quarta-feira, 24 de março de 2010

Para entender o Oriente Médio… tente algumas leituras


A maior dificuldade para escrever com consciência histórica é que a história não terminou. Seja como for, se quiser entender a Al-Qaeda, por exemplo, tente o parágrafo seguinte:

“O homem do deserto não merece crédito por sua fé (…). Ele alcançou essa intensa condensação de si mesmo em Deus porque fechou os olhos ao mundo e a todas as complexas possibilidades latentes nele, que só o contato com a riqueza e as tentações pode trazer à tona. Alcançou uma fé confiável e poderosa, mas em campo tão estreito! Sua experiência estéril roubou-lhe qualquer compaixão e perverteu sua generosidade humana para com a imagem da perda na qual se escondeu (…). Vem daí um gozo na dor, uma crueldade que vale mais para ele que quaisquer bens. (…) Encontrou luxúria na abnegação, na renúncia, na autocontenção. Fez a nudez da mente tão sensual quanto a nudez do corpo. É possível que tenha salvo a própria alma, e sem risco, mas num duro egoísmo.”

É de T.E. Lawrence, em Seven Pillars of Wisdom: a Triumph (1926) [Os Sete Pilares da Sabedoria: Um Triunfo, Rio de Janeiro: Record, trad. C. Machado] – e que perfeição! Sempre lembro dessa passagem quando assisto aos videoteipes de Bin Laden. O campo estreito. A abnegação. A crueldade. Não concordo necessariamente com Lawrence, mas em trechos como esse, percebo-me refletindo cada vez mais profunda e intensamente sobre suas palavras.

Digo isso porque, várias vezes por ano, leitores do Independent pedem-me que sugira “uma lista de leituras” de livros em inglês sobre o Oriente Médio. Não é fácil. A maior dificuldade para escrever com consciência histórica sobre o Oriente Médio é que a história não terminou. A guerra continua. Os dois “lados” – de fato há muitos, muitos lados – produzem narrativas conflitivas. E não aceito a ideia de que se possa oferecer uma lista equilibrada de livros. Há a versão de Israel. Há a versão dos árabes. Há a versão alucinada dos norte-americanos etc. O Oriente Médio é questão de injustiça. Quem contará melhor a história?

No que tenha a ver com a disputa árabes-israelenses, os dois incomparavelmente melhores livros são The Arab Awakening: the history of the Arab National Movement (Londres, 1938) de George Antonius, e The Gun and the Olive Branch (1977), de meu colega e amigo David Hirst. Antonius escreveu em 1938; Hitler já estava no poder há cinco anos – mas dez anos antes de os palestinos serem ativamente assaltados. – E escreveu que:

“O tratamento imposto aos judeus na Alemanha e em outros países europeus é uma desgraça para os autores e para a civilização moderna. A posteridade não perdoará nenhum país que não assuma a sua parcela de sacrifícios para aliviar o sofrimento e o desespero dos judeus. Impor toda a carga à Palestina árabe é miserável movimento de fuga ao cumprimento do dever moral que cabe a todo o mundo civilizado, além de ser moralmente vergonhoso. Nenhum código moral pode justificar a perseguição de um povo, como meio para aliviar a perseguição de outro. A cura para a expulsão dos judeus da Alemanha jamais será a expulsão dos árabes, de sua própria terra (…).”

Foi o primeiro sinal verdadeiramente eloquente do que estava para acontecer, e Hirst completou a narrativa das muito acuradas predições de Antonius, o primeiro autor, parece-me, a enfrentar o romance-lixo Exodus, com o qual Leon Uris agraciou o Estado judeu – para deleite de Ben Gurion, embora devesse ter pensado melhor –, ao desconstruir o “terrorismo”, sem romantizar os refugiados palestinos e seus movimentos de resistência.

Nesse mesmo contexto, deve-se lembrar o trabalho dos “novos historiadores” de Israel, que criaram uma narrativa complementar. Benny Morris foi o mais proeminente pesquisador israelense a provar que foi intenção de Israel expulsar os palestinos e arrancá-los de suas casas às dezenas de milhares em 1948. O fato de que, depois, Morris não tenha feito outra coisa além de reclamar que a limpeza étnica não tenha sido suficientemente eficaz e ampla não diminui a importância de seu trabalho anterior, seminal.

Dizem que F. R. Leavis, certa vez, iniciou um parágrafo com “Como qualquer leitor-que-preste de poesia sabe…”. Então, acho que podemos dizer que “qualquer leitor-que-preste” de livros sobre o Oriente Médio deve ler Edward Said. Um de seus melhores livros, aliás, é sobre música. Mas Orientalism [Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2003] sempre será necessário em qualquer lista. Said fez filosoficamente e historicamente, pela narrativa do Oriente Médio, o que Antonius fez politicamente. Não estou subestimando o trabalho político de Said – embora vários críticos tenham anotado que Said talvez não tenha levado n a devida consideração a vasta literatura “orientalista” que brotou na Itália, na Alemanha e na Rússia. Mas não o estou condenando como o condenaram Al Dershowitz e sua gangue.

A União Soviética, claro, sempre teve problemas com o Profeta, porque Maomé foi comerciante e burguês. Jesus Cristo, pelo menos, nasceu em família de trabalhador, embora não se saiba se José, carpinteiro, possa ser dito Stakhanovita recomendável. Mas devo dizer que o fato de Maria e José terem tido de viajar até Jerusalém para pagar impostos é absolutamente otomano, de tão burocrático. E que nenhum hotel aceitasse hospedar uma mulher grávida, sim, tem sabor de Oriente Médio. Mas, não, não! Não vá eu, agora, virar “orientalista”!

E há também esse brilhante pensador e jornalista libanês, o saudoso Samir Kassir – muito saudoso, porque foi assassinado há quase cinco anos, e a última coisa que vi dele foi o sangue ao lado do carro explodido – cuja monumental história de Beirute, em inglês, estará nas livrarias esse ano (admito: estou escrevendo o prefácio).

Tudo que você algum dia quis saber sobre Beirute – e muito, receio, que você preferiria jamais saber – está no livro de Kassir. Ele lembra como, há cem anos, um jovem capo di capo cristão – um Costa Paoli – tinha o hábito de beijar o rosto dos cristãos libaneses recém assassinados, antes de que fossem sepultados. Era homem elegante – “uma rosa na lapela e lenço perfumado no bolso do paletó”, segundo o professor Edward Atiyah –, e um gângster; vingava-se dos muçulmanos. Naqueles dias, havia milícias e grupos armados de apoio às comunidades cristãs e muçulmanas, e às vezes, havia briga de rua.

Exatamente como o meu colega David McKittrick descobriu que, na Belfast do século 19, as primeiras lutas de rua ocorreram nos mesmos locais onde aconteceram as batalhas dos anos 70s, assim também já se sabe que, na Beirute do século 19, os conflitos entre as milícias armadas aconteceram nos mesmos locais onde eclodiria a Guerra do Líbano de 1975.

Kassir é o primeiro autor cujo único personagem humano é uma cidade, em cuja bela e terrível história vêem os homenzinhos girando em rodas de tortura. Eu não sabia que o subúrbio onde reina o Hizbollah, Ouzai, recebeu esse nome para homenagear o velho divino Imã Ouzai; ou que o Partido Social Nacionalista Sírio – uma tediosa sociedade pan-árabe – inspirou-se, para criar sua bandeira vermelha, branca e preta (com penas cruzadas), nos nazistas; ou que o palavrão (em árabe) sharmut ou sharmuta – “puta” – e que hoje se usa a torto e a direito, surgiu da tão mais gentil e suave “charmante”, francesa. Lawrence e demais autores, por favor, anotem.

Fonte: Carta Maior
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2 comentários:

  1. http://brasilnicolaci.blogspot.com/2010/03/para-entender-o-oriente-medio-tente.html


    Excelente texto...mas tem pontos que mostra que quem o escreveu nao é um grande conhecedor de Historia,

    "Jesus Cristo, pelo menos, nasceu em família de trabalhador, embora não se saiba se José, carpinteiro, possa ser dito Stakhanovita recomendável. Mas devo dizer que o fato de Maria e José terem tido de viajar até Jerusalém para pagar impostos é absolutamente otomano, de tão burocrático. E que nenhum hotel aceitasse hospedar uma mulher grávida, sim, tem sabor de Oriente Médio"

    como é isso? pensam realmente que a familia de Cristo teve que ir a ""Jerusalem" pra pagar impostos"? Isso é uma piada???

    E que Maria teve que parir num estabulo porque nao a aceitaram em um "hotel" por estar gravida??? e ainda acham que isso é coisa tipica do Oriente Medio?? Outra piada de mal gosto...

    deixa-me ensinar aos mal informados...

    Jose e Maria NAO tinham que ir a Jerusalem...pra comecar eles tinham que ir a Belém...

    O motivo da viajem nao era "pagamento de Impostos", e sim o cumprimento de uma ordem do Imperador Romano Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus (em Latin) em portugues Caio Júlio César Otaviano Augusto que ordenou que TODOS que viviam dentro do Imperio Romano e que nao fossem nem militares e nem escravos, voltassem a sua terra natal para realizacao do Censo (criacao romana e que no dia de hoje se conhece como Censo Demografico)... Foi por isso que Jose e Maria, assim como outros milhares ou milhoes de pessoas tiveram que por o pé na estrada.

    Porque Maria teve de conceber Jesus num Estabuo:

    Por que anos antes, a ocupacao romana da Judeia tinha sido muito violenta, provocando mais uma diaspora das varias que ja tinham ocorrido.. assim que... como estamos falando do ano DOMINI, nenhum lugar do mundo ocidental tinha uma vasta rede hoteleira como temos nos dias de hoje...

    Simplesmente nao havia "casas de hospedagem" disponiveis... milhares de pessoas dormiam nas ruas durante a realizacao desse censo. Basta ler a descricao que Tacitus faz da Cidade de Roma na mesma ocasiao...se Roma que era uma das maiores ou talvez a maior cidade do Mundo nao tinha estrutura para hospedar tanta gente que vinha das partes mas remotas do Imperio... pensa mesmo que a pequena cidade de Belém teria??

    outra coisa??? é impressao minha ou eu li a palavra "Otomano"??? É outra piada??? se até minha filha de 1 ano sabe que os Otomanos nessa época era apenas uma tribo nomade sem importancia vizinha dos mongois lá ba Siberia...como alguem pode mensionar a palavra Otomano quando se esta falando da Antiguidade???

    Me deixe explicar uma coisa... Os Otomanos, tambem chamados de Turcomanos ou atualmente conhecidos como Turcos ou Turcomenos... so apareceriam nessa regiao por volta da Alta Idade Média ou seja, quase 1096 anos depois do nascimento de Jesus.... Mas DE UM MILENIO DEPOIS!!!

    So pra que o leitor tenha ideia.. quem escreveu o texto esta tao desinformado que os Otomanos invadiram Constantinopla (e com isso chegaram dentro da Europa) apenas em 1453... pra ser mais exato..29 de Maio de 1453, dando com isso o Fim da Idade Media e o Inicio da Idade Moderna...foi esse o fato que geraria o descobrimento da America....

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  2. Continuacao:

    Agora... o que mais repugno no texto é o racismo discriminatorio contra o Arabe, o Otomano e o Judeu que eu percebi no texto:

    "Mas devo dizer que o fato de Maria e José terem tido de viajar até Jerusalém para pagar impostos é absolutamente otomano, de tão burocrático. E que nenhum hotel aceitasse hospedar uma mulher grávida..."

    Como ja expliquei que nao podia se tratar dos Otomanos e de qual o motivo da falta de hospedagem... mas quero lhes informar que se houve Burocracia...mas uma Burocracia tao absurda a ponto de uma mulher Gravida nao poder se hospedar em uma estalagem qualquer, a responsabilidade nao é de nenhum Judeu, nenhum Arabe e muito menos dos Otomanos... sabe porque??

    por que quem eram os governantes na época dessa regiao eram os (para muitos) maravilhosos EUROPEUS... Porque toda essa parte pertencia ao Imperio Romano... por isso, a lei e a Burocracia tambem era regida por eles.

    mas como ja expliquei... isso tudo só pode ser uma piada de mal gosto... por que nao se passou da forma que foi escrita pelo autor do Artigo...

    O TRABALHO DEVE SER O DE INFORMAR, O DE EDUCAR...E NAO O TRABALHO DA DESINFORMACAO.
    O autor cujo texto é "para entender o Oriente Medio"... tem que continuar a ler muito....porque ele tao pouco o entende.

    Saudacoes Patrioticas

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