segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Jordânia e a transição para a doutrina de sexta geração: adaptação estratégica em um ambiente regional volátil

A recente diretiva emitida pelo rei Abdullah II para a reestruturação das Forças Armadas Jordanianas marca um movimento estratégico de grande relevância no contexto do Oriente Médio. Mais do que uma modernização administrativa ou uma simples atualização de meios, a decisão aponta para uma mudança deliberada de doutrina, abandonando o modelo tradicional de emprego de forças em favor de uma abordagem alinhada ao que vem sendo descrito como doutrina de sexta geração.

Segundo a Corte Real Hachemita, a orientação inclui a formulação de uma estratégia e de um roteiro de transformação estrutural a ser implementado ao longo dos próximos três anos. O objetivo declarado é adequar o Exército Árabe da Jordânia à natureza dos desafios emergentes, caracterizados por ameaças híbridas, assimétricas e multidimensionais, em um ambiente regional cada vez mais instável.

Na leitura do analista militar e estratégico Nidal Abu Zeid, a diretiva reflete uma convergência clara com as tendências globais de transformação militar. Elementos como dissuasão estratégica, métodos modernos de combate, operações cibernéticas defensivas e ofensivas, emprego de sistemas não tripulados e incorporação de inteligência artificial aparecem como pilares centrais da nova visão de poder militar jordaniano. Trata-se de uma redefinição que desloca o foco do volume e da massa para a eficiência, a agilidade e o domínio da informação.

O conceito orientador descrito como simplicidade e eficácia não deve ser interpretado como redução de ambição, mas como racionalização estratégica. Em termos práticos, isso implica priorizar a proteção dos centros de gravidade estratégicos e operacionais do Estado, reduzindo vulnerabilidades críticas e ampliando a capacidade de resposta rápida frente a ameaças difusas. A doutrina proposta se aproxima do modelo “lean and mean”, adotado por diversas forças armadas modernas, no qual forças menores, altamente treinadas e tecnologicamente integradas substituem estruturas pesadas e pouco flexíveis.

Do ponto de vista operacional, a mudança sinaliza um afastamento do emprego clássico de grandes unidades terrestres em favor de operações baseadas em inteligência, forças especiais, poder aéreo e integração de domínios. A guerra terrestre passa a ser concebida como parte de um sistema mais amplo, no qual sensores, dados, redes e capacidades cibernéticas desempenham papel tão decisivo quanto o combate cinético. Esse modelo busca maximizar impacto estratégico com menor custo político, econômico e humano.

A experiência regional reforça essa escolha. Abu Zeid observa que a reestruturação periódica das forças armadas é uma prática comum, citando reformas conduzidas por Israel em 2015 e 2020 como resposta direta à evolução das ameaças em seu entorno estratégico. No caso jordaniano, a última reestruturação abrangente ocorreu em 2005, o que torna o atual movimento não apenas oportuno, mas necessário diante das transformações acumuladas nas últimas duas décadas.

Outro elemento relevante é a crescente aproximação da Jordânia com a OTAN. A abertura, em junho de 2025, de um escritório de ligação da aliança em Amã consolidou uma parceria que já se estende por quase trinta anos e introduziu novos parâmetros doutrinários, especialmente no que se refere a operações conjuntas, interoperabilidade e agilidade operacional. A incorporação desses conceitos reforça a transição para uma força mais flexível, capaz de operar em coalizões e responder rapidamente a crises regionais.

Essa adaptação ocorre em um contexto de pressão constante sobre as fronteiras do Reino. Nas últimas duas décadas, a Jordânia enfrentou desafios persistentes relacionados ao terrorismo, ao contrabando de armas e drogas e ao uso crescente de sistemas não tripulados por atores estatais e não estatais. Os números divulgados pelas Forças Armadas, incluindo centenas de tentativas de infiltração frustradas e o abatimento de dezenas de drones apenas em 2025, ilustram a natureza concreta e imediata dessas ameaças.

Dentro desse cenário, a ênfase na manutenção de uma força de reserva suficiente assume caráter estratégico. Mais do que um instrumento quantitativo, a reserva é vista como vetor de transição para a guerra de próxima geração, integrada a um esforço mais amplo de desenvolvimento tecnológico e autossuficiência. Nesse ponto, ganha destaque o papel do Gabinete de Design e Desenvolvimento da Jordânia, criado em 1999 como uma instituição civil-militar voltada à pesquisa, desenvolvimento e fabricação de tecnologias de defesa.

A diretriz real indica uma intenção clara de fortalecer essa estrutura como um polo nacional de inovação em defesa, alinhado a padrões internacionais, mas orientado às necessidades específicas do Estado jordaniano. A busca por autonomia em áreas como operações cibernéticas, sistemas não tripulados e gestão de reservas reforça a compreensão de que, na guerra contemporânea, dependência tecnológica equivale a vulnerabilidade estratégica.

Em síntese, a reestruturação das Forças Armadas da Jordânia não deve ser vista como um movimento isolado, mas como parte de uma tendência global de redefinição do poder militar. Ao adotar uma doutrina de sexta geração, o Reino sinaliza que compreende a natureza das mudanças em curso na guerra moderna e busca posicionar-se de forma realista em um ambiente regional marcado por competição estratégica, instabilidade crônica e rápida evolução tecnológica.


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