quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Submarino Nuclear Brasileiro no contexto geopolitico


Especialista no tema da proliferação de armas atômicas, Sarah Diehl, pesquisadora associada do James Martin Center for Nonproliferation Studies de Monterrey, Califórnia, avalia que a decisão do Brasil de construir um submarino a propulsão nuclear gera desconfiança internacional.

Segundo ela, se quisesse apenas defender suas reservas de petróleo no mar, como alega oficialmente, o país poderia recorrer a submersíveis convencionais equipados com sistemas que permitem sua permanência sob a água por mais tempo e são mais baratos e eficientes. Para Sarah, o anúncio da nova embarcação suscita perguntas sobre se o Brasil não quer "projetar poder muito além da sua região costeira".

A iniciativa também poderia, em sua opinião, estimular países vizinhos a investir em submarinos diesel-elétricos, expor o Brasil a roubos de material nuclear ou ataques terroristas e fazer crescer pressões por inspeções internacionais mais intrusivas nas instalações brasileiras de enriquecimento de urânio.

"Também poderia suscitar preocupações sobre se o Brasil está procurando ter um artefato nuclear", diz, por e-mail, a pesquisadora, que publicou artigos críticos ao projeto brasileiro, alguns na revista eletrônica WMD Insights, publicação da Defense Threat Reduction Agency (DTRA), ligada ao Departamento de Defesa dos EUA.



Leia a entrevista:

- O que significa para o Brasil, em termos estratégicos, ter um submarino a propulsão nuclear?

O governo brasileiro e os oficiais da Marinha do Brasil têm argumentado repetidamente que o submarino nuclear é necessário para proteger as reservas de petróleo do país. Surge, porém, em discursos públicos, a impressão de que o Brasil também acredita que um submarino nuclear vai aumentar o prestígio do país. Uma opção mais barata e mais eficiente para proteger os campos de petróleo no mar seria construir ou comprar submarinos a diesel, com propulsão independente do ar, que permite um tempo adicional de cruzeiro submerso. Muitos submarinos desse tipo poderiam ser comprados pelo custo de um submarino nuclear.



- O Brasil é signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e do Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis, além de ter cancelado seu programa de desenvolvimento de um artefato nuclear no início dos anos 90. Não participa de guerras desde 1945 e é integrante de operações de paz das Nações Unidas. Também não tem conflitos com países vizinhos. Por tudo isso, é visto como um país pacífico, sem intenções bélicas. Essa percepção mundial em relação ao Brasil poderia mudar, por causa do submarino nuclear?

Construir um submarino nuclear não vai, por si só, gerar um conflito. Mas realmente suscita perguntas sobre as intenções do país, sugerindo que está procurando projetar poder muito além da sua região costeira, dentro do Oceano Atlântico ou algum outro ponto além.



- A construção do submarino nuclear brasileiro poderia causar uma corrida nuclear na América do Sul?

Nesse ponto, há muito poucos países sul-americanos capazes de construir um submarino nuclear ou querendo gastar tantos recursos. Mas poderia estimular outros a comprar silenciosos (e menos caros) submarinos a diesel, como contramedida.



- A produção de urânio enriquecido como combustível para o novo submarino poderia causar problemas para o Brasil?

Poderia aumentar o risco de o Brasil sofrer um ataque terrorista ou um roubo de material nuclear. Também poderia suscitar preocupações entre países maiores, de fora da região, sobre se o Brasil está procurando ter um artefato nuclear, o que poderia abalar sua reputação como nação pacífica e afetar suas relações comerciais.



- Tantos tratados e garantias não serão mais suficientes como prova do comportamento pacífico brasileiro, se o país construir seu submarino nuclear?

Construir um submarino nuclear não viola nenhum dos atuais tratados, mas realmente trabalha contra os esforços internacionais para reduzir a disseminação de urânio altamente enriquecido e para convencer países como o Irã a não perseguir o enriquecimento de urânio.



- O Brasil não assinou o protocolo adicional do Tratado de Não-Proliferação, que permite inspeções nucleares mais intrusivas. Se o Brasil tiver um submarino nuclear e fabricar seu próprio combustível, isso poderia causar algum tipo de pressão internacional para que assine esse protocolo?

Vão certamente aumentar essas pressões, embora seja possível atender a essas preocupações com um programa regional de inspeções, por meio da Agência Brasil-Argentina de Contabilidade e Controle de Material Nuclear (Abacc).



- Em sua opinião, as preocupações internacionais com a construção do submarino nuclear brasileiro já estão crescendo ou isso é para o futuro?

Serão necessários tempo e consideráveis gastos para construir esse submarino, então as preocupações são relativamente pequenas agora. Elas vão provavelmente crescer no futuro, à medida que o programa avançar.



- Como os EUA podem reagir à existência de outro país nas Américas com submarinos a propulsão nuclear?

Até agora, os Estados Unidos não se opuseram aos esforços do Brasil. Mas o governo dos Estados Unidos provavelmente acredita que o Brasil poderia estar usando essas verbas para propósitos melhores.

Fonte: O Estado de SP
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2 comentários:

  1. Interessante mas,santa desconfiança!

    A proteção do pré-sal não é o motivo para construção do Subnuc,a Mb ja estudava isto bem antes da descoberta das reservas,mas a MB quer maior indepêndencia,até para não precisar d uma 4° frota em nossas aguas.(seria uma boa resposta a Sra Sarah Diehl).
    Além disso,o conhecimento que estamos buscando com este projeto.Ja temos um reator quase pronto,só nos falta o casco e outros componente e sistemas,que tbm estamos procurando absorver.

    abraços.

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  2. Bom comentario Luan, tocou em um ponto que muitas pessoas deixam passar despercebido

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