domingo, 15 de abril de 2018

GBN News: Análise sobre o ataque dos EUA contra a Síria

Na noite da última sexta-feira (13), o presidente norte americano, Donald Trump, surpreendeu anunciando um ataque maciço contra alvos na Síria, em seguida assistimos as imagens que tomaram os principais canais de informação e notícias.

O ataque conjunto dos EUA, Reino Unido e França, lançado sob a justificativa de retaliação ao suposto ataque químico creditado ao governo de Assad contra civis sírios.

Diante do intenso debate que tomaram as redes sociais e das informações que tem chegado a todo momento, o GBN News resolveu publicar uma análise dos fatos, contando com o conhecimento de nosso editor, Angelo Nicolaci, que apresenta abaixo sua análise dos fatos.

O ataque contra alvos sírios lançados pelos EUA e seus aliados (Reino Unido e França), levantam importantes questões sobre o futuro do conflito e as relações entre Washington e Moscou.

Sistema S-125 similar ao empregado na Síria
A "demonstração de força" norte americana, teve um resultado um tanto dúbio, onde as defesas aéreas da Síria surpreenderam o mundo com a sua eficiência. Estima-se que tenham sido lançados cerca de 103 mísseis contra alvos sírios, porém, deste número há a afirmação de que 71 foram interceptados pelas defesas sírias, um grau de eficiência satisfatório, segundo informações do Ministério da Defesa da Rússia.

Um ponto importante de ser salientado, é que a ação da coalizão liderada pelos EUA contra a Síria, vai de encontro ao disposto na "Carta da Nações", podendo ser classificada como uma violação da mesma, uma vez que não há até o momento prova contundente do envolvimento do governo sírio no suposto ataque químico, algo que nos remete aos idos de 2003, quando os mesmos EUA atacou e invadiu o Iraque sob a alegação de uma suposta produção de armas de destruição em massa por Saddam Hussein, algo que após curto espaço de tempo se provou uma enorme mentira, a qual não foi devidamente investigada e punida como deveria pela ONU, resultando na impunidade.

O ataque aconteceu poucas horas antes da equipe de especialistas da ONU realizarem as inspeções necessárias neste sábado (14) no subúrbio de Damasco, para determinar se realmente armas químicas foram usadas na semana passada. Washington teria alegado que a Rússia e as forças de Assad teriam negado a equipe de investigadores o acesso ao local do incidente, informação desmentida pela porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, que neste sábado (14):

"O Pentágono justificou os ataques norte-americanos à Síria antes que a ONU fizesse quaisquer conclusões sobre a natureza do ataque químico, dizendo que Damasco havia negado o acesso dos especialistas ao leste de Ghouta", disse Zakharova, "Isso é uma mentira. Damasco aprovou a chegada dos especialistas da ONU. Eles deveriam receber vistos sírios ao cruzarem a fronteira libanesa. Eles não teriam enfrentado obstáculos", observou a diplomata."Parece que é por isso que atacaram antes da chegada dos especialistas", concluiu Zakharova.

Trump se amparou em supostas informações de "inteligência confiável", bem como "usuários de mídia social, organizações não-governamentais e outras fontes", que apontam o governo sírio como responsável pelo suposto ataque com armas químicas. Apesar das afirmações de Washington contra o governo de Assad, o Departamento de Estado dos EUA se recusou a apresentar  as alegadas provas incontestáveis que afirma ter provas de que o governo sírio estava por trás do suposto ataque químico em Douma.

Um ponto nebuloso sobre o ataque químico que se tornou o estopim para o ataque da coalizão, é que as forças russas atuante na Síria e seu serviço de inteligência já haviam alertado que rebeldes estariam planejando ataques do tipo como forma de abrir um precedente contra o governo sírio, alegando o uso deste tipo de arma pelas forças legitimas da Síria.

O mundo esta atento a resposta que virá da Rússia, a qual esta se limitando ate o momento em seguir o protocolo previsto pelas leis internacionais, gerando muita discussão sobre a postura russa em relação aos EUA e seus aliados na Síria. Mas cabe ressaltarmos que os russos são exímios jogadores de "xadrez", e tal como no jogo, o tabuleiro geopolítico exige que antes de dar um passo é preciso antever a possíveis jogadas de seu oponente e suas possibilidades de resposta, não há espaço para erros em se tratando de atritos envolvendo potências militares.

Ao avaliar os resultados obtidos nos últimos anos do conflito sírio, é notório que Assad e a Rússia tem conseguido obter êxito em sua campanha militar, com a recuperação da quase totalidade dos territórios que antes estavam sob controle de rebeldes e extremistas islâmicos. Tal sucesso tem apontado que os interesses externos na Síria estão risco, pois a cada dia se consolida mais a posição do governo legítimo, o que leva a acreditarmos que os atores internacionais apoiadores da oposição síria venham a buscar meios de tentar mudar os rumos do conflito, o que pode descambar para agressões diretas da coalizão contra as forças do governo afim de tentar perpetuar a capacidade de resposta dos rebeldes, o que tem sido preocupante, uma vez que tal atitude levanta questões que podem conduzir a um conflito de larga escala, o qual pode deixar de ser um conflito limitado entre as forças do governo sírio apoiados pela Rússia e rebeldes apoiados pela coalizão, para um enfrentamento direto entre forças russas e da coalizão, o que pode nos levar a um conflito global.

A questão é que a Rússia tem uma geopolítica apurada, e apesar de muitos questionarem sua postura, cabe mais uma vez lembrar aos nossos leitores que a geopolítica, bem como a arte da guerra nada tem a ver com poder efetivo de ataque e resposta militar, tem a ver com a percepção de ganhos reais em termos de conquista de objetivos relevantes ao resultado final esperado pela campanha em andamento nos campos militar, político e internacional. Olhando por essa ótica, esta mais do que claro que Assad e a Rússia estão claramente no controle da situação, onde resta menos de 30% do território sob controle dos rebeldes, um número que expressa o sucesso desde o princípio da intervenção russa na Síria, quando o quadro era o inverso.

A Rússia levou a questão ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, que rejeitou neste sábado (14), durante reunião de emergência, a resolução apresentada pela Rússia que pedia a condenação dos bombardeios realizados na Síria pelos Estados Unidos, Reino Unido e França. A resolução foi rejeitada por oito votos contra, quatro abstenções e apenas três votos á favor. Além da Rússia, somente a China e a Bolívia votaram a favor da resolução. Dentre os oito países que votaram contra a resolução estão EUA, Reino Unido, França, Suécia, Costa do Marfim, Kuwait, Holanda e Polônia, já o Peru, Cazaquistão, Etiópia e Guiné Equatorial se abstiveram dos seus votos.

No pedido, Moscou considerava que o ataque representa uma violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, além de expressar "grave preocupação" pela "agressão" contra a soberania territorial da Síria. O documento ainda exigia que os três países responsáveis evitem no futuro o uso da força contra o regime de Bashar al-Assad.

Damasco condenou duramente o bombardeio, dizendo que nunca se curvará aos ataques do Ocidente à sua soberania. O enviado da Síria, Bashar Jaafari, acusou os Estados Unidos, o Reino Unido e a França de violarem flagrantemente a Carta da ONU. "Eu esclareceria aqui que a história desses três estados é construída usando mentiras e histórias fabricadas para travar guerras a fim de ocupar estados, se aproveitar de seus recursos e mudar os governos neles pela força" , disse ele, 

Agora vamos analisar os alvos dos ataques da coalizão liderada pelos EUA, onde o principal objetivo era atingir instalações que supostamente abrigavam atividades ligadas a armas químicas.

Sistema S-200 empregado pela Síria
Um dos ataques teve como alvo um complexo científico em Barzeh, nas proximidades de Damasco, apontado pela coalizão como responsável pela produção de armas químicas e biológicas. O ataque contra tais instalações foi bem sucedido, tendo sido destruído laboratórios e centros de pesquisa e estudo, segundo confirmação do governo sírio, onde não houve vítimas.

O Reino Unido teria empregado quatro  aeronaves Tornado GR4 da RAF, os quais armados com mísseis Storm Shadow atacaram alvos ao oeste de Homs. Segundo relatou o Ministério da Defesa britânico, o alvo teria sido instalações em uma antiga base de mísseis, onde supostamente o governo sírio manteria um estoque de armas químicas.

BUK empregado na Síria
A base aérea de Al-Dumayr, que fica ao leste de Damasco, foi alvo de doze mísseis de cruzeiro, porém, todos teriam sido interceptados com sucesso pelo sistema de defesa aérea síria, a qual opera com sistemas de origem soviética dos anos 60 e 70 em sua grande maioria. Segundo fontes, os sírios usaram sistemas antiaéreos S-120, S-200 e Buk.

Muitos tem comentados nos fóruns e redes sociais com relação ao emprego dos sistemas de defesa russos implantados na Síria, com muitos alegando que os russos haviam sido informados pelos EUA e por conta disso não teriam atuado, mas com relação a essas dúvidas, ressalta-se que os EUA e seus aliados planejaram meticulosamente os ataques, visando evitar qualquer atrito direto com as forças russas estacionadas na Síria, para tanto as rotas definidas para seus mísseis e demais meios empregados no ataque, foram elaboradas para não ter qualquer proximidade com as instalações russas na Síria, um claro receio de que um incidente envolvendo a interceptação de um dos mísseis pela Rússia, poderia ser entendido pela mesma como agressão e ocasionar em uma resposta direta da mesma contra a coalizão.

A saída de navios russos dos portos sírios não é sinal de medo de um ataque, e sim uma forma de resposta a ameaça, pois os mesmos foram posicionados no mar de forma a garantir aos mesmos a capacidade de resposta a um eventual ataque as forças russas na Síria, onde os meios navais teriam a capacidade de lançar seu armamento contra o suposto "inimigo", algo que ficaria muito limitado a partir dos portos, Lembrem de Pearl Harbor, onde navios na base não significa que a mesma esta segura, e nem a ausência destes que a mesma não esta sob seu "guarda chuvas".

Não sabemos exatamente quais sistemas e armas foram empregados pela coalizão, pois os EUA não especificaram os tipos de armas empregados, mas podemos afirmar que o ataque teve como principal meio mísseis de cruzeiro Tomahawk, tendo sido lançados em grande número contra a Síria. Segundo as informações que chegaram ao público, teriam sido lançados cerca de 103 mísseis de cruzeiro e outros armamentos sobre alvos sírios, tendo sido lançados por navios franceses e norte americanos, além de aeronaves, com relatos do emprego de bombardeiros estratégicos B-1 Lancer, além dos Tornados GR4 britânicos e aeronaves francesas Dassault Rafale. Apesar dos relatos da interceptação de 71 dos 103 mísseis lançados, não foi relatado qualquer abate de aeronaves da coalizão.

Ainda há muitas perguntas a serem respondidas sobre o ataque e seus resultados, embora Trump tenha anunciado o sucesso da operação, os sírios apontam que o mesmo não passou de uma agressão descabida ao seu país, uma vez que o governo sírio alega que os alvos atingidos nada teriam haver com a suposta alegação de abrigar ou produzir armamentos químicos. 

Outro ponto ainda envolto em incertezas será a postura adotada por Putin, uma vez que a resolução apresentada pela Rússia no Conselho de Segurança da ONU foi rejeitada, não se sabe qual será o tom da resposta e os próximos capítulos do conflito na Síria.

De um lado vemos Trump comemorando os resultados, do outro vemos a crescente tensão que pode conduzir a um conflito maior, embora estejamos revivendo um capítulo da história que nos remete aos tempos da "Guerra Fria", não esta clara a ameaça de um conflito de larga escala envolvendo mais países, embora a OTAN e vários estados europeus tenham anunciado apoio a postura adotada pelos EUA, enquanto a Síria tem tido apoio da Rússia e Irã, agora a China também se alinha ao lado de Assad de forma mais branda, repudiando a ação da coalização liderada pelos EUA.

Em breve lançaremos uma matéria mais densa e aprofundada sobre as questões envolvidas e traçando comparações para que possamos ampliar nosso conhecimento e visão com relação ao conflito sírio.


Por Angelo Nicolaci - Jornalista, editor do GBN News, graduando em Relações Internacionais pela UCAM, especialista em geopolítica do oriente médio e leste europeu, especialista em assuntos de defesa e segurança.

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