quarta-feira, 15 de março de 2017

Síria e sua revolução sequestrada

País segue se dilacerando num conflito que já dura mais do que a Segunda Guerra Mundial. O que nasceu como apelo de liberdade popular contra o ditador Assad é hoje uma guerra por procuração de potências estrangeiras.

Em parte do mundo árabe, a breve "primavera" de 2011 deu lugar a um amargo inverno. No Egito, quem rege é o general Abdel Fattah al-Sisi; no Bahrein a família real dos Al-Khalifa continua a ocupar o trono; na Líbia impera o caos, após a queda de Muammar al-Kadafi.

Mas nada disso se compara à situação na Síria. O que começara pacificamente como protesto em março de 2011 escalou num conflito de extrema crueldade, que já dura mais do que a Segunda Guerra Mundial e, segundo estimativas da ONU, custou mais de 400 mil vidas. Os combates desencadearam a maior catástrofe de refugiados da era contemporânea: mais da metade dos 21 milhões de sírios abandonou duas casas, mais de 4 milhões deixaram o país.

Para descrever o sofrimento da população, as Nações Unidas e as organizações humanitárias recorrem a superlativos sempre novos. Na terça-feira (14), em Genebra, o alto-comissário da ONU para dos Direitos Humanos, Seid Ra'ad al-Hussein, classificou a guerra civil síria como "pior catástrofe causada por seres humanos desde a Segunda Guerra", num país que se transformou numa câmara de torturas.

Assad e o Ocidente

Assim como seu pai, Hafiz, o ditador Bashar al-Assad mandou seu Exército atirar no próprio povo, fez chover bombas, torturar, encarcerar, matar oposicionistas. Como formulou Yezid Sayigh, do Carnegie Middle East Center, em Beirute: "Pai e filho provaram sua disposição para aplicar violência, até mesmo extrema."

Mas o especialista em assuntos sírios ressalva que "os Assad nunca apostaram só na força". "Como a maioria dos governos, eles asseguraram para si a aquiescência da população através da distribuição de recompensas sociais e econômicas. Por isso o regime Assad tem desfrutado de um alto grau de tolerância e aceitação."

Sayigh conclui: "Temos sobretudo a política americana, britânica e francesa, apoiada pelo resto da Europa, que está fixada numa interpretação muito simplista da natureza do regime e de sua posição na sociedade, assim como em ideias de sua queda iminente. Com isso, encorajaram expectativas exageradamente otimistas da oposição. Ambos os lados se alimentaram mutuamente com expectativas falsas e se atolaram nelas."

Foi assim que, cedo demais, o Ocidente, a Turquia e as monarquias do Golfo Pérsico apostaram numa solução do conflito sírio sem Assad. Isso fechou o caminho para negociações, mas o abriu para que os Estados vizinhos perseguissem, cada um, suas próprias intenções na Síria.

O especialista Yezid Sayigh confirma que, muito rápido e independentemente entre si, os governos ocidentais e as monarquias do Golfo passaram a atender suas próprias e distintas metas, financiando diferentes grupos, sem fechar compromissos efetivos.

Aliados como problema

Em 2 de outubro de 2014, foi ninguém menos do que o então vice-presidente americano, Joe Biden, a proporcionar uma visão inesperadamente franca da situação na Síria aos estudantes da Universidade de Harvard. Durante uma rodada de perguntas e respostas, após 52 minutos, Biden deixou escapar:

"Nossos aliados são o nosso maior problema na Síria: a Turquia, os sauditas, os Emirados. Eles estavam tão obcecados em derrubar Assad e desencadear uma guerra de sunitas contra xiitas, que distribuíram centenas de milhões de dólares e milhares de toneladas de armas a qualquer um que estivesse disposto a lutar contra Assad. Só que os que foram equipados eram da Al-Nusra e da Al-Qaeda, e jihadistas extremistas de todas as partes do mundo."

Não existe um centro político moderado na Síria, assegurou o político americano aos universitários: "Um centro moderado é formado por proprietários de terras, não por soldados." A essa altura, a revolução síria, o sonho de liberdade e direitos humanos, havia sido sequestrada por jihadistas islamistas.

O que Biden não comentou em Harvard é a existência de importantes indícios de que, já muito antes de 2011, os EUA vinham articulando uma mudança de regime na Síria. Entre eles estão os despachos diplomáticos de William Roebuck, alto funcionário da embaixada americana em Damasco, vazados pelo Wikileaks.

Em 13 de dezembro de 2006, ele telegrafou a Washington sugestões para a desestabilização de Assad. "Achamos que um ponto fraco de Bashar é como ele se comporta em situações perigosas. Entre elas, situações de conflito subjetivas e reais, como os conflitos entre reformas econômicas (por mais limitadas que sejam) e forças incrustadas e corruptas; a questão curda e a ameaça potencial para o regime representada pela presença crescente de extremistas islâmicos."

Segundo Roebuck, esse resumo dos "pontos fracos" do presidente sírio sugeria "a probabilidade de incentivar a ocorrência de tais eventos, através de ação, declarações e sinais pertinentes". No mesmo despacho, o diplomata propõe que se instiguem as tensões entre sunitas e xiitas.

Apoio russo e iraniano

O cientista político Jörg-Michael Dostal considera "importante ver o conflito sírio como último capítulo de uma longa luta pelo Oriente Médio, sobretudo por petróleo, gás e vias de transporte". Ele salienta que desde 1956 a Síria está fora da esfera de influência dos EUA e que, justamente para mudar essa situação, já houve numerosas tentativas de golpe pelos serviços secretos americanos.

A proximidade da Síria com a Rússia e sua aliança de defesa com o Irã, existente desde 1980, são uma pedra no sapato de Washington. E é precisamente o apoio maciço desses dois países, assim como o do grupo Hisbolá, no Líbano, que tem garantido a sobrevivência do regime sírio. Os aliados de Assad, contudo, não têm tido consideração com a população civil.

Depois de seis anos de guerra, a Rússia e o Irã são as principais forças estrangeiras na Síria, à medida que os apoiadores externos da oposição vão se retirando, exaustos.

"Os EUA, os europeus, os sauditas, os catarianos e, desde meados de 2016, também a Turquia, vão assumindo a posição: 'Nós fizemos o que podíamos, mais não podemos e não vamos fazer mais. A partir de agora, esperamos poder dar fim à violência, mas não vamos nos esforçar muito para assegurar isso.'"

O especialista de Beirute aposta pouco nas negociações sobre a Síria em Genebra e não espera que se firme um acordo de paz formal. Em vez disso, assim como a maioria dos observadores, ele conta com a perpetuação do regime Assad.

De olho na reconstrução

Mesmo que a violência ainda vá durar alguns anos, começa a se cogitar a reconstrução do país amplamente destruído. Nesse contexto, o perito em Oriente Médio Dostal apela para que os europeus suspendam as sanções contra a Síria, e invistam em especial na educação.

"Precisamos estar cientes de que o extremismo islâmico também prospera poe culpa do colapso do sistema de ensino", alerta o cientista político que leciona em Seul, Coreia do Sul.

Nesse sentido, é oportuno o anúncio da chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, de que a UE se empenhará mais pelos esforços de paz no conflito sírio. Não só entre os sírios como também na região, em geral, a União Europeia é considerada uma parceira confiável e digna de crédito, afirmou nesta terça-feira, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.

O bloco está "perfeitamente posicionado" para desempenhar um papel relevante, não só no campo da ajuda humanitária mas também como agente político, reforçou a diplomata italiana.

Isso seria uma boa coisa. Pois o drama sírio se desenrola bem às portas da Europa.

Fonte: Deutsche Welle

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