quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Brasil deve devolver o El Cristiano? Então é preciso discutir também a Canhoneira Anhambaí

A discussão sobre uma eventual devolução ao Paraguai do canhão El Cristiano, preservado no Brasil desde a Guerra do Paraguai, ganhou força nos últimos anos e costuma ser apresentada a partir de um argumento aparentemente simples: trata-se de um patrimônio paraguaio capturado durante o conflito e, portanto, deveria retornar ao país de origem.

O problema começa quando essa lógica é analisada para além de uma única peça de artilharia. Se o princípio é que patrimônios militares capturados durante a guerra devem ser devolvidos aos seus países de origem, então a regra precisa valer para os dois lados. E é justamente nesse ponto que aparece uma história que raramente ocupa espaço no debate: a da Canhoneira Anhambaí, embarcação da Armada Imperial Brasileira capturada por forças paraguaias em janeiro de 1865 e cujos remanescentes permanecem preservados no Paraguai.

A questão, portanto, não deveria ser simplesmente se o Brasil deve ou não devolver o El Cristiano. Antes disso, seria necessário estabelecer qual princípio histórico e patrimonial está sendo aplicado. Afinal, seria no mínimo curioso construir uma política de restituição de troféus da Guerra do Paraguai que funcionasse em apenas uma direção.

Um troféu de guerra brasileiro

O El Cristiano chegou ao Brasil como consequência direta da Guerra do Paraguai. Fundido no Paraguai e empregado como peça de artilharia durante o conflito, o canhão foi capturado pelas forças brasileiras e posteriormente trazido para o Brasil.

Desde então, passou a integrar a memória material da guerra e a própria história militar brasileira. Sua presença em território brasileiro não decorre de uma compra, de uma negociação comercial ou de uma transferência realizada em tempos de paz. É resultado direto de um conflito militar ocorrido no século XIX.

Esse aspecto é fundamental para compreender a controvérsia. A captura de equipamentos, armamentos, embarcações e outros materiais pertencentes ao adversário era uma consequência comum dos conflitos daquele período. Esses objetos posteriormente se transformaram em testemunhos materiais das guerras das quais participaram.

Por isso, uma eventual devolução do El Cristiano não pode ser justificada apenas pelo fato do canhão ter sido originalmente produzido no Paraguai. Se esse critério fosse suficiente, seria necessário reexaminar uma quantidade muito maior de patrimônios militares espalhados por diferentes países como consequência de guerras passadas.

O valor histórico do El Cristiano para o Paraguai é evidente e não precisa ser diminuído para que se reconheça também seu significado para o Brasil. A questão é saber se esse valor deve automaticamente se sobrepor ao contexto histórico que levou a peça ao território brasileiro.

E, sobretudo, se esse será realmente o critério adotado, ele precisa ser aplicado de maneira coerente. 

É aí que entra a Anhambaí

A história da Anhambaí oferece justamente o contraponto que falta nessa discussão. A embarcação pertencia à Armada Imperial Brasileira e estava empregada na campanha de Mato Grosso quando o conflito chegou à região. Em janeiro de 1865, após a invasão paraguaia e os combates na área, a canhoneira foi perseguida por forças navais paraguaias e acabou capturada.

A partir daquele momento, a trajetória da embarcação mudou de bandeira. Incorporada à força naval paraguaia, a antiga canhoneira brasileira continuou sendo empregada durante a guerra. Sua história não terminou com a captura: ela passou a integrar o próprio esforço de guerra do país que a havia tomado.

Em 1869, diante do avanço das forças brasileiras, os paraguaios incendiaram e afundaram diversas embarcações para impedir que fossem capturadas. Entre elas estava a antiga Anhambaí.

Décadas depois, seus remanescentes foram recuperados e passaram a integrar o conjunto histórico de Vapor Cué, no Paraguai, onde permanecem preservados como parte da memória da Guerra do Paraguai.

A situação é, portanto, bastante clara sob o ponto de vista histórico: assim como o El Cristiano, a Anhambaí mudou de mãos em consequência direta da guerra. A diferença é que, neste caso, estamos falando de um meio militar brasileiro capturado pelo adversário e posteriormente incorporado à força naval paraguaia.

Se a origem do bem e sua captura durante o conflito são suficientes para justificar a restituição do El Cristiano, fica difícil explicar por que o mesmo raciocínio não poderia ser aplicado à Anhambaí.

O problema de uma restituição unilateral

É aqui que a discussão sobre o El Cristiano ganha uma dimensão maior. Uma decisão brasileira de devolver o canhão não envolveria apenas uma peça histórica. Ela poderia estabelecer um precedente para a interpretação de patrimônios militares capturados durante a Guerra do Paraguai, criando a expectativa de que esses bens deveriam retornar aos seus países de origem.

Se esse for o entendimento, o Brasil teria todo o direito de levar a mesma questão a Assunção. E não seria necessário recorrer a uma retórica de confronto. Bastaria aplicar exatamente o princípio defendido para o El Cristiano: um patrimônio militar capturado durante a guerra deveria retornar ao país ao qual pertencia originalmenteNesse caso, a Anhambaí inevitavelmente entraria na conversa.

Não se trata de propor uma negociação simplista nos moldes de “devolvemos o canhão se vocês devolverem o navio”. A questão é justamente evitar que a história seja transformada em uma contabilidade seletiva de troféus.

Se Brasil e Paraguai desejam reabrir o debate sobre o destino dos patrimônios materiais produzidos pela Guerra do Paraguai, o assunto precisa ser tratado de forma bilateral e com critérios que possam ser aplicados aos dois países.

Caso contrário, corre-se o risco de criar uma curiosa modalidade de restituição histórica na qual um lado devolve seus troféus enquanto o outro conserva os seus.

O patrimônio também pertence à história

Existe ainda um argumento importante em favor da permanência do El Cristiano no Brasil: sua importância histórica não desaparece porque a peça possui origem paraguaia.

O canhão está no Brasil há mais de um século e meio porque foi capturado em um conflito que marcou profundamente a formação política e militar da região. Ele é, portanto, também um documento material da história brasileira.

A mesma lógica pode ser aplicada à Anhambaí. Sua presença em Vapor Cué não apaga sua origem brasileira. Pelo contrário, o navio, ou aquilo que restou dele, conta uma história que envolve diretamente os dois países.

É justamente por isso que uma eventual discussão sobre restituição deveria levar em consideração não apenas a propriedade original de cada objeto, mas também seu percurso histórico, seu significado para os dois países e a forma como esses patrimônios foram preservados ao longo de mais de 150 anos.

Há espaço, inclusive, para cooperação histórica e patrimonial entre Brasil e Paraguai. O que não parece razoável é estabelecer que apenas um dos lados precisa rever o destino de seus troféus de guerra.

O Brasil deveria devolver o El Cristiano?

Nossa posição é contrária a uma devolução. O El Cristiano faz parte da história da Guerra do Paraguai e da memória militar brasileira. Sua presença no Brasil é consequência direta do conflito e da vitória da Tríplice Aliança, ao custo de muito sangue e vidas brasileiras, e não de uma apropriação ocorrida posteriormente em período de paz.

Se o Paraguai deseja discutir a restituição da peça, o Brasil pode e deve participar desse debate. Mas, ao fazê-lo, precisa colocar sobre a mesa também os patrimônios brasileiros capturados durante a guerra. E a Anhambaí é o exemplo mais evidente.

Não seria coerente defender que um troféu de guerra deve retornar ao país de origem, e ao mesmo tempo considerar encerrada a discussão quando o patrimônio originalmente brasileiro está preservado do outro lado da fronteira. A história, afinal, não pode ser seletiva conforme a conveniência do momento.

Se o El Cristiano deve voltar ao Paraguai porque foi capturado durante a guerra, então o Brasil tem uma pergunta perfeitamente legítima a fazer: e a Anhambaí?

Se a resposta for que os patrimônios de guerra devem permanecer onde foram preservados por mais de 150 anos, há um argumento sólido para que o El Cristiano continue no Brasil.

Se, ao contrário, a regra for que esses patrimônios devem retornar aos seus países de origem, então a discussão precisa começar nos dois lados da fronteira.

E, nesse caso, o Brasil não deveria apenas aceitar discutir a devolução do El Cristiano. Deveria também exigir que o Paraguai discutisse a devolução da Anhambaí.

Porque, quando se decide reabrir a história, é preciso estar preparado para ler todos os capítulos, inclusive aqueles que não são tão convenientes.

Afinal, princípio histórico não pode funcionar como via de mão única. Se a tese é devolver aquilo que foi capturado durante a guerra, então que se abra o inventário completo, não apenas a página que interessa aos paraguaios. O Brasil pode discutir o destino do El Cristiano, sem problema algum. Mas, antes de entregar qualquer coisa, talvez seja conveniente perguntar a Assunção se está disposta a aplicar a mesma régua à Anhambaí. Porque, se a história será reaberta, seria deselegante consultar apenas os troféus do lado brasileiro e esquecer aqueles que ficaram do outro lado da fronteira, no Paraguai.


Por Angelo Nicolaci


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