quinta-feira, 24 de setembro de 2026

P-3AM perto do fim: O E190-E2 pode dar origem a próxima aeronave de patrulha marítima brasileira?


A substituição do P-3AM Orion exige uma discussão mais ampla sobre o futuro da capacidade brasileira de patrulha marítima. A aeronave ainda desempenha funções relevantes de vigilância, reconhecimento, guerra antissubmarino e guerra antissuperfície, mas seu ciclo de vida, associado ao baixo índice de disponibilidade, torna necessário planejar sua sucessora. A questão não deveria se limitar à aquisição de uma aeronave pronta no exterior, mas considerar se a substituição de uma plataforma estratégica pode também criar uma nova capacidade nacional de alto valor tecnológico, especialmente diante da existência de uma plataforma madura como o Embraer E190-E2.

Um dos pontos que tornam essa discussão relevante está relacionado ao AGM-84L Harpoon Block II empregado pelo P-3AM. Sua incorporação exigiu aquisição, integração, homologação, testes, certificação e treinamento, estabelecendo uma capacidade antinavio incorporada à Aviação de Patrulha. A FAB mantém mecanismos para preservar a disponibilidade do sistema, incluindo manutenção e recertificação de lotes, mas sua própria documentação prevê a reavaliação da solução diante da evolução tecnológica, obsolescência e condições futuras de suporte. A Marinha dos Estados Unidos planeja retirar de serviço a versão de lançamento aéreo do Harpoon em 2035, horizonte que precisa ser considerado no planejamento brasileiro.

Isso não significa que o Harpoon esteja próximo de deixar de ser empregado no Brasil. O ponto é o tempo necessário para desenvolver, testar, certificar e colocar em serviço uma capacidade sucessora. A experiência do P-3AM demonstra que substituir um sistema de armas envolve muito mais que adquirir um novo míssil: sensores, computadores de missão, interfaces, software, equipamentos de apoio, treinamento e certificação precisam funcionar como um conjunto. Quanto mais tarde esse processo começar, menor será a margem para uma transição sem lacunas operacionais.

Nesse cenário, o P-8A Poseidon constitui uma referência internacional de capacidade e deve fazer parte de qualquer estudo comparativo. Entretanto, a existência de uma solução estrangeira madura não elimina a necessidade de avaliar uma alternativa brasileira, sobretudo porque o país possui indústria aeronáutica capaz de produzir plataformas de grande porte e experiência na integração de sistemas de defesa complexos.

A possibilidade de utilizar uma plataforma da Embraer para essa missão não é nova. Em 2016, a empresa anunciou a intenção de desenvolver uma variante de patrulha marítima baseada no E190-E2, associada à substituição de aeronaves como o P-3 e ao potencial mercado internacional. A iniciativa não se transformou em programa operacional. Em 2023, a Embraer voltou a estudar uma configuração militar do E190-E2 para patrulha marítima, considerando radar, sistemas de missão, sonoboias e armamentos antinavio. Há, portanto, um histórico de interesse industrial, mas não existe atualmente um E190-E2 de patrulha marítima em desenvolvimento.

É nesse espaço que o Brasil poderia retomar a discussão. O conceito P-190A Tritão, proposto pelo GBN Defense nesta análise, não representa um programa existente nem uma designação oficial da FAB ou da própria Embraer. A proposta consiste em utilizar o E190-E2 como plataforma-base para uma aeronave brasileira de patrulha marítima, concentrando o desenvolvimento na adaptação militar, arquitetura de missão, sensores, enlaces de dados e integração de armamentos.

Partir de uma plataforma existente permitiria evitar o desenvolvimento simultâneo de uma nova célula aeronáutica e de todo o sistema de missão. O E190-E2 possui uma arquitetura aeronáutica madura e certificada no mercado civil, embora sua conversão para emprego militar exigisse estudos estruturais, alterações internas, sistemas acústicos, guerra eletrônica, comunicações seguras, sensores e integração de armas, seguidos de uma campanha completa de ensaios e certificação.

O eventual P-190A não poderia ser simplesmente um E190 equipado com radar marítimo. Sua arquitetura precisaria integrar radar de vigilância, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, guerra eletrônica, inteligência eletrônica, comunicações seguras, processamento de dados, sistema acústico, sonoboias e interfaces para armamentos. A aeronave também poderia ser concebida para integrar a arquitetura do SisGAAz, funcionando como um dos nós aéreos da consciência situacional marítima.

Essa arquitetura permitiria explorar melhor os sistemas remotamente pilotados. Um P-190A poderia receber dados de SARP empregados pela FAB e pela Marinha do Brasil, como Hermes 900 e ScanEagle, além de futuras plataformas nacionais, funcionando como elemento de processamento, fusão e coordenação. Os sistemas remotamente pilotados poderiam proporcionar persistência sobre áreas específicas, enquanto a aeronave tripulada concentraria maior capacidade de processamento, identificação e eventual emprego de armamentos.

A rede poderia ainda incorporar informações provenientes de navios, sensores costeiros e centros de comando. Para o Brasil, que precisa acompanhar uma extensa área marítima e proteger linhas de comunicação e recursos oceânicos, essa integração seria tão importante quanto o desempenho isolado da aeronave.

Nesse contexto, o MANSUP e os estudos do MARSUP acrescentam outra variável. O desenvolvimento do MANSUP permitiu ao Brasil acumular competências em navegação, guiagem, controle, eletrônica, telemetria e integração, enquanto o MANSUP-ER amplia essa base. Em fevereiro de 2026, Marinha do Brasil e SIATT avançaram em estudos e intercâmbio de informações para avaliar o desenvolvimento de dois grupos de Mísseis Ar-Superfície, denominados MARSUP, com horizonte de trabalho até 2031.

O MARSUP ainda está em fase de estudos e não foi definido como solução pronta, também não existe programa de desenvolvimento de uma aeronave de patrulha marítima derivada do E190-E2. Entretanto, caso ambos os projetos avancem, seus requisitos poderiam ser coordenados desde o início, incluindo interfaces digitais, computadores de missão, software, transmissão de dados, procedimentos de lançamento e certificação. Uma arquitetura aberta permitiria ainda manter a possibilidade de empregar armamentos estrangeiros quando necessário.

Essa abordagem também muda a discussão sobre nacionalização. Não seria necessário substituir todos os componentes estrangeiros, mas ampliar o domínio brasileiro sobre os elementos críticos da plataforma, principalmente engenharia de integração, software, arquitetura de missão e capacidade de modernização. Isso reduziria dependências e daria maior liberdade para incorporar novos sensores e armamentos ao longo da vida útil.

O efeito sobre a Base Industrial de Defesa seria igualmente relevante. Um programa desse porte poderia envolver empresas de sensores, software, comunicações, guerra eletrônica, processamento de sinais, integração de armamentos e manutenção, além de institutos de pesquisa e universidades. As competências desenvolvidas poderiam ser reaproveitadas em outros programas militares e aplicações civis, ampliando o retorno do investimento.

Existe também uma possível dimensão de exportação. Um patrulheiro baseado no E190-E2 não precisaria competir diretamente com o P-8A em todas as categorias. Dependendo do desempenho obtido, poderia atender países interessados em vigilância marítima, proteção de zonas econômicas exclusivas, busca e salvamento e, em determinadas configurações, guerra antissubmarino e antissuperfície, sem necessariamente exigir uma plataforma do mesmo porte do Poseidon. Uma eventual escala internacional ajudaria a distribuir os custos de desenvolvimento, como ocorre com o KC-390 e o A-29 Super Tucano.

Tudo isso, porém, precisaria ser comprovado por engenharia. O E190-E2 foi concebido como aeronave comercial e sua adaptação exigiria determinar alcance, autonomia, desempenho nos diferentes perfis de missão, capacidade estrutural, disponibilidade, custos de operação e requisitos de manutenção na configuração militar.

O P-8A deve permanecer como referência nessa avaliação por oferecer uma capacidade operacional comprovada. A comparação permitiria identificar quais requisitos são indispensáveis à FAB e quais poderiam ser atendidos por uma arquitetura diferente. O objetivo não seria reproduzir o Poseidon no Brasil, mas verificar se uma solução nacional poderia alcançar o desempenho necessário dentro de parâmetros sustentáveis de custo, autonomia tecnológica e evolução.

A atual situação do P-3AM oferece uma janela para realizar esse trabalho. A FAB ainda mantém uma capacidade operacional consolidada e mecanismos de sustentação do Harpoon, enquanto o MARSUP está em fase inicial de estudos. Há, portanto, espaço para definir requisitos e avaliar uma eventual solução nacional antes que a substituição se transforme em uma necessidade emergencial.

O P-190A Tritão deve ser entendido, portanto, como uma proposta do GBN Defense a ser confrontada com as alternativas disponíveis no mercado e com os requisitos futuros da FAB. O E190-E2 oferece uma plataforma nacional sobre a qual essa possibilidade pode ser investigada, enquanto a experiência brasileira em integração de sistemas, mísseis antinavio e aeronaves remotamente pilotadas fornece elementos para estruturar o estudo. A decisão final deverá considerar desempenho, custos, ciclo de vida, capacidade industrial e liberdade para evoluir a plataforma nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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