quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estudos sobre o futuro do fenômeno da Guerra


Introdução

São inúmeras as problemáticas de que enfermam as Relações Internacionais. No entanto, ao contrário do que se verifica com outras áreas críticas como as alterações climáticas, as migrações ou a globalização, o fenómeno da Guerra não parece reunir a mesma atenção da comunidade de investigadores de Relações Internacionais. Interessa pois abordar uma temática tão antiga como a própria humanidade, estabelecendo paralelos com uma realidade cada vez mais consensual nos círculos de análise das Relações Internacionais: a tendência para uma transição definitiva de um momento unipolar para uma distribuição de poder multipolar. Será também verosímil aceitar que esta ascensão poderá induzir fricções na competição internacional passíveis de evoluírem para formas de conflitualidade hostil. Tendo por base este pressuposto conceitual, propomo-nos aquilatar sobre a influência e implicações de fatores chave (drivers) e tendências futuras no fenômeno da Guerra. Argumentamos que estas evoluções no contexto internacional implicarão uma transformação tríptica no fenômeno da Guerra, alterando o seu conceito, a identidade do combatente e a magnitude dos seus efeitos.

Numa perspectiva analítica, qualquer atividade de investigação científica procura racionalizar a realidade através de procedimentos testáveis. Ao reduzir a complexidade da realidade, tornando-a inteligível através de esquemas interpretativos, é possível verificar a validade das teorias. Ao equacionarmos as metodologias de investigação em Relações Internacionais deparamo-nos com uma panóplia abrangente de processos e instrumentos que poderão ser aplicados isoladamente ou combinados sob a forma de um método científico de produção de conhecimento.

Amparados pelo método básico de investigação em Ciências Sociais procuramos expandir o nosso percurso de descoberta. Cientes da diversidade metodológica, optamos por uma perspectiva pragmática que encara as problemáticas de Relações Internacionais como uma ferramenta de apoio à decisão política. Logo, como um instrumento prospectivo que através do conhecimento do passado informa as decisões do presente para formular ações estratégicas futuras. Assim, este ensaio foi guiado por um método indutivo com carácter prospectivo. Ao tentarmos mapear futuros plausíveis, através da análise histórica e do estudo de tendências futuras, procuramos avaliar a situação presente de forma a formular sugestões de processos que conduzam ao futuro desejado. Ao refletirmos sobre o que pode acontecer, conseguimos aperceber-nos sobre o que poderemos fazer, e acima de tudo, como vamos fazê-lo.


Importância dos Estudos sobre o Futuro

Ao perscrutar a literatura deparamo-nos com um conjunto de metodologias sob a denominação de Pesquisa de Futuros, Estudos de Futuros ou Estudos Prospectivos. A metodologia de futuros procura criar, explorar e testar de forma sistemática possíveis cenários vindouros bem como os efeitos de eventuais decisões estratégicas.

Contudo, estamos cientes das advertências acerca da inutilidade da identificação de tendências para guiar a ação futura. As tendências não são fatos dado que mudam de caráter e provocam alterações não-lineares, em particular quando dizem respeito a interações humanas. Por isso, a previsão do futuro é inerentemente imprecisa. De igual modo, a aceleração do ritmo das mudanças globais reduz o tempo disponível para tomar as decisões adequadas. Por exemplo, poucas pessoas conseguiram antecipar a crise financeira global, e menos ainda determinaram a sua profundidade e abrangência. Acrescenta-se que a observação das grandes obras do passado oferece o único guia para o futuro. No entanto, o valor da pesquisa sobre o futuro não reside na precisão da previsão mas sim na determinação das tendências que permitam melhor informar o processo de decisão político, assim como possibilitar uma transformação de mentalidades acerca de cenários plausíveis. Assim, os estudos sobre as inovações tecnológicas e sociais futuras aumentam a capacidade de antecipar e responder a possíveis desafios e ao mesmo tempo explorar as oportunidades existentes. Conscientes destes avisos, sustentamos que o processo de decisão estratégico deverá encarar os estudos sobre as tendências globais, não como certezas, mas numa perspectiva de informação e consciencialização acerca de possíveis implicações para as Relações Internacionais. É neste sentido que se enquadram os estudos sobre o futuro como ferramentas de apoio à decisão, sustentados por metodologias prospectivas diversas.

Grande parte dos estudos sobre o futuro apoia-se metodologicamente em ferramentas prospectivas como o método de Delphi e a cenarização. Enquanto o objetivo do método de Delphi é permitir a exploração criativa de ideias para apoiar a decisão através da recolha e destilação de conhecimento de um grupo de peritos, o método de cenários combina fatores chave com tendências no sentido de criar futuros plausíveis sobre os quais se podem antecipar possíveis ameaças e oportunidades. Importa esclarecer que cenários não são previsões. São perspectivas provocativas e plausíveis sobre diversas formas como o futuro se poderá desenrolar, em áreas diversas como o ambiente político, geoestratégico, desenvolvimento social, econômico ou tecnológico. São por isso hipóteses que visam ampliar o nosso pensamento acerca das oportunidades e ameaças que possam surgir permitindo uma adequação das decisões estratégicas. Nesse sentido, os historiadores analisam o que aconteceu, os jornalistas dão-nos uma imagem do que está a acontecer e os futuristas avançam com o que poderá acontecer e ajudam-nos a pensar sobre aquilo que queremos obter. É por isso uma abordagem multi-disciplinar dos factores de mudança em áreas fundamentais da vida humana para descortinar as dinâmicas de novas eras. Desta forma, futuristas como Arthur C. Clark, os Toffler, George Orwell ou Ray Kurzweil, sondam o ambiente estratégico de forma a entender as tendências e os padrões de evolução e, de certa forma estabelecer extensões da realidade para identificar futuros plausíveis.

É assim natural que a documentação estratégica plasme os resultados dos estudos sobre o futuro com o intuito de fornecer pistas de ação. Assim, o desafio primordial para o decisor político é tentar fazer uma escolha informada tendo em consideração as implicações dessas tendências. Este dilema do decisor revela em retrospectiva que certas escolhas estratégicas foram inapropriadas. Dessa forma, ao tentarmos projetar um futuro para as próximas duas décadas estamos conscientes desses perigos, na medida em que indagando 20 anos no passado registramos a incapacidade de prever o fim pacífico da Guerra-Fria, ou a queda do muro de Berlim seguida do colapso da União Soviética e do resultante momento unipolar. Durante este período de pausa estratégica, aparentemente livre de ameaças eminentes, os EUA aproveitaram para prosseguir uma revolução nos assuntos militares. Assim, a maioria das previsões futuristas não foram capazes de antecipar a ascensão de atores não-estatais apoiados em fundamentalismos religiosos e culturais. Nesta era de mudanças tectônicas, onde o futuro não é uma extensão linear do passado, a experiência não é suficiente para apoiar o processo de decisão. Contudo, o que está em causa não é o fim, mas sim o método, ou seja, não é o plano, mas sim o processo de planeamento.


Reflexos do Futuro

A partir de uma análise fundamental dos drivers da mudança é possível aquilatar a sua relevância e impacto nos possíveis cenários futuros. Nesse âmbito, a síntese do futuro, apresentada por Thomas Freedman, como “hot, flat and crowded” expõe as tendências de aquecimento global, a ascensão das classes médias e o rápido crescimento demográfico. Esta análise revela a possibilidade de que o futuro possa trazer uma combinação explosiva de rivalidade geopolítica e crise ambiental. Da mesma forma, o acesso a recursos naturais irá renovar a ênfase na geografia e geopolítica. Por exemplo, a reclamação da soberania sobre os recursos naturais do Ártico poderá tornar-se a disputa territorial mais importante deste século, com implicações severas sobre o ambiente global. O envelhecimento populacional é outro dos dados adquiridos, sendo a Europa o continente mais afetado. Por outro lado espera-se uma explosão demográfica no mundo em desenvolvimento. Entretanto, cerca de 1 bilhão de pessoas sofrem atualmente de subnutrição e estão limitadas no acesso a água potável. Sem alterações políticas e tecnológicas, espera-se que em 2025, fruto do aumento de população e de alterações climáticas, este número atinja 3 bilhões. Estas previsões permitem antecipar fortes possibilidades de migração e conflito, promovendo alterações dramáticas nos fluxos migratórios em direção às cidades, em particular na África e Ásia. Apesar da tendência global da redução da pobreza continuar será expectável que o ritmo abrande como consequência da crise financeira e dos preços crescentes dos bens alimentares, matérias-primas e recursos energéticos.

A caracterização de Hernâni Lopes sobre a desmaterialização do espaço e contração do tempo revela-se adequada para definir o ambiente globalizado atual, em consequência da conectividade, interação e interdependências no sistema internacional. Neste sentido, a globalização continuará a contribuir para reorganizar as potências segundo o estatuto geográfico, étnico, religioso e sócio-econômico. Concomitantemente, a globalização assegurará a difusão e acessibilidade de tecnologia, facilitando a disrupção das sociedades modernas. Assiste-se pois a uma dupla tendência de multiplicação e descentralização tecnológica.

Durante grande parte do século passado, o desenvolvimento tecnológico militar ultrapassou o civil. No entanto, com a chegada da era da informação esta tendência reverteu-se. Atualmente, a indústria é a maior fonte de Investigação e Desenvolvimento, proporcionando tecnologias comerciais “off-the-shelf”. Esta mudança do setor governamental para o privado poderá aumentar a dependência do setor militar em serviços e tecnologias comerciais. Para além disso, as tendências para outsorcing e offshoring de algumas das funções vitais dos EUA agudizam esta problemática. Peter Singer ilustra estes desafios questionando as implicações dos EUA travarem uma Guerra com hardwares feito na China e softwares feito na Índia. Acrescenta-se que as inovações mais disruptivas raramente permanecem propriedade de um país por um longo período. Aquilo a que Max Boot apelida de disseminação e niilificação tecnológica tem ocorrido ao longo da história. Veja-se o caso das armas nucleares, dos satélites, do armamento de precisão ou dos sistemas aéreos não-tripulados. No caso das plataformas não-tripuladas, elas fizeram já parte em 2006 da panóplia de meios utilizados pelo Hezbollah contra o estado de Israel.

Esta tendência de difusão tecnológica, tanto na proliferação como na redução de custo de sistemas de armas, poderá permitir uma época continua de “saldos da Guerra”, assegurando que uma determinada nação ou organização privada possa atingir um estatuto militar preocupante. Contudo, enquanto a difusão tecnológica não ocorre, ou nos casos em que não é transferível, os adversários encontram métodos que infligem efeitos equivalentes à potência dominante. Por exemplo, a Al Qaeda não possui armamento de precisão característico das guerras modernas, no entanto, será leviano pensar que se resignará a promover atentados de destruição massiva. Pelo contrário, desenvolve e aplica com sucesso a variante assimétrica dos ataques guiados com precisão: o homem-bomba suicida. Tal como as forças equipadas com os sistemas mais modernos e dispendiosos conseguem aniquilar as cúpulas dirigentes, também o adversário, com equipamento rudimentar e econômico, atinge os mesmos objetivos. Atente-se ao último ataque no Afeganistão, onde um terrorista suicida penetrou numa base avançada da agência de informações americana e dinamitou-se matando oito operativos civis americanos. Os efeitos estratégicos desta ação tática de bombardeio de precisão causaram um golpe profundo na moral americana.

Uma das implicações mais gravosas da mudança diz respeito à possibilidade de conflitualidade hostil. Neste campo, verifica-se que a fragmentação da violência armada, a diversificação dos atores armados e o esbatimento das fronteiras entre as modalidades de violência e seus atores são algumas das constantes dos últimos anos. Nesta década, o número total de conflitos decresceu de 21 em 1999 para 16 em 2008. Verifica-se também que neste período existe um reduzido número de conflitos travados diretamente entre dois estados soberanos. Poderá ser este um dos indicadores que sustenta a opinião de alguns analistas quando descredibilizam a possibilidade de guerras decisivas entre grandes potências, considerando apenas um ambiente de segurança pululado por uma miríade de pequenos conflitos. Outros académicos realçam a ineficácia técnica da guerra – estrategicamente desadequada para os fins políticos – advogando mesmo a possibilidade do relacionamento entre Estados arredar definitivamente os meios violentos para a consecução dos seus interesses nacionais. Esta hipótese de “rarefacção do fenômeno da guerra” é sustentada por diversas pistas como a periculosidade dos arsenais disponíveis e o consequente efeito de dissuasão; a desproporcionalidade dos meios usados; a relativa desvalorização dos territórios torna obsoletas as guerras de conquista; as guerras econômicas suplantam as guerras militares; razões ecológicas etc. Outros ainda destacam que os laços econômicos podem dissuadir a Guerra, tornando-a um instrumento excessivamente dispendioso. Finalmente, também a busca do poder na Era da Informação tem-se tornado menos coerciva entre países desenvolvidos.

Podemos então avançar que uma das principais razões para um possível interlúdio na guerra entre grandes potências tem a ver com a assimetria de poder militar relativamente aos EUA que impede a confrontação direta dos outros competidores. No entanto, esta suposição não significa que esses competidores renunciarão de competir de forma hostil com os EUA. Significa apenas que eles serão mais inovadores quando desafiarem a hegemonia americana.

Nunca como hoje se encontrou um poder militar com tão grandes capacidades como o dos EUA. Desde a tecnologia até à formação técnica e intelectual dos combatentes. No entanto, nunca como hoje se tornou tão difícil empregar esse instrumento. O espectro de conflito hostil transfigurou-se neste novo século. No passado a distinção entre conflito de baixa e alta intensidade era bem definida, assim como a separação entre os três níveis da Guerra, onde as forças militares eram optimizadas para combater a ameaça mais perigosa. Por outro lado, são cada vez maiores os constrangimentos impostos sobre este instrumento de poder nacional. Desde a legitimidade do uso da força até ao custo das operações militares, passando pela operação em coligação até à redução da tolerância de baixas colaterais e fratricídio, todos estes fatores são multiplicados exponencialmente pelo “efeito CNN” e pela ligação em rede de uma sociedade cada vez mais temerosa dos riscos. Junta-se a esta tendência a constatação de uma compressão dos níveis da Guerra e uma assimilação dos vários tipos de conflitos onde pululam atores nacionais, milícias privadas e atores não-estatais, recorrendo a tecnologia civil e militar para executar ações estratégicas multidimensionais, transversais ao cotidiano humano.

Mesmo detendo uma avassaladora superioridade militar sobre os adversários, pelo menos na dimensão convencional, os EUA continuarão a ser confrontados por estratégias assimétricas tendentes a explorar vulnerabilidades políticas e militares, constrangendo a sua liberdade de ação em tempo de crise. A perspectiva de um futuro multipolar onde a China, a Índia ou a União Europeia tenham um estatuto equivalente aos EUA poderá ser questionável. No entanto com o crescimento econômico diminuem as desigualdades e aumentam as necessidades de intervir ativamente na política internacional para defender os seus interesses. A par com o desenvolvimento econômico e político aumentarão também as necessidades de segurança militar, com reflexos diretos na manifestação da conflitualidade hostil.

Refletindo sobre o atual e o futuro contexto de segurança, o conceito estratégico de defesa americano apresenta uma cenarização dos desafios e ameaças em quatro quadrantes. Tendo por base o tipo de métodos empregados e os atores envolvidos, divide as ameaças em catastróficas, irregulares, disruptivas e tradicionais. Assim, os desafios tradicionais enquadram o conflito estatal com base em capacidades militares organizadas. O recurso a métodos não-convencionais, como a guerrilha ou o terrorismo, tipifica as ameaças irregulares. A categoria de desafios catastróficos engloba o desenvolvimento, aquisição e uso de armas de efeitos massivos. Neste campo, os atentados em 11 de Setembro preconizam as capacidades letais individuais. A contestação da superioridade americana em domínios chave como o informacional ou espacial através do emprego de tecnologias inovadoras enquadra-se na classe de desafios disruptivos. Contrariamente ao registo histórico, em que apenas um ou dois cenários seriam credíveis, o desafio atual consiste numa combinação simultânea de vários cenários. Neste âmbito, os EUA vêem-se obrigados a contrariar uma panóplia de modalidades de combate empregues de forma individual ou combinada por uma miríade de atores do sistema internacional.

No entanto, a ambição de aprontar umas forças armadas capazes de lidar eficazmente, de forma transversal, com estas ameaças tem custos elevados. Num aspecto puramente financeiro, regista-se um aumento dos custos com as forças militares. Por exemplo, o custo de cada membro das forças armadas americanas era em 2003 de 264.000 USD por ano. Relativamente aos aspectos funcionais também eles revelam alguma complexidade. Diferentes tarefas militares requerem competências específicas. O fato de se possuírem forças militares eficazes em operações de combate de larga escala contra atores estatais não significa que o sejam em operações de contra-insurgência. Os exemplos históricos dos conflitos americanos sustentam esta teoria. Alargando a perspectiva para a área de segurança, verificamos a impossibilidade prática de proteger todas as infra-estruturas críticas contra um possível ataque. Por exemplo, em Janeiro de 2006, os EUA tinham catalogadas 77,069 infra-estruturas, das quais 600 como críticas.

Em suma, a conjugação da miríade de fatores chave e tendências enquadradas num futuro multipolar implicam mudanças dramáticas ao sistema internacional. O aparecimento de novos atores globais, aumento de importância de blocos regionais e o acréscimo da influência individual poderá implicar uma maior difusão de autoridade e de poder, conduzindo a um deficit de governância global. Esta previsível redução da eficácia das instituições internacionais, na sua maioria arquitetadas pelos EUA, poderá condicionar as opções políticas americanas. Para além disso, e em consequência da assimetria registada no plano militar, somos tentados a avançar com uma proposta de alteração do fenómeno da Guerra segundo um esbatimento do conceito, uma alteração da identidade do combatente e da magnitude dos seus efeitos perante uma sociedade cada vez mais avessa ao risco.


Interpretação da Guerra numa perspectiva holística

Os fatores chave e as tendências identificadas anteriormente, nomeadamente a globalização e a difusão tecnológica, aumentam a complexidade do ambiente operacional. Nesse sentido, diversos autores apressam-se a caracterizar a realidade futura avançando novas taxonomias e introduzindo uma complexidade crescente à Polemologia. As referências a termos como Guerra Irregular, Não-Convencional, Assimétrica, Conflitos Fluidos, Híbridos e Guerra de 4ª Geração estão espalhadas pela literatura. Apresentam-nos a Guerra como uma dicotomia de opinião e de ação. A luta pela opinião procurando ganhar os “corações e mentes” das populações não é uma construção das guerras irregulares do séc. XX, nem tão pouco uma panaceia descoberta pelos modernos pensadores castrenses americanos. Já em 1645 o Padre António Vieira considerava que “a mais perigosa consequência da guerra e a que mais se deve recear nas batalhas, é a opinião”, pois que “ na perda de uma batalha arrisca-se um exército; na perda da opinião arrisca-se o reino”. Por outro lado, recorrendo à formulação de Maupertuis em 1744, a ação pode ser definida como o produto de energia pelo tempo. Sintetizando este princípio da física, Carvalho Rodrigues exprime a função das forças militares como aplicadoras de doses maciças de ação num determinado espaço. A localização desse espaço e em que tempo deriva da recolha de informações precisas sobre o contexto. No entanto, na era da informação, o tempo está condensado pois a informação é instantaneamente disseminada. Assim, na procura de uma clareza conceitual, sintetizamos este conceito de Guerra Holística como uma estratégia que emprega um conjunto abrangente de meios, civis e militares, para infligir ações multidimensionais de forma coerente e integrada, sincronizadas no tempo e no espaço, tendentes a afectar a vontade e capacidades do adversário.

A Guerra enquanto um ato de violência entre dois beligerantes, transcende os métodos ou técnicas de aplicação da força (warfare) para coagir o adversário a anuir à nossa vontade. O termo “Guerra” adquiriu ao longo dos tempos uma característica multifacetada tornando quase impraticável uma definição consensual. Como imagem conceitual deverá sobreviver a extremos. No entanto, imaginar a “Guerra” numa forma absoluta é impossível. Como um ato racional, terá de se submeter a certas regras de forma a poder ser legitimada enquanto atividade humana. O enquadramento legal da Guerra, na sua grande parte uma conceitualização ocidental, tem vindo a impor restrições ao uso da força através do estabelecimento de convenções de forma a limitar o caos e a manter um certo grau de racionalidade na condução de uma Guerra que se almeja cada vez mais justa. No entanto, em casos extremos de luta por interesses vitais, como a própria sobrevivência, o sacrifício de algumas dessas regras é justificável, como nos casos históricos dos bombardeios de cidades alemãs durante a 2ª Guerra Mundial e o uso da bomba atômica contra o Japão.

Ao admitirmos que o uso da força está ao nível dos instintos mais rudimentares da humanidade estaremos a confirmar o desenrolar da história. A visão de Clausewitz da Guerra como ato político exprime o compromisso de um sistema westfaliano onde o respeito pela soberania absoluta, diplomacia e a legalidade dos tratados internacionais eram pedras angulares. Neste registo, Clausewitz garante-nos que a Guerra é um ato de força para coagir o adversário a anuir à nossa vontade. No entanto, esta perspectiva torna-se escassa. A falta de uma conceitualização de uma “ação de guerra não militar” reduz a essência do conflito hostil a uma ação militar, a violência e a força armada primordialmente letal. A mudança conceitual consiste exatamente em ver a Guerra na sua antítese. Em vez da tradicional ameaça de forças militares à segurança nacional, existe uma miríade de outros actores e instrumentos que podem revitalizar a Guerra em outras arenas. Nem sempre a violência estará na essência da conflitualidade hostil. Por isso, a remoção desta inevitabilidade da equação da Guerra, dará lugar a outras formas de conflito em dimensões políticas, económicas, informacionais e tecnológicas, podendo transformar a natureza fundamental da Guerra.

No futuro, tal como no passado, a Guerra não se confinará única e exclusivamente no domínio militar. A Guerra, como objecto político, engloba todos os instrumentos de poder nacional. Ao visionarmos a Guerra segundo uma perspectiva binária, de forma subjetiva e objetiva, podemos detectar uma tendência histórica. A natureza objetiva que inclui aspectos como fricção, sorte, incerteza, caos, perigo, esforço físico e stress associado ao combate, é imutável. Até que a Guerra possa ser travada de forma completamente remota, removendo o fator humano do campo de batalha, muitos destes aspectos serão eternos e estarão omnipresentes na conflitualidade hostil. Por outro lado, o carácter subjetivo, a sua gramática, como a doutrina, tecnologia e pessoas, transforma-se de acordo com a conjuntura de cada cenário futuro. Dessa forma, se compreende que a cada era corresponda um tipo de conflito, com fatores limitativos e pressupostos específicos. No entanto, assistimos à emergência de um novo paradoxo. Enquanto o Ocidente continua a restringir os parâmetros aceitáveis para a execução da Guerra, os adversários amplificam o conceito de Guerra total. Em vez de assistir à tradicional mobilização de toda a sociedade para apoiar o esforço militar, assiste-se à expansão da conflitualidade hostil a todos os domínios da interação humana.

Assim, considerando a asserção de Clausewitz de que a Guerra é uma extensão da política, esta possível estratégia de Guerra Holística poderá corresponder na realidade à política em execução. Todavia, inúmeras questões ressaltam sobre o fenómeno da Guerra, tornando a sua definição cada vez mais complexa. Fora do domínio militar o que poderá ser considerado um ato de guerra? Um ataque informático? Um bloqueio comercial? O apoio a terroristas? Seja como for, o enquadramento existente irá evoluir e adaptar-se à nova realidade conflitual, tal como o fez no passado. O século XX pode ter impedido os soldados de saquearem e violarem, mas permitiu a destruição de cidades inteiras por bombardeamentos aéreos.


Identidade e letalidade do combatente: a ascensão do “super indivíduo”

O 11 de Setembro veio confirmar que os atores estatais deixaram de ter o monopólio sobre o uso catastrófico da violência. Diríamos mais, esta visão abrangente do conceito de Guerra, expandindo-se para além da dimensão militar habitual, fez emergir uma renovada dimensão estratégica das ações de cada indivíduo. Assim, a abundância e proliferação de armas de efeitos massivos (letais ou não-letais) permite que indivíduos ao nível micro (tático) obtenham efeitos no nível macro (estratégico). O que constitui novidade não é a perda do monopólio estatal do uso da força, mas sim a diluição da fronteira entre o combatente profissional e o não-combatente. Estaremos a caminho de substituir o soldado equipado com uma espingarda por um génio da informática armado com um “joystick”?

Esta metáfora de “super-indivíduo” traduz uma mudança qualitativa na condução dos conflitos. Procura espelhar a rapidez, o alcance, a escala e o impacto estratégico da ação individual. É caracterizada por um aumento de eficácia dos métodos utilizados, em que pequenos grupos, e mesmo indivíduos (um engenheiro informático, um cientista, um especulador financeiro ou mesmo um terrorista suicida) fazem uso de instrumentos e novas capacidades tecnológicas, disponibilizadas e aprimoradas por uma conectividade em rede, infligindo efeitos disruptivos a uma escala global. É esta capacidade de “perturbar o sistema” que caracteriza os “super-indivíduos”. Para além disso, quanto maior for a evolução tecnológica, maiores serão as capacidades disruptivas disponíveis a estes atores. O acrónimo BANG (Bits, Atoms, Neurons, Genes) simplifica e agrupa a radical evolução tecnológica que irá promover uma maior diversidade de métodos de ataque, impondo medo e incerteza nas sociedades modernas. Estas modalidades, ao contrário da guerra nuclear ou convencional, são bastante mais subtis e difíceis de evitar. Como sugerido pela magnitude dos eventos, é impossível antecipar as consequências destas perturbações.

O estabelecimento de alianças de interesse entre indivíduos, organizações e mesmo estados altera a face dos adversários. Esta capacidade acrescida de sobrevivência e liberdade de acção num espaço de batalha virtual, anónimo, torna os “super-indivíduos” combatentes de alto valor em conflitos futuros. O verdadeiro desafio, ou digamos, a suprema ameaça, reside na possibilidade de orquestração de uma horda de “super-indivíduos” para a consecução dos objetivos de um competidor estratégico.

Nesse sentido, a batalha da informação, numa sociedade em rede, confere ao conflito uma nova perspectiva de “Levée en Masse”, onde o número relativo do contingente militar é amplificado por uma comunidade cibernética. Considerando que os EUA são uma das sociedades mais dependentes da ligação em rede e das comunicações eletrônicas, facilmente se compreende os efeitos disruptivos de um conflito cibernético. No entanto, tal como o duplo significado do termo “levée”, também não podemos descurar que com o aumento de educação e da ligação em rede, também um novo levantamento popular poderá fazer emergir novas formas de poder político, escapando ao controle das estruturas tradicionais de poder.

A civilianização da Guerra é por isso uma consequência natural e irreversível da evolução histórica. A democratização da violência permite virtualmente a qualquer organização e mesmo individuo juntar-se ao combate dispondo de capacidades cada vez maiores e com efeitos mais catastróficos. A expansão do confronto a outras dimensões da atividade, que não militar, tornará mais poderoso um novo tipo de combatente. O próprio indivíduo. Isto trará aos estados limitações adicionais para comandar e controlar tais combatentes. Por exemplo hackers, especuladores financeiros ou organizações multinacionais. Adicionalmente, o número crescente de Empresas Militares Privadas proporciona capacidades acrescidas a estados para evitarem restrições legais ao uso da força. O recurso a organizações privadas e multinacionais como instrumentos de conflito parece indicar um aumento do outsourcing da Guerra. Esta tendência crescerá certamente em resultado da expansão dos campos de batalha às outras atividades humanas. Apesar dos estados continuarem a ser as bases da ordem internacional, estas tendências têm como consequências mais profundas, o obscurecimento da fronteira entre Guerra e crime bem como a diferença entre forças armadas e civis. Como Van Creveld oportunamente observou, “por vezes o crime estará disfarçado como Guerra, enquanto noutros casos o recurso à própria Guerra será considerado como um crime.


Sociedade de Risco

A percepção de que a tecnologia e a globalização transformaram a magnitude dos riscos que afetam as sociedades contemporâneas é um tema central dos estudos sociais. Os riscos não são ameaças, pois não são mensuráveis, nem finitos, nem expressos em probabilidades. São cenários de uma possível catástrofe acompanhados de uma estratégia em como evitá-los. Das alterações climáticas à forma de usar a força, as sociedades avançadas esforçam-se por antecipar cataclismos futuros que por sua vez influenciam o seu processo de tomada de decisão.

Seja qual for a sua definição, a perspectiva de Guerra futura irá com certeza infligir danos e violar os valores ocidentais, causando choque e medo. Ao expandir fronteiras, instrumentos e atores, torna a projeção de poder mais acessível, coerciva e letal. Isto assume particular importância em sociedades contemporâneas, profundamente integradas e dependentes da tecnologia, tornando-as fortemente susceptíveis a ataques idiossincráticos. Ao atacarem as infra-estruturas críticas de uma sociedade, como aeroportos, centrais de abastecimento de água ou mercados financeiros, os adversários interrompem o cotidiano diário e instalam o medo na população, causando severas consequências económicas, tanto na proteção dessas infra-estruturas como na sua reconstrução. Estes sentimentos de insegurança, desconfiança e incerteza têm consequências bastante mais gravosas do que o simples custo das baixas humanas dos ataques.

As sociedades do futuro terão por isso de perceber os riscos como eventos excepcionais que não requerem alterações significativas no seu cotidiano. A passagem de uma fase de dissuasão para gestão de risco parece fornecer uma alternativa a uma tentativa dantesca de providenciar segurança total. Contudo, com a necessidade crescente de aumentar a segurança física e psicológica das sociedades assiste-se a uma diminuição das liberdades civis. Assim, a tendência será cada vez maior de partilhar informação entre redes civis e militares, públicas e privadas, desenvolvendo um entendimento perfeito da realidade. Só nos resta aspirar que este esforço de segurança total não se transforme num cenário de tendências totalitárias como preconizado por George Orwell na sua obra visionária, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro.


Conclusão

O estudo sobre futuros fornece as ferramentas essenciais para perscrutar o potencial de possíveis surpresas estratégicas. Cada possível cenário apresenta condições de risco que devem ser medidas em relação aos interesses, valores e segurança pública, no sentido de simplificar e optimizar o processo de tomada de decisão.

A conjugação do aumento exponencial do poder e influência individual, a interdependência económica global e a proliferação tecnológica concorrem para alterar a distribuição de poder no sistema internacional, com impacto na diversidade, acessibilidade e eficácia da Guerra. Uma análise mais aprofundada revela o potencial para conflitos entre estados como resultado de rivalidades geopolíticas, enclausurados num mundo sobre-populado, com escassez de recursos e enfrentando uma crise ambiental. Não será portanto descabido considerar que a erosão comparativa da hegemonia americana é acompanhada pela perspectiva de confrontação estatal relembrando os persistentes motivos históricos do medo, o ódio e os recursos para o ressurgimento da Guerra. No entanto, o alargamento das fronteiras da Guerra, com a chegada de novos atores e métodos, proporciona um aliciante espaço de batalha. Em alternativa à projeção de forças militares para locais remotos do globo, uma acessível e completa panóplia de instrumentos, que extravasa o domínio militar e por vezes mesmo o estatal, pode ser empregue para obter efeitos que são transmitidos quase instantaneamente à escala planetária.

Estão assim reunidos os ingredientes essenciais para uma “tempestade perfeita”, onde futuros contendores possam explorar as vulnerabilidades da potência dominante. Num futuro não muito longínquo será verosímil considerar que a Guerra apesar da sua natureza constante, poderá ver o seu caráter irremediavelmente alterado induzindo um maior esbatimento nas formas de conflitualidade hostil e uma consequente propagação na sua frequência, magnitude e letalidade. Como não existe nenhuma teoria unificadora da Guerra que possa ser aplicável a todos os futuros plausíveis, torna-se essencial encarar o conflito hostil segundo uma perspectiva holística, antevendo que a tecnologia é apenas um multiplicador de capacidades, que o seu elemento decisivo continua a ser o fator humano, e que o poder militar é apenas mais um instrumento num domínio multidimensional. No futuro, qualquer que ele seja, continuará a ser a capacidade de impor a vontade, e não o nível de violência, que conduzirá eventualmente a uma paz mais duradoura. Tendo em perspectiva os desafios vindouros será por isso altura de começar a aprender a futura gramática da Guerra.


Fonte: Jornal Defesa e Relações Internacionais
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