segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Brasil enfrenta apagão de consciência situacional aérea e marítima enquanto crime organizado avança com tecnologia

Por anos, o debate sobre defesa e segurança pública no Brasil ficou preso à dicotomia entre orçamento curto e demandas infinitas. O que começa a emergir agora de forma cada vez mais evidente, é um problema mais profundo e estrutural: o país enfrenta um apagão de consciência situacional, tanto no espaço aéreo de baixa altitude quanto no domínio marítimo e fluvial, justamente no momento em que organizações criminosas ampliam o uso de tecnologia para driblar o Estado.

No espaço aéreo, a proliferação de aeronaves não tripuladas escancarou uma lacuna histórica. O Brasil não dispõe de um sistema integrado de vigilância de baixa altitude capaz de acompanhar em tempo real, atividades suspeitas sobre áreas urbanas críticas, fronteiras e infraestrutura estratégica. A cobertura existente é fragmentada, dependente de operações pontuais e em muitos casos, baseada em meios que não foram concebidos para lidar com ameaças de assinatura reduzida e operação irregular.

O Narcotráfico já emprega drones para transportar drogas

No domínio marítimo e fluvial, o cenário não é menos preocupante. Rotas fluviais na Amazônia, no Pantanal e em regiões costeiras tornaram-se corredores logísticos para o tráfico de drogas, armas e contrabando. Embarcações rápidas, discretas e cada vez mais bem equipadas operam com alto grau de liberdade, explorando a limitação de sensores, radares e meios de patrulha permanentes. A ausência de uma consciência situacional contínua favorece a previsibilidade das ações do Estado e a adaptação constante das organizações criminosas.

O avanço tecnológico do crime organizado não se limita ao uso de drones ou lanchas rápidas. Comunicações criptografadas, monitoramento de forças de segurança em redes abertas e o emprego de sensores improvisados já fazem parte do cotidiano dessas estruturas. Em muitos casos, o crime opera com lógica de rede, capacidade de aprendizado rápido e integração transnacional, enquanto o Estado permanece compartimentado entre diferentes órgãos e níveis federativos.

Esse cenário coloca em xeque a forma como o Brasil pensa defesa e segurança pública. A separação rígida entre ameaças externas e internas torna-se cada vez menos funcional quando organizações criminosas transnacionais atuam dentro do território nacional com métodos, recursos e alcance típicos de ameaças estratégicas. O resultado é um ambiente em que o país reage a crises, mas raramente antecipa movimentos.

A discussão que começa a ganhar espaço nos bastidores institucionais envolve a necessidade de integrar sensores, plataformas aéreas, meios navais e bases de dados em uma arquitetura única de consciência situacional. Não se trata apenas de adquirir novos equipamentos, mas de conectar sistemas já existentes, harmonizar protocolos e criar centros de comando capazes de operar de forma interagências e permanente.

No Brasil, existem iniciativas isoladas, tanto nas Forças Armadas quanto em órgãos civis, mas falta uma visão conjunta. A ausência de integração plena reduz a eficácia de programas caros, limita a interoperabilidade e gera zonas cegas exploradas sistematicamente pelo crime organizado. O problema não é apenas tecnológico; é institucional e estratégico.

A pauta ganha ainda mais relevância em um contexto de crescente pressão sobre fronteiras, portos, aeroportos e hidrovias. O Brasil segue sendo peça-chave nas rotas internacionais do narcotráfico e do contrabando, enquanto o debate público permanece focado em respostas episódicas, operações pontuais e soluções de curto prazo.

O desafio colocado hoje não é apenas reforçar policiamento ou ampliar efetivos, mas redefinir o conceito de vigilância e controle do território nacional. Sem consciência situacional permanente, o Estado opera no escuro. E, no escuro, quem se adapta mais rápido tende a vencer.

Essa é uma pauta que cruza defesa, segurança pública, soberania e tecnologia, e que tende a se tornar central nos próximos anos, à medida que o desequilíbrio entre capacidades do Estado e do crime organizado se torne cada vez mais evidente.


por Angelo Nicolaci


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