Durante décadas, o Brasil construiu para si a imagem de uma potência pacífica, distante dos grandes conflitos internacionais e protegida por sua geografia, por sua diplomacia e pela ausência de inimigos declarados. Esse imaginário coletivo, embora confortável, esconde uma realidade estratégica preocupante: o Brasil pode ser severamente paralisado sem que um único disparo seja efetuado contra seu território.
Em um mundo cada vez mais marcado por disputas híbridas, pressões econômicas, coerção indireta e conflitos de baixa intensidade, a segurança nacional não se limita mais à defesa de fronteiras físicas. Ela passa, sobretudo, pela proteção das artérias vitais que mantêm o país funcionando. E nenhuma delas é tão crítica quanto o mar.
Mais de 90% do comércio exterior brasileiro depende das rotas marítimas. É pelo mar que o Brasil exporta alimentos, minério, petróleo e produtos industriais. É pelo mar que chegam fertilizantes, combustíveis, insumos farmacêuticos, componentes industriais e bens de alto valor agregado. Ainda assim, a proteção dessas linhas de comunicação marítima permanece um tema periférico no debate público e político nacional.
O Atlântico Sul, frequentemente tratado como uma zona de paz natural, é, na prática, um espaço de crescente competição estratégica. A presença de potências extra-regionais se intensifica, seja por meio de acordos de cooperação, seja por operações navais, seja pelo controle indireto de fluxos logísticos, seguros marítimos e infraestrutura portuária. A crença de que o simples discurso diplomático é suficiente para garantir a segurança dessas rotas ignora lições básicas da história e da geopolítica contemporânea.
O Brasil não dispõe hoje de meios navais em quantidade e prontidão compatíveis com a dimensão de suas responsabilidades marítimas. O número de escoltas é limitado, a capacidade de proteção de comboios é restrita e a cobertura permanente de áreas sensíveis do Atlântico Sul é, na melhor das hipóteses, intermitente. Em um cenário de crise internacional, mesmo que o país não fosse parte direta do conflito, bastaria um aumento do risco percebido para que seguros marítimos se tornassem proibitivos, rotas fossem evitadas e o fluxo de comércio sofresse interrupções graves.
Esse tipo de coerção não exige bloqueios formais nem ações militares explícitas. Ele opera na zona cinzenta da legalidade, do mercado e da percepção de risco. A simples instabilidade já é suficiente para gerar efeitos estratégicos profundos. Países que dependem intensamente do comércio marítimo, como o Brasil, são especialmente vulneráveis a esse tipo de pressão silenciosa.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a dependência externa de serviços críticos associados à navegação e ao comércio marítimo. Sistemas de rastreamento, comunicação, seguros, financiamento e certificação são, em grande parte, controlados por atores estrangeiros. Frente a um ambiente de tensão geopolítica, esses mecanismos podem ser utilizados como instrumentos de influência e coerção, limitando a liberdade de ação do Estado brasileiro sem necessidade de confrontação direta.
A ausência de uma estratégia clara e integrada para a proteção das linhas de comunicação marítima reflete um problema mais profundo: a dificuldade histórica do Brasil em compreender defesa como política de Estado, e não como despesa eventual. A lógica orçamentária de curto prazo, aliada à percepção de que o país não enfrenta ameaças concretas, resulta em capacidades incompletas, programas interrompidos e perda contínua de massa crítica, tanto operacional quanto industrial.
Outras potências médias já compreenderam que a dissuasão moderna não se constrói apenas com grandes plataformas de combate, mas com presença contínua, consciência situacional, integração entre forças armadas, indústria, setor privado e diplomacia. A proteção do comércio, da infraestrutura crítica e dos fluxos logísticos tornou-se parte central de suas estratégias nacionais.
No caso brasileiro, a inação cobra um preço elevado. Uma interrupção prolongada do fluxo marítimo afetaria diretamente a segurança alimentar, a estabilidade econômica, a geração de energia e a capacidade industrial do país. O impacto social e político de uma crise dessa natureza seria profundo, com reflexos imediatos na inflação, no emprego e na governabilidade.
Defesa nesse contexto, não deve ser confundida com militarismo ou belicismo. Trata-se de garantir condições mínimas de autonomia, previsibilidade e soberania em um sistema internacional cada vez mais instável. Ignorar vulnerabilidades não as elimina; apenas adia o momento em que elas se manifestam de forma abrupta e custosa.
O Brasil ainda dispõe de tempo, recursos humanos qualificados e uma base industrial com potencial para reverter esse quadro. Mas isso exige uma mudança de mentalidade. Exige reconhecer que a segurança marítima é um tema estratégico central, que transcende governos, ideologias e ciclos eleitorais. Exige, sobretudo, abandonar a ilusão de que a ausência de guerra declarada equivale à ausência de ameaças.
Diante do cenário mundial onde conflitos raramente começam com tiros, mas quase sempre com pressões econômicas, logísticas e informacionais, a verdadeira pergunta que o Brasil precisa responder não é se pretende entrar em guerra, mas se está preparado para não ser paralisado quando ela ocorrer em seu entorno.
por Angelo Nicolaci
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