Aval de Lula para devolver ao Paraguai um troféu da Guerra da Tríplice Aliança reacende uma questão que Brasília parece não querer enfrentar: de quem é a memória de uma guerra na qual também morreram milhares de brasileiros?
O presidente Lula teria dado aval para a devolução ao Paraguai do El Cristiano, o gigantesco canhão de 12 toneladas capturado pelas forças brasileiras durante a Guerra do Paraguai. A informação, publicada pela jornalista Bela Megale do Globo, ainda aguarda a formalização diplomática entre os dois países.
A decisão pode ser apresentada como um gesto de reconciliação. Mas há uma pergunta que Brasília precisa responder antes de transformar um troféu de guerra em moeda diplomática: o que exatamente o Brasil está devolvendo, um objeto estrangeiro ou uma parte da própria memória militar brasileira?
O El Cristiano não surgiu de um episódio isolado. A peça foi fundida no Paraguai em 1867, utilizando o bronze de sinos de igrejas, e posteriormente capturada pelas forças brasileiras. Levá-la ao Brasil foi consequência direta de uma guerra na qual o país mobilizou enormes contingentes militares e perdeu milhares de homens em combate e por doenças.
Por isso, reduzir o canhão à condição de “objeto paraguaio que precisa voltar para casa” é uma simplificação histórica conveniente, mas incompleta.
O Paraguai tem razões legítimas para reivindicar a peça. A guerra devastou o país e ocupa um lugar central em sua memória nacional. O Brasil, por sua vez, também tem o direito e o dever de preservar os símbolos materiais de um conflito que marcou profundamente sua história militar e política.
O problema, portanto, não é reconhecer a memória paraguaia. É perguntar se, em nome dela, o Brasil precisa abrir mão da sua própria memória.
A questão ganha contornos ainda mais delicados pela cronologia. O Paraguai voltou a cobrar a devolução do El Cristiano depois das recentes declarações de Lula sobre a Guerra do Paraguai. Agora surge a informação de que o presidente deu aval à restituição.
Não é possível afirmar que uma coisa tenha sido moeda de troca pela outra. Mas é perfeitamente legítimo perguntar se patrimônio histórico está sendo utilizado como instrumento de acomodação diplomática. Se for esse o caso, o precedente é preocupante.
Troféus de guerra, documentos, armas e objetos históricos não são apenas peças de museu. Eles carregam memórias conflitantes. Alguns representam derrota para uns e vitória para outros. Retirá-los de um país não elimina a guerra da história, mas pode empobrecer a capacidade desse país de contá-la sob sua própria perspectiva. E há uma ironia nisso tudo.
O Brasil passou décadas discutindo a necessidade de preservar sua memória militar, seus arquivos e seus patrimônios históricos. Agora, diante de uma demanda legítima de um país vizinho, parece disposto a resolver a questão simplesmente retirando a peça de seu próprio acervo. Reconciliação não deveria significar esquecimento.
Se o governo entende que a devolução é historicamente correta, que explique ao país os fundamentos da decisão. Que apresente os critérios jurídicos, históricos e diplomáticos utilizados. Que diga o que acontecerá com outros troféus e documentos da Guerra da Tríplice Aliança. E, principalmente, que explique como pretende preservar a memória brasileira associada ao El Cristiano depois que ele deixar o país. Porque milhares de brasileiros morreram naquela guerra. Eles não podem ser tratados como uma nota de rodapé para uma fotografia diplomática.
O Paraguai tem o direito de preservar sua memória. O Brasil também. E fazer diplomacia com a história é legítimo. Fazer diplomacia apagando a própria história, não.
Por Angelo Nicolaci
GBN Defense — A informação começa aqui.






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