A Aviação Naval da Marinha do Brasil celebra neste domingo, 23 de agosto, 110 anos de sua criação, marco de uma trajetória que acompanhou praticamente toda a evolução da aviação militar no país. As comemorações foram antecipadas com a cerimônia realizada na última sexta-feira, 21 de agosto, na Base Aerea Naval de São Pedro da Aldeia (BAeNSPA), carinhosamente chamada de "Macega", e contou com a presença do Comandante da Marinha, autoridades civis e militares e integrantes da comunidade aeronáutica naval.
A história da Aviação Naval remonta aos primeiros anos da própria aviação. Apenas uma década após o voo histórico do brasileiro Alberto Santos Dumont com seu 14-Bis em 1906, a Marinha do Brasil estabelecia em 23 de agosto de 1916, sua organização aeronáutica, iniciando uma trajetória que faria do país um dos pioneiros no emprego militar do poder aéreo no ambiente naval. As primeiras aeronaves Curtiss marcaram o início de uma capacidade que ao longo das décadas seguintes seria profundamente transformada.
Desde seus primeiros anos, a Aviação Naval atravessou períodos de expansão, interrupção e reconstrução. Após participar do esforço aliado durante a Primeira Guerra Mundial, com aviadores navais brasileiros integrando operações no exterior, a Marinha desenvolveu suas atividades aeronáuticas ao longo das décadas seguintes até 1941, quando a criação da Força Aérea Brasileira concentrou sob uma única instituição os meios aéreos militares do país. A medida levou à extinção da Aviação Naval como organização independente e interrompeu, por décadas, o desenvolvimento de uma aviação orgânica voltada diretamente às necessidades do Poder Naval.
A retomada começou nos anos 1950, inicialmente com a reconstrução da capacidade de operar aeronaves de asas rotativas. A incorporação do Navio-Aeródromo Ligeiro Minas Gerais (A 11), em 1960, devolveu à Esquadra uma plataforma aeronaval e permitiu o desenvolvimento progressivo da doutrina de operações embarcadas. No entanto, a disputa institucional em torno da operação de aeronaves de asa fixa resultou em restrições que mantiveram essa atividade fora do alcance da Marinha durante décadas, concentrando a aviação de asa fixa militar na Força Aérea Brasileira.
A mudança decisiva ocorreu na década de 1990. Em 1997, a Marinha adquiriu do Kuwait 23 aeronaves A-4KU e TA-4KU Skyhawk, que receberam as designações AF-1 e AF-1A. A incorporação dos caças marcou o retorno da Marinha à operação de aeronaves de asa fixa de combate após mais de meio século de interrupção. Inicialmente, os Skyhawk foram empregados a partir do Minas Gerais, antes de a Marinha incorporar, em 2000, o Navio-Aeródromo São Paulo (A 12), que passaria a se tornar a principal plataforma para a operação da aviação de caça embarcada.
O retorno dos AF-1 permitiu reconstruir uma competência que havia sido interrompida desde a criação da FAB. Mais do que adquirir aeronaves, a Marinha precisou recuperar conhecimentos, formar pilotos, desenvolver procedimentos e reconstruir a doutrina necessária para operar caças a partir de um navio-aeródromo. Posteriormente, sete aeronaves passaram pelo programa de modernização conduzido pela Embraer, recebendo as designações AF-1B e AF-1C e novos sistemas de navegação, comunicações e combate.
Embora a desativação do NAe São Paulo tenha encerrado, ao menos temporariamente, a capacidade brasileira de operar caças embarcados a partir de um navio-aeródromo, a manutenção dos AF-1 modernizados preserva parte importante do conhecimento acumulado. É uma competência cuja recuperação exigiu décadas de investimento e que continua tendo relevância para qualquer futuro projeto brasileiro que envolva novamente a operação de aeronaves de asa fixa a partir de uma plataforma naval.
Ao longo de seus 110 anos, a Aviação Naval expandiu sua atuação muito além do apoio direto à Esquadra. Atualmente, seus meios operam desde a Amazônia Azul até a Amazônia e o Pantanal, por meio dos Esquadrões Distritais e das unidades sediadas no Complexo Aeronaval de São Pedro da Aldeia. Essa presença permite o emprego de aeronaves em missões de esclarecimento, transporte, busca e salvamento, apoio logístico, operações ribeirinhas e apoio às populações isoladas, além das tradicionais missões associadas ao emprego do Poder Naval.
O Complexo Aeronaval de São Pedro da Aldeia permanece como o principal centro da Força Aeronaval. Ali estão reunidos o Comando da Força Aeronaval, a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, o Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval, as estruturas de apoio logístico e de saúde e o Grupo Aéreo Naval de Manutenção, responsável por uma parcela fundamental da sustentação técnica dos meios aeronavais. A capacidade de manter aeronaves disponíveis, inclusive quando embarcadas e afastadas de suas bases, é um dos elementos que sustentam a capacidade operacional da Força.
A atual frota reúne vetores destinados a diferentes perfis de missão. Os SH-16 Seahawk constituem uma das principais capacidades da guerra antissubmarino e de superfície, enquanto os AH-15B Super Cougar representam um avanço importante na capacidade de guerra antissuperfície, podendo operar com mísseis Exocet AM39. Os AH-11B Super Lynx, resultado da modernização dos antigos AH-11A, seguem desempenhando um papel fundamental como aeronaves orgânicas dos navios de escolta da Esquadra.
A modernização também alcança a formação e as missões de apoio. Os UH-17, baseados no Airbus H135, reforçaram especialmente as operações na Antártica e outras missões de apoio, enquanto os novos IH-18, baseados no H125, iniciam a substituição dos tradicionais IH-6B Jet Ranger na instrução prática de voo dos futuros Aviadores Navais. Trata-se de uma renovação que alcança tanto a linha de frente quanto a estrutura responsável por formar as próximas gerações.
Na asa fixa, a modernização de sete AF-1 Skyhawk pela Embraer permitiu preservar parte importante do conhecimento acumulado pela Marinha na operação de aeronaves de caça, enquanto a criação do 1º Esquadrão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, o Esquadrão Harpia, inaugurou uma nova etapa com a incorporação dos sistemas RQ-1 ScanEagle. A crescente utilização de sistemas não tripulados aponta para uma transformação que tende a ganhar importância nos próximos anos, ampliando a capacidade de vigilância, reconhecimento e obtenção de informações em proveito da Força Naval.
O aniversário de 110 anos também coincide com outro marco histórico. Em 2026, a Aviação Naval formou suas duas primeiras mulheres Aviadores Navais, as Segundo-Tenentes (FN) Helena de Souza Monteiro Morais e Isabela Ferreira de Amorim, que concluíram o Curso de Aperfeiçoamento de Aviação para Oficiais e passaram a integrar o seleto grupo de pilotos da Marinha do Brasil. Sob o comando do Contra-Almirante (FN) Alexandre Vasconcelos Tonini, a Força Aeronaval chega ao seu aniversário reunindo uma história marcada pelo pioneirismo, mas também por uma permanente necessidade de adaptação às transformações tecnológicas e operacionais.
Ao completar 110 anos neste 23 de agosto, a Aviação Naval reafirma uma característica que acompanhou toda a sua trajetória: sua existência está diretamente ligada à capacidade da Marinha de ampliar o alcance de seus navios e forças em terra. Dos primeiros hidroaviões aos modernos helicópteros embarcados, caças e sistemas remotamente pilotados, a evolução da Força Aeronaval acompanha a transformação do próprio Poder Naval brasileiro e mantém atual o seu tradicional lema:
“No Ar, os Homens do Mar.”
"Viva a Marinha do Brasil!!!"
Por Angelo Nicolaci
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