sábado, 26 de setembro de 2026

Menos peso, não menos proteção: por que o MMBT pode fazer sentido para o Brasil

 

O debate sobre o futuro das forças blindadas brasileiras não deveria ser reduzido à escolha entre “mais aço” ou “mais rede”. O campo de batalha contemporâneo demonstrou que sensores, drones, guerra eletrônica, consciência situacional e comando e controle passaram a ser determinantes para a sobrevivência de uma força blindada, mas também mostrou que a proteção física continua sendo um componente essencial da capacidade de combate. A questão, portanto, não é escolher entre blindagem e conectividade, mas integrar essas capacidades em uma plataforma que responda às necessidades operacionais brasileiras.

É nesse espaço que o conceito de MMBT, ou Main Medium Battle Tank, ganha relevância. A proposta não é transformar um veículo médio em substituto universal de um carro de combate pesado, mas combinar poder de fogo elevado, proteção, mobilidade e sistemas eletrônicos em uma plataforma com menor peso e maior flexibilidade de emprego. Para um país continental como o Brasil, essa equação merece ser analisada com atenção.

A experiência recente de combate reforçou a importância de uma arquitetura de sobrevivência em camadas. Blindagem convencional, proteção modular, sistemas de proteção ativa, alerta contra iluminação laser, sensores eletro-ópticos, guerra eletrônica, sistemas antidrones e consciência situacional passaram a atuar de maneira complementar. A rede amplia a capacidade de detectar e evitar ameaças, mas não elimina a necessidade de uma plataforma capaz de suportar impactos quando a evasão ou a neutralização da ameaça não forem possíveis.

É justamente nesse ponto que uma concepção moderna de MMBT pode se diferenciar de um simples “carro leve com canhão pesado”. A redução de peso precisa resultar de arquitetura, materiais, distribuição interna, sistemas de proteção e integração tecnológica, e não simplesmente da retirada de blindagem. A plataforma precisa continuar oferecendo proteção compatível com sua missão, ao mesmo tempo em que utiliza sensores e sistemas de proteção ativa para reduzir a probabilidade de ser atingida.

O conceito também responde a uma realidade brasileira que não pode ser ignorada. O país possui dimensões continentais, extensa malha rodoviária, diferentes capacidades de pontes e infraestrutura, grandes distâncias entre centros logísticos e múltiplos ambientes de emprego. Um veículo excessivamente pesado pode encontrar restrições de transporte estratégico, infraestrutura e sustentação que não aparecem necessariamente no campo de batalha, mas que condicionam a capacidade de colocar uma força no lugar certo, no momento certo.

Nesse contexto, o peso deixa de ser apenas uma característica técnica e passa a ser uma questão operacional. Quanto maior a massa, maiores tendem a ser as exigências de transporte, combustível, manutenção, recuperação e infraestrutura. Um MMBT pode oferecer uma alternativa intermediária: preservar elevada capacidade de fogo e proteção, mas com maior facilidade de deslocamento e sustentação do que plataformas pesadas de última geração.

O CV90120 é um dos exemplos mais claros dessa filosofia. Desenvolvido sobre a família CV90, o veículo combina uma plataforma sobre lagartas de elevada mobilidade com canhão de 120 mm e carregador automático. Na configuração CV90120 MkIV atualmente apresentada pela BAE Systems, a plataforma chega a cerca de 38 toneladas, emprega motor de até 1.000 hp, conta com sistema de proteção ativa e possui sensores e sistemas de alerta integrados. A fabricante também destaca a capacidade de utilizar munição 120 mm padrão OTAN.

O desenho do CV90 também merece atenção nesse contexto. A arquitetura compacta e o perfil relativamente baixo contribuem para reduzir a silhueta do veículo quando comparado a plataformas de maior porte, o que pode dificultar sua percepção visual pelo adversário em determinadas condições de terreno e distância. Não se trata de tornar o blindado invisível, mas de reduzir sua assinatura física e, combinada aos sensores, sistemas de alerta, proteção ativa e demais recursos de sobrevivência, diminuir as oportunidades de detecção e engajamento pelo inimigo.

O aspecto mais importante do CV90120, porém, não está apenas no calibre. A plataforma procura combinar poder de fogo próximo ao de um carro de combate principal com características de mobilidade e arquitetura de uma família de veículos de menor peso. A BAE Systems também destaca a integração de sistemas de alerta contra laser, radar e aproximação de mísseis, além de recursos de proteção ativa. Ou seja, a proposta não é substituir blindagem por sensores, mas utilizar sensores e proteção ativa para aumentar a sobrevivência de uma plataforma que continua sendo protegida fisicamente.

Outra alternativa que merece atenção no contexto brasileiro é o TULPAR equipado com a torre HITFACT MkII de 120 mm, desenvolvido pela turca Otokar e pela italiana Leonardo, respectivamente. A configuração ganhou relevância adicional em setembro de 2026, quando Otokar e Leonardo concluíram os testes de integração e tiro real do conjunto. O resultado combina a arquitetura sobre lagartas do TULPAR com a torre de 120 mm, associando poder de fogo de carro de combate à mobilidade, proteção e modularidade da plataforma.

O TULPAR possui arquitetura modular e faixa de peso bruto entre 28 e 45 toneladas, segundo a Otokar, permitindo diferentes configurações e crescimento futuro. Já a HITFACT MkII pode receber canhão 105/52 mm ou 120/45 mm de baixa força de recuo, possui sistema digital de controle de tiro e miras estabilizadas para comandante e atirador. A solução também foi concebida para separar a munição do compartimento da tripulação e pode incorporar sistemas adicionais contra ameaças aéreas não tripuladas.

A configuração TULPAR-HITFACT é particularmente interessante porque demonstra uma tendência importante: a modularidade deixou de significar apenas trocar equipamentos secundários e passou a envolver a própria arquitetura de combate. Uma mesma plataforma pode ser desenvolvida para diferentes missões, enquanto a torre e os sistemas embarcados podem ser adaptados às necessidades do usuário. Isso abre espaço para uma solução que não seja necessariamente um MBT tradicional, mas também não seja apenas um blindado de apoio de fogo.

Para o Brasil, essa discussão precisa ainda considerar a formação de uma família de blindados. O Exército já avança com o Centauro II, uma plataforma 8x8 equipada com canhão de 120 mm e concebida para combinar mobilidade, sensores, comunicações e poder de fogo em uma viatura de Cavalaria. O contrato firmado em agosto de 2026 prevê uma sequência de aquisições até alcançar 98 unidades.

O Centauro II, entretanto, não elimina a necessidade de discutir uma plataforma sobre lagartas para outras funções. A diferença entre uma viatura de combate de Cavalaria sobre rodas e um MMBT sobre lagartas está justamente na arquitetura de emprego. Um eventual MMBT poderia ocupar um espaço intermediário entre o Centauro II e um carro de combate pesado, oferecendo maior proteção e capacidade de choque sem necessariamente assumir todas as penalidades logísticas de um MBT de grande massa.

Isso também permite olhar para o problema sob uma perspectiva de força, e não de veículo isolado. Um MMBT conectado a drones, sensores terrestres, sistemas de guerra eletrônica, defesa antidrone e outros elementos de reconhecimento e apoio pode operar de maneira muito diferente de um blindado empregado isoladamente. A plataforma continua dependendo de sua blindagem e de seus sistemas de proteção, mas passa a receber informações que aumentam sua capacidade de identificar, evitar e engajar ameaças.

Essa arquitetura é particularmente importante diante da proliferação de drones. O aprendizado dos conflitos recentes não indica que os carros de combate tenham se tornado inúteis; mostra que o emprego isolado de blindados em um ambiente saturado por sensores e munições de precisão tornou-se muito mais arriscado. A resposta não é simplesmente abandonar o blindado, mas modificar a maneira como ele é protegido, apoiado e empregado.

Por isso, o conceito de MMBT pode ser adequado ao Brasil desde que não seja utilizado como justificativa para aceitar uma redução indiscriminada de proteção. O requisito deveria ser inverso: encontrar o ponto de equilíbrio em que a redução de massa seja obtida por eficiência arquitetônica, sistemas de proteção e integração tecnológica, preservando uma blindagem compatível com o nível de ameaça previsto.

Nesse sentido, CV90120 e TULPAR-HITFACT 120 representam soluções conceitualmente interessantes para o debate brasileiro, ainda que qualquer eventual escolha dependa de avaliação técnica, operacional, logística, industrial e econômica do Exército. As duas propostas mostram que é possível buscar uma plataforma de menor massa relativa sem abrir mão de um canhão de 120 mm, proteção moderna, sensores e capacidade de crescimento.

Há ainda uma dimensão industrial que não deveria ser secundária. O Brasil precisa avaliar não apenas qual veículo entrega determinado desempenho, mas qual solução permite maior participação da Base Industrial de Defesa, transferência efetiva de tecnologia, produção local, domínio de manutenção, capacidade de modernização e sustentação durante décadas. O blindado escolhido hoje será uma plataforma que permanecerá em serviço muito depois de os requisitos atuais terem mudado.

Uma arquitetura de força baseada nessa lógica poderia ter no MMBT a espinha dorsal das unidades blindadas, complementada por uma força menor de MBT destinada às missões em que maior proteção e poder de choque sejam necessários. Nesse núcleo mais pesado, variantes modernizadas do Leopard 1 ainda poderiam ser consideradas, enquanto uma eventual evolução para o Leopard 2A4 ou 2A5 ofereceria maior proteção e poder de fogo, mas exigiria uma análise cuidadosa da infraestrutura nacional. O Leopard 2A4, por exemplo, pesa cerca de 55 toneladas, contra 42,4 toneladas do Leopard 1A5, e estudos do próprio Exército apontam as exigências sobre estradas e pontes como um dos principais obstáculos ao seu emprego.

O MMBT, portanto, não deve ser apresentado como o “fim do MBT”, muito menos como uma resposta definitiva para todos os cenários. Ele pode ser entendido como uma alternativa para determinadas forças e missões, especialmente quando mobilidade estratégica, disponibilidade, logística e capacidade de fogo precisam ser equilibradas com proteção e sobrevivência.

A questão central para o Brasil não é escolher entre aço e rede. É construir uma força na qual o aço, a proteção ativa, os sensores, os drones, a guerra eletrônica, o comando e controle e o poder de fogo funcionem como partes de um mesmo sistema de combate. Menos peso pode fazer sentido. Menos proteção, não.

O desafio brasileiro é justamente transformar essa diferença em requisito operacional: desenvolver ou selecionar um MMBT que seja suficientemente móvel para a realidade nacional, suficientemente protegido para sobreviver ao campo de batalha contemporâneo e suficientemente conectado para não lutar sozinho.


Por Angelo Nicolaci


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