segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Estamos diante de uma nova "Guerra Fria"?

Nos últimos anos temos revivido cenas que nos remete aos tensos dias da “Guerra Fria”, onde a tensão entre a extinta URSS e os membros da OTAN deixavam o mundo a beira de um apocalipse nuclear. Porém, hoje, apesar das memórias que nos vem a mente daqueles dias incertos, hoje apesar do constante aumento no atrito na relação entre EUA e seus aliados europeus com a Rússia, herdeira do grande poderio e posição de contraponto no leste europeu e Eurásia em relação á política dos EUA e OTAN, vivenciamos uma realidade completamente diferente da que vivíamos naqueles dias, principalmente quando olhamos para as questões econômicas e mesmo políticas, onde temos um cenário muito mais complexo e dinâmico,porém, com menor risco de chegarmos á um conflito nuclear ou mesmo uma terceira guerra, embora essa segunda hipótese não seja descartada devido alguns fatores que corroboram para teorias nas quais apontam para o irrompimento de um conflito mundial dentro de alguns anos, se o cenário atual mantiver as escaladas de tensão as quais temos presenciado a cada dia.

Atualmente presenciamos ações que podemos tomar como provocativas partindo de ambas as partes, movimentos em um tabuleiro “virtual”, onde a demonstração de força e capacidades é a principal arma desta série de ações que podem vir a culminar em um conflito futuro, envolvendo as nações europeias, a Rússia e os EUA, talvez, ainda podem se juntar mais estados á esta “crise”, ampliando o espectro do conflito, tendo em vista a emergente capacidade chinesa no campo de defesa, além dos atritos causados por seus intentos e reivindicações nas águas do Mar do Sul da China, levando a tensões com alguns estados asiáticos de menor expressão militar, porém, protegidos pelo aparato norte americano.

Recentemente foram diversas as noticias de incidentes envolvendo forças navais e aeronaves em diversas regiões, algo que não era visto desde meados das décadas de 70 e 80, época em que vivíamos mergulhado na “Guerra Fria”. Podemos citar aqui incidentes que envolvem aeronaves RC-135 norte americanas que voaram inadvertidamente próximas as fronteiras russas com seus transponders desligados, resultando na interceptação das mesmas por aeronaves russas, que por sua vez executaram manobras perigosas durante a interceptação, o que se tornou motivo de muitas reclamações de ambas as partes. Em outra ocasião, um Destróier norte americano foi interceptado e sobrevoado por aeronaves russas, que efetuaram passagens rasantes simulando um ataque, porém, ambas aeronaves envolvidas no incidente não portavam armamento.

Os EUA e seus aliados da OTAN expandiram as fronteiras da aliança, agregando novos signatários ao seleto grupo, chegando as fronteiras russas e posicionando armamentos nestas posições, algo que gerou desconforto no lado russo, tendo em vista a implantação em alguns estados fronteiriços de sistemas antimísseis, levando a Rússia a repensar seus investimentos no campo de defesa e gerando uma verdadeira revolução nas suas capacidades e armamentos, passando a apresentar nos últimos 10 anos grandes avanços no campo de defesa, com novos MBTs, aeronaves,navios, sistemas, mísseis e outros meios que levaram a Rússia á um novo patamar quando falamos em seu potencial de defesa e projeção de força, embora a mesma ainda apresente deficiências em vários campos.

O conflito civil ucraniano no qual a oposição ao governo foi apoiada pela Rússia, e resultou na anexação da Crimeia pela Rússia após refendo popular, aumentou o atrito com os membros da OTAN, organização á qual a Ucrânia visa fazer parte.

Em 2015, para ser mais preciso, em 30 de setembro de 2015, a Rússia promoveu uma ação militar na Síria, algo que não assistíamos á anos, respondendo ao pedido do governo reconhecido de Bashar Al Assad, que tinha por objetivo combater a ameaça do terrorismo representada pelo Estado Islâmico e grupos radicais presentes no conflito civil sírio. A ação russa foi determinante para retomada de importantes bastiões do poder do EI, levando a uma virada no conflito que contou não apenas com um destacamento aéreo,mas com apoio de mísseis de cruzeiro Kalibr lançados de diversas regiões e por navios e mesmo submarinos, mostrando ao mundo a precisão e capacidade das forças russas em atacar alvos muito longe de “casa”, somando a inúmeros tipos de aeronaves e armamentos desdobrados na região de conflito e principalmente á capacidade C4I que demonstrou a eficácia da inteligência russa na identificação e neutralização de ameaças. No ano seguinte a Rússia deslocou uma força naval que foi capitaneada pelo seu único porta aviões, levando as marinhas europeias a mobilizar meios navais afim de acompanhar a distancia a passagem desta força nas proximidades de suas águas territoriais, embora a operação do “Kuznetsov” no conflito sírio não tenha sido de grande importância, serviu de laboratório para o desenvolvimento da futura nova classe de porta aviões russa e ainda a avaliação do grupo aéreo embarcado, o qual perdeu duas aeronaves durante operações de treinamento e pouso.

A Europa hoje passa por uma grande crise, diante da qual enfrentam uma outra realidade em relação a que se vivia nos anos 80, hoje os orçamentos de defesa estão cada vez menores, os programas de desenvolvimento cada vez mais caros, tornam cada vez mais difícil dotar os membros da OTAN de meios suficientemente modernos e capazes de contrapor uma hipotética ameaça russa, com grandes cortes nas capacidades de suas forças militares, que vem desativando muito de seu material bélico, o qual em grande parte pode ser considerado obsoleto ou sem condições de contrapor ameaças no cenário de conflito moderno. Diante desta nova realidade, alguns países tem apelado aos EUA para que sejam estacionadas forças militares da mesma afim de garantir um real potencial de defesa aos países da região.

No tabuleiro complexo que nós vislumbramos, ainda há o grande aumento das patrulhas submarinas levadas a cabo pela força de submarinos russos, talvez o meio mais moderno e temível da Rússia no atual cenário, apresentando um nível de atividade que só era visto durante a “Guerra Fria”, algo que tem criado preocupação na Europa, onde suas marinhas enfrentam um período difícil, ocasionado pela transição de plataformas antigas que estão sendo descomissionadas e a entrada de novos meios, que embora mais modernos e capazes, ainda enfrentam diversos atrasos e problemas técnicos comuns aos modernos programas de defesa. Tal conjuntura eleva em muito o desgaste na estrutura operativa das esquadras europeias.

Olhando agora mais para o continente asiático, podemos notar um grande avanço da China no que diz respeito as suas capacidades militares, o gigante asiático tem desenvolvido grande tecnologia em diversos campos, chegando em certos campos no mesmo nível da Rússia e EUA, sendo um importante ator no cenário a ser considerado, e também há registros de incidentes envolvendo atividades militares chinesas e dos EUA, onde por diversas vezes os chineses ousaram, e elevaram a tensão,principalmente no Mar do Sul da China.


Hoje não afirmo que vivemos uma nova “Guerra Fria”, porém, estamos bem próximos disso e mesmo de um conflito de larga escala, o qual pode alterar severamente as relações de força e poder e seus eixos no futuro, cabe mantermos atenção ao desenrolar dos fatos e tirar os “antolhos” da ignorância, uma vez que não há no mundo mocinhos ou bandidos, mas sim interesses, e dentro destes é que são forjadas alianças e conduzidos conflitos e revoluções.



Por: Angelo Nicolaci - Editor, Jornalista e graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica e defesa, geopolítica do Oriente Médio, Leste Europeu e Rússia.


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