A Colômbia decidiu tratar uma realidade incômoda de frente: o espaço aéreo de baixa altitude deixou de ser um vazio estratégico e passou a ser um campo de batalha. O anúncio de um amplo programa nacional de defesa antidrone não é apenas uma resposta tática a ataques recentes, mas um sinal claro de que Bogotá compreendeu algo que muitos países da região ainda relutam em aceitar, drones baratos, improvisados e facilmente adaptáveis mudaram definitivamente o equilíbrio entre o Estado e grupos criminosos organizados, incluindo redes transnacionais ligadas ao narcotráfico e a outras economias ilícitas.
Nos últimos anos, essas organizações passaram a empregar aeronaves não tripuladas não apenas para vigilância, mas como vetores de ataque. Drones comerciais adaptados, municiados com explosivos e operados à distância, tornaram-se ferramentas eficazes contra bases militares, patrulhas, forças de segurança e instalações críticas. O custo é baixo, o risco para o operador é mínimo e o impacto psicológico e operacional é alto. Para um país com décadas de experiência no enfrentamento de estruturas criminosas armadas, a Colômbia percebeu que ignorar essa evolução significaria aceitar uma vulnerabilidade estrutural.
O programa colombiano vai além da simples aquisição de equipamentos. Trata-se de uma arquitetura de defesa em camadas, integrando sensores, sistemas de guerra eletrônica, meios de neutralização física e centros de comando capazes de operar de forma conjunta entre Forças Armadas, polícia e agências civis. O objetivo não é apenas derrubar drones, mas detectar padrões, antecipar ameaças e negar o uso do espaço aéreo a atores hostis que operam à margem do Estado, mas com capacidades cada vez mais sofisticadas.
Esse movimento coloca a Colômbia em uma posição singular na América Latina. Enquanto muitos países ainda tratam drones como um problema pontual de segurança pública, Bogotá os reconhece como um desafio direto à soberania e à defesa nacional. É uma mudança conceitual importante. O drone deixa de ser visto como uma exceção tecnológica e passa a ser tratado como parte do ambiente operacional moderno, assim como já ocorre em cenários de conflito onde organizações criminosas assumem métodos típicos de forças insurgentes.
O debate, no entanto, vai além das fronteiras colombianas. A iniciativa expõe uma lacuna regional evidente: a ausência de sistemas robustos de defesa antidrone e de controle efetivo do espaço aéreo de baixa altitude. Em um continente marcado por extensas fronteiras terrestres, áreas de selva, regiões pouco povoadas e intensa atuação de organizações criminosas transnacionais, a proliferação de drones tende a crescer, não a diminuir.
É nesse ponto que o caso colombiano deveria acender um alerta estratégico no Brasil. O país possui mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres, grande parte em regiões de difícil acesso, além de infraestrutura crítica espalhada por um território continental. Ainda assim, o Brasil dispõe hoje de um número reduzido de drones de monitoramento de longa permanência efetivamente empregados de forma contínua, tanto no âmbito militar quanto na segurança pública.
Essa limitação chama ainda mais atenção quando se observa que o país possui uma base industrial capaz de desenvolver tecnologias próprias. Empresas nacionais já projetaram e produzem sistemas não tripulados voltados justamente ao monitoramento persistente de grandes áreas, como o drone Harpia da ADTech, concebido para vigilância de fronteiras, áreas remotas e missões prolongadas. Apesar disso, a incorporação desses meios ainda ocorre de forma pontual, sem uma estratégia nacional integrada.
No campo da segurança pública, poucas forças estaduais utilizam drones de permanência de maneira sistemática. Estados como Acre e Amazonas despontam como exceção, operando o Harpia e outros sistemas em missões de vigilância de áreas extensas, especialmente em regiões de selva, rios e fronteiras porosas. Em outros estados, iniciativas ainda se encontram em fase de estudo ou avaliação, com análises envolvendo soluções nacionais e estrangeiras, incluindo projetos de aeronaves remotamente pilotadas de longa autonomia desenvolvidas no Brasil.
O Brasil já emprega drones para vigilância e reconhecimento, mas de forma fragmentada e, muitas vezes, restrita a operações específicas. Falta uma estratégia nacional clara que integre esses meios ao monitoramento permanente de fronteiras e, simultaneamente, ao desenvolvimento de capacidades efetivas de defesa antidrone. Não se trata apenas de adquirir plataformas, mas de estruturar doutrina, treinamento, integração entre Forças Armadas, forças policiais e agências civis, além de fortalecer a indústria nacional como parte do esforço estratégico.
Ignorar essa realidade também significa evitar um debate incômodo: o caráter narco-terrorista de organizações criminosas que controlam territórios, impõem regras próprias, utilizam armamento pesado e agora incorporam meios aéreos não tripulados às suas operações. A negação política desse fenômeno não reduz sua gravidade operacional nem seus efeitos sobre a segurança nacional.
A experiência colombiana mostra que o custo da adaptação é alto, mas o custo da inação é ainda maior. Drones não respeitam limites geográficos, não precisam de pistas e não dependem de grandes estruturas logísticas. Ignorá-los é abrir mão do controle sobre uma dimensão cada vez mais decisiva da defesa contemporânea.
Se a Colômbia está desenhando hoje a nova fronteira da defesa na América Latina, o Brasil precisa decidir se continuará observando à distância ou se assumirá o protagonismo que seu tamanho, suas responsabilidades e seus interesses estratégicos exigem. Investir em defesa antidrone e em monitoramento persistente de fronteiras com drones, especialmente aproveitando capacidades já existentes na indústria nacional, não é mais uma opção tecnológica, é uma necessidade estratégica diante da evolução do crime organizado em direção a métodos cada vez mais próximos do terrorismo.
por Angelo Nicolaci
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