A Marinha dos Estados Unidos iniciou uma etapa que embora administrativa e industrial, revela uma mudança de grande alcance na aviação naval norte-americana. Em 29 de setembro, a Boeing recebeu um contrato de US$ 16,7 milhões para planejar o encerramento das linhas de produção do F/A-18E/F Super Hornet e do EA-18G Growler, incluindo o levantamento dos equipamentos e ferramentas de propriedade do governo utilizados na fabricação das aeronaves. O trabalho, distribuído entre instalações em St. Louis, El Segundo e Bethpage, deverá estabelecer quais ativos serão preservados, armazenados ou descartados.
A decisão não significa que o Super Hornet esteja sendo retirado imediatamente da linha de frente. O último contrato de produção, envolvendo 17 aeronaves Block III, foi financiado pelo Congresso para reduzir uma lacuna na frota e prevê entregas até a primavera de 2027. Ao mesmo tempo, a Marinha continua ampliando a vida útil dos aviões já existentes. O programa de modernização estrutural e eletrônica eleva a vida prevista da célula para até 10 mil horas de voo e incorpora recursos do padrão Block III, incluindo novos sistemas de missão, processamento e apresentação de dados.
O que está terminando, portanto, é principalmente a produção de novas células, e não a utilidade operacional da plataforma. O Super Hornet continuará compondo as alas aéreas embarcadas durante a transição, enquanto o EA-18G Growler deverá permanecer em serviço por muitos anos. A própria Marinha mantém programas específicos para preservar e atualizar essas aeronaves, incluindo a evolução das capacidades de guerra eletrônica do Growler.
A coincidência entre o encerramento industrial e a decisão sobre o sucessor é o aspecto mais significativo do movimento. No mesmo dia em que foi contratado o planejamento para desmobilizar as linhas do F/A-18, o Pentágono anunciou a Boeing como vencedora do programa F/A-XX, com um contrato superior a US$ 20 bilhões para o desenvolvimento do futuro caça embarcado de sexta geração. A aeronave deverá começar a complementar e posteriormente substituir o Super Hornet e o Growler a partir da década de 2030.
O F/A-XX ainda é, em grande medida, uma plataforma classificada. Poucos detalhes técnicos foram divulgados, mas a direção do programa já está estabelecida: maior alcance, sobrevivência em ambientes contestados, arquitetura aberta, integração avançada de sensores e operação conectada com sistemas não tripulados. A Marinha também prevê que o novo caça possa operar associado a aeronaves não tripuladas semiautônomas, transferindo parte da execução das missões de uma lógica centrada exclusivamente em aeronaves tripuladas para uma arquitetura distribuída de combate.
Essa mudança responde diretamente à transformação do teatro de operações que orienta o planejamento militar norte-americano. Durante boa parte da carreira do Super Hornet, o poder aéreo embarcado foi estruturado em torno da capacidade de lançar aeronaves a partir de porta-aviões e projetar poder sobre grandes distâncias, apoiado por reabastecimento, alerta antecipado, guerra eletrônica e superioridade de sensores. O cenário projetado para as próximas décadas é diferente: adversários com redes integradas de sensores, mísseis de longo alcance, defesa antiaérea sofisticada, guerra eletrônica e capacidade crescente de negar o acesso às áreas de operação obrigam a ampliar a distância entre o vetor e a ameaça.
Nesse ambiente, alcance passa a ser um atributo operacional tão importante quanto velocidade ou carga de armas. O antigo conceito de uma ala aérea capaz de gerar massa de surtidas a partir de um porta-aviões permanece relevante, mas precisa ser combinado com plataformas capazes de atuar mais longe, permanecer conectadas e sobreviver a um espaço aéreo no qual a detecção e o engajamento podem ocorrer muito antes da aproximação visual. Em 2025, oficiais da Marinha já apontavam o aumento do alcance como uma das características centrais esperadas para o F/A-XX, que deverá superar o raio de combate dos atuais caças embarcados.
O F-35C ocupa parte desse espaço na atual transição, mas não resolve sozinho o problema. A aeronave furtiva introduziu uma nova camada de sensores, consciência situacional e capacidade de penetração na ala aérea embarcada, enquanto o F/A-XX deverá ampliar esse conceito para uma plataforma de maior alcance e inserida desde sua concepção em uma arquitetura de combate distribuída. O objetivo não é simplesmente substituir um caça por outro, mas alterar a forma como a ala aérea produz efeitos no campo de batalha.
A mudança também envolve a relação entre aeronaves tripuladas e não tripuladas. A perspectiva apresentada pela Marinha é de uma ala aérea híbrida, na qual o piloto deixa progressivamente de ser o único elemento responsável pela execução da missão e passa a atuar como parte de uma rede capaz de empregar sistemas autônomos ou semiautônomos. O conceito aproxima o F/A-XX de uma função de comando e gerenciamento de efeitos no espaço aéreo, em vez de limitar sua utilidade ao emprego direto de armamentos.
Essa transição, entretanto, traz um desafio industrial proporcional à sua ambição. A Boeing passa a conduzir simultaneamente os dois principais programas norte-americanos de caça tripulado de sexta geração: o F/A-XX da Marinha e o F-47 da Força Aérea. A empresa afirma ter realizado investimentos para produzir os dois programas em paralelo, enquanto mantém em St. Louis outras linhas, como F-15EX e T-7. Analistas, contudo, apontam que capacidade de engenharia, mão de obra especializada e expansão da produção serão fatores determinantes para transformar os contratos de desenvolvimento em aeronaves operacionais dentro dos cronogramas previstos.
É nesse ponto que os US$ 16,7 milhões destinados ao encerramento das linhas do Super Hornet ganham importância. O contrato não trata apenas de desmontar equipamentos industriais. A Marinha está realizando um inventário dos ativos de produção e decidindo o que deverá permanecer sob controle do governo. Em uma indústria de defesa, ferramentas, dispositivos de fabricação, documentação, processos e pessoal especializado representam parte da capacidade nacional de reconstruir ou sustentar uma plataforma. Encerrar uma linha sem administrar esses ativos poderia significar perder mais do que espaço físico.
A decisão demonstra, portanto, uma tentativa de administrar o ciclo de vida completo da capacidade industrial. Enquanto novas aeronaves ainda serão entregues, os modelos existentes continuarão recebendo modernizações e extensão de vida útil; simultaneamente, a infraestrutura para a próxima geração começa a ganhar prioridade. O objetivo é evitar que a transição entre plataformas produza uma lacuna operacional justamente no período em que a competição tecnológica e militar no Indo-Pacífico tende a exigir maior disponibilidade e alcance da aviação naval.
O desafio norte-americano é particularmente complexo porque o porta-aviões continua sendo uma das principais ferramentas de projeção de poder dos Estados Unidos, mas sua sobrevivência depende cada vez mais da capacidade de manter suas aeronaves fora do alcance das principais ameaças. A evolução do F/A-XX está ligada, assim, não apenas ao desenvolvimento de um novo caça, mas à própria adaptação do conceito de emprego do poder aeronaval diante de um ambiente no qual sensores, mísseis de longo alcance, guerra eletrônica e sistemas não tripulados tornam o espaço de combate mais transparente e mais letal.
Nesse contexto, o fim da produção do Super Hornet não representa simplesmente o encerramento de uma aeronave que marcou mais de duas décadas de aviação embarcada. Ele representa o início visível de uma mudança de arquitetura. A Marinha pretende manter o F/A-18 relevante durante a transição, enquanto transfere progressivamente a capacidade de combate para uma combinação de F-35C, F/A-XX e sistemas não tripulados.
A questão decisiva para Washington será transformar essa transição tecnológica em capacidade operacional sem criar uma lacuna entre gerações. O Super Hornet continuará sustentando parte da capacidade existente, mas a lógica que orientará a aviação naval norte-americana nas próximas décadas já está sendo construída em torno de alcance, baixa observabilidade, guerra em rede, guerra eletrônica e integração homem-máquina. O contrato de US$ 16,7 milhões para encerrar uma linha de produção e o acordo de mais de US$ 20 bilhões para desenvolver seu sucessor são, nesse sentido, duas partes do mesmo movimento: uma geração começa a ser retirada da produção enquanto a próxima passa a ocupar o centro do planejamento militar e industrial dos Estados Unidos.
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