domingo, 22 de novembro de 2015

Entendendo o conflito na Síria e sua importância estratégica

Para compreendermos um pouco sobre o atual conflito na Síria e sua importância ao mundo moderno, quer seja em relação a atuação de grupos terroristas como o Estado Islâmico que tenta dominar a Síria e tornou o país em um de seus bastiões e recentemente derrubou um avião comercial russo e atacou Paris, seguindo com ameaças ao Ocidente vociferando retaliar os ataques russos e da aliança Euro-Americana à suas posições no território sírio, ou pela atuação intervencionista ocidental e Russa no Estado Árabe, é preciso entender a história da região.

Diante disso o GBN resolveu através deste artigo expor os pontos históricos marcantes sobre a região e uma analise direta e resumida, afim de que a partir do conhecimento histórico, possamos entender o presente e traçar um estudo das possibilidades futuras envolvidas no conflito que se arrasta por anos.

Um pouco da história da região:

A grande parte da população Síria vive na costa do mediterrâneo, sendo a maior parte do território sírio um enorme deserto, como o restante da península árabe. Vale lembrar que a península Árabe detém um terço das reservas de petróleo e gás natural do mundo. Estando grande parte dessa reserva sob o solo da Arábia Saudita. Assim para se escoar essa produção de petróleo e gás do oriente médio e enviá-lo a Europa é preciso navegar entorno de toda a península até alcançar o Canal de Suez e então o Mar Mediterrâneo, lembrando que o trafego pelo canal é controlado e possui taxas para sua utilização.

Mas há um caminho mais curto e barato para levar o petróleo árabe ate a Europa, seria escoar essa produção em uma linha reta. Através de oleodutos que levariam ate a Síria, onde este petróleo e gás podem ser enviados a Europa.

Aquele que controla este oleoduto pode controlar o fornecimento deste importante insumo á Europa, sendo assim o governo desta região tem o poder de barganha no fornecimento de petróleo através desta região, em resumo se você não paga, não recebe petróleo e gás.

Esta região é fantástica, sendo um dos três lugares que deram origem a civilização no planeta. Com uma riqueza histórica sem igual, onde existiu a mesopotâmia, o Sumer que é menos conhecido, mas o principal que deu inicia a tudo e na outra extremidade temos o Egito. Tendo sido esta região o grande tesouro disputado por diversos impérios ao longo da história da humanidade.

 A Síria sempre foi um ponto de contato entre o oriente e o ocidente, permitindo a Ásia uma saída para o mediterrâneo.  Estes fatores podem ter proporcionado que a região tenha se tornado o berço das principais religiões monoteístas, seguindo uma ordem cronológica, o Judaísmo, Cristianismo e o Islã. O Islã sendo o último a surgir acolhe muito das tradições e preceitos dos outros dois.  Assim podemos notar que Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus Cristo são considerados alguns dos profetas islâmicos.

Bom voltando a nosso foco, como essa é uma região exótica e importante ligação entre o ocidente e o oriente, todos tem interesse em controlá-la. Tendo a região sido importante parte dos grandes impérios da antiguidade, como os Persas, Gregos e Romanos.

O império romano termina dividido em dois, a porção oriental sob influência da religião monoteísta que consegue se arraigar na cultura da região, o Islã.  Construiu seu próprio império independe do ocidente, Assim chegamos as Cruzadas, que foram uma tentativa dos cristãos europeus de recuperar esta zona importante. Por último chegam à região os Turcos, que curiosamente não procedem da Turquia, mas sim da Ásia, oriundos da derrota que sofrera Genghis Khan. Estes conquistam a região e fundam o Império Otomano.

O Império Otomano se mantém no controle da região ate a Primeira Guerra Mundial, durando cerca de 600 anos o domínio deste império na região, que termina com o fim da primeira guerra mundial, quando surgem pequenos países onde estava estabelecido o antigo Império Otomano, e pela primeira vez a Síria aparece no mapa da região.

O que leva a criação destes países?

Em 1910 foi estabelecido um acordo secreto entre a França e a Grã Bretanha chamado de acordo “Sykes-Picot”, pois os franceses e os ingleses não tinham como derrotar o Império Otomano, isso só seria possível se tivessem apoio interno dos povos que viviam na região sob controle Otomano, em sua maioria árabes. Lembrem de uma coisa os árabes são um povo, não uma religião, isto é, um árabe poderia ser mulçumano ou cristão, e antes do islã e do cristianismo há relatos de tribos árabes com tradições judaicas.

Como ganharam o apoio desses povos? Eles prometeram a eles a grande Arábia, um país só para eles, o único problema é que tudo isso era uma farsa, para os árabes não foi dado esse único país que tinha sido a eles prometido, em vez disso os franceses e britânicos lotearam a região, criando diversos países pequenos, esses países não eram obviamente realmente países, mas áreas sob controle dessas duas nações com governantes estabelecidos por eles. Durante esse período fizeram o que quiseram com a região, lembre-se que a região é uma importante fonte de petróleo, e embora a Síria não possua grandes reservas, A Síria tem uma localização estratégica com fácil acesso ao Mediterrâneo, dando acesso direto aos países europeus.

A França ficou com a Síria, e deu ela a empresas estrangeiras que exploravam o petróleo na região, isso se manteve durante curto período, pois irrompeu a Segunda Guerra Mundial e ao seu fim mais uma vez tudo se alterou na região e os europeus abandonaram a região, mas no caso sírio os europeus foram expulsos pelo povo local.

Antes de sair da região os europeus ainda criaram um novo estado, Israel. Não é o ponto chave de nosso artigo, mas vale falar sobre a questão para se entender um pouco mais sobre a região. Essa decisão européia foi muito controversa, resultando no não reconhecimento deste estado por seus vizinhos árabes.  A prova disso é que logo que os britânicos se retiraram da região, Israel foi atacado por uma coalizão dos estados árabes.  A partir dai a região passou a ser uma grande bomba relógio e foco de grande tensão e conflitos, como o palestino que iremos abordar em outro artigo.

Voltando o foco à Síria, o país não esta estabilizado politicamente, enfrentou constantes golpes de estado, e nesse mesmo período surgiu na síria uma ideologia que toma o controle e se espalha por toda península árabe, o Baaz. Essa ideologia mistura o antigo sonho de uma nação árabe unificada, com idéias socialistas e um ponto muito importante, tem uma postura política laica.

A Síria faz então uma aliança com o Egito, um país com o qual ele não faz fronteiras, seguindo a postura de muitos países que também seguiram nesta mesma direção.  O povo da região ainda nutria o desejo de possuir um estado único, como havia sido prometido anteriormente pelos europeus. Durante esse período o Egito convence seus aliados a nacionalizar o petróleo, ferindo os interesses norte americanos e europeus.

Na Síria Al-Assad, pai do atual presidente do país Bashar Al- Assad torna-se líder do Partido Baaz, O Iraque também segue no mesmo rumo e adere ao Baaz, onde começa a ganhar força Saddam Hussein, porém as diferenças entre os dois países dividem os partidos Baaz de outros países em dois blocos, pró-síria ou pró-Iraque.

Com o mundo agora se dividindo em dois com a Guerra Fria, os países se dividem entre pró-EUA ou pró-União Soviética.  Este período da história é muito turbulento na península árabe, marcada por diversos conflitos envolvendo estados árabes e Israel. Durante esses conflitos, Israel toma importantes territórios de seus vizinhos e invade o Líbano, com isso surge uma oposição islâmica ao regime Baaz de Al-Assad. A Irmandade Mulçumana.

Voltando um pouco atrás, lembre que a maioria árabe era mulçumana, e há vertentes entre os mulçumanos, onde a maioria segue duas vertentes principais, a vertente sunita ou xiita. No caso sírio, apesar de ser um estado laico, separado politicamente da religião, Assad, os príncipes e líderes militares eram xiitas, vertente que representa menos de 13% da população síria, enquanto cerca de 70% da população é de mulçumanos sunitas e cerca de 10% de cristãos. O fato importante nesses dados é que os xiitas embora sendo uma minoria, controlam o governo e o exercito do país, o que incomoda a população sunita. Este sentimento é explorado pela Irmandade Mulçumana, onde sunitas radicais islâmicos pegam em armas na cidade de Hama e iniciam um levante contra o governo. Assad acaba com a revolta após um conflito sangrento que resultou na morte de milhares de civis e resulta em muitas prisões.  

No ano de 2000, Assad morre e seu filho Bashar Al-Assad assume o poder. Diante de muita pressão, Bashar Al-Assad tenta promover uma política de conciliação a fim de unificar a nação, com isso muitos prisioneiros políticos são libertos, o acesso a internet no país é liberado e assim surge a esperança de mudanças mais profundas no estado Sírio. A isso se sucede um período de debate político, onde diante de entraves políticos surge à oposição, com ela retorna a Irmandade Mulçumana, os anos que se seguem criam um desgaste político e a oposição é detida.

Do outro lado do globo, a política externa adotada por George W. Bush após os ataques de 11 de setembro inclui a Síria no que chamam de “Eixo do Mal”, e isso isola a Síria, pois toda e qualquer negociação com a síria é suspensa pelos EUA e seus aliados.

Os curdos, um povo distribuído por vários países da região, especialmente entre Síria, Iraque e Turquia, começam a protestar também contra o governo sírio, resultando em repressão e mortes.

Síria antes e depois de 2011
Em 2011 inicia a “Primavera Árabe”, onde as populações dos países árabes iniciam uma série de manifestações que pedem por mais democracia, e o movimento se espalha por todo Oriente Médio e Norte da África. Como se nota o mundo árabe apesar de estar dividido em diversos países ainda alimentam uma tendência uníssona.

Quando o movimento da primavera árabe chega à Síria, Bashar Al-Assad usa suas forças militares para reprimir as manifestações, resultando em milhares de mortos, inicia-se uma escalada na violência, agravando o conflito interno irrompendo uma guerra civil. Essa escalada resultou no surgimento de diversas facções que lutam para tomar o poder nos pais.

Ao analisar essa questão, devemos lembrar que tudo esta divido entre uma minoria xiita e uma maioria sunita, vale destacar que há também laicos xiitas, o governo de Assad, por exemplo, que controla as regiões de maioria xiita, e vem enfrentado o restante do país de maioria sunita, embora haja também sunitas laicos, representados pelo exército livre sírio, FSA na sigla em inglês, que junto com a Frente islâmica que é religiosa e mais de setenta grupos menores formam uma coalizão que a mídia ocidental nomeia simplesmente de “Oposição”.  Também há a presença de sunitas e islamitas, mas radicais, como a Al-Nusra, chamada de Al-Qaeda na Síria, porque é basicamente um braço da Al-Qaeda atuante na Síria, outros radicais islâmicos presentes no território sírio são o Estado Islâmico, ou ISIS que surgem de uma dissidência da Al-Qaeda no Iraque e controla a maior parte da síria e norte do Iraque, famosos pela violência e atrocidades, seus atos impactam pela brutalidade e violência, é um verdadeiro estado que se espalha ao longo de alguns pontos da Ásia, África e Oriente Médio, promovendo ataques terroristas em diversos pontos do planeta e possuindo milhares de adeptos a sua “causa”. Ainda dentro do conflito civil sírio encontramos os curdos, que foram severamente reprimidos pelo governo sírio da mesma forma que foram também pelos governos próximos onde se encontram como Turquia e Iraque, e que controlam militarmente uma zona próxima a fronteira síria com esses países.

Hoje o governo de Bashar Al-Assad encontra forças para enfrentar o avanço dos grupos radicais islâmicos e a oposição no país com o apoio aéreo aproximado provido pelas forças russas, que desde 30 de setembro deste ano iniciou uma campanha de bombardeios contra posições do Estado Islâmico na Síria a pedido do governo legitimo do país, recebendo também apoio logístico, suprimentos e meios técnicos providos por seus aliados Irã e China.  Já na outra ponta, a dita “Oposição” vem obtendo apoio externo em sua luta contra o governo sírio dos EUA, França, Reino Unido, Turquia e Arábia Saudita.



Finalizando esta é uma região estratégica de extrema importância não só política como econômica devido a sua localização privilegiada com acesso á Europa, sendo a Síria uma importante peça no tabuleiro geopolítico da região. Sendo parte da ambição histórica de grandes impérios, tendo estado sempre sob domínio e influência de interesses externos aos seus. Lembremos que há 100 anos a França e a Grã-Bretanha eram importantes e poderosos impérios, há pouco mais de 100 anos era o Império Otomano e sempre foi assim, império após império. A Síria só se tornou realmente Síria e governa a si mesma a pouco mais de 50 anos, além disso, nunca definiu suas fronteiras, estas foram impostas pelo imperialismo Anglo-francês do inicio do século XX, da mesma forma que ocorreu com outros países da região, onde os europeus lotearam a península árabe sem se preocupar em considerar sua população e grupos. Diante disto vemos a criação de estados instáveis suscetíveis a guerras civis, o que não surpreende que neste contexto surjam atores que se alimentam do desespero, do sentimento de opressão sofrido pelos sunitas e a visão do ocidente como um inimigo invasor, o Estado Islâmico se aproveita dessa identidade árabe e o sonho de uma unidade árabe com o fanatismo religioso, deturpando em parte a mensagem do Islã e moldando a idéia de uma atuação direcionada a “libertação” aos seus interesses políticos e econômicos, promovendo uma falsa identidade que leva milhares a seguir o radicalismo e extremismo que leva às barbáries como a que assistimos em Paris no dia 13 de novembro, com ataques que resultaram em mais de 120 inocentes mortos e 340 feridos na capital francesa.

Por Angelo D. Nicolaci  - Jornalista e editor do GBN GeoPolítica Brasil, estudante de Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio, Rússia e BRICS. Amante dos estudos estratégicos,


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Nota GBN: Em breve iremos publicar artigo especial sobre a onda de refugiados que invadem a Europa, de onde eles vem, do que eles fogem, quais ameaças esse fluxo pode representar a segurança e economia na Europa?

Em breve aqui no GBN GeoPolítica Brasil

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