O Exército Brasileiro entrou na fase decisiva do processo que pode resultar na aquisição do sistema antiaéreo de média altura e médio alcance EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), desenvolvido pela MBDA. A negociação, conduzida no formato governo a governo, ganhou ritmo nas últimas semanas e já envolve a discussão de termos técnicos, logísticos e financeiros, indicando que a decisão deixou o campo dos estudos preliminares e avançou para um estágio mais concreto.
A possível incorporação do EMADS representa um movimento estratégico relevante, especialmente diante das limitações históricas da defesa antiaérea terrestre brasileira. Atualmente, o país dispõe majoritariamente de sistemas de curto alcance, adequados à proteção pontual de tropas e instalações específicas, mas insuficientes para lidar com ameaças modernas que operam em médias altitudes e a maiores distâncias, como aeronaves de alta performance, mísseis de cruzeiro e veículos aéreos não tripulados de longo alcance.
Essa lacuna operacional tornou-se ainda mais evidente nos últimos anos, à medida que conflitos recentes ao redor do mundo demonstraram o papel central da defesa aérea na proteção de infraestruturas críticas e na garantia da liberdade de ação das forças terrestres. Nesse contexto, o Exército Brasileiro passou a buscar uma solução capaz de elevar significativamente seu patamar tecnológico e operacional.
O EMADS surge como a alternativa que melhor atende a esses requisitos. Trata-se de um sistema modular, móvel e altamente interoperável, baseado nos mísseis da família CAMM e CAMM-ER, capazes de engajar múltiplos tipos de alvos com cobertura de 360 graus. Seu conceito de lançamento vertical, aliado a sensores modernos e sistemas avançados de comando e controle, permite rápida reação e integração com outras camadas da defesa aérea.
Um dos fatores que pesaram na escolha da solução italiana foi a sinergia com capacidades já existentes nas Forças Armadas brasileiras. A Marinha do Brasil, por exemplo, adotou os mísseis CAMM nas fragatas da Classe Tamandaré, o que abre caminho para ganhos logísticos, padronização de treinamentos e maior interoperabilidade entre as forças, reduzindo custos ao longo do ciclo de vida do sistema.
A formalização dessa preferência ocorreu com a publicação.no início de 2026 da diretriz do Estado-Maior do Exército, que estabelece os parâmetros para a obtenção de um sistema de artilharia antiaérea de média altura e médio alcance. O documento define não apenas o EMADS como referência principal do programa, mas também delineia etapas de implantação, capacitação de pessoal, infraestrutura de apoio e perspectivas de modernização futura.
Antes disso, o Brasil chegou a considerar outras alternativas, como o sistema indiano Akash. No entanto, divergências relacionadas à versão tecnológica oferecida e à capacidade de atender aos requisitos operacionais brasileiros levaram ao encerramento das negociações, abrindo espaço para uma solução europeia considerada mais alinhada às necessidades da Força Terrestre.
As negociações com a Itália avançam no momento em que o orçamento de defesa passa a refletir, ainda que de forma gradual, a compreensão da importância da defesa aérea. Estimativas indicam que os investimentos associados ao programa podem variar entre 3,4 e 5 bilhões de reais, dependendo da configuração final do sistema, do pacote logístico, do suporte técnico e das condições de financiamento acordadas entre os governos.
Além do ganho operacional imediato, o acordo em discussão também envolve expectativas de cooperação industrial e transferência de tecnologia. Esse aspecto é visto como fundamental para fortalecer a base industrial de defesa brasileira, ampliar a autonomia tecnológica do Brasil e criar condições para futuras evoluções do sistema em território nacional.
Do ponto de vista estratégico, a aquisição do EMADS representa mais do que a introdução de um novo sistema. Trata-se de um passo concreto rumo à construção de uma defesa aérea em camadas, conceito amplamente adotado por países que levam a sério a proteção de seu espaço aéreo. Ao integrar sistemas de curto, médio e, no futuro, longo alcance, o Brasil amplia sua capacidade de dissuasão e reduz vulnerabilidades críticas em um cenário internacional cada vez mais instável.
A experiência recente de conflitos modernos demonstra que a ausência de uma defesa aérea eficaz pode comprometer não apenas operações militares, mas também a segurança de centros urbanos, instalações industriais, portos, aeroportos e estruturas energéticas. Para um país de dimensões continentais como o Brasil, essa vulnerabilidade assume proporções ainda maiores.
Nossa análise é clara: o avanço nas negociações para a aquisição do EMADS sinaliza maturidade estratégica e compreensão do ambiente de ameaças do século XXI. Investir em defesa aérea não é um luxo nem gasto, mas uma necessidade básica da soberania. A continuidade desses investimentos, com planejamento de longo prazo e estabilidade orçamentária, será determinante para que o Brasil deixe de atuar de forma reativa e passe a ocupar uma posição mais consistente na proteção de seu território e de seus interesses estratégicos.
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