As recentes declarações do presidente Lula sobre Defesa e soberania recolocam em discussão uma questão que o GBN Defense vem acompanhando há algum tempo: existe hoje uma distância entre o reconhecimento político da importância da Defesa e a capacidade do Estado de assegurar, de forma previsível, os recursos necessários para transformar esse reconhecimento em programas e capacidades de defesa.
A questão ganhou novo contorno durante a visita de Lula ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, em Iperó. Ao defender a conclusão do submarino de propulsão nuclear, o presidente reconheceu uma dificuldade que não é nova para as Forças Armadas: a irregularidade na disponibilidade de recursos compromete o planejamento de projetos que exigem décadas de desenvolvimento.
A declaração é relevante porque expõe, ainda que indiretamente, uma fragilidade recorrente do modelo brasileiro de financiamento da Defesa. Projetos dessa natureza não podem ser planejados apenas a partir da disponibilidade anual de recursos. Pesquisa, desenvolvimento, qualificação, produção e incorporação de sistemas de defesa dependem de uma sequência de decisões e investimentos que precisa atravessar diferentes exercícios orçamentários e diferentes governos. É justamente nesse ponto que as declarações presidenciais encontram uma realidade que o GBN Defense vem apontando de forma recorrente.
Da Avibras a Aramar
Na visita à Avibras em julho, Lula destacou a importância das Forças Armadas, da soberania e da recuperação da capacidade industrial brasileira. A mensagem fazia sentido diante da situação da empresa e da importância que a Avibras possui para a Base Industrial de Defesa.
O problema é que a recuperação de uma empresa dessa natureza não se sustenta apenas pela decisão política de preservar sua existência. É necessário haver demanda, contratos, recursos e uma perspectiva suficientemente clara para que a empresa consiga reorganizar sua produção, seus fornecedores e seu corpo técnico.
Naquele momento, entretanto, já havia sinais de uma dificuldade mais ampla. Enquanto o governo ressaltava a necessidade de fortalecer a indústria e os programas de Defesa, diferentes projetos das Forças Armadas continuavam sujeitos a restrições orçamentárias e incertezas quanto ao ritmo de execução. O próprio contingenciamento imposto ao orçamento do Ministério da Defesa em 2026 reforçou essa realidade.
Por isso, a fala de Aramar não deve ser analisada isoladamente. Ela apenas tornou mais explícito um problema que já estava presente quando o presidente esteve na Avibras: o reconhecimento da importância da Defesa não veio acompanhado até aqui de uma solução definitiva para a instabilidade no fluxo de recursos. E essa questão pode ser observada também em programas muito diferentes do submarino nuclear.
O caso do ATMOS
O programa da Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado 155 mm Sobre Rodas, a VBCOAP 155 mm SR, é um exemplo particularmente útil.
A escolha do ATMOS representou uma decisão importante para a modernização da artilharia do Exército Brasileiro. O sistema atende a uma necessidade operacional concreta, combinando mobilidade, alcance e capacidade de emprego em diferentes cenários.
Mas o processo de aquisição acabou sendo submetido a uma intervenção de natureza político-ideológica que comprometeu sua evolução sem que, até o momento, tenha ficado demonstrada uma justificativa técnica ou operacional compatível com a dimensão da decisão.
O episódio também revelou uma interpretação equivocada sobre a própria natureza da empresa selecionada. A Elbit Systems é uma multinacional de capital privado, e não uma empresa pertencente ao governo de Israel. Embora seja uma companhia israelense e mantenha vínculos com o setor de Defesa daquele país, possui atuação internacional e mantém, há décadas, relações e projetos com o Brasil e com sua Base Industrial de Defesa.
Essa relação não é recente nem circunstancial. Empresas do grupo participam de diferentes programas brasileiros e a própria Elbit Systems construiu, ao longo dos anos, uma presença relevante no país por meio de parcerias, transferência de tecnologia, desenvolvimento conjunto e participação em projetos estratégicos.
Por isso, transformar a nacionalidade da empresa em elemento suficiente para questionar uma decisão de aquisição militar exige, no mínimo, uma justificativa que considere os aspectos técnicos, operacionais, industriais e estratégicos envolvidos. Uma decisão dessa natureza não deveria ser orientada exclusivamente por uma leitura político-ideológica sobre a origem do fornecedor.
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| Foto Victor Barreira |
A questão se torna ainda mais relevante porque a aquisição do ATMOS não envolve apenas a escolha de um equipamento estrangeiro. Existe também a possibilidade de participação da indústria brasileira em sua implementação, justamente em um momento no qual o governo afirma buscar a recuperação da Base Industrial de Defesa e a preservação de capacidades nacionais.
A eventual participação das brasileiras AEL Sistemas, ARES e a Avibras em uma solução associada ao programa poderia contribuir para a recuperação da capacidade produtiva da própria Avibras e para a preservação de competências nacionais. Isso aproxima dois assuntos que no discurso político aparecem frequentemente separados: reequipamento das Forças Armadas e recuperação da Base Industrial de Defesa.
Mas ambos dependem da mesma condição básica: planejamento e recursos capazes de sustentar o programa até sua execução.
O caso do ATMOS demonstra, portanto, que as dificuldades enfrentadas pela Defesa brasileira não são exclusivamente orçamentárias. Em determinados momentos, decisões políticas também podem interferir em processos de aquisição que deveriam ser orientados prioritariamente por requisitos operacionais, critérios técnicos, interesses industriais e necessidades estratégicas do Estado.
Esse é um ponto que merece atenção porque a modernização da defesa não pode ser submetida a critérios diferentes daqueles que o próprio Estado estabelece para definir suas necessidades de capacidade.
Se a finalidade é dotar o Exército de uma artilharia moderna, móvel e capaz de acompanhar as demais forças no campo de batalha, a discussão deveria partir dessa necessidade e avaliar qual solução oferece a melhor combinação entre desempenho, custo, logística, transferência de tecnologia, participação nacional e sustentabilidade ao longo do ciclo de vida.
A origem de uma empresa pode fazer parte da análise de risco estratégico, mas não deveria, isoladamente, substituir a análise técnica. É justamente nessa diferença que o episódio do ATMOS se conecta ao debate mais amplo sobre a Defesa brasileira.
O que Aramar revela
É nesse contexto que a declaração de Lula em Aramar ganha maior relevância. O submarino nuclear é um projeto incomparavelmente mais complexo do que a aquisição de uma unidade de artilharia. Envolve domínio tecnológico, infraestrutura, formação de pessoal, segurança nuclear e uma cadeia industrial construída ao longo de décadas.
Ainda assim, os dois programas estão submetidos a uma característica comum do orçamento de Defesa brasileiro: a necessidade de conciliar projetos de longo prazo com recursos definidos dentro de ciclos orçamentários de curto prazo. Essa equação produz uma dificuldade conhecida.
Quando a disponibilidade financeira não acompanha o planejamento, o programa pode ter seu cronograma alterado, contratos podem ser postergados e decisões industriais precisam ser revistas. Em projetos de alta complexidade, os efeitos podem ser ainda maiores, porque a interrupção de uma etapa pode comprometer etapas posteriores e elevar o custo de retomada.
É justamente por isso que a fala do presidente em Aramar merece ser observada com atenção. Ao reconhecer a dificuldade de manter uma sequência de recursos capaz de assegurar a conclusão do submarino, Lula acabou identificando um dos problemas centrais que afetam não apenas o Programa Nuclear da Marinha, mas o planejamento de Defesa como um todo.
A contradição está na execução
Não há contradição em afirmar que a Defesa é importante e simultaneamente reconhecer que existem limitações orçamentárias. O orçamento público sempre envolve escolhas e restrições.
A dificuldade aparece quando programas são classificados como estratégicos, recebem prioridade política e são apresentados como instrumentos de soberania, mas continuam expostos a mecanismos de contingenciamento e a decisões anuais que podem alterar seu ritmo de execução. É essa diferença entre prioridade declarada e prioridade efetivamente protegida que merece ser discutida.
A experiência brasileira oferece diversos exemplos de programas que avançaram de maneira descontínua, tiveram seus cronogramas alterados ou precisaram ser reestruturados diante de mudanças na disponibilidade de recursos. Isso produz consequências que vão além do atraso de uma entrega.
Para as Forças Armadas, significa adiar capacidades que já foram consideradas necessárias. Para a indústria, significa dificuldade para dimensionar investimentos e manter equipes especializadas. Para o Estado, significa perder parte da eficiência obtida com anos de pesquisa e desenvolvimento.
No caso da Avibras, essa questão é ainda mais sensível porque a empresa concentra competências que levaram décadas para serem construídas. Recuperar uma estrutura industrial depois de sua desmobilização é muito mais complexo do que simplesmente retomar uma linha de produção. O mesmo raciocínio vale para Aramar.
O conhecimento necessário ao desenvolvimento do submarino nuclear não pode ser tratado como um projeto convencional de aquisição. Sua continuidade representa a preservação de competências tecnológicas que possuem valor estratégico para o país.
O que precisa mudar
O debate, portanto, não deveria se limitar ao tamanho do orçamento de Defesa. É necessário discutir também a forma como os programas estratégicos são planejados e protegidos dentro desse orçamento.
Se o Estado entende que determinados projetos são essenciais para sua soberania e para suas capacidades militares futuras, esses projetos precisam contar com mecanismos que permitam maior estabilidade de execução.
Isso não significa retirar a Defesa das prioridades fiscais do governo ou criar uma blindagem absoluta contra qualquer ajuste orçamentário. Significa estabelecer critérios claros para que contingenciamentos não comprometam justamente os programas cuja importância estratégica o próprio Estado reconhece. A fala de Lula em Aramar pode ser lida nesse contexto.
O presidente reafirmou a intenção de concluir o submarino nuclear e reconheceu a dificuldade provocada pela irregularidade dos recursos. A visita à Avibras, poucas semanas antes, havia reforçado a importância atribuída pelo governo à recuperação da indústria nacional de Defesa.
Entre as duas agendas, entretanto, permanece a mesma questão: como transformar essa prioridade política em execução contínua?
O ATMOS, o programa nuclear da Marinha e a recuperação da Avibras pertencem a universos diferentes, mas ajudam a demonstrar o mesmo desafio. Não basta selecionar um sistema, iniciar um programa ou anunciar sua importância. É preciso garantir as condições para que a decisão produza uma capacidade de defesa efetiva e sustentável. Essa é a discussão que precisa avançar.
O Brasil já possui uma estratégia de Defesa, programas estruturantes e uma Base Industrial capaz de desenvolver tecnologias de elevado nível. O que continua faltando, em muitos casos, é uma relação mais estável entre planejamento, orçamento e execução.
E é justamente nessa diferença entre aquilo que o Estado declara como prioridade e aquilo que consegue sustentar ao longo do tempo que estão algumas das principais vulnerabilidades da Defesa brasileira.








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