domingo, 29 de novembro de 2015

Beltrame rebate críticas e relembra ocupação do Alemão, 5 anos depois

No dia em que se completam cinco anos da ocupação dos conjuntos de favelas do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio, o secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, fez um balanço da presença das forças policiais nos últimos anos e relembrou aquela manhã de domingo de 2010, em entrevista exclusiva ao G1.

Titular da pasta desde 2007, o policial federal considera que a ocupação e a pacificação foram fundamentais, mas reconhece que os traficantes armados "se adaptaram" ao patrulhamento das oito unidades de polícia pacificadora existentes no local.

O secretário, no entanto, ressalta que a pacificação só terá êxito total quando as diferenças de ambiente social forem diminuídas e a questão do menor analisada com cuidado. Entre 2014 e 2015, os tiroteios voltaram a ser frequentes e policiais e inocentes foram mortos, incluindo o capitão da UPP Nova Brasília, além dos moradores Eduardo de Jesus, de 10 anos, e Elizabeth de Moura, de 40 anos.
Beltrame ainda descarta uma "reocupação" do Alemão e da Penha, alegando que as UPPs na Maré, as Olimpíadas do Rio e a ocupação de favelas em Costa Barros, no Subúrbio, são as prioridades para secretaria em 2016. Confira a entrevista abaixo:

G1 – O que representou aquela semana entre 21 a 28 de novembro de 2010 na sua trajetória à frente da secretaria?

Aquela ocupação foi um passo fundamental, e teve um impacto inicial muito positivo. Naquela ocasião, policiais foram metralhados em vários lugares da cidade, queimaram ônibus com pessoas vivas dentro. Houve um dia em que eu dormi aqui [na sede da secretaria, no Centro do Rio] por causa disso. Durante aquela semana, estudamos e percebemos que vários roubos, assaltos e assassinatos possuíam relação com o Alemão e a Penha. As armas eram de lá, ou a munição era de lá, ou eram as ordens de traficantes de lá. A Polícia Militar não fazia operações que chegassem ao núcleo do Alemão desde 2004, devido ao grande número de bandidos naquela área. Esses dois complexos eram a Agência Reguladora da droga e das armas aqui no Rio. Quando resolvemos mandar para presídios fora do Rio, alguns líderes do tráfico que comandavam tudo de dentro [de outros presídios], houve essa reação. Aí, resolvemos entrar no Alemão e na Penha, e pedimos o auxílio das Forças Armadas para levarmos nossas tropas a locais específicos em carros blindados, e entramos. Os criminosos jamais acharam que entraríamos.
 

Nesse dia, houve aquelas imagens históricas dos criminosos fugindo pelo Inferno Verde [ligação no alto do morro, entre os conjuntos de favelas do Alemão e da Penha]. Fui muito criticado por não atirar neles. Mas se eu estou com uma proposta de ocupação pacífica, eu acho que no momento que ocupo uma área e cai uma gota de sangue, eu descaracterizo isso. Eu estava com helicópteros baseados no Batalhão de Choque, mas resolvemos não utilizar. Não me arrependo de não ter atirado.
 

Passaram-se cinco anos. Foi um passo importante, mas enquanto não resolvermos essas diferenças de ambiente social, com a entrada do Estado sem ser somente com a polícia, vai ficar muito difícil de obter uma melhoria significativa com a segurança pública.


G1 – Após um período mais tranquilo entre 2012 e 2013, os crimes voltaram a acontecer na região, com tiroteios frequentes e mortes de policiais e de moradores inocentes. Quanto disso se deve a erros da secretaria de Segurança e o que está sendo feito para a melhora desse quadro?

Nós também temos essa leitura. Com a chegada do Coronel Pinheiro Neto ao Comando da PM, criamos um curso de capacitação para os policiais de UPP no Comando de Operações Especiais, onde eles são treinados mais para se proteger do que reagir. Quando houver a necessidade de reagir, que sejam chamadas as forças especiais. Estamos construindo também bases mais sólidas, de alvenaria, depois dos ataques a contâineres, com parte do dinheiro que conseguimos com a Alerj [em 2014, o estado recebeu R$ 70 milhões para investir em segurança], sendo R$ 41 milhões para as UPPs. Depois deste treinamento, pelo qual já passaram 1.165 policiais, tivemos apenas duas baixas.

Os criminosos estão atuando em áreas muito grandes, muito capilarizadas e com organização urbanística inexistente. Eles vinham se preparando desde 2013 para voltar ao Alemão e à Penha, se adaptando ao patrulhamento nas UPPs e lançando os menores de idade ao crime, já que eles em geral não permanecem apreendidos. Eles [os menores] foram empoderados pelo tráfico, com armas, autonomia para recolher dinheiro e poder dentro da comunidade. Não há pai, mãe, não há escola, e mecanismos do Estado e da prefeitura que concorram com isso.

G1 – Que ganhos o Alemão teve após a pacificação, na sua avaliação?

Tivemos ganhos inacreditáveis, inclusive com as críticas que recebemos de vários grupos, movimentos sociais e ONGs. Eles hoje vão para a rua, cobram, mas esquecem que quem deu visibilidade a eles foi a polícia. O que eles eram antes da pacificação? O Alemão não fez passeata quando mataram o jornalista Tim Lopes. Essas pessoas são muito jovens, não sofreram com o tráfico. Mas eu acho ótimo que seja assim, é uma vitória, que possam fazer o que nunca puderam fazer. Digo a eles o mesmo que digo para a prefeitura, para o governo do estado.

Sabemos, portanto, que não foi um processo superpositivo, tendo em vista as mortes que ocorreram principalmente na Vila Cruzeiro, Parque Proletário e Nova Brasília. Mas as pessoas esquecem que na UPP Fé e Sereno está tudo bem, na UPP Adeus/Baiana está tudo bem. A UPP não é muito mais do que isso aí, temos condições de nos mantermos ali. Mas o ambiente social tem que ser mudado, e a questão do menor analisada com cuidado.

G1 – O Governador Pezão anunciou em abril que haveria uma "reocupação do Alemão". Há um planejamento para isso ocorrer?

Temos que fazer a Maré e depois parar para fazer as Olimpíadas, onde teremos mais de 65 mil policiais, e outros 15 mil aquartelados. Para as Olimpíadas, estamos prontos. Depois disso, vamos fazer a ocupação dos complexos do Chapadão, Pedreira e Costa Barros, mas não temos contingente para isso. Em dezembro devemos ter mais 1,2 mil policiais se formando.Temos planos de formar policiais no interior a partir do ano que vem, mas a princípio não vamos reforçar outras áreas no ano que vem e nem criar novas UPPs até as Olimpíadas.

G1 – A morte do menino Eduardo teve muita polêmica após o inquérito da Divisão de Homicídios que não indiciou o policial pelo disparo. O Ministério Público, no entanto, denunciou o PM e a Justiça aceitou a denúncia. O chefe de Polícia Civil se disse "chocado" com a conclusão da Divisão de Homicídios. O senhor pensa que o não-indiciamento caracterizaria impunidade?

Temos que analisar pelo lado humano e pelo lado técnico. Sou pai de três filhos, não gostaria de receber essa notícia e de que não vai acontecer nada com quem participou. Isso nos causa estranheza e dor. Mas não posso deixar de dizer que esta é uma figura jurídica possível, e temos que entender o que os delegados fizeram. Eu não dei nenhum telefonema e nem vou dar para mudar uma investigação, seja pressionado por quem for. Mas como pai, fico dolorido com isso, e concordo com o chefe de Polícia Civil.

Fonte: G1 Notícias

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