A criação pelo Ministério da Defesa do Grupo de Trabalho responsável por formular o Conceito Conjunto para o futuro Helicóptero Multimissão abre espaço para uma discussão que deveria acompanhar a definição da própria aeronave: a possibilidade de unificar, sob uma estrutura conjunta, a formação básica dos pilotos de helicópteros das Forças Armadas. A proposta não significa retirar do Exército, Marinha e Força Aérea suas doutrinas ou qualificações operacionais específicas, mas concentrar em uma mesma estrutura aquilo que é comum à formação de um aviador de asas rotativas.
A iniciativa poderia ser conduzida diretamente pelo Ministério da Defesa, com coordenação do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas e participação permanente das três Forças. O modelo seguiria a lógica empregada nas aquisições conjuntas, nas quais o Ministério atua como elemento integrador, enquanto cada Força mantém seus requisitos e responsabilidades específicas. Nesse caso, a estrutura teria como finalidade estabelecer uma base comum de formação, treinamento e procedimentos, deixando para as organizações de aviação de cada Força a qualificação posterior para as respectivas missões.
O Brasil já possui elementos que tornam essa proposta tecnicamente viável. As Forças Armadas empregam a família Esquilo/Fennec em diferentes funções de formação e treinamento de aviadores, enquanto o Programa H-XBR consolidou a operação do H225M pelas três Forças. A experiência acumulada demonstra que a adoção de plataformas comuns não impede que Exército, Marinha e Força Aérea mantenham diferentes doutrinas de emprego. O que muda é a possibilidade de compartilhar conhecimentos, procedimentos e recursos sempre que os requisitos forem equivalentes.
A eventual seleção do H145M para o novo programa ampliaria essa convergência. Caso o modelo seja adotado, as três Forças passariam a operar uma segunda plataforma Airbus comum, além do H225M. O H145M ocuparia uma categoria distinta, com emprego voltado a missões compatíveis com uma aeronave leve multimissão, enquanto o H225M permaneceria associado às capacidades de maior porte já incorporadas às Forças. Essa configuração aumentaria a escala de operação de uma mesma família de produtos e poderia ser acompanhada por uma estrutura igualmente integrada para formação e adestramento.
A unificação proposta deveria, entretanto, limitar-se às competências que efetivamente possam ser compartilhadas. A formação básica de pilotos de helicópteros envolve conteúdos comuns, como segurança de voo, procedimentos normais e de emergência, navegação, comunicações, meteorologia aplicada, preparação e operação da aeronave, gerenciamento de recursos da tripulação, procedimentos de solo e fundamentos de operação de asas rotativas. Esses conhecimentos podem ser organizados em currículos comuns, com padrões de avaliação definidos conjuntamente, sem interferir na formação operacional posterior de cada Força.
Depois dessa etapa, ocorreria a especialização. Um piloto destinado à Aviação do Exército seguiria para a qualificação relacionada às operações aeromóveis, reconhecimento, ataque e apoio às forças terrestres. Na Marinha, a formação avançaria para as particularidades das operações navais, incluindo emprego embarcado e procedimentos específicos para operação sobre o mar. Na Força Aérea, o piloto seria direcionado às qualificações correspondentes às missões atribuídas à FAB. Dessa forma, a formação conjunta funcionaria como uma etapa comum, e não como substituição das estruturas operacionais existentes.
Esse modelo também permitiria racionalizar investimentos. A formação militar exige infraestrutura especializada, instrutores, dispositivos de treinamento, simuladores, sistemas de avaliação e instalações de apoio. Quando três organizações mantêm estruturas semelhantes para atender necessidades essencialmente iguais, existe espaço para avaliar se determinados recursos podem ser concentrados em uma estrutura conjunta. O objetivo não seria simplesmente reduzir instalações, mas evitar a duplicação de capacidades que poderiam ser utilizadas de forma compartilhada.
A mesma lógica poderia ser aplicada ao treinamento recorrente. A manutenção da proficiência de tripulações exige atividades periódicas, incluindo procedimentos de emergência, treinamento por instrumentos, operações noturnas, atualização de conhecimentos e exercícios de situações anormais. Uma estrutura conjunta poderia concentrar parte desses recursos e permitir que simuladores, instrutores e dispositivos de treinamento fossem utilizados pelas três Forças, enquanto os treinamentos diretamente relacionados às missões permaneceriam sob responsabilidade de cada organização.
A experiência do H-XBR oferece uma referência importante para esse modelo. O programa estabeleceu uma aquisição conjunta do H225M para Marinha, Exército e Força Aérea, resultando em 47 aeronaves produzidas no Brasil e na consolidação de capacidades industriais e de suporte associadas ao modelo. As aeronaves são empregadas segundo as necessidades de cada Força, demonstrando que padronização de plataforma e diferenciação operacional podem coexistir. O mesmo princípio pode ser aplicado à formação: procedimentos e conhecimentos comuns podem ser padronizados, enquanto o emprego tático permanece específico.
A eventual adoção do H145M acrescentaria ainda uma dimensão industrial à discussão. A Airbus e a Helibras trabalham para viabilizar a produção nacional do modelo em Itajubá, com perspectiva de iniciar pela versão militar. Caso o programa seja estruturado como uma aquisição conjunta, a escala proporcionada pelas três Forças poderá contribuir para sustentar a produção nacional e, simultaneamente, justificar investimentos em uma estrutura integrada de treinamento. Nesse contexto, formação, suporte logístico, qualificação e produção passam a ser elementos de uma mesma arquitetura de longo prazo.
A criação de um Centro Conjunto de Formação e Adestramento de Asas Rotativas subordinado ao Ministério da Defesa permitiria organizar essa estrutura sem retirar das Forças Singulares suas competências. O centro poderia reunir representantes permanentes do Exército, Marinha e Força Aérea, estabelecer os currículos comuns, coordenar instrutores, administrar recursos compartilhados e desenvolver padrões de treinamento aplicáveis às plataformas utilizadas conjuntamente. As Forças continuariam responsáveis pela qualificação específica de seus pilotos e pelo treinamento operacional necessário às respectivas missões.
Além da racionalização financeira, a formação comum teria impacto direto sobre a interoperabilidade. Pilotos formados sob os mesmos padrões básicos chegariam às unidades operacionais com conhecimento compartilhado de procedimentos e terminologia, facilitando posteriormente a participação em exercícios e operações conjuntas. Isso não elimina a necessidade de treinamento conjunto, mas reduz a quantidade de conhecimentos básicos que precisam ser nivelados quando militares de diferentes Forças passam a atuar no mesmo ambiente operacional.
A proposta também pode ser implementada de maneira gradual. O Ministério da Defesa poderia começar pela padronização dos currículos básicos, procedimentos de segurança, critérios de avaliação e formação de instrutores. Em uma segunda etapa, poderiam ser compartilhados simuladores e outros dispositivos de treinamento. Posteriormente, conforme os resultados fossem avaliados, novas atividades poderiam ser incorporadas. As estruturas atuais das Forças não precisariam ser imediatamente desativadas, podendo assumir progressivamente funções de especialização e qualificação operacional.
A discussão ganha relevância justamente porque o novo programa de Helicóptero Multimissão ainda está em fase de definição conceitual. Se o objetivo é desenvolver uma aquisição verdadeiramente conjunta, a análise não deveria se limitar ao número de aeronaves, às suas capacidades ou ao modelo de emprego. O planejamento também precisa considerar como os profissionais serão formados, quais recursos poderão ser compartilhados e como será organizada a manutenção da proficiência ao longo das décadas de operação.
Nesse contexto, a eventual escolha do H145M poderia ser aproveitada para aprofundar uma integração que já possui antecedentes concretos. A experiência com Esquilo e Fennec na formação e treinamento de aviadores, somada à operação conjunta do H225M pelo Exército, Marinha e Força Aérea, fornece uma base sobre a qual seria possível estruturar uma nova etapa. O objetivo seria estabelecer uma separação clara entre formação básica comum e qualificação operacional específica, preservando a autonomia doutrinária das Forças e reduzindo a duplicação de estruturas.
Para o Ministério da Defesa, essa abordagem permitiria avaliar o custo do programa não apenas pela aquisição das aeronaves, mas pelo conjunto de recursos necessários para mantê-las operacionais durante seu ciclo de vida. Formação, simuladores, instrutores, infraestrutura e treinamento recorrente representam compromissos permanentes. A concentração daqueles recursos que possam ser efetivamente compartilhados pode produzir economias ao longo de décadas, além de aumentar a disponibilidade dos meios de treinamento.
A proposta, portanto, não depende exclusivamente da escolha do H145M. A seleção de uma plataforma comum apenas reforçaria uma lógica que já está presente nas Forças Armadas. Se Exército, Marinha e Força Aérea precisam formar pilotos de helicópteros com competências básicas semelhantes e já possuem experiência com plataformas compartilhadas, cabe ao Ministério da Defesa avaliar se a manutenção de estruturas integralmente separadas para essa etapa continua sendo a solução mais eficiente.
O novo programa oferece uma oportunidade para responder a essa questão dentro de uma perspectiva de longo prazo. Uma estrutura conjunta para a formação básica permitiria concentrar recursos onde a padronização produz ganhos, enquanto Exército, Marinha e Força Aérea manteriam integralmente sob seu controle a preparação de seus pilotos para as missões específicas. Dessa forma, a integração seria aplicada apenas onde produz vantagem operacional e econômica, sem comprometer as características próprias de cada Força.
Por Angelo Nicolaci
GBN Defense - A informação começa aqui










0 comentários:
Postar um comentário