segunda-feira, 16 de abril de 2018

Como é o treinamento dos operadores de sistemas de defesa aérea?


Após o ataque da coalizão liderada pelos EUA à Síria, e o sucesso da defesa aérea que conseguiu interceptar 70% dos mísseis lançados contra alvos protegidos pelos sistemas de origem soviética dos anos 60 e 70, nós resolvemos buscar um pouco mais de informações sobre como se dá o treinamento dos homens que operam sistemas de defesa aérea.

Há pouca informação a respeito, mas de cara já podemos apontar que o sucesso da operação deste tipo de equipamento se dá principalmente através de intenso treinamento e disciplina, onde não adianta contar com o mais avançado sistema de defesa aérea se não conta com homens preparados técnica e psicologicamente, somente com homens plenamente qualificados se pode garantir a proteção dos céus contra ameaças de diversos tipos e origens.

Seguindo nossa pesquisa, encontramos algumas informações sobre o treinamento que recebem as tropas de defesa aérea da Rússia, sendo consideradas as mais eficientes e modernas no mundo, além de possuir um vasto histórico de sucesso na operação destes sistemas, em especial no período da “Guerra Fria”, onde os sistemas de defesa aérea soviéticos eram vistos como uma grande ameaça, criando uma verdadeira “muralha” aos meios aéreos que ousassem invadir seu espaço aéreo. Sendo o principal desenvolvedor de sistemas do tipo, tendo visto os mesmos sendo empregados em diversos conflitos, em especial no Oriente Médio e Ásia.

Os SAMs S-75 (SA-2 "Guideline") ameaça no Vietnã
Como referência, podemos citar alguns exemplos da eficiência destes sistemas em conflitos, sendo o mais notável a “Guerra do Vietnã”, tendo sido os SAMs responsável pela maior parte das perdas aéreas sofridas pelos norte-americanos naquele cenário.

Hoje a Rússia, herdeira da tradição e tecnologia da extinta União Soviética, estão equipadas com os mais modernos e poderosos sistemas de mísseis, que protegem os céus não apenas da Rússia, mas de vários países ao redor do mundo. Os militares russos enfrentam cinco anos de estudos e preparação para operar os sistemas de defesa aérea do país, sendo uma função de extrema responsabilidade e que exige o máximo dos profissionais envolvidos, pois são os homens responsáveis por defender a Rússia de qualquer eventual ataque por via aérea, seja convencional ou em um cenário extremo, interceptar um ataque nuclear, seja lançado por bombardeiros estratégicos, ou por ICBMs e demais meios de dissuasão.

Hoje a espinha dorsal russa e a grande estrela do mercado de defesa aérea, são sem sombra de dúvidas são os sistemas S-300, desenvolvidos ainda no final dos anos 70 pela extinta URSS, apontados com um dos mais eficientes e capazes sistemas em operação no mundo, e o S-400 “Triunf”, este um projeto extremamente moderno, tendo sido produzido a partir de 2007, apontado como um dos mais capazes e eficientes sistemas já produzidos, despertando o interesse de diversos países.

O treinamento dos operadores destes sistemas é extremamente rigoroso, muitos tentam se qualificar para operá-los, mas poucos conseguem concluir a preparação e entrar para uma das forças de elite da Rússia.

O treinamento destes militares é realizado em dois estágios preparatórios, afim de selecionar os melhores e torna-los plenamente capazes de repelir um possível ataque de mísseis ou bombardeio. O primeiro estágio deste treinamento envolve muito estudo teórico dos sistemas de ataque em operação hoje no mundo, onde são bastante mitigadas as suas características, envelope de voo e capacidades, além de estudar as técnicas e estratégias empregadas pelos hipotéticos “agressores”, nesta fase há muito estudo teórico com base em dados coletados através da inteligência, o que dá um importante suporte a estes homens.

Segundo informações que obtivemos através de artigos que abordam o tema, “O dispositivo de cálculo de cada sistema transmite seu plano de ação ‘oralmente’ e no papel. O objetivo é maximizar o uso do potencial do sistema e o poder de disparo de seus mísseis para, assim, abater o maior número possível de alvos aéreos”, disse Dmítri Safonov.

Essa fase do treinamento é que apresenta maior cobrança nas academias militares russas, com grande parte do tempo dedicado a esta atividade, é uma das fases onde o aluno é submetido a maior carga de stress e tensão, afim de selecionar apenas os melhores, os professores cobram severamente dos futuros oficiais um alto grau de precisão e eficiência, caso não tenham conseguido assimilar alguma etapa do processo, o aluno possui uma chance apenas, reincidindo na mesma deficiência, o mesmo é desligado.

Após a preparação, o modelo computacional da situação passa para o “papel”.

“Aqui são determinadas todas as ações da equipe de cálculo do sistema de defesa aérea: as informações que eles passam uns aos outros e à equipe de direção são anotadas, assim como as ações do grupo. Simultaneamente, o ‘cenário de combate’ é dificultado por interferências e possíveis falhas nos sistemas. Desse modo, é criada uma simulação completa do que encontrarão em combate real, para que a equipe esteja preparada ao máximo para lidar com todas as situações da vida real”, acrescentou o especialista.

Após concluir a fase teórica, o aluno passa ao segundo estágio, que compreende a etapa em que ele terá o primeiro contato com os sistemas em operação real, sendo a fase de grande importância para a avaliação e aperfeiçoamento do que foi aprendido na fase anterior, com a realização de disparos reais. A diferença, porém, é que durante esses testes são realizados disparos sem “virtuais” em simulação contra aeronaves que simulam ataque de mísseis, onde os operadores dos sistemas de defesa tem a oportunidade de aplicar o que aprendeu na teoria.

Outro estágio dessa fase prevê a interceptação com disparos reais contra drones e alvos que devem ser rastreados, identificados e abatidos pelos alunos.

O processo possui três estágios: o radar detecta e captura o alvo, é feita uma estimativa da trajetória de voo do alvo para o solo, e o míssil é lançado para atingir o objeto. Em seguida, o dispositivo de cálculo monitora a situação, enquanto o sistema é recarregado com novos mísseis.

A defesa aérea da Rússia é feita em grande parte com os sistemas S-300 e S-400, mas há diversos outros sistemas que compõem a defesa aérea do país, que é composta por camadas, contando com sistemas que fazem desde a defesa de longo alcance, como é o caso dos sistemas S-300 e S-400, como a intermediária realizada pelos Pantsir e BUK, até a defesa de ponto realizada pelos sistemas Igla e demais armamentos.

Nos atendo aos sistemas de longo alcance que são a primeira defesa, estes detectam alvos a uma distância que vai de 250 a 400 km e seus mísseis podem interceptá-los a uma distância de 150 a 250 km. O alvo pode ser engajado e abatido mesmo se estiverem voando a uma velocidade de 2,5 km/s. Os sistemas são capazes de acompanhar até 36 alvos e disparar simultaneamente contra até 12 destes, contando ainda com reduzido tempo necessário para recarga de seus lançadores, o sistema pode rapidamente responder a múltiplas ameaças.

Segundo a doutrina de camadas adotada pela Rússia, os sistemas S-300 e S-400 sempre contam com a cobertura de pelo menos uma bateria Pantsir-S1 que possui um alcance de 10 a 15 quilômetros. Garantindo a proteção do sistema de longo alcance contra um eventual agressor que represente ameaça será neutralizado pelo Pantsir.

O sucesso da Síria contra o ataque da Coalizão, demonstra que a mesma tem recebido suporte técnico da Rússia, que provavelmente tem realizado a atualização dos sistemas que equipam a defesa aérea do país e dado o treinamento necessário as equipes que operam os sistemas de defesa aérea naquele cenário. Não seria surpresa se tais sistemas tenham sido operados sob supervisão de militares russos, que podem estar implantando uma nova doutrina no país árabe.

Concluindo esta matéria, é bem clara a necessidade não apenas de se contar com um sistema de defesa aérea, mas principalmente contar com um doutrina eficaz e um rigoroso treinamento dos operadores, sendo este último o fator mais importante na equação que pode definir o sucesso ou o fracasso da defesa aérea contra um ataque inimigo.

Em breve iremos publicar uma matéria abordando as necessidades brasileiras, onde iremos trazer os pontos chaves para construirmos um sistema de defesa aérea eficiente e as possíveis doutrinas que podem ser implantadas por nossas forças armadas.

Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio, leste europeu e Rússia, especialista em assuntos de defesa e segurança.



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Fontes de informações TASS, Russian Today e Iszvêstia

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