domingo, 18 de janeiro de 2026

Gripen volta ao centro da disputa pelos caças do Canadá com proposta de 12.600 empregos

 

A Saab intensificou sua ofensiva industrial e política no Canadá ao apresentar uma proposta que vincula diretamente a aquisição de aeronaves à geração de empregos em larga escala. De acordo com informações apuradas pela CBC News, a fabricante sueca defende que as Força Aérea Real Canadense adquira 72 caças Gripen e seis aeronaves de vigilância GlobalEye para viabilizar a criação de até 12.600 empregos diretos e indiretos no país.

As propostas referentes ao Gripen e ao GlobalEye estão atualmente sob análise de especialistas em defesa e benefícios econômicos em Ottawa. Embora executivos da Saab já tenham mencionado anteriormente a possibilidade de gerar cerca de 10.000 empregos no Canadá, esta é a primeira vez que o volume exato de aeronaves necessário para atingir esse número vem à tona.

O interesse do governo canadense ocorre em um contexto de reavaliação estratégica mais amplo. A administração liderada por Mark Carney busca diversificar fornecedores de equipamentos de defesa e reduzir a dependência dos Estados Unidos, especialmente diante das incertezas comerciais e das tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump. Nesse cenário, propostas que combinam capacidade militar e fortalecimento da base industrial doméstica ganham peso político.

A Saab afirma que caso escolhida, a Força Aérea Real Canadense poderia começar a operar o Gripen em até três anos. A empresa também estuda a instalação de linhas de montagem no país, não apenas para atender às necessidades canadenses, mas para transformar o Canadá em um polo de produção voltado ao mercado internacional. Entre os potenciais clientes citados estão a Ucrânia, que demonstrou interesse em mais de 100 Gripens, além de países europeus como França e Alemanha no caso do GlobalEye.

A aeronave de vigilância GlobalEye teria produção realizada em parceria com a Bombardier, utilizando o jato executivo Global 6500 como plataforma para a integração de sensores e radares. No Canadá, o projeto é conhecido como sistema de alerta aéreo antecipado e controle, ampliando a vigilância aérea e a consciência situacional em grandes extensões territoriais, incluindo o Ártico.

Para alcançar a meta de mais de 10.000 empregos, a Saab planeja estabelecer centros de produção em Ontário e Quebec, apoiados por uma rede de fornecedores distribuída pelo país. A iniciativa dialoga diretamente com a estratégia do governo canadense de maximizar o retorno econômico de um ciclo de investimentos em defesa estimado em 82 bilhões de dólares nos próximos cinco anos.

A ministra da Indústria, Mélanie Joly, afirmou que o governo avalia com atenção projetos capazes de reforçar simultaneamente a soberania nacional e a economia. Segundo ela, embora Ottawa não tenha controle sobre decisões políticas em Washington, pode definir onde e como investe seus recursos de defesa, priorizando contratos que resultem em empregos e desenvolvimento industrial no Canadá.

Apesar do apelo econômico, a proposta da Saab levanta questionamentos relevantes no campo militar. A aquisição de uma frota de Gripen teria impacto direto sobre o plano já em curso de compra de 88 caças F-35, firmado em 2022 e atualmente estimado em mais de 27 bilhões de dólares. Embora o Canadá esteja reavaliando o programa desde a primavera, fontes do governo indicam que ainda é cedo para determinar se o número de F-35 será reduzido e em que proporção.

Por ora, o país se prepara para receber 16 F-35 a partir deste ano. Especialistas militares apontam que integrar simultaneamente duas frotas de caças de gerações e filosofias distintas representaria um desafio significativo em termos de logística, treinamento e sustentação. Além disso, analistas da indústria alertam que as promessas de geração de empregos da Saab precisam ser examinadas com maior rigor técnico e contratual.

A Lockheed Martin, fabricante do F-35, também pressiona Ottawa, destacando benefícios econômicos estimados em 15 bilhões de dólares em contratos para empresas canadenses caso o pedido integral seja mantido. As negociações entre o governo canadense e a empresa norte-americana seguem em andamento.

Do ponto de vista estratégico, há ainda dúvidas sobre a integração do Gripen aos sistemas de defesa do NORAD, fortemente alinhados aos Estados Unidos. Para o analista Justin Massie, da Universidade do Quebec em Montreal, decisões sobre o número de aeronaves não deveriam ser guiadas prioritariamente por critérios econômicos. Segundo ele, a ausência de garantias quanto à interoperabilidade plena com o NORAD pode comprometer a coerência militar da frota canadense.

Mesmo assim, a campanha da Saab tem encontrado ressonância na opinião pública. Pesquisa recente da Ekos indica que 43% dos canadenses preferem a aquisição de uma frota de Gripen, enquanto 29% defendem uma frota mista composta por Gripens e F-35. A opção por uma frota exclusivamente composta por F-35 aparece como a menos popular, com apenas 13% de apoio, refletindo uma percepção cada vez mais associada às tensões políticas com os Estados Unidos.

Os dados revelam ainda diferenças regionais e políticas marcantes, com maior apoio ao Gripen em províncias como Quebec e Colúmbia Britânica, e maior simpatia pelo F-35 entre eleitores conservadores. Para analistas, o debate atual vai além das capacidades técnicas das aeronaves e reflete uma discussão mais ampla sobre alianças, autonomia estratégica e o papel do Canadá em um cenário internacional cada vez mais polarizado.

Diante desse quadro, Ottawa se encontra em uma encruzilhada. A escolha entre manter o caminho traçado com o F-35, adotar uma frota mista ou abrir espaço para o Gripen não será apenas uma decisão militar, mas uma definição de rumo estratégico que envolverá indústria, alianças e soberania por décadas.


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