sexta-feira, 15 de maio de 2020

“LUTAR NO FRIO E NA LAMA”: A CAMPANHA TERRESTRE NA GUERRA DAS MALVINAS (PARTE I)


O cabo Jacinto Batista conduz os Royal Marines prisioneiros de guerra no desfecho da "Operação Rosário", uma das mais icônicas fotografias da Guerra das Malvinas.

Durante a não declarada, inesperada e surpreendente Guerra das Malvinas, entre os meses de abril e junho de 1982, quando argentinos e ingleses lutaram pela posse do Arquipélago das Malvinas (também chamadas de Falklands) e as ilhas de Geórgia do Sul, em posse dos ingleses desde o século XIX, um aspecto pouco lembrado pelos historiadores e autores que escrevem sobre esse conflito é a campanha terrestre que envolveu forças britânicas e argentinas. As operações, as batalhas terrestres, a logística, as armas usadas pelos combatentes, vários desses aspectos são pouco lembrados. Essa série de artigos sobre a Campanha Terrestre tem esse objetivo, de resgatar tais fatos ocorridos nas ilhas do Atlântico Sul há 38 anos atrás, no frio Atlântico Sul.

ANTECEDENTES

Mapa das Ilhas Malvinas (Falklands)

No período que antecedeu a guerra, a Argentina esteve no meio de uma devastadora estagnação econômica de grandes proporções, que provocou um grande aumento da agitação civil contra a junta militar que governava o país desde 1976, através de uma violenta Ditadura. Em 1978 a Argentina quase entrou em guerra contra o Chile, por causa de disputas territoriais envolvendo o Canal de Beagle, no sul do país. Isso levou a uma corrida armamentista na região. Em dezembro de 1981, houve mais uma mudança no regime militar argentino, levando ao cargo uma nova junta chefiada pelo general Leopoldo Galtieri (presidente em exercício), pelo brigadeiro da força aérea Basilio Lami Dozo e pelo almirante Jorge Anaya. Anaya foi o principal arquiteto e defensor de uma solução militar para a reivindicação de longa data sobre as ilhas Malvinas, calculando que o Reino Unido nunca responderia militarmente, pois os britânicos há anos passavam por uma severa crise econômica e grandes cortes em sua Defesa.

Ao optar por uma ação militar, o governo Galtieri esperava mobilizar os antigos sentimentos patrióticos dos argentinos em relação às ilhas e, assim, desviar a atenção do público dos problemas econômicos crônicos do país e das contínuas violações dos direitos humanos da “Guerra Suja” (nome dada a violenta repressão das Forças de Defesa argentinas, com casos de torturas, mortes e desaparecimentos). Tal ação também reforçaria sua legitimidade decrescente. No mês de março de 1982 a tensão aumentou significamente, com a penetração de “comerciantes de sucata” argentinos (na verdade, elementos dos Fuzileiros Navais argentinos) na ilha Geórgia do Sul. Os ingleses então responderam com o envio do HMS Endurance de Port Stanley (capital das Malvinas) para a ilha, para reforçar a defesa. Temendo um maior aumento da presença militar inglesa na região, a invasão então foi antecipada e teria início logo no começo do mês de abril de 1982.

A INVASÃO DAS FORÇAS ARGENTINAS NAS MALVINAS E NA GEÓRGIA DO SUL (“OPERAÇÃO ROSARIO”)

Mapa da "Operação Rosário", mostrando os principais objetivos da missão

No dia 2 de abril de 1982, as forças argentinas efetuaram desembarques anfíbios na capital das Ilhas Malvinas, Port Stanley, chamada pelos argentinos de “Operação Rosario”. A invasão de dezenas de Fuzileiros Navais e operadores dos Mergulhadores de Combates argentinos inicialmente foi combatida pela pequena defesa local, organizada pelo governador inglês das Ilhas Falklands, Sir Rex Hunt, dando o comando ao major Mike Norman, da Royal Marines. 

LVTP-7 da Argentina em Port Stanley, no dia 2 de abril de 1982.
Os eventos da invasão incluíram o desembarque do Grupo de Comandos Anfíbios do Tenente-Comandante Guillermo Sanchez-Sabarots, o ataque ao quartel Moody Brook, o engajamento entre as tropas de Hugo Santillan e Bill Trollope em Stanley e o engajamento e rendição final na Casa do Governo, com a vitória das forças argentinas. Cerca de 107 ingleses se tornaram prisioneiros de guerra, mas Sir Rex Hunt e a maioria dos capturados logo foi repatriada via Uruguai, desembarcando na Inglaterra no dia 4 de abril. Os ingleses não sofreram baixas e os argentinos tiveram um morto, o Capitão-de-Corveta Pedro Giachino (a primeira baixa da Guerra das Malvinas) e mais seis feridos.

O ATAQUE AS ILHAS GEÓRGIA DO SUL (“OPERAÇÃO GEÓRGIAS”)

Mapa da invasão argentina a Grytviken, Geórgia do Sul ("Operação Geórgias").

No mesmo dia da invasão das Ilhas Malvinas ocorreu a invasão das ilhas Geórgia do Sul, na operação chamada pelos argentinos de “Operação Geórgias”. Usando o navio de exploração polar “ARA Almirante Irízar”, a corveta “ARA Guerrico”, o navio de apoio “ARA Bahia Paraíso” entre outras embarcações, a Marinha Argentina infiltrou dezenas de Fuzileiros Navais e Mergulhadores de Combate (comandados pelo infame Alfredo Astiz) argentinos usando helicópteros no dia 2 de abril, mas uma tempestade impediu o início das operações.

No dia seguinte (3 de abril), à medida que o tempo melhorava, os argentinos exigiam a rendição de Grytviken, a capital das ilhas Geórgias do Sul. A mensagem indicava que Rex Hunt havia rendido não apenas as Malvinas, mas também as ilhas Geórgia do Sul, o que era falso. Os ingleses em Grytviken encaminharam a mensagem ao HMS Endurance (o navio inglês mais próximo das ilhas) com a intenção de ganhar tempo. Ao mesmo tempo, no final da manhã, os poucos habitantes de Grytviken foram orientados a se esconder dentro da igreja local, com os poucos Royal Marines (cerca de 23 homens), sob o comando do Tenente Keith Mills, guarnecendo a Shackleton House (a casa do governador local). Nesse momento helicópteros argentinos estavam sobrevoando Grytviken e a corveta “ARA Guerrico” estava penetrando na enseada.

Helicópteros Aerospatiale Puma desembarcaram dois grupos de quinze Fuzileiros Navais argentinos, comandados pelo Tenente Luna, no lado oposto da Shackleton House, onde os fuzileiros navais ingleses estavam entrincheirados. Um dos helicópteros foi avistado pelos ingleses e foi atacado por intenso fogo de armas leves, pousando com dificuldade e logo pegando fogo, com dois mortos e quatro feridos. Ao mesmo tempo, as tropas argentinas começaram sua marcha em direção à Shackleton House, mas os fuzileiros ingleses os bloquearam com pesado fogo, tendo que pedir apoio de fogo a corveta ARA Guerrico, que teve suas armas travadas devido ao intenso frio e acabou sendo atingida por fogo de armas leves e pelo menos um míssil antitanque, com um marinheiro morto, cinco feridos e extensos danos sofridos.

Parte do pelotão dos Royal Marines que defendeu Grytviken do ataque argentino.

Mesmo com a feroz resistência inglesa os argentinos continuaram o ataque desembarcando mais Fuzileiros Navais e os Royal Marines, com alguns feridos, resolveram se entregar, com o comandante Tenente Mills hasteando a bandeira branca. Os Royal Marines foram presos pelos argentinos (sendo logo depois enviados para o Uruguai e repatriados) e o HMS Endurance, que havia se aproximado das ilhas Geórgia do Sul, ao saber da rendição, acabou recuando, saindo da região dias depois. A corveta “ARA Guerrico” perdeu 50% de sua força de combate com os danos infligidos pelos ingleses e passou dias em dique seco, praticamente não mais participando da guerra com sua capacidade total.


Na segunda parte desse artigo: A reação inglesa e a retomada das Ilhas Geórgia do Sul.


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Por Luiz Reis, Professor de História da Rede Oficial de Ensino do Estado do Ceará e da Prefeitura de Fortaleza, Historiador Militar, entusiasta da Aviação Civil e Militar, fotógrafo amador. Brasiliense com alma paulista, reside em Fortaleza-CE. Luiz colaborou com o Canal Arte da Guerra e o Blog Velho General e atua esporadicamente nos blogs da Trilogia Forças de Defesa, também fazendo parte da equipe de articulistas do GBN Defense. Presta consultoria sobre História da Aviação, Aviação Militar e Comercial. Contato: lcareis@gmail.com






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