Debate sobre a modernização da artilharia indiana reforça diagnóstico do GBN Defense: canhões, drones, sensores e munições precisam operar como um único sistema
A análise publicada pelo GBN Defense sobre a transformação dos fogos de artilharia apontava para uma mudança que vai muito além da substituição de um obuseiro por outro. A combinação entre drones, sensores, munições de precisão, redes de comunicação e maior mobilidade está modificando a própria maneira como a artilharia é empregada no campo de batalha.
Um artigo publicado nesta quarta-feira (19) na Índia reforça exatamente essa leitura. Ao analisar o processo de modernização da artilharia indiana e a evolução das capacidades paquistanesas, o Major General Harsha Kakar chega a uma conclusão semelhante: aumentar o número de canhões não é suficiente. A capacidade de fogo precisa estar conectada a uma rede capaz de localizar o alvo, transmitir os dados, executar o disparo e avaliar o resultado em tempo reduzido.
A discussão indiana ganha importância porque ocorre diante de uma mudança concreta no equilíbrio regional. O Paquistão já emprega cerca de 250 sistemas SH-15, versão de exportação do PCL-181 chinês, um obuseiro de 155 mm sobre rodas desenvolvido pela Norinco. Segundo a análise indiana, a principal vantagem desse conceito está na mobilidade, permitindo que a peça execute o tiro e abandone rapidamente a posição para reduzir sua exposição aos fogos de contrabateria. É justamente essa característica que vem ganhando espaço entre os principais programas de artilharia.
A mobilidade deixou de ser opcional
O emprego de plataformas sobre rodas não representa apenas uma mudança de chassi. No teatro de operações onde drones e radares conseguem identificar posições de tiro com velocidade crescente, o tempo de permanência em uma posição tornou-se um dos fatores que determinam a sobrevivência da unidade.
A lógica do "shoot-and-scoot" passa a ser incorporada ao próprio conceito de emprego da artilharia. A peça precisa ocupar uma posição, receber os dados do alvo, realizar o disparo e iniciar o deslocamento antes que o adversário consiga completar seu ciclo de detecção, decisão e resposta.
Foi exatamente essa mudança que analisamos ao tratar da evolução dos fogos. O aumento da letalidade não está apenas no alcance do canhão ou na potência da munição, mas na capacidade de integrar diferentes elementos em uma cadeia operacional mais rápida.
A experiência indiana mostra que essa percepção não está restrita aos Estados Unidos ou à Europa. A Índia possui mais de 220 regimentos de artilharia e vem conduzindo um amplo processo de substituição de sistemas antigos por peças de 155 mm. O país já incorporou 72 dos 114 obuseiros "Dhanush" inicialmente encomendados e possui encomendas adicionais, além de 307 sistemas "ATAGS" desenvolvidos pela DRDO em parceria com a indústria privada. Ao mesmo tempo, a Índia já opera 109 sistemas autopropulsados K-9 "Vajra-T" baseados no K9 sul-coreano, e adquiriu 145 M777 dos Estados Unidos.
A própria evolução desse inventário revela uma mudança de direção. O país continua utilizando sistemas rebocados, mas cresce a percepção de que a artilharia futura precisará privilegiar plataformas autopropulsadas e montadas sobre veículos, capazes de acompanhar forças móveis e reduzir o tempo de exposição.
O canhão é apenas uma parte do sistema
O ponto mais importante da análise indiana, entretanto, está além da plataforma. O artigo chama atenção para a necessidade de reduzir o tempo do ciclo sensor-atirador, conectando drones, radares, sistemas de vigilância, munições de precisão e armas em uma mesma rede. Quanto mais distante estiver o alvo, maior tende a ser a importância dessa integração, já que pequenas imprecisões na localização ou nos dados meteorológicos e balísticos podem resultar em grandes erros no ponto de impacto.
A questão também aparece quando se discute munição de precisão. A Índia adquiriu apenas 216 projéteis M982 Excalibur para seus M777, utilizados durante a Operação Sindoor, por US$ 47,1 milhões. O exemplo demonstra a capacidade operacional proporcionada por uma munição guiada, mas também expõe o problema de escala: uma força de artilharia não pode depender exclusivamente de munições de altíssimo custo para manter uma campanha prolongada.
Por isso, a Índia busca desenvolver sua própria capacidade de produção de munições de precisão e ampliar o alcance dos sistemas existentes. Projetos de munição com propulsão ramjet e tecnologia "base bleed" estão entre as iniciativas em desenvolvimento, enquanto sistemas de foguetes e mísseis como "Pinaka" e "Pralay" complementam a arquitetura de fogos de maior alcance.
A lógica é semelhante à observada em outros programas modernos: o alcance da artilharia passa a depender não apenas do tubo, mas também da capacidade de encontrar o alvo e fornecer ao sistema de armas os dados necessários para atingi-lo.
Drones entram definitivamente nos fogos
Outro ponto que aproxima a experiência indiana da análise publicada pelo GBN Defense é a incorporação dos drones ao sistema de artilharia. A Índia está estruturando unidades nas quais aeronaves não tripuladas de vigilância e sistemas de ataque passam a operar junto aos meios de fogo. O objetivo é construir uma cadeia na qual o drone identifica o alvo, os dados são transmitidos à unidade de tiro, a artilharia executa o engajamento e os próprios sensores podem realizar a avaliação dos danos. Essa integração reduz a dependência de processos separados e diminui o tempo entre a identificação e o engajamento do alvo.
É uma mudança importante. O drone deixa de ser apenas um equipamento de observação utilizado para auxiliar a artilharia e passa a fazer parte de sua arquitetura operacional. A consequência é que uma bateria moderna pode ser composta por muito mais do que seus obuseiros. Sensores, enlaces de dados, sistemas de comando e controle, guerra eletrônica, drones, radares e munições passam a determinar tanto a capacidade ofensiva quanto a sobrevivência da unidade.
A questão industrial
A Índia também enfrenta um problema que interessa diretamente ao Brasil: modernizar a artilharia exige capacidade industrial para sustentar a força. A Índia busca aumentar a produção doméstica de munições e reduzir sua dependência de fornecedores estrangeiros, ao mesmo tempo em que enfrenta atrasos no desenvolvimento, correções necessárias durante os testes e limitações de capacidade industrial.
A experiência demonstra que uma plataforma moderna, sozinha, não garante uma capacidade de fogo moderna. É necessário produzir munições em quantidade, manter estoques, garantir peças de reposição, desenvolver sistemas eletrônicos e assegurar a infraestrutura necessária para manter os equipamentos disponíveis durante um conflito prolongado. Essa é uma das razões pelas quais a discussão sobre Base Industrial de Defesa precisa estar diretamente associada aos programas de modernização militar.
O que isso significa para o Brasil
A experiência indiana reforça uma questão que o Brasil precisa enfrentar na modernização de sua artilharia. O desafio não está apenas em substituir sistemas antigos, mas em construir uma arquitetura de fogos adequada ao ambiente operacional contemporâneo.
O Exército Brasileiro já possui elementos importantes dessa arquitetura. O programa ASTROS oferece uma capacidade de fogos de longo alcance, enquanto drones, radares, sistemas de comando e controle e projetos de munições ampliam progressivamente a capacidade de aquisição e engajamento de alvos. O próximo passo precisa ser a integração desses elementos.
Nesse contexto, a discussão sobre o ATMOS ganha relevância. A adoção de um sistema de artilharia autopropulsado sobre rodas representa mais do que a substituição de uma peça rebocada: significa incorporar maior mobilidade ao componente de 155 mm e aproximar a artilharia brasileira do conceito que vem sendo adotado por diferentes forças.
A decisão americana de testar o K9MH e a experiência indiana com sistemas como o Vajra e os projetos de canhões montados sobre rodas mostram que existe uma convergência clara na evolução da artilharia. As plataformas estão se tornando mais móveis, enquanto sensores, drones e munições de precisão passam a operar cada vez mais integrados.
Para o Brasil, isso torna ainda mais necessário dar prosseguimento à aquisição do ATMOS, e principalmente, inseri-lo em uma arquitetura mais ampla de fogos, conectada aos sensores, drones, radares, comunicações e sistemas de comando e controle já em desenvolvimento.
A conclusão é a mesma que apresentamos na análise anterior de autoria deste analista, agora reforçada pela experiência indiana: a artilharia está deixando de ser uma coleção de canhões para se transformar em uma rede integrada de sensores, armas e informações.
O país que conseguir reduzir o tempo entre detectar, decidir, disparar e reposicionar sua unidade terá uma vantagem significativa. E essa transformação não está mais no campo das hipóteses. Índia, Estados Unidos e outras forças já estão adaptando seus programas de artilharia a essa realidade. O Brasil precisa decidir com que velocidade pretende fazer o mesmo.
por Angelo Nicolaci
GBN Defense - A informação começa aqui

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