segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

TERREMOTO NO HAITI - "A coragem é a primeira das qualidades humanas, porque é a qualidade que garante as demais."*

Somos administradores do caos, os Batalhões de Paz Brasileiros no Haiti, eram preparados para um enorme fluxograma de situações, mas cerca de 300 mil mortos em um minuto e meio, em Porto Príncipe, não estava nos planejamentos. No meu primeiro dia de missão, como Oficial de Estado-Maior de Assuntos Civis (G-9), fiquei soterrado no QG da ONU em 12 de janeiro de 2010, onde mais de 130 almas desencarnaram e apenas 5 não estavam no manifesto, eu sou um deles.

Vi a morte chegar, pedi a Deus para não me acovardar, para cuidar da minha Família e agradeci a abundante existência, assim como faço até hoje. Lembro do meu Adjunto, Major Guimarães, correr à frente com a minha mochila e ser soterrado; ouvi o último suspiro de várias pessoas na cápsula de sobrevivência; tirei a corda da bandeira da ONU e, com a ajuda do Coronel Kersul, desescalei o prédio tombado à procura de sobreviventes. Embaixo, escutei o Tenente-Coronel Alexandre Santos pedindo socorro; entrei num túnel à sua procura e outros tremores ocorreram, foram quase 30 em 12 horas, período que lá fiquei. Falei pra ele: vou buscar ajuda! A Companhia da Bolívia estava chegando no local, os guiei até lá e com as mãos, depois de quase 6 horas, conseguimos retirá-lo numa maca.

Carreguei pessoas que morreram nos meus braços ao chegarem nas ambulâncias e em carros na MINUSTAH. Vi cenas surreais...Continuei procurando pessoas na estrutura, identifiquei Jude Brice, um Agrônomo haitiano formado no Brasil. Ouvi batidas na laje e respondi, 12 horas depois ele foi salvo.

O Coronel Soares, hoje General, então Subcomandante do BRABATT, ao ouvir o meu relato pelo rádio da viatura, pois os celulares não funcionavam, mandou me resgatar, uma das suas muitas decisões de líder naquele momento. Ele também me autorizou a voltar 48 horas depois para resgatar os corpos dos Irmãos tombados.

De G9, junto com a minha Equipe – Capitão de Fragata Marcio, Tenente-Coronel Spangenbeg, Major da Bolívia Adriazolla, Subtenentes Casemiro e Neves, e Sargentos Aijalon e Airton; fomos elevados às responsabilidades de Ajuda Humanitária. Coordenamos e participamos da distribuição de 10 mil toneladas de materiais, em 7 meses; auxiliamos mais de 300 instituições; produzimos projetos para ajudar aquele povo: reforma de escola, criação de praça poliesportiva, estruturação de colônia de pescadores na Ilha de La Gonave, limpeza dos canais e recuperação do meio ambiente. Atuamos nos locais dos mais necessitados e onde a tropa operava para pacificar.

Como conseguimos tudo isso? Ao projetar o Estado Brasileiro, nós militares o fazemos com VALORES, isto nos confere o lastro moral para a luta. Temos valores, o Exército Brasileiro tem valores: Patriotismo, Civismo, Fé na Missão, Amor à Profissão, Espírito de Corpo e Aprimoramento Técnico-Profissional. A Instituição é maior que seus homens e é perpétua! Desde 2010, ministrei, no Brasil e no exterior, palestras sobre a importância dos valores em situações de crise. Emocionante observar públicos tão diferentes com o mesmo resultado de estímulo emocional. Fazer o bem faz bem e contagia!  

Nestes 16 anos do Terremoto no Haiti, gostaria de reverenciar a memória da Doutora Zilda Arns, do Embaixador Luiz Carlos da Costa, do Tenente PMDF Cleiton e dos Heróis do Exército Brasileiro, responsáveis por manter um ambiente seguro e estável no Haiti e projetar o Brasil no mundo: Coronéis Emílio, Zanin e Cysneiros; os Majores Adolfo e Guimarães; o Tenente Bruno; o Subtenente Raniel Camargos; os Sargentos Souza Lima, Davi e Carvalho; os Cabos Seraphin, Pedrotti e Arí; e os Soldados Felipe, Anacleto, Detimermani, da Silva e Kleber. Solicito, um minuto de silêncio...

Foi uma honra estar em momento tão difícil no Haiti e cumprir a minha missão de Brasileiro!


Coronel Veterano do Exército Brasileiro Adriano AZEVEDO, 12 de janeiro de 2026.


Este testemunho foi escrito pelo Coronel Adriano de Souza Azevedo, veterano do Exército Brasileiro, um dos nossos heróis nacionais que serviu no Haiti durante a MINUSTAH, exatamente no período mais dramático e desafiador da missão brasileira sob a égide da ONU. Suas palavras não são apenas um relato pessoal, mas um registro histórico vivo do heroísmo, da coragem, da liderança e dos valores que norteiam as Forças Armadas do Brasil. Elas traduzem o espírito de sacrifício de homens e mulheres que, mesmo diante do caos absoluto instaurado naquele fatídico 12 de janeiro de 2010, escolheram salvar vidas, cumprir a missão e honrar a Pátria. Esta é também uma homenagem solene a todos os que tombaram naquele dia, aos que sobreviveram carregando marcas eternas na alma, e a cada militar, policial, civil e brasileiro que esteve no Haiti, projetando ao mundo o que o Brasil tem de mais nobre: humanidade, coragem, solidariedade e compromisso com a paz.



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*Winston Churchill


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