segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA DIGITALIZADO DA ARTILHARIA DE CAMPANHA NO 3º GRUPO DE ARTILHARIA DE CAMPANHA AUTOPROPULSADO: O APOIO DE FOGO DA 6ª BRIGADA DE INFANTARIA BLINDADA NO ESTADO DA ARTE.

Os conflitos recentes reposicionaram a Artilharia no centro do debate sobre o combate terrestre moderno. A guerra na Ucrânia evidenciou que a eficácia dos fogos de longo alcance depende, cada vez mais, da integração entre sensores, sistemas de comando e meios de tiro, bem como da rapidez com que comandantes e guarnições conseguem transformar informação em decisão. Nesse cenário, a digitalização dos processos de direção e coordenação de fogos deixou de ser apenas uma vantagem tecnológica para se tornar uma exigência operacional.

No Exército Brasileiro, essa compreensão não surgiu de forma abrupta. Pelo contrário, ela resulta de um processo contínuo de aprendizado institucional, no qual tecnologia, doutrina e preparo humano avançaram de maneira integrada. Esse caminho culmina no Sistema Digitalizado da Artilharia de Campanha (SISDAC), expressão de uma trajetória marcada pela valorização da indústria nacional e pela busca permanente de autonomia tecnológica.

Essa reflexão ganha especial significado quando observada a partir da realidade de unidades historicamente associadas à vanguarda do emprego da Artilharia. O 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, Regimento Mallet (3º GAC AP), orgânico da 6ª Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer (6ª Bda Inf Bld), ao longo de sua trajetória, esteve reiteradamente vinculado à incorporação de novas capacidades, tanto no preparo de seu pessoal quanto na adoção de meios modernos. Inserido entre as organizações militares previstas para receber o SISDAC, o Regimento vivencia mais uma etapa desse processo contínuo de renovação.

A 6ª Bda Inf Bld, com quartel-general em Santa Maria – RS, representa um dos maiores poderes de combate à disposição da Força Terrestre, em razão dos meios que possui e do elevado nível de adestramento alcançado. Seus recursos humanos, instruídos e em permanente treinamento, encontram-se condicionados a atuar com iniciativa, coragem, flexibilidade e adaptabilidade, de acordo com a intenção do comandante e o propósito das tarefas, tendo em vista o estado final desejado para cada missão. Sempre pronta, a Brigada compõe-se harmonicamente por doze organizações militares, que incluem tropas de manobra, comando e controle, defesa antiaérea, mobilidade, contramobilidade e proteção, além dos apoios de fogo e logístico. Trata-se, portanto, de uma Grande Unidade vocacionada para as ações decisivas e que, quando acionada, age com rapidez, precisão, violência e ação de choque.

O 3º GAC AP figura entre as unidades mais antigas e emblemáticas do Exército Brasileiro. Criado em 1831, com origens no Corpo de Artilharia a Cavalo, construiu sua identidade operacional em sucessivas campanhas decisivas da história nacional, destacando-se pelo emprego disciplinado, preciso e resoluto do fogo. Da Guerra da Tríplice Aliança à participação com alguns de seus integrantes na Força Expedicionária Brasileira, durante a 2ª Guerra Mundial, incorporou-se definitivamente às tropas blindadas na década de 1970. Ao longo de sua virtuosa trajetória, soube, com invulgar maestria, atualizar meios e processos, sem abdicar de valores e tradições. Sediado em Santa Maria–RS, desde 1925, consolidou sua vocação para o emprego da Artilharia Autopropulsada, alinhando-se, ao longo do tempo, às transformações doutrinárias e materiais da Força Terrestre.

As origens do SISDAC remontam ao desenvolvimento do Sistema Gênesis, concebido pela Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), ainda no final do século XX. Em um período em que a digitalização do campo de batalha era incipiente no País, o Gênesis representou uma iniciativa pioneira, ao automatizar processos que até então dependiam fortemente da experiência individual e de cálculos manuais. Ao longo das décadas de 1990 e 2000, o sistema evoluiu gradualmente, havendo sido empregado em instruções, avaliações técnicas e estudos doutrinários. Mais do que um produto tecnológico, o Gênesis funcionou como um espaço de aprendizado coletivo, permitindo que operadores, instrutores e planejadores identificassem limitações, aperfeiçoassem procedimentos e definissem requisitos para sistemas futuros.

A modernização das viaturas autopropulsadas M109, que resultou na versão M109 A5+BR, na década de 2010, elevou significativamente o patamar tecnológico da Artilharia brasileira. Além de novas possibilidades, trouxe consigo, também, novos desafios para aqueles que planejam, coordenam e executam os fogos. Sistemas avançados de navegação, pontaria e comunicações passaram a demandar soluções digitais capazes de integrar dados de forma rápida e confiável. Desta forma, tornou-se evidente que a tecnologia somente produziria efeito real se estivesse alinhada aos processos de decisão e à rotina das guarnições.

O SISDAC surge como resposta a essa necessidade. Herdando conceitos desenvolvidos no Sistema Gênesis, ele amplia o escopo da digitalização, ao integrar navegação, posicionamento, direção de tiro, comunicações e apoio ao comando e controle. Na prática, esses avanços não se traduzem apenas em redução de tempos ou aumento de precisão. Eles oferecem maior previsibilidade às guarnições, ampliam a confiança nos dados empregados e permitem que o comando concentre sua atenção no que é de fato essencial: decidir, coordenar e empregar os fogos com responsabilidade e oportunidade.

A incorporação de sistemas digitais não se resume à aquisição de equipamentos. Ela exige preparo do pessoal, atualização doutrinária e uma cultura organizacional aberta ao estudo e à inovação. Unidades com trajetória histórica associada à vanguarda do emprego da Artilharia, como o Regimento Mallet, refletem, com muita propriedade, a arte de amalgamar tradição e modernidade. Nesse ambiente, a tecnologia não substitui o militar, que inegavelmente representa a fonte de energia que move qualquer exército. Ao contrário, amplia sua capacidade de julgamento, precisão e responsabilidade, reforçando valores historicamente associados à Artilharia.

Além do impacto militar direto, o SISDAC possui, igualmente, relevância estratégica para a Base Industrial de Defesa (BID). Sistemas de comando e controle e de fogos são sensíveis e raramente transferidos de forma plena por fornecedores estrangeiros. Ao apoiar-se no desenvolvimento nacional, o Exército Brasileiro preserva conhecimento crítico, reduz vulnerabilidades tecnológicas e cria condições para evoluir sistemas, de acordo com suas próprias necessidades. Sob essa perspectiva, o SISDAC transcende o campo militar, tornando-se um instrumento de poder e soberania nacional.

Do Sistema Gênesis ao SISDAC, a Artilharia de Campanha brasileira percorreu um caminho marcado por continuidade, aprendizado, visão de longo prazo e, sobretudo, competência. A digitalização do tiro não representa uma ruptura com a tradição, mas sua atualização, diante das exigências do combate contemporâneo. O SISDAC simboliza, assim, mais do que uma nova capacidade tecnológica: expressa uma escolha institucional de investir em pessoas, em conhecimento e em soluções nacionais para manter a relevância operacional e a autonomia da Força Terrestre do século XXI. A implantação do Sistema no Regimento Mallet seguirá um rigoroso cronograma, que ao final do primeiro semestre de 2026, possibilitará ao 3º GAC AP prover o apoio de fogo da Brigada Niederauer em seu estado da arte.


Autores:

TENENTE CORONEL FLÁVIO HENRIQUE DO NASCIMENTO: Formando Oficial da Arma de Artilharia em 2002, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), realizou o Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESAO), no ano de 2010, e o Curso de Comando e Estado-Maior do Exército, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), no biênio 2017-18. Possui o Mestrado Acadêmico em Ciências Militares, pelo Instituto Meira Mattos. No exterior, frequentou o Curso de Aperfeiçoamento, na Escuela de Aplicación de Armas y Tecnológica Mariscal José Ballivián, na Bolívia, e realizou o Command and General Staff Office Course, no Western Hemisphere Institute for Security Cooperation (WHINSEC), nos Estados Unidos da América. Atualmente, comanda o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, Regimento Mallet.

GENERAL DE BRIGADA ANDRÉ LUIZ DE SOUZA DIAS: Formado em 1996, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, comanda a 6° Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer, com sede em Santa Maria-RS. Nesta mesma Brigada, foi o Comandante da Companhia de Comando, em 2010-11, e do 29º Batalhão de Infantaria Blindado –Batalhão Cidade de Santa Maria, no biênio 2019-20. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, realizou o Curso de Estado-Maior das Forças Armadas da Espanha e o de Altos Estudos Nacionais da Bolívia. Possui os seguintes Mestrados Acadêmicos: em Operações Militares e em Ciências Militares, ambos no Brasil; em Política de Defesa e Segurança Internacional, na Espanha; e em Segurança,Defesa e Desenvolvimento, na Bolívia. É membro da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB).






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