A Base Industrial de Defesa (BID) constitui um dos pilares fundamentais da soberania de um Estado moderno. Ela não se limita à produção de armamentos ou sistemas militares, mas engloba o conjunto de capacidades industriais, tecnológicas, científicas e humanas necessárias para sustentar, adaptar e evoluir os meios de defesa ao longo do tempo. Em um sistema internacional cada vez mais competitivo, fragmentado e marcado pela revalorização do poder material, a existência de uma BID funcional deixou de ser opção e passou a ser requisito básico de autonomia estratégica.
No Brasil, entretanto, observa-se um processo contínuo e silencioso de erosão dessas capacidades. Não se trata de um colapso abrupto, visível ou concentrado em um único evento, mas de uma deterioração gradual, cumulativa e estrutural, resultante da ausência de políticas de Estado consistentes, previsibilidade orçamentária e compreensão estratégica do papel da defesa como vetor de desenvolvimento nacional.
Empresas estratégicas da BID brasileira sobrevivem hoje, em grande medida, graças a contratos de exportação, parcerias externas e nichos específicos no mercado internacional. Embora a inserção externa seja desejável e necessária, ela não pode substituir o papel do próprio Estado como cliente âncora. Em países que tratam a defesa com seriedade, a demanda estatal garante escala mínima, continuidade produtiva e estabilidade de planejamento. No caso brasileiro, a volatilidade das encomendas públicas transformou o mercado interno em um fator de risco, e não de sustentação.
A interrupção ou postergação recorrente de programas estratégicos produz efeitos devastadores que vão muito além do atraso na entrega de equipamentos. O impacto mais crítico recai sobre o capital humano. Engenheiros, técnicos, integradores de sistemas e especialistas em tecnologias sensíveis não são recursos facilmente recomponíveis. Quando projetos são suspensos, esse contingente migra para outros setores ou para o exterior, levando consigo conhecimento tácito acumulado ao longo de décadas. A retomada posterior de um programa encontra, muitas vezes, apenas a estrutura física remanescente, mas não o saber necessário para fazê-lo avançar.
Essa perda de capital humano aprofunda a dependência externa em áreas estratégicas. O Brasil tornou-se crescentemente dependente de fornecedores estrangeiros de sensores, sistemas optrônicos, semicondutores, componentes eletrônicos críticos, sistemas de propulsão e materiais especiais. Trata-se de uma dependência que não se limita ao fornecimento inicial, mas se estende ao ciclo de vida completo dos sistemas, incluindo manutenção, modernização, atualização de software e autorização para emprego operacional. Em cenários de crise, sanções ou tensões diplomáticas, essas dependências tornam-se instrumentos de coerção.
A fragilidade da BID compromete diretamente a autonomia das Forças Armadas. A capacidade militar de um Estado não se mede apenas pelo inventário de meios adquiridos, mas pela sua capacidade de sustentá-los em operação, adaptá-los a novos cenários e integrá-los a doutrinas próprias. Sem uma base industrial capaz de absorver, modificar e evoluir tecnologias, o país se transforma em operador dependente, com liberdade de ação severamente limitada.
Esse quadro não é exclusivo do Brasil, mas a diferença reside na forma como outros Estados reagiram a desafios semelhantes. A comparação internacional é elucidativa.
A Coreia do Sul, por exemplo, enfrentou nos anos 1970 e 1980 severas restrições externas e ameaças diretas à sua segurança. A resposta foi tratar a defesa como política industrial estratégica. O Estado assumiu o papel de indutor, garantiu demanda contínua, protegeu sua indústria nascente e integrou universidades, centros de pesquisa e empresas privadas. O resultado foi a construção de uma BID robusta, capaz não apenas de suprir suas Forças Armadas, mas de se tornar uma das principais exportadoras globais de sistemas de defesa.
A Turquia seguiu caminho semelhante nas últimas duas décadas. Mesmo enfrentando sanções, pressões diplomáticas e crises econômicas, manteve a continuidade dos investimentos em sua base industrial de defesa. A decisão política de reduzir dependências externas levou à criação de capacidades nacionais em áreas críticas, como sistemas não tripulados, eletrônica embarcada e integração de plataformas. Hoje, a indústria de defesa turca é instrumento central de sua política externa e de sua projeção regional.
Israel oferece outro exemplo relevante. Cercado por ameaças desde sua fundação, o país compreendeu que a sobrevivência dependia de autonomia tecnológica. O Estado atuou de forma sistemática como cliente, financiador e articulador da inovação. A indústria de defesa tornou-se motor de desenvolvimento tecnológico, com amplos efeitos de transbordamento para o setor civil, consolidando um ecossistema de inovação altamente competitivo.
Mesmo a Índia, tradicionalmente dependente de fornecedores externos, reconheceu os custos estratégicos dessa dependência. Após sucessivas crises de abastecimento e restrições políticas, lançou programas voltados à internalização de capacidades industriais, ainda que de forma tardia e com dificuldades. A lição indiana é clara: reconstruir capacidades perdidas é muito mais caro e lento do que preservá-las.
Esses exemplos convergem para um ponto central: a Base Industrial de Defesa não emerge espontaneamente do mercado. Ela é resultado de decisão política, continuidade estratégica e investimento de longo prazo. Onde o Estado se omite, a indústria enfraquece; onde o Estado atua de forma errática, a indústria se torna dependente; onde o Estado assume seu papel, a indústria floresce.
No Brasil, predomina ainda a visão de que defesa é gasto, e não investimento estratégico. Essa percepção ignora o papel da BID como política industrial avançada, geradora de empregos altamente qualificados, inovação tecnológica, soberania produtiva e capacidade de inserção internacional. Em um contexto de restrição fiscal, a expansão do custeio administrativo e a compressão dos investimentos estratégicos revelam uma hierarquia de prioridades incompatível com qualquer projeto nacional de poder.
A crença de que acordos de transferência de tecnologia compensariam a fragilidade da BID nacional também se mostrou ilusória. Sem capacidade interna de absorção, integração e evolução, tais transferências tornam-se limitadas, condicionadas e reversíveis. Tecnologia não se transfere plenamente sem base industrial, capital humano e continuidade de programas.
O efeito final desse colapso silencioso é estratégico. Sem uma Base Industrial de Defesa funcional, a soberania nacional transforma-se em discurso. Não há autonomia decisória quando sistemas críticos dependem de autorizações externas. Não há dissuasão crível quando a reposição de componentes pode ser vetada politicamente. Não há liberdade de ação quando a manutenção da capacidade militar está sujeita a interesses alheios.
O colapso da Base Industrial de Defesa brasileira não é resultado de um único governo ou conjuntura específica, mas de décadas de descontinuidade, improvisação e incompreensão do papel estratégico da indústria de defesa. Ainda é reversível, mas cada ano de inação eleva exponencialmente o custo da reconstrução.
Em um sistema internacional que voltou a valorizar poder material, autonomia produtiva e resiliência estratégica, países sem indústria de defesa própria não são neutros, independentes ou soberanos. São vulneráveis. E vulnerabilidade, no mundo real, não é uma condição moral, é um convite à coerção.
Sem indústria de defesa, soberania é discurso vazio.
por Angelo Nicolaci
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