segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Indo-Pacífico: o verdadeiro centro de gravidade do século XXI

Durante grande parte do século XX, o eixo central da política internacional esteve ancorado no Atlântico Norte. Europa Ocidental e Estados Unidos concentravam poder econômico, militar e normativo, enquanto o restante do mundo orbitava esse centro decisório. No século XXI, essa lógica se rompeu. O coração da geopolítica global deslocou-se de forma inequívoca para o Indo-Pacífico, região que hoje concentra as principais disputas de poder, as maiores economias emergentes, os fluxos comerciais mais relevantes e, sobretudo, os riscos mais elevados de conflito entre grandes potências.

É no Indo-Pacífico que se encontram os principais vetores estratégicos do sistema internacional contemporâneo: a ascensão da China como potência, a centralidade de Taiwan na cadeia global de semicondutores, o crescimento acelerado da Índia como ator no cenário de defesa e econômico, a ressignificação do papel do Japão e a presença contínua, embora cada vez mais desafiada, dos Estados Unidos como potência garantidora da ordem regional.

A China é o elemento estruturante dessa equação. Pequim deixou de ser apenas uma potência econômica para se tornar um ator no âmbito militar plenamente consciente de seus interesses estratégicos. O Exército de Libertação Popular passou por uma transformação profunda, com investimentos maciços em mísseis balísticos e de cruzeiro, capacidades navais de águas azuis, guerra cibernética, espacial e integração de sensores e cadeia sofisticada de comando e controle. O objetivo é claro: reduzir, e eventualmente neutralizar, a capacidade de intervenção dos Estados Unidos em seu entorno imediato, especialmente no Mar do Sul da China e no Estreito de Taiwan.

Taiwan, por sua vez, não é apenas uma questão identitária ou política para Pequim. A ilha ocupa uma posição absolutamente crítica na economia global por concentrar parte significativa da produção mundial de semicondutores avançados. Qualquer instabilidade no Estreito de Taiwan teria impactos imediatos sobre cadeias industriais, sistemas militares, setores de alta tecnologia e mercados financeiros em escala planetária. Trata-se de um dos poucos pontos do globo onde um conflito regional pode rapidamente se transformar em uma crise sistêmica global.

A Índia surge como um contraponto cada vez mais relevante à China. Com uma população que já supera a chinesa, crescimento econômico sustentado e um processo gradual de modernização militar, Nova Délhi busca consolidar-se como potência regional e ator global. Sua postura é pragmática: cooperação seletiva com os Estados Unidos e parceiros do Indo-Pacífico, manutenção de autonomia estratégica e contenção direta da China em áreas sensíveis como o Himalaia e o Oceano Índico. Diferentemente da Europa, a Índia pensa sua defesa a partir de ameaças concretas e geograficamente próximas.

O Japão, por décadas limitado por restrições constitucionais e uma cultura estratégica defensiva, passa por uma inflexão histórica. Tóquio ampliou seu orçamento de defesa, revisou diretrizes estratégicas e investe em capacidades de ataque de longo alcance, defesa antimísseis e interoperabilidade com forças norte-americanas. A percepção japonesa é simples: o ambiente regional tornou-se mais hostil, e depender exclusivamente do guarda-chuva de Washington é um risco que não pode mais ser ignorado.

Os Estados Unidos continuam sendo o principal ator no cenário do Indo-Pacífico, mas sua posição já não é de supremacia incontestável. Washington mantém uma vasta rede de alianças, bases e acordos de defesa, incluindo Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Austrália, além de iniciativas como o AUKUS. Ainda assim, o custo de projetar poder na região cresce, enquanto a China opera cada vez mais próxima de seu território, com vantagens geográficas e logísticas evidentes.

Nesse contexto, a Europa surge como um ator progressivamente irrelevante do ponto de vista militar fora de seu entorno imediato. Apesar do discurso político ambicioso, a realidade é que as capacidades europeias de projeção de poder são limitadas, fragmentadas e dependentes dos Estados Unidos. A guerra na Ucrânia expôs de forma contundente as fragilidades industriais, logísticas e operacionais do continente, que luta para sustentar um conflito de grande intensidade mesmo em sua vizinhança direta.

No Indo-Pacífico, a presença europeia é essencialmente simbólica. Envio ocasional de navios, exercícios pontuais e declarações diplomáticas não alteram o equilíbrio de poder regional. França e Reino Unido, apesar de possuírem capacidades mais robustas que seus parceiros continentais, operam no limite de seus meios. A União Europeia como bloco, carece de vontade política, coesão estratégica e instrumentos militares compatíveis com suas ambições declaradas.

Para o Brasil, a compreensão do Indo-Pacífico como centro de gravidade do século XXI é mais do que um exercício acadêmico. Trata-se de um imperativo estratégico. O país depende do comércio marítimo, tem a China como principal parceiro comercial, importa tecnologias críticas e opera no sistema internacional cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências. Ignorar essa dinâmica é aceitar uma posição periférica no mundo que está sendo redefinido longe do Atlântico Sul.

O Indo-Pacífico não é apenas uma região distante. É o espaço onde se decide o futuro da ordem internacional, das cadeias produtivas, da tecnologia e do equilíbrio militar global. Entender esse tabuleiro com profundidade e realismo, é condição básica para qualquer país que aspire a ter voz, autonomia e relevância no século XXI.


por Angelo Nicolaci


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