O episódio registrado na última sexta-feira (21), no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, deveria ser observado para além das estatísticas de uma operação policial. Durante a ação, policiais encontraram veículos preparados com explosivos e barricadas equipadas com artefatos que poderiam ser acionados remotamente. A operação mobilizou cerca de 200 agentes, contou com apoio aéreo e veículos blindados e provocou impactos sobre importantes vias da cidade. Segundo a Polícia Militar, foi a primeira vez que carros preparados como bombas foram identificados nesse contexto no Rio.
O episódio chama atenção porque não representa apenas o aumento do poder de fogo do crime organizado. Ele revela uma mudança na forma como determinadas organizações criminosas estão se preparando para enfrentar a presença do Estado. Ao longo dos últimos anos, o narcotráfico passou a incorporar drones, sistemas de vigilância, armamento pesado, barricadas e estruturas de controle territorial. A utilização de veículos preparados com explosivos acrescenta uma nova capacidade a esse repertório e mostra que o criminoso passou a pensar não apenas em como fugir da ação policial, mas também em como dificultar, retardar e elevar o custo da entrada das forças de segurança nas areas dominadas.
Essa transformação precisa ser compreendida dentro de uma realidade territorial que há muito deixou de ser apenas uma disputa pelo mercado de drogas. Em diferentes áreas do Rio de Janeiro, organizações criminosas estabeleceram mecanismos próprios de controle, impõem regras à população, controlam acessos, realizam patrulhamento armado e exploram atividades econômicas. Em determinados territórios, o Estado não está simplesmente ausente. Ele disputa espaço com uma estrutura paralela que procura exercer autoridade sobre a população e sobre o território.
É nesse ponto que o emprego de tecnologia ganha importância. Drones, por exemplo, permitem que grupos criminosos ampliem sua capacidade de observação e acompanhem a movimentação das forças de segurança antes mesmo de um confronto começar. Equipamentos relativamente baratos e disponíveis no mercado civil podem ser adaptados para vigilância, reconhecimento e em alguns casos para emprego ofensivo. Quando combinados ao conhecimento detalhado do terreno e a uma rede de informantes, esses recursos proporcionam às organizações criminosas uma capacidade de consciência situacional que dificulta significativamente as operações do Estado.
As barricadas e os veículos preparados com explosivos representam outra etapa dessa evolução. No ambiente urbano densamente ocupado, qualquer obstáculo pode alterar o ritmo de uma operação. Quando esse obstáculo pode conter explosivos ou ser acionado remotamente, a progressão das forças públicas passa a exigir procedimentos de segurança, equipes especializadas e maior cautela. O terreno deixa de ser apenas um espaço onde ocorre a operação e passa a ser utilizado deliberadamente como instrumento de defesa por quem controla aquela área.
É nesse contexto que podemos falar em ambiente de confronto assimétrico, uma espécie de guerra irregular travada dentro do espaço urbano. O Rio de Janeiro não vive uma guerra convencional, mas enfrenta organizações não estatais que utilizam métodos próprios da guerra assimétrica para compensar sua inferioridade diante do Estado. Essas organizações exploram o terreno, a clandestinidade, a surpresa, a tecnologia comercial adaptada, o poder de fogo, a inteligência e o controle da população para dificultar a entrada das forças públicas, elevar o custo das operações e preservar o domínio sobre seus territórios. Nesse cenário, a fronteira entre uma operação policial de grande escala e uma operação de combate urbano torna-se cada vez mais estreita.
Essa realidade também ajuda a compreender a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A medida colocou as duas maiores facções criminosas brasileiras sob o regime de sanções previsto pela legislação norte-americana para Foreign Terrorist Organizations. A classificação considera justamente a capacidade dessas organizações de exercer violência, controlar territórios e projetar suas atividades para além das fronteiras brasileiras.
É importante, contudo, delimitar corretamente o alcance do episódio. Os veículos preparados com explosivos foram encontrados no Complexo de Israel, área sob influência do Terceiro Comando Puro, e o caso não deve ser atribuído diretamente ao Comando Vermelho ou ao Primeiro Comando da Capital. Isso, porém, não reduz sua gravidade nem sua relevância para o debate sobre narcoterrorismo. O emprego deliberado de veículos-bomba e dispositivos explosivos improvisados (IEDs) para dificultar o avanço das forças de segurança demonstra que organizações criminosas brasileiras já são capazes de empregar métodos de violência e coerção associados a grupos terroristas e a conflitos assimétricos. Mais do que uma evolução do poder de fogo, trata-se da incorporação de uma capacidade destinada a produzir medo, restringir a mobilidade do Estado e elevar deliberadamente o risco de suas operações.
O problema mais profundo está na capacidade de permanência do Estado. Uma operação pode resultar em prisões, apreensões de armas e destruição de estruturas criminosas. Mas, se depois da saída das forças públicas a organização retorna, recompõe suas posições e restabelece suas regras, o território não foi efetivamente recuperado. Houve uma incursão estatal, mas não necessariamente a retomada permanente da autoridade pública.
Essa diferença deveria estar no centro da discussão nacional sobre segurança. O desafio não é apenas aumentar o número de operações, mas construir capacidade para que o Estado permaneça onde antes esteve ausente ou perdeu espaço. Isso exige inteligência, investigação financeira, controle de fronteiras, combate ao fluxo de armas, fortalecimento das polícias, sistema prisional eficiente e principalmente, coordenação permanente entre as diferentes estruturas do Estado.
O que acontece no Rio também precisa ser observado sob uma perspectiva mais ampla. Quando organizações criminosas conseguem acumular recursos financeiros, controlar territórios, impor regras à população, manter redes de vigilância, empregar drones, utilizar armamento pesado e preparar obstáculos explosivos para dificultar a entrada das forças públicas, o problema deixa de ser apenas o tráfico de drogas. Estamos diante de organizações que desenvolveram capacidade para desafiar diretamente a autoridade estatal.
O episódio do Complexo de Israel, portanto, não significa que o Rio de Janeiro tenha se transformado em zona de guerra. Mas seria igualmente equivocado continuar tratando acontecimentos dessa natureza como manifestações ordinárias da criminalidade. O Brasil está diante de um ambiente de segurança que mudou, e a resposta do Estado precisa acompanhar essa transformação. A questão central já não é apenas quem controla o mercado de drogas, mas até onde o Estado consegue exercer de forma permanente e efetiva sua autoridade sobre o próprio território.
É justamente aí que o debate sobre narcoterrorismo ganha relevância. Mais importante do que a classificação jurídica é compreender o fenômeno que está diante de nós: organizações criminosas que utilizam a violência não apenas para proteger seus negócios, mas também para controlar território, intimidar populações e criar condições para impedir ou limitar a presença do Estado. O emprego de carros-bomba acrescenta uma dimensão particularmente grave a esse processo, porque demonstra que a capacidade de confronto dessas organizações continua evoluindo.
Para o Estado brasileiro, o alerta não poderia ser mais claro. A questão deixou de ser apenas como realizar uma operação policial em uma área dominada pelo crime. O desafio é recuperar e manter a autoridade estatal, impedir que essas organizações continuem acumulando capacidades de natureza militar e terrorista e reconstruir uma presença pública capaz de permanecer nesses territórios. Quando grupos criminosos conseguem determinar quem entra, quem circula, quais regras são obedecidas e como as forças do Estado serão recebidas, a soberania formal sobre o território continua existindo, mas sua autoridade efetiva começa a ser contestada. E é justamente essa fronteira que o Brasil não pode permitir que continue avançando.
Por Angelo Nicolaci
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