo irrompeu uma significativa mudança no inicio da década de 90, quando assistimos a queda da União Soviética e ruiu a estatura bipolar que regia as relações internacionais, devido ao claro fim do poder de influencia do leste europeu e o comunismo. 

Com isso diversos estados tiveram de realizar mudanças em suas posturas, tanto interna quanto externa, isso por si já gerou convulsões que resultariam em conflitos deflagrados internamente em determinados estados, uma vez que se perdia uma identidade comum que de certa forma unificava e gerava uma certa coesão interna, quer seja ela coercitiva pelo poder militar e político, quer por associação aos valores vendidos ao povo por sua liderança. Diante de tais convulsões voltaram a aflorar nas sociedades antes reprimidas pela necessidade da coesão para coexistir no mundo bipolar, a luta interna dos indivíduos para resgatar ou impor identidades que foram anuladas ou reprimidas ao longo de décadas, tendo em vista que todo conflito e guerra travado neste período que chamamos de Guerra Fria, era na verdade o que se convenciona nomear de "guerra de procuração", onde estes conflitos eram apoiados por um dos dois lados que "governavam" o mundo e usavam tais conflitos como forma de demonstrar poder e influência política, militar e econômica.

A quebra dos paradigmas existentes ate então criou um vácuo, e por efeito assistimos ao surgimento da super potencia representada pelos EUA e seguida pelos aliados membros da OTAN. Tal mudança criou um viés para que surgissem intervenções ditas libertárias e defensoras dos direitos humanos por parte dos EUA e seus aliados em diversos pontos do planeta, em especial no Oriente Médio e Norte da África. Onde diversos governos ditatoriais outrora apoiados e aliados dos interesses geopolíticos dos EUA e seus aliados passaram a não interessar a nova postura e politica ditada pelos líderes do novo sistema mundial pós Guerra Fria. 

Assim assistimos atos que criaram revolta ao tentar inserir de forma invasiva o "American Way of Life" em outras culturas, criando assim o estopim para que líderes pseudo-religiosos e outros líderes surgissem em meio a esse vácuo, usando a ação intromissora ocidental na cultura do oriente como meio de unificar determinados grupos em prol de uma "causa" legítima de defesa de suas raízes culturais, políticas e econômicas.

Outro fator que surgiu foi o surgimento de grupos que outrora foram criados e apoiados politica e militarmente pelo ocidente afim de combater a "ameaça comunista" no Oriente Médio, como foi o caso do Talibã e a Al-Qaeda, que se rebelaram contra os seus criadores após estes invadirem seu espaço físico, ameaçando a manutenção do seu "poder" sobre seu povo, uma vez que a americanização do oriente médio resultaria na invasão das ideias que culminariam na criação de um Estado plenamente Laico e dissociado do poder religioso até então vigente.

Tal postura do Ocidente resultou numa especie de "cruzada", onde os líderes religiosos temerosos de perder o poder e influência conquistados, passaram a demonizar o ocidente e tudo que é ligado a ele.  Unindo a isso a velha questão árabe-judaica, com uma forte influência sobre o povo que em determinados califados enfrentavam uma enorme crise financeira em sua população de base, uma vez que o bilionário mercado do petróleo beneficiava uma pequena aristocracia e o clero, facilmente enraizaram o ódio e a conclamar a chamada Jihad  e declarar guerra ao mundo não muçulmano.

Desde então assistimos os atentados de 11 de setembro, que marcaram o inicio de uma nova era na geopolítica, seguindo em uma linha desastrosa pelo governo Bush que em sua "cruzada" contra o terror, acabou por criar mais instabilidade que estabilidade na região.

Tal política criou uma série de efeitos colaterais que atormentam até hoje o ocidente. Um destes foi a manobra para derrubar Saddam Hussein do poder no Iraque, uma medida que feriu os estatutos da ONU e resultou na retirada e morte do ditador. Em minha analise, não era o momento mais propício para uma ação afim de derrubar o governo de Saddam, uma vez que se enfrentava um novo e obscuro inimigo, onde não se travaria uma guerra convencional, algo que Washington ignorou, como resultado surgiu um estado dividido sem uma coesa e firme liderança política e que não estava de fato pronto para verter a democracia da forma a qual foi conduzido. Com isso assistimos um estado dividido que enfrentou uma guerra civil, e que de certa forma fortaleceu a criação do novo inimigo número 1 do Ocidente. o Estado Islâmico.

Ainda assim os EUA e seus aliados continuaram promovendo uma "democratização" do mundo, apoiando grupos de oposição aos ditadores que não lhes interessava manter no poder. Com isso assistimos o levante Líbio e Sírio, que diferente do que muitos experts insistem em defender, foram envolvidos pela "Primavera Árabe", algo que eu discordo plenamente, uma vez que ambos estados sofreram um movimento político de oposição com apoio externo de membros da OTAN afim de colocar no poder um grupo ao qual possua influencia afim de conquistar seus interesses principalmente econômicos e energéticos ameaçados pela não adesão de seus planos pelos então líderes destes estados e a influencia nas politicas estatais destes países por novos atores que surgiam em uma clara emersão de um sistema multipolar com a perda de folego por parte de hegemônico EUA e a ascensão de nações como Rússia, China e Índia no cenário geopolítico regional e mundial tanto no campo político como econômico.

Tal postura se manteve, mesmo após a perda de força e a crise econômica que se abateu sobre a economia dos EUA e Europa, sendo assim a propagada "guerra ao terror" perdeu seu foco, perdeu sua força política e principalmente se tornou dispendiosa demais, devido aos custos com equipamentos e a ocupação de territórios. Essa redução foi o que necessitavam os extremistas islâmicos, que aproveitaram a falta de fôlego e a oposição interna no ocidente a manutenção das ocupações e ao envio de tropas a outros países, para criar o novo e mais potencial inimigo do ocidente, tendo sido assim criado o Estado Islâmico, que foi a união de diversos grupos terroristas em prol de um objetivo comum, atacar o ocidente e sua cultura envolto como papel de parede a questão de manutenir o poder religioso e a cultura do Islã.

Tal ameaça terrorista conseguiu filiar milhares de adeptos no mundo inteiro, se tornando um verdadeiro pesadelo, assim se alastrando como uma epidemia pelos oriente médio tomando grandes territórios e tentando de forma organizada e militar depor governos no Iraque e Síria  afim de instalar um governo "teocrático" extremista islâmico, onde em diversas cidades que se apossaram destruíram itens importantes da cultura mundial, como nos museus no Iraque, ou o parque arqueológico em Palmira.  

Nos Últimos anos os EUA foram negligentes ao reconhecer, classificar e atacar eficazmente essa ameaça, permitindo que a mesma tomasse proporções gigantescas.

Na Síria, o EI conseguiu se infiltrar através dos grupos separatistas apoiados pelo ocidente, e após isso proclamaram suas atividades no país. Diante da ineficácia das ações da OTAN para conter o avanço desta ameaça que estava a ponto de tomar o poder na Síria, o governo russo recebeu convite do governo legitimo da Síria, e em acordo com o determinado pelos tratados e acordos da ONU iniciou uma eficaz campanha de apoio aéreo aproximado ao governo Sírio, resultando em um grande retrocesso no avanço do EI no país, onde neutralizou boa parte do poder da organização terrorista através de ataques precisos de bombardeio e mísseis de cruzeiro. 

Diante da ação russa, o EI retrocedeu e se viu pela primeira vez acoado em sua capacidade operativa no teatro Sírio, tentando recuar suas forças ao território iraquiano, onde ainda se estuda a intervenção russa em apoio ao combate ao Terrorismo do EI. Os EUA e a OTAN diante desta importante demonstração de projeção de força das tropas russas, retomou os  ataques contra alvos do EI, onde recentemente ataques levados a cabo pelas forças combinadas da França e EUA resultaram na morte de importantes membros da organização terrorista. 

Assim, como forma de represália e usando da fragilidade dos estados Europeus devido ao grande fluxo de refugiados oriundos da Síria e Líbia, vitimas da omissão e mesmo interesses escusos da OTAN, a rede terrorista infiltrou membros e orquestrou de dentro da própria França ataques, como o que ocorreu ao Chalie Hebdo no inicio do ano, seguido pelo ataque a refinaria no meio do ano e agora ao mais grave ataque terrorista realizado em solo francês, que resultou em 140 mortes e centenas de feridos.

Diante de toda essa analise, eu vejo que estamos diante de uma nova "cruzada", mas desta vez não de cristãos contra sarracenos, mas da cultura ocidental e a segurança de sua civilização contra o extremismo e a barbárie dos radicais islâmicos. 

Não posso predizer o desfecho desta nova "cruzada", mas diante de toda a modernidade e a facilidade no transito de pessoas e informações e a dificuldade de identificação das ameaças representadas pelo terrorismo transnacional e seu radicalismo irracional, só posso dar a certeza de que iremos assistir á um dos períodos mais sangrentos da atualidade, onde só haverá real efeito o combate maciço ao grupo terrorista em toda sua extensão, pois se tornou como  a mitológica Hidra de Lerna, demandando agora uma ação coordenada de esforço internacional com fim a destruir a base ideológica, econômica e politica de tal grupo.


Por Angelo D. Nicolaci  - Jornalista e editor do GBN GeoPolítica Brasil, estudante de Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio, Rússia e BRICS. Amante dos estudos estratégicos,


GBN GeoPolítica Brasil

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