A assinatura do acordo entre a Direction Générale de l’Armement (DGA) e a MBDA para o desenvolvimento e a produção do One-Way Effector marca um movimento relevante na adaptação das forças europeias às lições extraídas dos conflitos recentes, em especial da guerra na Ucrânia. Trata-se de um UAV kamikaze de longo alcance, propulsionado por turbojato, concebido desde a origem como uma arma de saturação de baixo custo, com prioridade absoluta para simplicidade, escalabilidade e produção em massa.
O programa sinaliza uma inflexão conceitual importante. Após décadas de foco quase exclusivo em munições de alta precisão, alto custo unitário e forte dependência de sensores sofisticados, a indústria de defesa francesa passa a incorporar, de forma explícita, a lógica da exaustão do adversário por volume, densidade e persistência. O One-Way Effector não busca superioridade tecnológica individual, mas sim superioridade sistêmica por meio da quantidade.
O desenho do sistema apresenta semelhanças evidentes com a família de UAVs kamikaze Geran empregada pela Rússia, em especial o Geran-3. Essa convergência não é casual. O conflito ucraniano demonstrou que plataformas relativamente simples, quando empregadas em grande número, são capazes de saturar defesas aéreas sofisticadas, impor custos desproporcionais ao defensor e forçar o consumo acelerado de interceptadores caros. O projeto francês assume essa realidade sem constrangimentos doutrinários.
A prioridade dada à simplicidade estrutural e à facilidade de produção reflete uma mudança clara de mentalidade. O One-Way Effector abdica de sensores avançados, enlaces complexos e elevada capacidade de sobrevivência individual. Em vez disso, aposta em velocidade, alcance e carga útil suficiente para causar dano relevante. O conceito aproxima-se mais do domínio dos mísseis de cruzeiro do que das munições vagantes tradicionais, ainda que com desempenho inferior e menor resiliência a sistemas de defesa aérea, aspectos considerados secundários dentro da lógica de saturação.
Esse tipo de sistema redefine a relação custo-benefício no campo de batalha. A perda de unidades individuais deixa de ser um problema operacional crítico quando o efeito desejado é a sobrecarga dos sensores, dos interceptadores e do processo decisório do adversário. O valor estratégico passa a estar no efeito coletivo do enxame, não na sobrevivência de cada vetor.
Paralelamente ao One-Way Effector, a MBDA avança no desenvolvimento do míssil de cruzeiro CROSSBOW, que ocupa um espaço intermediário entre soluções de saturação e mísseis de cruzeiro de alta sofisticação, como o SCALP EG. O CROSSBOW busca manter alcance e carga útil comparáveis aos modelos tradicionais, mas com maior simplicidade logística, facilidade de transporte e integração com plataformas diversas.
Essa abordagem implica limitações, como a capacidade de apenas um míssil por lançador, em contraste com sistemas terrestres dedicados que operam múltiplos vetores simultaneamente. No entanto, essa restrição é compensada pela maior flexibilidade de emprego, pela possibilidade de dispersão dos lançadores e pela viabilidade de produção em maior escala. Trata-se de uma solução pensada para conflitos de alta intensidade e longa duração, nos quais a reposição rápida de meios torna-se tão importante quanto a performance individual.
O movimento francês reflete uma tendência mais ampla no pensamento militar contemporâneo. A guerra na Ucrânia expôs os limites de arsenais reduzidos, caros e excessivamente sofisticados frente a um ambiente de combate marcado por desgaste, consumo acelerado de munições e necessidade de presença persistente. A capacidade industrial, a logística e a produção em massa voltam a ocupar posição central na equação do poder militar.
Ao apostar simultaneamente em sistemas de saturação de baixo custo e em mísseis de cruzeiro simplificados, a França busca construir uma arquitetura de capacidades mais resiliente, capaz de operar em diferentes níveis de intensidade e de absorver perdas sem comprometer a continuidade das operações. Não se trata de substituir sistemas de alta precisão, mas de complementá-los com vetores adequados a um cenário onde quantidade, repetição e persistência voltaram a ser decisivas.
O acordo entre a DGA e a MBDA, portanto, vai além de um novo programa específico. Ele sinaliza uma reorientação estratégica: a compreensão de que, em conflitos modernos, a superioridade não será definida apenas por tecnologia de ponta, mas pela capacidade de produzir, empregar e sustentar meios eficazes em larga escala. Em um ambiente cada vez mais marcado por saturação, atrito e desgaste prolongado, simplicidade e volume voltam a ser atributos estratégicos centrais.
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