Avaliações recentes do Serviço de Inteligência Militar da Ucrânia (GUR), divulgadas pela imprensa ucraniana, colocam em xeque uma das percepções recorrentes desde o início da guerra: a de que a Rússia estaria próxima de esgotar seu estoque de mísseis de longo alcance. Os dados mais recentes apontam para uma realidade diferente. Moscou não apenas mantém reservas significativas de diferentes tipos de mísseis, como também conseguiu elevar sua capacidade de produção e reposição.
Segundo estimativas divulgadas pelo GUR no início de agosto, as forças russas mantinham mais de 600 mísseis antinavio supersônicos P-800 Oniks, mais de 450 mísseis de cruzeiro Kalibr e mais de 120 mísseis hipersônicos 3M22 Zircon. O inventário incluiria ainda aproximadamente 130 mísseis balísticos 9M723 empregados pelo sistema Iskander-M e até 100 mísseis de cruzeiro Kh-101 lançados por aeronaves.
Os números devem ser tratados como estimativas de inteligência, e não como dados independentemente verificáveis. Ainda assim, o aspecto mais relevante da avaliação não está apenas no tamanho do estoque, mas na capacidade russa de continuar produzindo armamentos enquanto mantém uma elevada taxa de emprego contra alvos ucranianos.
Produção e consumo em uma guerra de atrito
Os dados atribuídos ao GUR indicam que a indústria russa vem trabalhando em um ritmo compatível com uma economia de guerra. Em julho, as instalações de produção teriam entregue 65 mísseis balísticos Iskander-M, acima da meta mensal de 60 unidades, enquanto outras 87 unidades do Kh-101 teriam sido produzidas.
No segmento de defesa aérea, a projeção para 2026 aponta para uma produção superior a 480 mísseis destinados aos sistemas S-400, aproximadamente o dobro do volume previsto para o ano anterior.
A importância desses números está na relação entre consumo e reposição. Uma força militar pode manter ataques frequentes durante um longo período quando consegue repor uma parcela relevante do armamento empregado. Isso reduz a pressão sobre os estoques acumulados antes da guerra e transforma a capacidade industrial em um componente direto da capacidade militar.
É justamente nesse ponto que a experiência russa se torna relevante para a análise da guerra na Ucrânia. O conflito deixou de ser apenas uma disputa entre plataformas e sistemas de armas e passou a testar a capacidade dos adversários de sustentar uma campanha prolongada, na qual munições de precisão, defesa aérea e sistemas de ataque são consumidos em volumes muito superiores aos observados em conflitos de menor intensidade.
Sanções e a resiliência da indústria russa
A manutenção dessa capacidade também desafia as expectativas iniciais sobre o efeito das sanções ocidentais. A Rússia continua enfrentando restrições importantes no acesso a tecnologias e componentes, especialmente aqueles relacionados à microeletrônica. Entretanto, a estrutura de sua indústria de defesa conseguiu desenvolver mecanismos para reduzir parte dos efeitos dessas limitações.
A Rostec ocupa posição central nesse sistema, reunindo centenas de empresas e unidades industriais. Ao mesmo tempo, análises ucranianas apontam para uma extensa rede de subsidiárias, fornecedores e empresas associadas que dificulta a aplicação uniforme das sanções.
A existência de intermediários comerciais e empresas localizadas em países que não participam integralmente do regime de sanções também permite que componentes e equipamentos cheguem à cadeia industrial russa por rotas indiretas. Isso não significa que as sanções sejam ineficazes, mas demonstra que seu efeito sobre uma economia de guerra depende tanto da restrição tecnológica quanto da capacidade internacional de controlar as redes utilizadas para contorná-las.
A consequência é uma indústria que, apesar das limitações, conseguiu preservar capacidade suficiente para ampliar determinados segmentos da produção militar.
O desafio que também alcança Estados Unidos e Europa
A questão levantada pela produção russa não diz respeito apenas a Moscou. Ela expõe uma dificuldade enfrentada pelos Estados Unidos e pelos países europeus: a necessidade de ampliar simultaneamente a produção destinada à Ucrânia e recompor os próprios estoques.
Desde o início da guerra, Washington e os governos europeus forneceram grandes quantidades de munições, mísseis e sistemas de defesa aérea às forças ucranianas. Esse esforço revelou que parte da indústria de defesa ocidental estava estruturada para atender a demandas relativamente previsíveis e volumes menores do que aqueles exigidos por uma guerra de alta intensidade.
Os Estados Unidos vêm ampliando investimentos e capacidade produtiva em diversas categorias, enquanto os países europeus também trabalham para aumentar a fabricação de munições e sistemas de defesa. O problema, entretanto, não pode ser resolvido apenas com a liberação de novos recursos. A expansão industrial exige linhas de produção, mão de obra especializada, fornecedores, matérias-primas, componentes eletrônicos e capacidade logística.
Além disso, Estados Unidos e Europa precisam administrar uma equação particularmente complexa. A manutenção do apoio militar à Ucrânia consome estoques existentes ao mesmo tempo em que as forças armadas nacionais precisam recuperar seus níveis de prontidão e preparar-se para possíveis conflitos futuros.
A diferença fundamental está no modelo industrial. A Rússia reorganizou parte significativa de sua economia de defesa em função de uma guerra prolongada. O Ocidente, por sua vez, precisa transformar rapidamente uma estrutura construída durante décadas para operações de menor consumo em uma base industrial capaz de sustentar produção em escala muito maior.
A lição para a Base Industrial de Defesa
A guerra da Ucrânia mostra que a capacidade militar de um país não pode ser medida apenas pela quantidade ou sofisticação dos sistemas incorporados às suas Forças Armadas. É necessário considerar a capacidade de produzir, armazenar, manter e repor esses sistemas durante um conflito prolongado.
Para o Brasil, essa é uma questão particularmente relevante. A experiência russa, assim como as dificuldades enfrentadas por Estados Unidos e Europa para ampliar rapidamente sua produção, reforça a importância de uma Base Industrial de Defesa capaz de operar com previsibilidade, escala e continuidade.
Projetos estratégicos podem levar anos para desenvolver uma capacidade operacional, mas a sustentação dessa capacidade depende de contratos, encomendas, orçamento e demanda industrial que permitam preservar as linhas de produção e o conhecimento acumulado.
A principal conclusão da experiência ucraniana, portanto, não está apenas no tamanho dos arsenais russos ou na velocidade de produção de Moscou. Está na constatação de que uma guerra prolongada transforma a indústria de defesa em parte integrante do poder militar. Países que não possuem capacidade de reposição podem ter excelentes sistemas de armas, mas terão dificuldades para sustentá-los quando o consumo ultrapassar suas previsões de paz.
A disputa entre Rússia e Ocidente está demonstrando, na prática, que a próxima geração de conflitos será marcada não apenas pela tecnologia disponível no início da guerra, mas pela capacidade de cada país de manter sua produção funcionando quando os estoques começarem a ser consumidos em ritmo acelerado.
por Angelo Nicolaci
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