sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Bisturi ou martelo: por que a Delta Force, e não o SEAL Team Six, conduziu uma extração de alto risco como a de Nicolás Maduro

Em determinados momentos, o noticiário internacional passa a ser ocupado por narrativas que beiram o cinematográfico. Relatos fragmentados, reconstruções especulativas e rumores ganham espaço como se descrevessem operações concretas, muitas vezes sem qualquer lastro factual verificável. A extração de Nicolás Maduro da Venezuela insere-se nesse campo nebuloso. Mais relevante do que discutir o episódio é compreender, sob uma perspectiva técnica e estratégica, qual tipo de força seria empregada em uma operação com esse nível de complexidade política, militar e diplomática.

Quando se observa o aparato de operações especiais dos Estados Unidos, essa análise conduz inevitavelmente a uma comparação entre duas de suas unidades mais conhecidas: a Delta Force e o SEAL Team Six, oficialmente denominado DEVGRU. A distinção entre ambas não está associada à qualidade de seus operadores, ao grau de letalidade ou ao prestígio institucional. Trata-se, sobretudo, de uma diferença de função, filosofia operacional e lógica de emprego estratégico.

O Comando Conjunto de Operações Especiais dos Estados Unidos (JSOC) não seleciona unidades com base em simbolismos ou percepções públicas. Cada missão é desenhada a partir de variáveis rigorosas, como ambiente político, densidade urbana, risco de escalada internacional, necessidade de captura ou neutralização do alvo, tempo disponível para execução, nível de exposição midiática e consequências estratégicas de curto e longo prazo. Nesse contexto, a diferença entre Delta Force e DEVGRU pode ser compreendida de forma clara por meio de uma analogia recorrente entre profissionais da área: "o bisturi e o martelo".

A Delta Force representa o bisturi da guerra moderna. Criada para operar em cenários de altíssima complexidade, é uma unidade moldada para atuar onde o erro não é uma opção e onde a violência indiscriminada pode gerar efeitos estratégicos desastrosos. Sua lógica não se baseia no choque, mas no controle. Seus operadores são treinados para infiltrar-se profundamente em ambientes hostis, misturar-se à população, operar sob identidades encobertas e adaptar-se continuamente a cenários voláteis e imprevisíveis.

Diferentemente de forças orientadas para o assalto direto, a Delta é estruturada para lidar com múltiplos atores simultaneamente: forças regulares, milícias, serviços de inteligência adversários, civis, aliados ambíguos e até atores não estatais. Seu treinamento enfatiza leitura comportamental, tomada de decisão sob pressão extrema e autonomia tática. Trata-se de uma força desenhada para capturar alvos de alto valor vivos, quando isso é politicamente desejável, e para administrar as consequências de uma operação que não termina no momento da extração, mas se prolonga no campo diplomático e informacional.

Em uma operação envolvendo a retirada de um chefe de Estado em exercício, como Nicolás Maduro, o desafio transcende o domínio militar. Estariam em jogo a reação imediata de forças leais ao regime, a mobilização de milícias, a atuação de serviços de inteligência estrangeiros, o comportamento da população civil e, sobretudo, o impacto regional e internacional da ação. Trata-se de um ambiente onde a discrição, a capacidade de improvisação e o controle do ritmo da operação são mais valiosos do que a superioridade de fogo. Esse é precisamente o terreno para o qual a Delta Force foi concebida.

O SEAL Team Six, por sua vez, opera sob uma lógica distinta. O DEVGRU é o martelo: a ferramenta empregada quando o tempo é o fator decisivo e quando a missão exige velocidade, violência controlada e encerramento imediato da ameaça. Sua especialidade são assaltos diretos de alta intensidade, retomadas de instalações, ações de contraterrorismo com foco na neutralização rápida do alvo e operações complexas que combinam ambientes marítimos, aéreos e terrestres.

O exemplo mais emblemático desse perfil operacional é a Operação Neptune Spear, conduzida no Paquistão em 2011, que resultou na eliminação de Osama bin Laden. A missão foi executada a centenas de quilômetros do litoral, em um ambiente urbano densamente povoado e politicamente sensível. Ainda assim, o planejamento admitia desde o início a possibilidade e a aceitabilidade estratégica da eliminação do alvo. O resultado foi uma ação rápida, decisiva e irreversível. Bin Laden foi neutralizado, e seu corpo foi retirado da área de operações.

Esse desfecho não representa uma falha, mas uma decisão estratégica coerente com o objetivo da missão. Quando a prioridade é eliminar uma ameaça e encerrar um ciclo operacional, o DEVGRU é a escolha natural. O martelo entra em cena quando não há espaço para sutilezas.

A diferença fundamental entre os dois cenários reside no objetivo político da operação. A eliminação de um líder terrorista gera efeitos estratégicos distintos daqueles produzidos pela captura de um chefe de Estado. No segundo caso, a operação não se encerra com a infiltração ou a retirada física do alvo. Ela desencadeia uma cadeia de eventos diplomáticos, jurídicos e geopolíticos que precisam ser antecipados e administrados desde o primeiro minuto.

Manter o alvo vivo, evitar danos colaterais excessivos, controlar narrativas internacionais, impedir massacres subsequentes e conduzir a extração sob pressão política extrema exige uma força capaz de pensar estrategicamente enquanto executa taticamente. Esse é o domínio clássico da Delta Force.

Enquanto o martelo resolve problemas quando o tempo se esgota e a força se impõe como solução final, o bisturi existe para preservar o que é estrategicamente relevante e remover apenas o elemento necessário. A guerra contemporânea, especialmente no campo das operações especiais, não é vencida apenas com poder de fogo, mas com discernimento, precisão e escolha adequada dos meios.

É importante destacar que não há rivalidade entre Delta Force e DEVGRU. Elas não competem; elas se complementam. A verdadeira superioridade do sistema de operações especiais dos Estados Unidos reside justamente na capacidade de empregar a ferramenta certa para o problema certo, no momento certo.

Em última instância, a questão central não é qual unidade produziria a operação mais espetacular, mas qual teria maiores chances de cumprir o objetivo estratégico sem transformar uma ação cirúrgica em um terremoto geopolítico. E, nesse tipo de missão, a experiência demonstra que o bisturi quase sempre precede o martelo.


por Angelo Nicolaci


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